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sábado, 10 de dezembro de 2011

A LENDA DE HIRAM



Morte e Ressurreição. A premissa básica de toda a mitologia religiosa ou laica é a aplicação e o desenvolvimento de três acontecimentos fundamentais para todos os povos e civilizações: Nascimento, Morte e Renascimento, ou melhor, o Ciclo da Vida em sua composição mais fundamental.

Faz-se necessário compreender que tal fundamentação não corresponde a uma exclusividade de apenas uma nação ou de uma cidade-estado pertencentes à Antigüidade, mas às todas religiões indistintamente, sendo estas ainda praticadas ou não.

Encontramos esses princípios desde o Egito dos faraós e deuses zoomórficos, através do Mito de Osíris e Ísis, até os panteões greco-romanos, através de diversos relatos incluindo-se nestes os Mitos de Orfeu e Prosérpina; encontramos nos mitos babilônicos, Epopéia de Gilgamesh e da História de Ishtar; nos mitos nórdico-germânico de Odin ou Wotan; na mitologia hindu e budista e percorrendo as três maiores religiões do Ocidente – o  Judaísmo através de Moisés, Ezequiel e Enoque; o Cristianismo através da paixão e ressurreição de Jesus Cristo; e o Islã através de Maomé.

 Dentro destes contextos, demonstram-se dois princípios distintos, sendo que o primeiro celebra a morte, através da traição por parte de seus iguais, como meio de expiação e purificação para o engrandecimento ou glorificação de um ato ou de uma pessoa; e o segundo celebra a morte como meio de perpetuação de um princípio, seja este de caráter natural, religioso ou organizacional político, através da renovação constante sem, contudo incluir-se neste caso o ato de traição como instrumento desta renovação.

Deste modo, podemos realizar duas qualificações míticas envolvendo Nascimento, Morte e Renascimento: os mitos ou lendas que envolvem o sacrifício para o aprimoramento de um estado ou situação e os que envolvem a contínua renovação do mesmo estado ou situação.

 A Lenda de Hiram foi criada dentro do contexto de Morte como instrumento de purificação e engrandecimento, desenvolvida através da traição por seus pares e se caracterizando como uma síntese das principais lendas da Antigüidade: a traição por seus pares, como no caso de Cristo; o assassínio por membros de seu convívio, existente em diversas lendas gregas e nórdicas; a ocultação do cadáver e a marcha em busca do corpo desaparecido como na Lenda de Osíris. Baseia-se no princípio natural da morte e ressurreição, como o retratado no mito de Ceres e Prosérpina.

 Sinteticamente, a Lenda de Hiram envolve a construção do Templo, a morte do chefe dos trabalhos com a posterior ocultação do corpo, seu descobrimento e punição dos assassinos, mas para se compreender melhor o desenvolvimento da Lenda do Terceiro Grau, faz-se necessário primeiramente descobrir e diferenciar a figura bíblica de Hiram Abiff e a figura maçônica de Hiram.

 A figura histórico-religiosa de Hiram Abiff, descrita em vários trechos e livros da Bíblia e apresentado como hábil artífice da corte de Hiram Rei de Tiro e aliado de Davi e Salomão, permanece envolta em contradições e mistérios, justamente pela falta de comprovação histórica e arqueológica de sua existência, apesar dessa condição envolver quase a totalidade dos personagens bíblicos.

Hiram Abiff, segundo os relatos bíblicos, seria filho de um filisteu chamado Ur, casado com uma das filhas da tribo de Dan; existem também referências de que sua origem remontaria à tribo de Neftali, sendo “filho de uma viúva”.  Os trechos referentes à Construção do Templo de Jerusalém constantes no Primeiro Livro de Reis demonstram a relação do rei Filisteu com seu aliado israelita:


Então Hiram, rei de Tiro, enviou seus servidores a Salomão, porque tinha ouvido que fora ungido rei em lugar de seu pai Davi; é que Hiram tinha sido amigo de Davi durante toda sua vida.

Primeiro Reis, 5, 15

No mesmo Livro de Reis, um capítulo inteiro é dedicado à descrição das características do Templo e seus materiais:

 No ano 480 depois do êxodo dos israelitas do Egito, no quarto ano do seu reinado em Israel, no mês de Ziv, isto é, no segundo mês, Salomão começou a construir o templo do Senhor.

Este templo, que o rei Salomão construiu para o Senhor, tinha trinta metros de comprimento, dez de largura e quinze de altura. O vestíbulo na frente do recinto principal do Templo tinha dez metros de comprimento, no sentido da largura do templo, e cinco metros, no sentido do comprimento do templo. Além disso, o rei mandou abrir no templo janelas com molduras e grades.

Ao redor do muro do templo, em torno dos muros do recinto central e do recinto dos fundos, e encostada na parede do templo, construiu uma varanda, fazendo ao redor compartimentos laterais.

O compartimento lateral inferior media dois metros e meio de largura, o compartimento lateral intermédio tinha três metros de largura e o terceiro tinha três metros e meio de largura; é que tinha mandado colocar reentrâncias nas paredes externas do templo para evitar o encastelamento nas próprias paredes do templo.

A construção do templo se ia fazendo com pedras já esquadriadas na pedreira, de modo que durante as obras não se ouviam no templo nem martelos nem cinzéis nem quaisquer instrumentos de ferro.

 A entrada para o andar lateral intermédio se achava ao lado do templo, e por escadas em caracol se subia ao andar intermédio e deste para o terceiro.

Quando Salomão terminou a construção da casa, cobriu-a com vigamento e artesãos de cedro.

Primeiro Reis, 6, 1:9

Neste trecho, cabe ressaltar o fato de não se realizar trabalhos de cantaria no recinto do Templo, sendo estes realizados nas pedreiras de Salomão e os blocos serem somente montados em seus respectivos lugares. Portanto, pode-se inferir que a realização de trabalhos dentro do recinto sagrado do Templo era proibida por Salomão e seus sacerdotes.  Entretanto, a citação de Hiram Abiff, o suposto mestre de obras do Templo, é encontrada de maneira contraditória à defendida na essência da Lenda Maçônica, que o apresenta como um exímio mestre de obras e arquiteto. No capítulo 7° do Primeiro Livro de Reis e o que se apresenta no Segundo Livro de Crônicas no capítulo 2°, Hiram Abiff nos é apresentado mais como um fundidor e metalúrgico:

 O rei Salomão mandou buscar de Tiro, Hiram. Ele era filho de uma viúva da tribo de Neftali, mas seu pai tinha sido cidadão de Tiro e trabalhava em bronze. Hiram era uma artífice muito hábil e inteligente, um profissional para qualquer trabalho em bronze. Ele se apresentou ao rei Salomão e executou todas as tarefas que o rei lhe confiou.

Primeiro Reis, 7, 13:14

E Hiram, rei de Tiro, mandou a Salomão, por escrito, a seguinte mensagem: “Foi por amor ao povo que o Senhor te fez reinar sobre ele. Pois bem, eu te envio um homem competente, Hiram Abiff.  Ele é filho duma mulher danita e dum pai tírio.

É especialista em trabalhos de ouro, de prata, de bronze, de ferro, de pedra e de madeira, bem como de púrpura vermelha e roxa, de linho, de carmesim, como também em gravações de qualquer espécie e na execução de obras de arte, que se lhe encomendam, em colaboração com os teus profissionais e os de teu pai Davi, meu senhor.
Segundo Crônicas, 2, 10:13

De onde advém então a descrição pormenorizada da Lenda da Construção do Templo que envolve o Ritual de Exaltação ao Grau Terceiro, se o Hiram Abiff histórico não era um pedreiro e muito menos se desbastava a pedra dentro do recinto do Templo?

A Maçonaria valeu-se de um personagem histórico e bíblico para dar significado à passagem do Grau de Companheiro para o Grau de Mestre, como meio de purificação e engrandecimento, consolidando-se nos moldes atuais nos princípios do século XVIII, uma vez que nenhuma menção da mesma pode ser encontrada nas Old Charges e no Poema Regius.

 Pode-se também entender a criação da Lenda de Hiram como um marco de passagem entre a Operação e o Simbolismo de nossos trabalhos. Uma das primeiras menções oficiais da Lenda aparece no preâmbulo da Constituição de 1717, copilado pelo Reverendo e Ir:. James Anderson, coincidindo com a criação da primeira Potência e marcando “teoricamente” [1] o fim das atividades maçônicas operativas.

Pode-se, portanto inferir que a Lenda de Hiram demonstra essa passagem de Maçons Operantes para Maçons Simbólicos, analisando-se certas passagens descritas da Lenda, uma vez que a morte de Hiram representaria a passagem da Operação para o Simbolismo, da ação para a contemplação e da aplicação de conceitos para a revisão de posturas:

 Templo se encontrava praticamente concluído: “Estando a construção quase completa, quinze CComp:. [...]”. Como o talhar de pedras dentro de recinto sagrado era proibido podemos concluir que o trabalho dos AApr:. achava-se concluído, uma vez que os mesmos eram responsáveis pelo trabalho bruto de cortar e aparar pedras, sendo este realizado nas pedreiras do deserto da Judéia.

O fato de o crime ser cometido contra o chefe dos TTrab:.  impossibilitando a conclusão do Templo em sua forma definitiva, criando a necessidade da revisão de projetos, intenções artísticas e de palavras de reconhecimento dos Graus, representa exatamente a passagem dos meios operativos para o Simbolismo professado pelos Aceitos, nos primórdios da criação da Grande Loja.

 Os assassinos pertenciam à classe dos CComp:. responsáveis pela decoração e ornamentação e estes se encontravam no Templo, o que se concluí que a construção se encontrava no estágio da duplicação de símbolos e adornos. A época da criação do Terceiro Grau e da Lenda de Hiram, os Maçons se reuniam operativamente no Grau de Companheiro

 O relato bíblico e a Lenda de Hiram vinculam a Franco-Maçonaria aos sistemas congêneres religiosos e lendários existentes nas civilizações do Crescente Fértil e aos antigos mistérios egípcios, hindus, greco-romanos e cristãos.

 Deste modo, podemos verificar que os nomes dos assassinos, com as devidas alterações existentes em alguns Ritos, mantêm uma correlação com os Deuses do Bem e do Mal dos Filisteus – Yehu e Baal – como apontado por Albert Pike em Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry, apresentando as devidas declinações latinas para os três personagens. O nome dos assassinos derivaria de Yehu-baal, a dualidade entre o bem e o mal, e as três silabas finais dos nomes: a, o, um produz a palavra sagrada dos Hindus A:. U:. M:. produzindo a Trindade Hindu – Vida dada, Vida preservada e Vida destruída.

A Acácia mencionada como marco do túmulo de Hiram também se vincula à preservação da vida e a ressurreição dos mártires maiores da Antigüidade: o esquife de Osíris fora realizado em madeira de acácia e este renasceu e floresceu no delta do Nilo; e segundo a tradição cristã a madeira da cruz de Cristo seria de acácia.

A autoria da Lenda de Hiram, ao longo dos anos e variando-se de autores a autores, tem percorrido os mais diversos eruditos maçônicos, desde os filósofos Locke e Bacon, passando pelo arqueólogo, historiador, Maçom e Rosa+cruz Elias Ashmole , pelos historiadores maçônicos Ramsay, Pike e Mackey, Desaguliers, Wren e outros.

 Os historiadores eruditos, desde a criação da Loja de Pesquisa Quatuor Coronati 2026 da Grande Loja Unida da Inglaterra, têm tentado trilhar o caminho da criação do Terceiro Grau, uma vez que quando da criação da Grande Loja da Inglaterra somente existiam os dois primeiros Graus como oficiais. Em 1730, o Ir:. Samuel Prichard em sua obra Masonry Dissected  já demonstra a existência do Terceiro Grau, encontrando-se nela a primeira referência à Lenda de Hiram. Um famoso historiador escocês, conhecido por Murray Lyon, descreveu John Teophilus Desaguliers, um dos primeiros Grãos Mestres da História Maçônica, como o “co-fabricante e pioneiro do sistema de Maçonaria simbólica”.

 Em artigo publicado na Revista Engenho & Arte, o Ir:. Leo Zanelli propõe que a criação do Terceiro Grau e a Lenda de Hiram envolveria o contato de Desaguliers com seus companheiros da Royal Society of Arts and Sciences, entre esses os rosa+cruzes John Locke, Isaac Newton e os maçons Christopher Wren, arquiteto, e Andrew Ramsay.

Não podemos deixar de informar que a Royal Society derivou-se diretamente do Colégio Invisível dos Rosa+cruzes, um conclave de cientistas, filósofos e esotéricos existente durante o período conturbado da História da Inglaterra, caracterizado pelas revoltas religiosas e conhecido como Restauração .

De certa forma, apesar do Ir:. Zanelli não concluir seus comentários, tudo levar a crer que a criação do Terceiro Grau e a Lenda de Hiram envolveu a participação dos Aceitos no processo, de modo a criar um Grau elevado que se diferenciasse dos Graus Operativos, um Grau onde as Palavras, Sinais e Toques se correspondessem com o fato da morte do mais operativo dos mestres, onde a ação operativa daria lugar à ação contemplativa e simbólica dos trabalhos futuros.

Mas o mais importante de fato é o que representa o Terceiro Grau, o significado da Lenda de Hiram, a Theobaldo Varolli Filho salientou em uma de suas obras:

 “... é inútil buscar autorias individuais da lenda do terceiro grau [...] Nada de admirar, se a lenda da paixão de Hirão Abi (sic) ainda seja narrada de maneiras diferentes nos diversos rituais espalhados pelo mundo. Cada alto corpo maçônico adota uma ‘história tradicional’ (lenda). Cada Rito mantém sua própria versão. Cabe o essencial da lenda e não o modo de contá-la. Sabe-se, mais, que boa parte do ritualismo de Mestre adveio de uma segunda fase de antigos rituais de Companheiro, antes de surgir o Mestrado.” (grifos nossos).

 A morte maçônica de Hiram e a aplicação da justiça contra seus assassinos significam o triunfo da Verdade sobre a Ignorância e o estabelecimento da restituição do corpo do Mestre perdido ao local sagrado do Templo, fornecendo-lhe o sepultamento adequado e merecido, proporcionando-lhe a imortalidade justa e virtuosa dentro da memória do mestrado maçônico.

Simboliza a pura tradição maçônica, isto é, a Virtude e a Sabedoria, posta, constantemente, em perigo pela Ignorância, pelo Fanatismo e pela Ambição de Maçons que não souberam compreender a finalidade da Franco-Maçonaria nem se devotar à Sublime Obra, pois sendo a Franco-Maçonaria um sistema de moral exposto em símbolos e alegorias, o verdadeiro Maçom deve nesta e em outras passagens buscar o sentido místico, mítico e moral dos personagens históricos e lendários, produzindo-se a verdadeira e vivente Iniciação através de nossos perseverantes e desinteressados esforços.

[1] Teoricamente, pois a corporação de ofício de pedreiros livres, ou a Oficina, permaneceu atuando nos dois ramos – o operativo e o simbólico. A construção da Catedral de Saint Paul em Londres realizada no século XVIII, após a destruição da anterior durante o grande incêndio de Londres de 1666, foi realizada por obreiros maçons o que pode ser atestado pelas indicações deixadas nos materiais empregados e no túmulo do arquiteto e Ir:. Sir Christopher Wren, que se encontra no recinto da Catedral.

[2] A palavra Companheiro, em inglês Fellowcraft, deriva do termo britânico Fellow of the Craft, ou Companheiro de Ofício.

[3] Elias Ashmole, apesar de se ter difundido seu nome como o autor do Terceiro Grau, na verdade não participou da criação e compilação do mesmo, uma vez que quando da adoção do mesmo, em 1726, o notável Ir.'. a muito já passara ao Oriente Eterno.

[4] A Restauração Inglesa envolveu um conturbadíssimo período na História Inglesa: após a morte de Charles I, católico e  Stuart, filho de James II da Inglaterra e Escócia que assumira o trono inglês após a morte de Elizabeth I, pelos partidários de Cromwell, Lorde Protetor da Inglaterra, o país passa por uma série de regimes governamentais: “Reino Ontem [sob os Stuart], República Hoje [sob Cromwell], Império Amanhã [após a Restauração e domínio de 1/3 do planeta pelos britânicos]”.

Trabalho do Ir:. Fábio Rogério Pedro, M:. I:.,  

Bibliografia

CASTELLANI, José. O Rito Escocês Antigo e Aceito – História – Doutrina - Prática. Londrina: A Trolha, 1996 2ª edição.

FIGUEIREDO, José Gervásio. Dicionário de Maçonaria. São Paulo: Pensamento, 1981.

GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual do Grau de Mestre. Brasília: Gráfica do GOB, 1995.

PIKE, Albert. Liturgy of the Blue Degrees. Montana: Kessinger Publ. Company, 1997.

____________ Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry. Charleston: Supreme Council of the Southern Jurisdiction, 1871.

____________ The Porch and the Middle Chamber. Montana: Kessinger Publ. Company, 1997.

TRAWTEIN, Breno. A Lenda de Hiram. In A Verdade N° 408. São Paulo: GLESP. Novembro e Dezembro de 1998.

UNITED GRAND LODGE OF ENGLAND. Emulation Rite - Master Degree Ritual. London: UGLE, 1997.

VAROLLI Filho, Theobaldo. Curso de Maçonaria Simbólica –Tomo III Mestre. São Paulo: Gazeta Maçônica, 1993.

Um comentário:

  1. Parabéns Ir.'. Fábio.

    Seu trabalho é muito esclarecedor e enaltece nossa Ordem.

    Izac de Almeida
    C.'.M.'.

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