ENTRE REFORMAS, CONFLITOS E SOBREVIVÊNCIA
A relação entre a maçonaria e o mundo islâmico é marcada por
contrastes profundos. Ao longo da história, essa fraternidade discreta foi, ao
mesmo tempo, vista como um instrumento de modernização e alvo de desconfiança religiosa
e perseguição política. Entre períodos de florescimento e repressão, sua
trajetória revela muito sobre as transformações sociais e políticas em países
de maioria muçulmana.
RAÍZES HISTÓRICAS E O IMPULSO REFORMISTA
O auge da maçonaria no mundo islâmico ocorreu durante a
Revolução dos Jovens Turcos, quando ideias de liberdade, progresso e constitucionalismo
ganharam força no Império Otomano. Em cidades como Istambul, lojas maçônicas
com nomes como La Renaissance e L'Aurore simbolizavam um novo espírito intelectual
e político, alinhado com os ideais iluministas.
Entre os nomes mais influentes associados à maçonaria estava
Jamal ad-Din al-Afghani, um dos principais articuladores do modernismo islâmico.
Ele via na instituição uma ferramenta para combater o autoritarismo e promover reformas
políticas no mundo muçulmano.
Outro nome frequentemente ligado a esses círculos é Mustafa
Kemal Atatürk, cuja atuação foi decisiva na construção de um Estado secular na
Turquia.
Curiosamente, estudiosos como Thierry Zarcone apontam
semelhanças entre a estrutura da maçonaria e as ordens do Sufismo. A organização
hierárquica, os rituais de iniciação e o simbolismo eram elementos familiares a
muitos muçulmanos, o que facilitou a aceitação inicial da fraternidade em
determinados contextos.
Tensões religiosas e perseguições políticas. Apesar dessas afinidades, a maçonaria enfrentou
forte resistência dentro do mundo islâmico. Embora a organização exija de seus membros
a crença em um “Ser Supremo” — o chamado Grande Arquiteto do Universo, muitos
líderes religiosos a consideraram incompatível com os princípios do Islã.
Para esses críticos, a maçonaria promovia valores seculares
que poderiam enfraquecer a autoridade religiosa e os dogmas tradicionais.
Além da oposição teológica, fatores políticos contribuíram
decisivamente para sua repressão. Ao longo do século XX, diversos países proibiram
suas atividades.
No Egito, a maçonaria foi banida após a queda da monarquia.
Já no Irã, a proibição ocorreu após a Revolução Islâmica de 1979, levando a
Grande Loja do país a operar no exílio, em Los Angeles.
Outro elemento que contribuiu para sua rejeição foi o
estigma colonial. Em países como a Indonésia, a maçonaria passou a ser vista
como uma extensão das potências europeias especialmente dos holandeses — e como
um instrumento de afastamento das elites locais de suas tradições religiosas.
A maçonaria hoje: resistência e adaptação. Atualmente, a
presença da maçonaria no mundo islâmico é limitada, mas não inexistente. Países
como Turquia, Líbano e Marrocos figuram entre os poucos onde a instituição ainda
atua oficialmente, em alguns casos, até com sinais de renovação.
As práticas também se adaptaram às realidades locais. Em
geral, maçons muçulmanos devem professar o monoteísmo, alinhando-se ao
princípio islâmico da unicidade divina. Em lojas turcas de perfil mais liberal,
por exemplo, o juramento pode ser feito sobre o Livro das Constituições
Maçônicas, em vez de um texto sagrado específico, refletindo uma abordagem mais
pluralista.
ENTRE TRADIÇÃO E MODERNIDADE
A história da maçonaria no mundo islâmico é, em essência,
uma narrativa de tensão entre tradição e modernidade. Em determinados momentos,
ela funcionou como um espaço de debate intelectual e articulação política; em outros,
foi vista como ameaça à ordem religiosa e cultural.
Essa dualidade ajuda a explicar por que a maçonaria, embora
ainda presente, permanece envolta em controvérsias. Mais do que uma simples
organização, ela se tornou um espelho das disputas mais amplas que moldaram, e continuam
a moldar o mundo islâmico contemporâneo.
Fonte: O Malhete
