terça-feira, 12 de maio de 2026

O QUE TEMOS ADIADO?


Estamos, de fato, usando bem o tempo que nos foi confiado? 

Poucos aspectos da vida revelam com tanta clareza nossas prioridades quanto a forma como o empregamos. Universal e irrecuperável, ele permanece um dos maiores desafios da condição humana.

 

Paradoxalmente, quanto mais ferramentas temos à disposição para aproveitar melhor o tempo, maior a sensação de escassez. As incômodas razões são corroboradas por diversas pesquisas: passamos, em média, mais de nove horas por dia conectados à internet, além de sermos o terceiro maior consumidor global de redes sociais. 

Isso se soma ao fazer incessante e à sobrecarga de informações, intensificadores do mau uso da atenção no mundo contemporâneo. Essa realidade alcança todas as idades e gera problemas como o distanciamento nos relacionamentos, dificuldades para dormir e sensação de inadequação. 

O ritmo atual parece não permitir que nos detenhamos — ainda que por instantes — para questionar a própria vida, ou deixar certas coisas irem embora para abrir espaço ao que chega. 

A esse contexto soma-se uma dificuldade que não possui fronteiras: a distância que separa o que desejamos daquilo que estamos dispostos a sustentar. Para exemplificar, um recente levantamento revelou que cerca de 80% dos brasileiros acreditam ser possível viver mais e melhor — mas apenas uma parcela ínfima, próxima de 4%, efetivamente se planeja para isso no longo prazo. 

 

Muito do nosso tempo também é consumido revisitando mentalmente situações que já não podem ser alteradas, como se nelas ainda residisse alguma possibilidade de controle — ou de um sentido que talvez nunca tenha existido. Por vezes, aquilo que chamamos de “deixar fluir” não passa de uma forma socialmente aceitável de evitar decisões que exigiriam coragem — e responsabilidade pelas suas consequências. 

Dúvidas se acumulam nos finais de domingo: continuo vivendo apenas na espera entre um fim de semana e o outro?

 

É importante considerar também que nem todo desperdício de tempo se perde nas distrações da vida virtual ou na inércia. A diligência também pode se dispersar em esforços que não apaziguam as angústias. Há formas mais sutis — e, não raro, socialmente recompensadas — como o envolvimento em afazeres contínuos ou a busca exagerada pelo reconhecimento alheio.

Na direção contrária, o que fazer com os nossos dias quando a vida se estabiliza e vem o desassossego de não ter pelo que lutar?

 

 Enquanto a atenção se volta para fora pelo temor de ficar só, invisível ou sem propósito, a construção interior tende a ser adiada.


Neste ponto, percebe-se que considerar apenas a falta de tempo — ou mesmo de consciência — é uma simplificação do problema. Em muitos casos, a inércia vem acompanhada da percepção do que deveria ser feito, da carência de força interior e do entusiasmo para assumir a condução da própria vida.

 

É nesse ponto que as buscas por sentido tendem a se iniciar. Para alguns, surge então a Maçonaria; para outros, já iniciados, ela deixa de ser apenas uma filosofia de vida e passa a se apresentar como um campo de trabalho, no qual a própria experiência se torna matéria-prima para a edificação interior.

 

Ainda assim, a condição de Maçom não nos imuniza contra as dificuldades inerentes à natureza humana ou às pressões da vida contemporânea — inclusive no que diz respeito à má gestão do tempo. O que ela pode oferecer, no entanto, são instrumentos que ajudarão o indivíduo a desenvolver maior lucidez — tanto interna quanto na forma de perceber o mundo —, de modo a lidar melhor com as adversidades.

 

 

Nessa direção, a tradição maçônica oferece ricos caminhos simbólicos nos quais compreender é apenas o primeiro estágio. Eles só começarão a fazer sentido a partir do momento em que os integramos ao nosso dia a dia. Viver é praticar.


 Escada em Caracol sugere um avanço gradual — não imediato. Ela nos lembra que não há como pular etapas — e que o entendimento chega no tempo próprio da experiência. É o próprio ritmo da jornada que nos dará sabedoria para lidar com o presente e reinterpretar acontecimentos distantes com mais clareza.

 O Ternário ensina que passado, presente e futuro não estão separados, mas se refletem continuamente nas escolhas que fazemos.

 Já a Câmara de Reflexões confronta o indivíduo com a finitude, instigando-o a reconsiderar prioridades e a reconhecer o valor do tempo que lhe é dado. A Régua orienta para alcançar o equilíbrio — mas, na prática, raramente nos perdemos por distração ou excesso de descanso. Nos desviamos por não saber interromper o que nos consome — ou o que colocar no lugar. 

 

Ainda assim, saber de tudo isso não garante mudança. Muitos de nós já reconhecemos essas verdades — e seguimos adiando o que sabemos que deveria ser feito.

 

Mais do que conceitos, esses símbolos incentivam observar com naturalidade o próprio agir e sentir, ampliando aos poucos a autopercepção no cotidiano. Um recurso valioso, quem sabe para notar mais cedo o que desagrada e eventualmente corrigir rumos, até mesmo quanto a formas de pensar.

 Recordar como a realidade era sem determinados bens ou pessoas pode renovar o olhar sobre o presente. Reinterpretar experiências como aprendizado tem o potencial de atenuar pesos que antes pareciam permanentes — ou, ao menos, torná-los mais suportáveis. Há momentos em que compreender deixa de ser possível — e ainda assim precisamos seguir.

 Diante da impossibilidade de interromper o fluxo do existir e das lembranças que irrompem a todo instante, procurar amparos nos oferece esperança. 

 

Mais do que isso, se estivermos verdadeiramente comprometidos com os valores que professamos, talvez consigamos evitar que nossa jornada siga no piloto automático — ainda que parcialmente.

 Como sugere a filosofia aristotélica, o esforço orientado pela intenção já confere dignidade à existência, independentemente de seus resultados. Cultivadas na simplicidade dos gestos diários, essas práticas podem sustentar uma caminhada mais consciente — ainda que mais lenta do que gostaríamos.

 E, nesse ritmo mais atento, pode residir não apenas a possibilidade de uma vida mais autêntica, mas também a chance de finalmente percebê-la com clareza.

 

E tu, Irmão, o que tens adiado — mesmo sabendo que já poderias ter começado? 

 

Autor: Mauro José de Oliveira

*Mauro é Mestre da Loja Maçônica Novos Tempos Nº 288 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte.

 

Notas

1.     CNN BRASIL. Mais de 9h online por dia: hiper conexão preocupa brasileiros, diz estudo. CNN Brasil, 30 jun. 2025.

2.     Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/mais-de-9h-online-por-dia-hiperconexao-preocupa-brasileiros-diz-estudo/>. Acesso em: 27 out. 2025. 

3.     A permanência da impermanência. [s.l.]: Neura, 2025. 

  

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