No coração das ideias maçônicas, há uma
figura enigmática que despertou curiosidade, admiração e profundas reflexões: a
Viúva. Não só despertou a curiosidade de maçons, mas também de NÃO maçons, perguntamo-nos
é um nome ou uma imagem arquetípica de algo representante do Eterno Feminino, e
é que é o símbolo central de todo um mistério que liga antigas tradições, mitos
universais e a própria essência da Maçonaria.
Esta narração percorre sua história,
seus significados ocultos e as múltiplas faces que teve ao longo de séculos,
convidando-nos a descobrir quem é realmente essa figura a que todos os
iniciados chamam de “mãe”. É um percurso cheio de sabedoria, onde a Maçonaria
se mostra como a herdeira fiel destes conhecimentos antigos, guardiã da luz e
do sentido profundo que une céu e terra, espírito e matéria.
Antes de seguirmos em frente, devemos
lembrar que, na Maçonaria, não há dogmas fixos, para vos dizer ou definir quem
ou o que é a viúva, e deixa a livre interpretação do Maçom defini-la.
A lenda de Isis e Osíris: a possível
origem do mistério
Tudo começa no antigo Egito, com uma
história que é muito mais do que um mito: é a representação perfeita do ciclo
eterno de morte e renascimento, base de todo ensinamento esotérico. Osíris e
Ísis eram irmãos e maridos, filhos da deusa Nut; Seth e Neftis também nasceram
juntos, seus parentes mais jovens.
Uma noite, por um erro, Osíris juntou-se
a Neftis acreditando que era Isis, e dessa união nasceu Anubis. Seth, cheio de
ciúmes e rancor, planejou sua vingança: tomou as medidas exatas do irmão,
mandou construir um sarcófago do seu tamanho e, em uma festa, ofereceu-o como
presente para quem copiasse perfeitamente. Ao entrar Osíris, imediatamente ele
e seus 72 cúmplices fecharam a tampa, amarraram-no e jogaram-no no Nilo.
Assim morreu o deus que representava
vida, fertilidade e ordem. Seu destino ficou ligado ao rio: seu corpo viajou
para a Síria, onde cresceu uma árvore linda e perfumada que envolveu o
sarcófago dentro dela. O rei dessa terra, admirando sua beleza, cortou-o e
transformou-o na coluna central do seu palácio.
Entretanto, Isis ficou viúva, mas não
desistiu. Começou sua busca incansável, uma imagem que passou para todas as
tradições: a deusa que percorre o mundo para recuperar o que foi perdido, que
desce até ao reino da morte para redimi-lo e devolvê-lo à vida. Chegou ao
palácio real, reconheceu nessa coluna o rasto do marido e fingiu ser ama do
filho do rei.
À noite, transformada em andorinha,
voando ao redor do pilar, e queria dar imortalidade à criança colocando-a no
fogo, até que a rainha descobriu e interrompeu o ritual. Então Isis revelou sua
identidade e pediu que lhe entregassem o que era seu: o rei concordou, e pôde
levar de volta os restos de Osíris.
Junto a ele, concebeu Hórus, o filho que
nasceria para restaurar a ordem e derrotar a escuridão. Aqui está o sentido
mais profundo: da morte nasce a vida; da ausência, a nova luz. Esta mãe viúva
que dá à luz sem companhia terrena é o modelo da Virgem Mãe, da natureza que
sempre renasce, da sabedoria que nunca morre.
Neste sentido Isis, a Deusa Viúva, seria
a representante da Mãe Natureza, a Mãe Cósmica, que está grávida pela Luz,
neste caso a Luz do Sol, Sol que morre todos os dias no horizonte do poente, e
a natureza fica viúva do seu marido o sol, mas renasce no dia seguinte.
Na visão esotérica, Osíris é o princípio
divino que se manifesta e depois parece desaparecer; Isis é a substância, a
terra, o espírito materno que o sustenta, busca e faz renascer. Por isso, em
catedrais antigas como a de Chartres, veremos a Virgem sentada como um trono:
ela é o assento, o lugar onde habita o divino, assim como Isis era o trono
sobre o qual se sentavam os faraós, representantes da luz na terra.
Este mito não é único: repete-se em
Adonis, Gilgamesh, Hiram, Cristo... todos são o deus que morre e ressuscita,
seguindo o ritmo da lua, que se apaga e volta a brilhar, ou do solstício de
inverno, quando a luz parece se perder para renascer com mais força. Não se
trata apenas de datas, mas do que significam: em nós também morre o velho, o
instintivo, o animal, para nascer o espiritual, o consciente, o eterno.
Isis ou Balkis? Duas caras da mesma
verdade
Mas aqui surge uma dúvida que percorreu
séculos: Isis é realmente a única imagem da Viúva? Muitas tradições e textos
antigos, inclusive em línguas como o árabe, o hebraico ou o grego, mencionam
Balkis, a rainha de Sabá, como outra possível representação dessa mesma figura
suprema. Ela, sábia e poderosa, viajou para conhecer o verdadeiro conhecimento,
e segundo algumas lendas, estava ligada a Hiram, o arquiteto do Templo,
tornando-se mãe espiritual e guardiã dos segredos.
Isis é a Viúva Maçônica? Balkis é a
Rainha Mãe que procuramos? Ou serão dois nomes, dois rostos da mesma realidade?
Nos ensinamentos ocultos, ambos são reflexos de algo maior: a Mãe Universal,
que tem mil nomes, mas uma única essência. Em obras antigas como O Asno de Ouro
de Apuleyo, Isis diz: “Eu sou a mãe de todas as coisas, senhora dos elementos,
aquela que está no céu, na terra e no inferno”. É a mesma voz que poderíamos
ouvir dos lábios de Balkis: ambas representam a sabedoria, a natureza, o poder que
transforma e eleva o ser humano.
A Viúva como princípio universal: Shakti
e a Mãe Cósmica.
Para melhor compreendê-la, olhamos para
outras tradições, como a hindu, onde se fala de Shakti, uma palavra que não se
traduz simplesmente como força ou energia, mas como o feminino poder criador,
sustento e transformador de tudo o que existe.
Neste sentido, a Viúva é essa mesma
Shakti: o princípio feminino que age porque o divino absoluto está além do
manifesto, “ausente” no mundo visível, e ela permanece como guardiã, como vida
que continua a fluir, como mãe que não abandona seus filhos.
Na visão gnóstica e ocultista, ela é a
natureza inteira, que destrói para reconstruir, que tira para dar algo melhor.
Está em tudo: na luz e na sombra, na dor e no prazer, na ignorância e na
sabedoria. O iniciado maçom, o “filho da Viúva”, aprende a vê-la em tudo, a
juntar-se a ela, porque ela é o caminho, a verdade e a vida. Como se diz nos
ensinamentos: “Ela está em todas as coisas, e todas as coisas estão nela”.
Maçonaria: herdeira e guardiã deste
mistério da Viúva, somos chamados os maçons de “Os Filhos da Viúva”.
É impossível falar da Viúva sem elogiar
a Maçonaria, que foi, ao longo da história, a única instituição que manteve
intacta este ensino profundo. A Maçonaria reúne tudo isso: as antigas escolas
de mistérios, a lenda de Hiram, o sentido de morte e renascimento, a presença
dessa mãe espiritual que nos acolhe, nos ensina e nos transforma.
Entrar em uma loja é voltar ao peito da
Viúva: lá nascemos de novo, passamos da escuridão para a luz, abandonamos o
superficial para descobrir o eterno. A Maçonaria não fala apenas dela; vive-a,
representa-a e honra em cada ritual, em cada símbolo, em cada trabalho.
Ensina-nos que ser “filho da Viúva” não é apenas um título, mas uma condição:
somos filhos da sabedoria, da natureza, da verdade que nunca morre, e que nossa
missão é fazer essa luz brilhar no mundo.
Desde textos maçônicos que a chamam de
“a Mãe de todos os Iniciados”, até autores maçons que a descrevem como “a
Sabedoria que espera e procura o seu marido divino”, passando por tradições
esotéricas maçônicas que a chamam de “a Eterna, aquela que nunca envelhece”,
todos concordam: a Viúva é o coração de tudo o que procuramos compreender. E a
Maçonaria é o templo onde este coração continua pulsando, intacto e vivo, para
todos que queiram se aproximar.
A Viúva é um símbolo central que nasce
do mito de Isis, que busca e faz Osíris renascer; representa o princípio
materno universal, a natureza, a sabedoria e o poder que transforma. Balkis,
rainha de Sabá, está associada à ideia hindu de Shakti: força criadora e
sustentadora de tudo. A Maçonaria manteve este ensinamento, chamando seus
membros de “filhos da Viúva”, porque encerra o sentido de morte, renascimento e
união com o divino, sendo a única que mantém vivo este conhecimento antigo.
A grande pergunta
Isis é realmente a viúva maçônica?
Balkis é a rainha Mãe viúva que procuramos? Ou talvez ambos sejam apenas dois
nomes, duas imagens, de algo muito maior e mais profundo que ainda estamos
prestes a compreender? Quem é realmente a Viúva que a Maçonaria fala?
Alcoseri
