quarta-feira, 20 de maio de 2026

MAÇONARIA NO MUNDO ISLÂMICO


ENTRE REFORMAS, CONFLITOS E SOBREVIVÊNCIA

A relação entre a maçonaria e o mundo islâmico é marcada por contrastes profundos. Ao longo da história, essa fraternidade discreta foi, ao mesmo tempo, vista como um instrumento de modernização e alvo de desconfiança religiosa e perseguição política. Entre períodos de florescimento e repressão, sua trajetória revela muito sobre as transformações sociais e políticas em países de maioria muçulmana.

RAÍZES HISTÓRICAS E O IMPULSO REFORMISTA

O auge da maçonaria no mundo islâmico ocorreu durante a Revolução dos Jovens Turcos, quando ideias de liberdade, progresso e constitucionalismo ganharam força no Império Otomano. Em cidades como Istambul, lojas maçônicas com nomes como La Renaissance e L'Aurore simbolizavam um novo espírito intelectual e político, alinhado com os ideais iluministas.

Entre os nomes mais influentes associados à maçonaria estava Jamal ad-Din al-Afghani, um dos principais articuladores do modernismo islâmico. Ele via na instituição uma ferramenta para combater o autoritarismo e promover reformas políticas no mundo muçulmano.

Outro nome frequentemente ligado a esses círculos é Mustafa Kemal Atatürk, cuja atuação foi decisiva na construção de um Estado secular na Turquia.

Curiosamente, estudiosos como Thierry Zarcone apontam semelhanças entre a estrutura da maçonaria e as ordens do Sufismo. A organização hierárquica, os rituais de iniciação e o simbolismo eram elementos familiares a muitos muçulmanos, o que facilitou a aceitação inicial da fraternidade em determinados contextos.

Tensões religiosas e perseguições políticas.  Apesar dessas afinidades, a maçonaria enfrentou forte resistência dentro do mundo islâmico. Embora a organização exija de seus membros a crença em um “Ser Supremo” — o chamado Grande Arquiteto do Universo, muitos líderes religiosos a consideraram incompatível com os princípios do Islã.

Para esses críticos, a maçonaria promovia valores seculares que poderiam enfraquecer a autoridade religiosa e os dogmas tradicionais.

Além da oposição teológica, fatores políticos contribuíram decisivamente para sua repressão. Ao longo do século XX, diversos países proibiram suas atividades.

No Egito, a maçonaria foi banida após a queda da monarquia. Já no Irã, a proibição ocorreu após a Revolução Islâmica de 1979, levando a Grande Loja do país a operar no exílio, em Los Angeles.

Outro elemento que contribuiu para sua rejeição foi o estigma colonial. Em países como a Indonésia, a maçonaria passou a ser vista como uma extensão das potências europeias especialmente dos holandeses — e como um instrumento de afastamento das elites locais de suas tradições religiosas.

A maçonaria hoje: resistência e adaptação. Atualmente, a presença da maçonaria no mundo islâmico é limitada, mas não inexistente. Países como Turquia, Líbano e Marrocos figuram entre os poucos onde a instituição ainda atua oficialmente, em alguns casos, até com sinais de renovação.

As práticas também se adaptaram às realidades locais. Em geral, maçons muçulmanos devem professar o monoteísmo, alinhando-se ao princípio islâmico da unicidade divina. Em lojas turcas de perfil mais liberal, por exemplo, o juramento pode ser feito sobre o Livro das Constituições Maçônicas, em vez de um texto sagrado específico, refletindo uma abordagem mais pluralista.

ENTRE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

A história da maçonaria no mundo islâmico é, em essência, uma narrativa de tensão entre tradição e modernidade. Em determinados momentos, ela funcionou como um espaço de debate intelectual e articulação política; em outros, foi vista como ameaça à ordem religiosa e cultural.

Essa dualidade ajuda a explicar por que a maçonaria, embora ainda presente, permanece envolta em controvérsias. Mais do que uma simples organização, ela se tornou um espelho das disputas mais amplas que moldaram, e continuam a moldar o mundo islâmico contemporâneo.

Fonte: O Malhete

  

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