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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

COMPREENDENDO O USO DO AVENTAL



O Avental é a vestimenta emblemática, simbólica e obrigatória de um Maçom. 
A rigor a única necessária, e o seu uso denuncia o seu grau hierárquico dentro da Ordem Maçônica, podendo ser desde cargos administrativos como o posicionamento nos vários graus existentes, bem como, evidencia também, os diferentes ritos e potências.
Mas pouco se conhece da história desta humilde vestimenta que tão grande significado possui. Os nossos rituais se limitaram apenas a explicar a simbologia do Avental para o grau do referido ritual, não tecendo informações ou comentários sobre a sua história e significado. Cria-se assim uma grande lacuna para a interpretação desta vestimenta, que como já foi mencionado, é indispensável para o Maçom.
O presente estudo pretende demonstrar como surgiu esta vestimenta, e qual o seu significado, seja ele simbólico ou esotérico. Entretanto, não entraremos nas questões referentes à sua utilização em Loja, visto que cada grau possui seu simbolismo e suas características próprias.
Iniciando o estudo propriamente dito, iremos tecer um breve comentário sobre a utilização do Avental no mundo profano, e assim, conhecermos melhor suas utilizações e importâncias profanas, para posteriormente adentrarmos na simbologia Maçônica.
É notório que o Avental é utilizado por grande número de pessoas que, mesmo não cientes de sua importância, se beneficiam desta pequena e até mesmo insossa vestimenta. Mas o que afinal é o Avental? E quando iniciou sua utilização?
O Mini dicionário da Língua Portuguesa Melhoramentos, Edição 2000, classifica o Avental como:
§  Peça de pano, couro ou plástico, que se usa sobre a roupa, para proejá-la. Ou:
§  Espécie de guarda pó, usado por farmacêuticos, dentistas, médicos e etc.

No mundo profano o Avental é muito utilizado, principalmente por pessoas que têm a necessidade de se protegerem, seja de qualquer partícula sólida ou líquida, que venha sujar a roupa, ou de substâncias, porosas ou não, que possam agredir a pele.
Para alguns escritores, a origem do Avental está ligada há tempos muito remotos, como o Paraíso Terrestre, onde alguns vêem Adão como o inventor do Avental, representado na folha de parreira, a qual, segundo a ilustração bíblica, cobria seus órgãos genitais. Mas essa versão é suspeita por uns e refutada por outros que a consideram ilusória e especulativa.
Historicamente falando é quase impossível precisar a data ou o período em que o Avental começou a ser utilizado, entretanto há vários registros históricos de seu uso. Os Romanos, por exemplo, usavam como parte de seu uniforme militar, como também há registros do uso de Avental por Egípcios, Persas e Hindus. Mais contemporaneamente, percebemos que os pintores da Renascença também o utilizavam para proteger suas roupas dos respingos de tintas.
Na Maçonaria o surgimento do uso do Avental pode ter iniciado nas Guildas e corporações Medievais, tais associações que deram origem à Maçonaria Operária, sendo provável que este deva ser o único sinal externo do período Operativo da Maçonaria. Tinham por hábito distribuir entre seus membros Aventais para o exercício do ofício ao qual estavam ligados. Esses Aventais apresentavam diferenças com base nos diferentes trabalhos e conhecimentos acerca do ofício em questão, tais como sapateiro, ferreiro, açougueiro, pedreiro, entre outros.
Quanto aos pedreiros, tidos como os Maçons de fato, na fase Operativa da Maçonaria a utilização desta indumentária era essencial, pois protegia o corpo do obreiro, e sua função era evitar acidentes provocados pelas lascas que se desprendiam das pedras brutas que eram trabalhadas com cinzel e malho, e que depois de prontas, viriam a ser partes de edificações. Esses Aventais eram feitos predominantemente de couro de carneiro, um couro espesso, com vistas a proteger os obreiros de labutas muitas vezes perigosas para o corpo humano.
Posteriormente, com a transição da Maçonaria Operativa para a Maçonaria Especulativa, houve grandes modificações para a utilização do Avental, que deixou de ser uma peça considerada de proteção para o corpo, transformando-se em verdadeiros brasões ou estandartes, onde o conjunto das tradições cultivadas pela Arte Real era traduzido em emblemas e símbolos representativos de cada conjunto de ensinamentos que se queria transmitir sobre a Maçonaria. Tais símbolos sempre foram ricos em metáforas e conteúdo esotérico, filosófico e histórico.
Desse modo, os Aventais transformaram-se em verdadeiras obras de arte, cercadas de emblemas e símbolos que variavam de região para região. O que deve ter gerado algumas polêmicas, pois em 1813, com a unificação das duas grandes Potências Inglesas, houve a edição de um normativo regulamentando e padronizando os Aventais, de forma a coibir os inúmeros abusos que aconteciam. Ressalto também que em 1875, com o Congresso Mundial dos Supremos Conselhos em Lausane, também se decidiu por uma padronização dos Aventais utilizados pelos seguidores do Rito Escocês Antigo e Aceito.
Mas independente de seus emblemas ou de sua padronização, o significado simbólico do Avental continuou o mesmo, pois representa um emblema da dignidade, da honra, do trabalho material ou intelectual, símbolo da inocência do iniciado. É a insígnia do Maçom, o único que lhe que dá o direito de entrar nos templos e participar das reuniões. Representa a prontidão para o trabalho, que nos acompanha desde o meio dia até ao fim da vida, pois se constitui como um instrumento fundamental e não nos deixa esquecer que a labuta é uma constante, seja em Loja ou fora dela.
Recorda-nos também, as nossas obrigações e deveres como obreiros da Arte Real, capaz de transformarmo-nos de filhos de mulheres em filhos do homem, auxiliados pelas instruções que são ministradas a todos os filhos da viúva.
Esotericamente, o Avental é a vestimenta corpórea da alma, que será pura ou impura conforme os nossos desejos e pensamentos. E representa a condição imortal da alma, que sobrevive à morte do nosso corpo físico. Símbolo do trabalho na construção do templo interior e nas tarefas de aperfeiçoamento evolutivo. Essa peça constitui a super proteção aos chakras fundamentais, esplênico e umbilical, para diminuir as influências decorrentes dos sentidos em relação ao sexo e as paixões emocionais, expondo e ativando os chakras cardíacos, no aprimoramento dos sentidos; laríngeos, impulsionando a criatividade; e frontal, estimulando o raciocínio.

Notemos que o Avental vem sempre acompanhado por um cinto ou corda, que é um elo entre o Avental e o corpo, na altura dos rins, e que também divide o corpo de quem o usa, da cintura para baixo (a parte procriadora, material); e da cintura para cima (a parte sensitiva, espiritual; que guarda os centros de forças).
Para os antigos a parte mais importante do Avental era o cinto ou corda, pois é símbolo do cordão umbilical, que liga o homem a terra; ou o cordão de prata, que liga o homem ao espírito; ou até mesmo o cordão de ouro, que liga o espírito ao Eu superior.
Independente de sua origem, do começo de seu uso ou da interpretação que damos a ele, o Avental utilizado hoje é o resultado da união dos Maçons Operativos com os Maçons Especulativos, e o seu uso simboliza o momento espiritual que o Maçom está vivendo dentro da Maçonaria.
Autor: Celso Ricardo de Almeida 
Mestre Instalado da Loja Maçônica Casa do Caminho, Oriente de Fervedouro-MG


domingo, 26 de agosto de 2018

BENEFICÊNCIA - SER OU NÃO SER... PRATICAR OU NÃO PRATICAR...




Segundo o dicionário, beneficência é a inclinação à prática do bem. É a ação de fazer bem a alguém.  O princípio da beneficência estabelece a obrigação moral de agir em benefício dos outros. São considerados sinônimos de beneficência: caridade, filantropia e humanidade. Beneficência, filantropia ou caridade significam amor à humanidade, ao contrário do amor a si próprio ou egoísmo.

Outros dicionários definem filantropia como a ação voluntária, gratuita, beneficente e assistencial desenvolvida por altruísmo, solidariedade, fraternidade e amor ao próximo, que se diferencia da caridade, porque esta seria por compaixão, e do assistencialismo, porque este seria para provimento imediatista nas questões conjunturais contingenciais.

Na sociedade capitalista predominam as relações baseadas na expectativa do benefício próprio, recebendo e oferecendo algo em troca.  Em consequência, aqueles que não têm condições de oferecer o que os outros querem, dependerá de ajuda para não ficar condenado à destituição. O primeiro problema neste caso é o pressuposto de superioridade do doador em relação ao recebedor. Além disso, há o problema de expansão da demanda: quanto mais dinheiro for doado, mais aparecerão pessoas querendo receber, seja por necessidade real, seja por acomodação.

Muitas pessoas se colocam contra o assistencialismo, que é um tipo particular de beneficência, enfatizando que o correto é “ensinar a pescar” e não simplesmente “dar o peixe”. Acham o assistencialismo nocivo ao “dar o peixe”, pois automaticamente é criada a dependência e redução da auto-estima.   Entretanto, é inegável que se uma pessoa está morrendo de fome, torna-se necessário dar o alimento antes de cuidar do médio e longo prazo.


Para estarem capacitadas a aprenderem a pescar, as pessoas precisam antes de assistência, apoio, carinho e compaixão.  Além disso, existe o grande problema de controle da eficácia dos recursos destinados à beneficência: foi verificado que normalmente nas organizações que fazem “mero assistencialismo” mais de 80% dos recursos vão para os usuários finais, ou seja, para aqueles que realmente precisam de ajuda, enquanto que nas ONGs que “ensinam a pescar”, cerca de 85% das doações terminam no bolso dos professores e não no bolso dos alunos carentes. Se, por qualquer motivo, os ensinamentos não forem devidamente absorvidos pelos alunos carentes, trata-se, em última análise, de recursos desperdiçados.

Precisamos de ambas as posturas, pois parece ter uma interdependência nestas iniciativas. De um lado, para que as pessoas carentes possam ter condições de absorver algum ensinamento é necessário que suas necessidades básicas de alimentação estejam atendidas.  Por outro lado, o assistencialismo puro e simples, sem preocupação de capacitação das pessoas para superação daqueles problemas, tende a perpetuar a dependência.

A beneficência na visão de Cristo e do Cristianismo

          
Cristo recomendou fortemente a caridade e, mais que isso, colocou-a como condição necessária para a felicidade futura.  Nos ensinamentos de Cristo, a caridade é muito mais que esmola ou assistência emergencial. Para ele, a verdadeira caridade é aquela que realmente tira o outro da situação ruim em que se encontra. Está implícito nestes ensinamentos que o que diferencia dois seres humanos são apenas as circunstâncias e não a essência do ser. Estas circunstâncias são precisamente as variáveis que devem ser mudadas ou atenuadas através da caridade.

(Mateus 6.2 a 6.4) "Quando derem alguma coisa a um pobre, nada de alarde, como fazem os fingidos, tocando trombeta nas sinagogas e nas ruas para chamar a atenção para os seus atos de caridade. Digo-vos com toda a seriedade: esses já receberam toda a recompensa que poderiam ter. Mas quando fizerem um favor a alguém, façam-no em segredo, sem dizerem à mão esquerda o que faz a direita. Vosso Pai, que conhece todos os segredos, vos recompensará”  (Mateus, 7:12) “Portanto, tudo o que quereis que os outros vos façam, fazei o mesmo também vós a eles: nisso está a Lei e os Profetas”

Dessa forma, a eliminação da pobreza viria como consequência do cumprimento destes mandamentos.  Max Weber, no livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, mostrou algumas diferenças entre o catolicismo e o protestantismo e suas consequências para a sociedade. No catolicismo, a salvação é obtida apenas por meio da fé na ressurreição de Cristo, com a necessária intermediação da igreja, mas, segundo Tiago, a fé sem obras é vazia.  Dessa forma, as boas ações, ou caridade, são importantes para a legitimação da salvação. Na teologia protestante, a salvação era uma predestinação definida por Deus e cabia ao crente apenas trabalhar para glorificar Deus, podendo gerar, com isso, uma acumulação de riquezas.

Para o catolicismo, a necessidade de trabalho foi decorrente do castigo de Deus para a desobediência de Adão e Eva, gerando a necessidade dos homens tirar o sustento com o suor do próprio rosto. Neste contexto, o trabalho era considerado uma obrigação e não uma virtude, sendo um atributo indesejável e próprio dos escravos.  Além disso, a acumulação de riqueza era considerada como um grande obstáculo para a salvação e existia a idealização da pobreza franciscana.

Na ética protestante, dava-se grande importância à acumulação, mas se abominava a ostentação. A riqueza, como resultado da dedicação ao trabalho, não tinha outra razão de ser que não fosse para as obras de Deus e para ajudar aqueles que necessitassem. Além disso, havia grande valorização da educação para todos e se retirou o caráter pecaminoso da cobrança de juros. Nesta nova ética do trabalho dizia-se que o sucesso era o maior indício de predestinação à salvação e o pobre era suspeito de preguiça, o que constituía uma injúria a Deus. Como resultado, as nações protestantes tiveram grande prosperidade no capitalismo e atingiram grandes riquezas, enquanto várias nações católicas ficaram para trás.

Embora a caridade não fosse essencial para a salvação no contexto protestante, o dinheiro e o trabalho eram considerados como um meio de expandir a obra de Deus, sendo que Lutero e Calvino reconheciam que a caridade nascia da fé, da mesma forma que a maçã provinha da macieira, ou seja: “não somos salvos pelas obras, mas fomos criados para as boas obras”.

 Como resultante desta visão, a contribuição da população de países protestantes para filantropia historicamente tem sido maior que as dos países católicos.  Além disso, a percepção de que os herdeiros não mereciam simplesmente ganhar as fortunas e os incentivos fiscais direcionados para filantropia ajudaram a alavancar as contribuições para beneficência. Por outro lado, a legislação fiscal brasileira não tem estimulado a doação de recursos para a filantropia, criando grandes limitações para a doação de recursos para fins sociais.

Por esses motivos, na área de filantropia existe grande defasagem entre o Brasil e os EUA:  por ano, o setor privado nacional investe cerca de dois bilhões de reais na área social, enquanto nos Estados Unidos essa cifra atinge 70 bilhões de dólares, representando mais de 30 vezes, embora o PIB dos EUA ultrapasse o PIB brasileiro em pouco mais de seis vezes. Cada brasileiro desembolsa, em média, 12 dólares por ano em doações e nos Estados Unidos são desembolsados 390 dólares.

No que diz respeito às Organizações Sociais, enquanto nos EUA existem cerca de 40 mil fundações, no Brasil, as 400 maiores entidades do terceiro setor representaram 90% da atividade do setor em 2001. A 10ª fundação dos EUA tem 10 bilhões de dólares de patrimônio, enquanto a nossa maior fundação tem um bilhão. A 20ª maior fundação brasileira tem patrimônio de US$ 100 mil; a correspondente americana, US$ 1 bilhão, ou seja, 10 mil vezes maior.

Considerando apenas o "The Giving Pledge", iniciativa liderada por Bill Gates, verificamos que ela congrega cerca de 70 bilionários que se comprometeram a doar, em vida, metade de suas fortunas para causas do bem. Enquanto isso, dos 54 bilionários que o Brasil possui, somente dois são considerados bons parceiros do terceiro setor.
 
Por que nós se deixamos nossos corações propício à beneficência somente entre os dias de dezembro de cada ano? Porque não se abre o coração para o restante, é porque nosso egoísmo é superior a beneficência guardada a sete chaves em nossas atitudes, muitos tem medo de se entregar ao próximo muitos tem receitas de se comprometer com o bem.

Uma forma de "aliviar" a carência do bem é na época natalina aonde as pessoas pensam que em comprar um presente "um brinquedo" sendo este barato e doar a uma instituição de caridade "ONG" se redime de suas atitudes pobre ser de espírito fraco pois Vejamos o preceito bíblico em (Mateus 6:2-4)

Cabem antes algumas ponderações a respeito:

1 – A circulação do Tronco não é prática universal na Maçonaria, porém é costume particular de um Rito específico.

2 – É universal sim a prática da beneficência na Maçonaria e esta nem sempre depende, por exemplo, de ser praticada através da circulação do Tronco.

3 – O procedimento então obedece à regra da tradição, uso e costume inerente à prática, levando-se em conta a origem do Rito que dela faz o desempenho.

4 – Pelo seu caráter de discrição, geralmente ninguém sabe o quanto quem pode dar, se deu, ou se nada pode dar. A questão não é de obrigatoriedade, senão a da prática da virtude na consciência do Maçom.

5 – A regra é de que ninguém é obrigado a dar, muito menos se estabelecer um valor para o óbolo. Então essa tradicional prática (circular o Tronco) oriunda da Maçonaria francesa não depende de regulamentos de obediências. Ela é pratica espontânea e universalmente aceita pelos Ritos que a praticam.

TRONCO – Do latim: truncus – menciona o corpo humano, com exceção da cabeça e dos membros; o caule de árvore; o cepo com olhais usado antigamente para os suplícios; origem de uma família, de uma raça; parte de uma coluna, entre a base e o capitel.

Em Maçonaria o termo “tronco” é usado para designar as contribuições financeiras dos Obreiros durante os trabalhos de uma Loja e destinadas às obras assistenciais da Oficina. 

O termo “Tronco” é, portanto de origem francesa, já que no idioma francês, a palavra tanto pode ser tomada como tronco (do corpo humano, de uma árvore, etc.), bem como a “caixa de esmolas”, já que é tradicional nas igrejas francesas a existência, na sua entrada, de uma caixa para óbolos (donativos), identificada simplesmente pela palavra “tronc”. 

Nesse sentido é então feito o uso do termo em Maçonaria como uma espécie de sinônimo de caixa de esmolas. 

O termo original era mesmo de o “tronco da viúva”, já que por razões existenciais, primárias e doutrinárias, simbolicamente a viúva é a Maçonaria e os Maçons os seus filhos (a mãe Terra fica viúva do Sol, durante os três meses de inverno), assim o título em Maçonaria seria mais correto do que o atual Tronco de Beneficência, ou de Solidariedade, já que ambos exprimem redundância, pois se o mesmo é a caixa de esmolas, evidentemente o seu produto é destinado à beneficência, ou às obras de caridade.

A discrição expressa pelo ato na Maçonaria (R.´.E.´.A.´.A.´.) quando o Hospitaleiro apresenta a bolsa segura pelas duas mãos na altura do seu quadril esquerdo e o rosto virado para o lado oposto, origina-se do costume praticado na França, principalmente entre os séculos XVI e XVII quando permanecia junto à porta da igreja um membro da confraria religiosa, cujo título era nominado como “hospitalário”. 

Este, munido de uma bolsa, ou saco preso a tiracolo da direita para a esquerda, oferecia o recipiente aos fiéis que deixavam ao final a prática religiosa semanal. O ato tinha por objetivo recolher ajuda para os pobres e necessitados. 

Nessa oportunidade o hospitalário objetivando uma atitude recatada abria e oferecia aos fiéis a bolsa, ou saco com as duas mãos pelo lado esquerdo do seu corpo, ao mesmo tempo em que dirigia o olhar para o sentido contrário. Essa postura (da discrição, do recato e da sobriedade) viria influenciar diretamente o ato praticado posteriormente nas Lojas Maçônicas pelo ofício do Hospitaleiro.

Alguns respeitáveis historiadores atribuem o costume do “tronco” como haurido das antigas “Guildas” que, em parte podem ser consideradas como precursoras da Maçonaria, sobretudo com as suas normas de socorro mútuo, fraternidade e solidariedade. Nas Guildas praticava-se o costume de se reunirem num recipiente as contribuições destinadas às viúvas e aos órfãos.
“Guildas” associação que agrupava, em certos países da Europa durante a Idade Média, indivíduos com interesses comuns (negociantes, artesãos, artistas) e visava proporcionar assistência e proteção aos seus membros

Na Maçonaria o Tronco destinado à solidariedade é indubitavelmente a expressão lata e o símbolo de como se deve praticar solidariedade de modo sigiloso e sem ostentação. 

Assim, o giro do Tronco é obrigatório e tem a sua suspensão quando é terminada a coleta em cada sessão. 

Apesar da obrigatoriedade do procedimento, sabiamente o giro não permite que se saiba quem deu mais, ou menos, ou quem nada pode dar. A prática individual da virtude da solidariedade é concebida durante o giro com a mão direita fechada introduzida no recipiente (bolsa, ou saco) logo abaixo da abertura. Em ato seguinte o contribuinte retira a mão completamente aberta.

Em Maçonaria, sem qualquer proselitismo religioso, ensina-se que o Tronco se inspira na moral dos velhos princípios hebraicos e posteriormente sublimados pelas palavras do Evangelho – “Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua (mão) esquerda o que faz a tua direita” (Mateus, 6,2-3).

No tocante aos recursos que cada Maçom dispõe para a caridade, o ensinamento praticado desde os mais remotos catecismos maçônicos (base dos rituais) inspira-se na oferta da pobre viúva (a Viúva e o Gazofilácio), cuja contribuição “Jesus” considerou mais valiosa e significativa do que todas as outras ali depositadas.


É oportuno salientar que a prática da beneficência é divisa de toda a Maçonaria, independente do Rito praticado ou da sua vertente originária (francesa ou inglesa). 

Apenas o que pode se diferenciar entre Ritos e Trabalhos maçônicos são os procedimentos ritualísticos para a coleta. 

É então imperativo se compreender que se existem Ritos, ou Trabalhos (do Craft) que não possuam passagens ritualísticas como o da circulação do Tronco, isso não significa em hipótese alguma que nestes não exista a prática da solidariedade e caridade maçônica. 

A questão é apenas de como se pratica a caridade, pois independente do modo ou artifício ela é unânime em toda a Sublime Instituição.

Finalizando, espero ter contribuído para o esclarecimento ao mesmo tempo em que ratifico, por razões acima expostas, que não é possível uma Loja instituir taxas, doações, ou limites monetários para a prática da beneficência. 

A questão aqui não é a do que está ou não escrito nos rituais ou nos gelados regulamentos dessa ou daquela Obediência. A questão é a prática da Virtude, do calor humano, da Solidariedade e da sensibilização exarada pelo Amor. Afinal o fundamento do amor ao próximo também é um ideário maçônico e não carece de leis e regulamentos para a sua afirmação, porém a Maçonaria ensina que não existe Caridade sem Equidade. 


O bem tem seu lugar no universo mas para que ele triunfe de vez é preciso que você saia do seu casulo e passe a praticar a beneficência.


VALDINEI PEREIRA GARCIA
A R L S CAVALEIROS DE ATHENAS Nº13




terça-feira, 21 de agosto de 2018

NÃO PODEMOS ESQUECER NOSSO PASSADO GLORIOSO, MAS NÃO PODEMOS VIVER ETERNAMENTE DELE!



Nossa ordem anda, nas últimas décadas, tão carente de realizações dignas de nota na história do Brasil que, quando queremos citar nomes de grandes maçons, temos de recorrer a personagens da época do império ou do início da república velha, fatos ocorridos há mais de 100 anos.

Não podemos esquecer nosso passado glorioso, mas não podemos viver eternamente dele. Independência, Abolição e República tiveram a participação direta e fundamental de maçons, mas fazem parte dos livros de história.

Dia desses, minha esposa perguntou o motivo de tudo na maçonaria ter tratamento superlativo: Potência, Soberano, Sapientíssimo, Supremo, Eminente, Poderoso, Grande, Venerável, Ilustre, Respeitável, Excelso, Colendo, Egrégio, e por ai vai. Confesso que fiquei sem resposta.

Dai comecei a matutar. E isso nem sempre é bom... Diagnostiquei como sendo complexo de superioridade, se vangloriar, se gabar de ser o que não é para tentar impressionar e manter viva uma importância que faz parte do passado.

O gosto por comendas é outro sintoma. De vez em quando cruzamos com Irmãos portando tal número de medalhas que nos perguntamos se não seria o próprio Grande Arquiteto do Universo que resolveu dar o ar da sua graça no plano terreno. 

Nada contra a outorga de honrarias, mas não apenas pelo tempo de serviço.

Temos que reconhecer o mérito também. Mais um indício: A profusão de cargos e respectivos paramentos, órgãos com sobreposição de funções ou com atribuições apenas decorativas. Nossa Ordem tem uma estrutura administrativa similar, para não dizer idêntica, a do Estado Brasileiro.

Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Governos, Assembleias Legislativas, Tribunais de Justiça, Tribunais Eleitorais e Conselhos Federais e Estaduais. Isso gera certa confusão na cabeça dos maçons e atiça nossa “mania de grandeza”.

Acabamos achando ser a Ordem uma entidade imune à competência jurisdicional da Republica Federativa do Brasil. Mas não meus caros Irmãos, somos uma simples Associação Civil sujeita, como qualquer outra, aos ditames da legislação profana. 

Reitero minha convicção de que a tripartição dos poderes é a melhor forma de administração, só acho que a estrutura está inchada demais.

A legislação maçônica fala em “defesa de mérito” no âmbito maçônico de infrações penais cometidas no mundo profano e em “homologação por tribunais maçônicos” de sentenças judiciais proferidas por tribunais profanos.

Tratam-se de procedimentos privativos de nações soberanas e não de uma simples associação civil, a qual deve inteira obediência às determinações legais do Poder público dito profano.

Em recente conversa com um Irmão pelo qual tenho muito apreço, ele dizia de sua dúvida se algum magistrado decretaria uma busca e apreensão numa Loja Maçônica, onde poderiam acessar toda e qualquer dependência do imóvel, arquivos, etc.. Sinto informar que sim.

Qualquer magistrado pode determinar o que achar conveniente e eficaz para a aplicação da prestação jurisdicional, desde que previsto na legislação brasileira. 

Muitos Irmãos ficaram chocados quando, recentemente, candidatos a cargos eletivos na maçonaria recorreram à justiça profana questionando decisões de tribunais maçônicos. Teriam os irmãos que recorreram à justiça profana cometido perjúrio? 

Conformar-se com nossas leis internas e com as decisões delas decorrentes são condições com as quais concordamos ao entrar na maçonaria.

Ao perjurar estaríamos cometendo ato de indisciplina maçônica, antigamente denominado crime maçônico, punível com expulsão da Ordem. Por outro lado, somos cidadãos da República Federativa do Brasil e temos a prerrogativa de recorrer ao Poder Judiciário profano quando entendermos ter algum direito violado. E aí?

Como resolver este imbróglio? Entendo que, enquanto maçons, assumimos a obrigação moral de nos conformar em tudo com nossas leis e decisões delas advindas.

Ao violar essa obrigação que assumimos de forma voluntária, nos sujeitamos a receber as punições decorrentes. Melhor seria pedir para sair antes de colocar a Ordem numa situação, digamos constrangedora perante a sociedade brasileira. 

Relatório de Pesquisa “CMI – Maçonaria no Século XXI” analisou dados coletados no período de 21/02 a 18/03/2018 com a participação de 7.817 Irmãos das três potências (GOB, Grandes Lojas e COMAB).

O relatório é rico em dados e traz uma série de conclusões. Mas a que mais chama a atenção é a de que “menos de 5% dos maçons brasileiros sabem o que é maçonaria, conforme os conceitos e definições mais utilizados no mundo.” Sendo o conceito mais comum o de que maçonaria é “um belo sistema de moralidade velado em alegoria e ilustrado por símbolos” (Zeldis, Leon).

Conclui o relatório que “o legítimo objetivo maçônico, de ensino de moralidade, de transformar bons homens em melhores, vai sendo preterido, ignorado, esquecido...” e “se não se sabe o que é não se sabe o que realmente se deve fazer... distanciando-a (a maçonaria) de seus legítimos objetivos e de sua própria razão de existir enquanto instituição”.

Parece que chegamos ao cerne do problema da atual situação de nossa Ordem. Ao invés de querer que a nossa sublime instituição tome as rédeas da política, beneficência, ação social, etc., devemos preparar o homem maçom, através do ensinamento da moralidade, para que este o faça.

Não é a maçonaria enquanto instituição, mas sim os maçons devidamente preparados que agirão, conforme os preceitos de moralidade e ética, nas empresas, órgãos públicos, escolas, lares, associações, etc., difundindo e aplicando os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

O foco principal da maçonaria deve ser a formação do maçom. A continuarmos do jeito que está iremos nos tornar, se é que já não nos tornamos um clube de serviços onde nos reunimos para troca de favores e obtenção de vantagens pessoais. Sem esquecer, é claro, das medalhas, paramentos…

Vamos a todo custo e nunca a qualquer custo!!!

Carlos Magno Monteiro Freitas Deputado Estadual ARLS Vale do Itapemirim – Marataízes (ES) Presidente da PAEL GOB (ES) no Período Legislativo 2007/2011 Venerável Mestre da ARLS Vale do Itapemirim de 1999/2003

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

SESSÃO CONJUNTA



Realização de Sessões Conjuntas no âmbito do Grande Oriente do Brasil (GOB), por força do que estabelece o artigo 231 do Regulamento Geral da Federação (RGF), que tem o status de Lei Complementar, é muito comum na Semana da Pátria duas ou mais Lojas pretenderem realizar Sessões Conjuntas, em homenagem à Proclamação da Independência.

Neste ano, recebi consulta se duas Lojas que praticam Ritos distintos poderiam se reunir, em Sessão Ritualística, para realizar uma Sessão Conjunta.

No âmbito do GOB, os Rituais do 1º Grau dos sete Ritos previstos pela legislação Gobiana, edições de 2009 e 2013 (nesse último ano o do Rito Escocês Retificado), aprovados por Decretos do Soberano Grão-Mestre Geral, estabelecem o seguinte:

SESSÃO CONJUNTA DE LOJAS MAÇÔNICAS RECEPÇÃO DE LOJAS. Uma Loja pode estar presente na sessão de uma coirmã como incorporada, quando ambas funcionarem na mesma sessão e no mesmo Rito. Caso não atue no desenvolvimento dos trabalhos ritualísticos ou não seja do mesmo Rito tratar-se-á de uma Loja visitante.

As Lojas incorporadas ingressam no Templo juntamente com a Loja anfitriã e com ela dividem a realização dos trabalhos em sessão conjunta.

A Loja visitante ingressa, após a abertura dos trabalhos, com o Ven Mestr à frente, seguindo-se o Estandarte e, hierarquicamente, as demais Dignidades, Oficiais e IIrm formados em fila dupla, do mais graduado ao menos graduado, sendo recebida de P pela Loja visitada e sob Bat incessante. Somente o Ven Mestr saúda o Ven e os VVig da Loj visitada, sendo conduzido ao Or conforme o Protocolo de Recepção, todos fazendo o Sin do Gr, e tomam seus lugares, indicados pelo M de CCer, conforme suas prerrogativas hierárquicas, sem fazerem nenhuma Saud.

Quando existirem duas ou mais LLoj em visitação, entra em último lugar a de maior título ou condecoração e, se forem iguais nisso, entra em último lugar a mais antiga na Ordem, de acordo com o menor número cadastral.

(Os destaques não são do original)
Dessa forma, fica claro que somente Lojas do mesmo Rito podem realizar Sessões Ritualísticas em conjunto. A explicação é simples e óbvia: se duas Lojas que praticam Ritos distintos fossem, por hipótese, realizar uma Sessão conjunta qual Rito seria praticado?

Poder-se-ia dizer que seria praticado o Rito da Loja que está recebendo as demais, isso se a Sessão fosse ser realizada em um Templo de uma das Lojas, porém, pode ser que a Sessão seja realizada em um Templo que não é de nenhuma das duas (até por questões de dimensão), por isso os Rituais estabelecem que no caso de as Lojas não praticarem o mesmo Rito tratar-se-á de uma Loja visitante, e não de Sessão conjunta.

Por Irm Marcos A. P. Noronha


segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A CRISE DA LOJA



Li já há algum tempo que um maçom americano, acadêmico, efetuou um estudo sobre a Maçonaria européia e as suas Lojas, tendo concluído, além do mais, que as Lojas maçônicas europeias, independentemente das respectivas Obediências e ritos praticados, tinham tendência a atravessar crises significativas a intervalos entre cerca de 25 a 35 anos. Mais concluía o dito investigador que essas crises que assolavam as Lojas europeias ou não eram superadas e a Loja abatia colunas, ou eram superadas e a Loja reforçava-se na sua solidez.

Não recordo já quem foi esse acadêmico maçom e porventura haverá razão para esse esquecimento, pois, com todo o respeito pelo trabalho de investigação, tratamento de dados e análise que terá tido, estas suas conclusões não se me afiguram serem estrondosa novidade nem incrível descoberta, antes puro e simples senso comum. O que, no entanto, não retira valor ao trabalho efetuado, pois, pelo menos, tem a virtude de alertar para a questão. O fato de algo ser de senso comum não significa que se esteja atento a isso...

Para mim, é pura questão de senso comum que, ocorrendo uma crise numa Loja (e já agora, em qualquer organização social humana...), das duas, uma: ou a crise não é superada e a Loja (a estrutura social) chega ao seu fim, não tendo mais condições para prosseguir a sua atividade, ou é superada e essa superação resulta num reforço da solidez da Loja (estrutura social). Já há muito que diz o Povo, na sua proverbial e secular sabedoria, que o que não mata, engorda!

Quanto ao estabelecimento da existência de crises em ciclos de 25 a 35 anos, bem vistas as coisas também não é fator de grande admiração, sendo mesmo evidente a causa de tal: a transição geracional.

Que existe uma relação de simbiose ente a Loja e os respectivos obreiros, geradora de modificações na Loja e em cada um dos obreiros, já o tinha mencionado no texto O outro termo da equação. Que as opções organizativas e de funcionamento de Loja determinam a sua evolução, também o mencionei no texto Da diferente evolução das Lojas. Resta consignar que um importante fator na evolução das Lojas é a transição de gerações.

A característica diferenciadora da transição geracional em relação aos outros fatores de evolução de uma Loja é que, enquanto os demais decorrem em harmoniosa, lenta e mesmo imperceptível, ou quase, mudança, aquela propicia ou impõe uma potencial abrupta correção do paradigma da Loja.

A Loja consolida-se num grupo, mais homogêneo ou heterogêneo, também em termos de idades. Cria os seus hábitos, as suas rotinas. Estabelece os seus princípios e fixa os seus objetivos. Qualquer problema é resolvido tendo em conta esses princípios, hábitos, rotinas e objetivos.

O padrão é harmonioso e durável. Até ao momento em que porventura deixa de o ser... O que mudou? Em bom rigor, nada. Ou, se preferirmos, tudo! O fator de mudança, de possível estabelecimento de crise, de fixação de patamar a ser superado, de mudança a ser efetuada de forma mais abrupta do que se estava habituado é bem conhecido de todos nós. Tão bem conhecido, que até nos esquecemos dele: a passagem do tempo!

Num dado período, os problemas são resolvidos de determinada forma e tudo vai bem. Mas, 25 a 35 anos passados, de repente verifica-se que os problemas de agora são diferentes dos de antes, que a forma de lidar e trabalhar da Loja, que antes foi eficaz, que ao longo do tempo foi satisfatória, agora já não satisfaz.

Porventura os problemas são os mesmos ou de idêntica natureza, mas agora se apresentam de forma diferente ou necessitam de uma diferente rapidez na sua resolução. Ou a simples evolução do mundo e do ambiente social, e das tecnologias, e da sociedade, tornam obsoletamente ineficaz o que antes fora remédio acertado. 

Em dado momento, com surpresa, a Loja apercebe-se que os seus hábitos, as suas rotinas, as suas formas de lidar com as situações não obtêm já os mesmos resultados positivos de anteriormente. No entanto, a evolução desde há anos e anos foi harmoniosa. Muitos dos que ajudaram a estabelecer as rotinas, os hábitos, os procedimentos, continuam a ser preciosos e respeitados elementos da Loja.

Os que se lhes foram juntando integraram-se harmoniosamente e foram dando a sua contribuição para a paulatina, normal e expectável evolução da Loja. Nem sequer se pode, honestamente, dizer que se faz agora como se fazia há 25 ou 35 anos. 

Mudanças e evoluções naturais foram ocorrendo. Os mais novos integraram-se no que os mais antigos construíram. Os mais antigos foram evoluindo com os mais novos. Como se explica que se descubra agora um desfaçamento? 

A resposta está na paulatina e imperturbável passagem do tempo e na erosão que esta causa nas pessoas e nas estruturas. Aqueles que há 25 ou 35 anos foram os pilares da Loja hoje já não o são, já deram o lugar na primeira fila a outros.

Onde antes decidiam e assumiam responsabilidades, agora assistem e limitam-se a aconselhar. E, se não for assim, se o poder de decisão e de execução ainda neles reside então o problema da Loja é bem pior! 

Agora a Loja é dirigida por outra geração de homens bons que pretendem tornar-se melhores. Utilizam as regras e os procedimentos que encontraram que aprenderam que, aqui e ali, foram sendo naturalmente modificadas. Mas não são as suas regras. São as que receberam.

Adaptaram-se a elas. Mas, em maior ou menor medida, a evolução delas não logrou acompanhar a diferença que a sua geração faz em relação à anterior, em sintonia com a evolução da Sociedade, do mundo e da técnica. Agora são eles que dirigem, mas o volante e o assento não estão ergonomicamente adaptados a si - ainda estão feitos à imagem e semelhança da geração anterior.

O problema é que a geração anterior ainda aí anda. E é respeitável e respeitada. Afinal, tem muito mais anos disto do que a atual. E criou e manteve as regras que serviram a Loja durante muitos anos. E pensa e defende que o que antes foi bom para a Loja não há razão para não continuar a ser bom agora.

O dilema é que agora a responsabilidade é de outra geração. Que respeita e considera os mais antigos. Que compreende as regras que estabeleceram e em que se integraram. Mas que não se sente já confortável nelas. Sobretudo que vê não terem elas a mesma eficácia que tinham. Que concluiu que alguma coisa tem de mudar para que a Loja possa continuar a ser essencialmente a mesma auspiciosa realidade em que, gostosamente, entraram.

Que periodicamente esta questão se ponha na Loja não é nada de admirar. É a vida a decorrer. Simplesmente. Por muito cordata e harmoniosamente que se tenha processado a evolução, chega sempre um momento que não basta evoluir, que há um degrau a vencer, uma mudança a fazer, em que a evolução em tudo não chega em que se tem de inventar e fazer diferente e novo.

E em que convivem elementos que criaram o que há e a quem lhes custa que se mude o que com eles resultou com novos obreiros que vêem que há mudanças a fazer e têm a tendência de mudar tudo, por vezes pondo desnecessariamente em causa algo que vem de trás.

A crise necessariamente que chega quando ocorre a transição geracional. Para resolvê-la satisfatoriamente é imperioso que uns aceitem que nem tudo o que com eles funcionou bem continua a ser suscetível de bem continuar a funcionar e que os outros interiorizem que nem tudo o que vem de trás está obsoleto e ultrapassado, que mudar não é fazer tábua rasa do que existe antes aproveitar do que há o que é útil que continue modificar o que convenha ser modificado e introduzir de novo o que seja útil que de novo se acrescente.

Com Sabedoria na atuação, Firmeza, que é Força, nas escolhas e Elegância, que é Beleza, no trato, a Loja consciente do desafio enfrenta-o, muda o que tem a mudar, conserva o que tem a conservar, honra os mais antigos pelo que fizeram e continua a beneficiar da sua experiência e prossegue nas novas bases que os novos tempos, os novos hábitos, as diferentes circunstâncias aconselham.

A Loja que o não souber fazer inevitavelmente que definha, declina, progressivamente vê as suas colunas minadas até ao momento em que elas abatem. 

A Loja que souber reconhecer a sua crise e as suas causas e lograr efetuar as mudanças necessárias, sem ser contra ninguém, mas com todos colaborando no essencial, essa, sim, fortalece-se e prossegue galhardamente... por mais 25 ou 35 anos, até se voltar a pôr em causa e se reformular de novo.

O acadêmico Irmão americano estabeleceu isto. Mas - digam-me lá! - bem vistas às coisas é ou não questão de simples bom senso?

Rui Bandeira


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