segunda-feira, 30 de março de 2026

O TEMPO NA MAÇONARIA

O tempo sempre foi objeto de reflexão de filósofos, teólogos e cientistas. No pensamento ocidental, ele é frequentemente compreendido de forma linear, tendo como ponto de partida o surgimento da matéria, seja na perspectiva religiosa da criação ex nihilo, iniciada por Deus "do nada", seja no modelo científico do Big Bang, quando a matéria, condensada num ponto de densidade e temperatura extremas, começou a se expandir e a formar o universo.

Em tradições orientais, o tempo é muitas vezes entendido de forma cíclica. Inspirados pelos ciclos da agricultura, surgiram mitos cosmológicos que descrevem universos em constante expansão e contração, repetindo-se em longos períodos chamados kalpas. Há também quem afirme que o tempo é uma experiência mental, como propõe Agostinho de Hipona, para quem o passado existe na memória, o presente na percepção direta e o futuro na expectativa, tudo coexistindo na mente humana.

Na maçonaria, o templo é o espaço onde os maçons se reúnem para o trabalho simbólico do "desbastar da pedra bruta", que representa o autoaprimoramento que cada membro busca. Esse processo não tem fim, pois o aperfeiçoamento do ser é contínuo e exige tempo para se desenvolver.

O tempo, no templo, não segue a lógica do mundo exterior. Cada grau e cada ritual marcam etapas do percurso iniciático, organizando o progresso do maçom de forma gradual. O ritmo dos trabalhos permite atenção, reflexão e prática sem pressa, sustentando a evolução interior de cada membro.

O templo cria uma suspensão simbólica do tempo. Ao entrar nesse espaço, o maçom abandona as ansiedades, a pressa e as preocupações do mundo exterior. Nesse ambiente ordenado e separado, a experiência espiritual sobrepõe-se às limitações materiais e temporais, tornando possível o aperfeiçoamento de si mesmo de forma profunda.

O tempo no templo tem ainda uma lógica própria em relação ao espaço profano. Os momentos que delimitam o início e o fim dos trabalhos possuem significado, indicando que o progresso depende apenas da dedicação e do esforço que o maçom aplica ao seu crescimento, e não do tempo.

Assim, o templo oferece um espaço em que o tempo se torna aliado do aperfeiçoamento. Ele permite que o maçom trabalhe sobre a própria pedra bruta com paciência e concentração, vivendo a experiência da iniciação e do crescimento espiritual como um caminho contínuo, dedicado exclusivamente ao labor de conhecer a si mesmo.

"Não havendo tempo, há eternidade; onde há eternidade, há prevalência do espírito; e onde há prevalência do espírito, há aperfeiçoamento."

— Fernando Souza

André L. B. Pereira

Deco Pereira

PM / MI

 

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

TEMPLO-IGUALMENTE MARAVILHOSO E TERRÍVEL

Imagine um lugar na natureza em que o ser humano não entre há muitos anos. Ali a natureza está preservada e intocada pelos humanos.

Dia após dia o sol surge no oriente, faz seu percurso aparente até o zênite e declina para se ocultar no ocidente.

Há dias e noites em alternância quase infinita. Uns dias faz calor e outros faz frio, alguns dias chove, outros o sol brilha.

Plantas e animais brotam e nascem, se desenvolvem e eventualmente voltam ao pó da terra. Tudo está como deve ser, até que você entra neste lugar.

No santuário da natureza, o ser humano deve ingressar com o máximo cuidado. Como ele também é obra da natureza, ali pode ser acolhido.

Ao entrar precisa observar muito mais do que ser observado. Sua tarefa é entender onde está, quais são as oportunidades e quais são os riscos.

Tem que encontrar o seu lugar e o seu papel naquele meio igualmente maravilhoso e terrível.

Entrar ali levando morte e destruição vai fazer com que seja destruído e o templo da natureza se reconstrua por si próprio, sem aquele agente do mal que conseguiu apenas destruir a si mesmo.

O templo é uma representação simbólica do universo. O iniciado ao ingressar no templo deve agir tal qual o homem que entra no santuário da natureza.

Precisa observar, achar seu lugar, conhecer suas oportunidades e, principalmente, respeitar o sagrado naquele lugar.

Aquele que entra ali buscando se impor, levando destruição, conseguirá destruir a si próprio e todo o mal que provocar será superado porque o templo, como representação da natureza, reconstruirá a si próprio.

Se você saiu do cativeiro onde contemplava sombras artificialmente projetadas e ingressou no templo da natureza, onde a ordem e a beleza resplandecem, não carregue consigo suas falsas certezas engendradas pelas sombras da ignorância, dos vícios e dos preconceitos.

Robson de Barros Granado-MI

Fonte: Retales de masonería

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

O COLAPSO DA MAÇONARIA NA ALEMANHA NAZISTA (1933-1935)


 

Antes da ascensão de Hitler ao poder em 1933, a Maçonaria alemã já se encontrava profundamente dividida e enfraquecida. Existiam 9 Grandes Lojas no país, divididas em dois grupos principais: as três "Velho Prussianas", de caráter conservador e cristão, que não de origem judaica ou do Antigo Testamento, na esperança de serem toleradas.

Aceitavam judeus em seus quadros, e as seis "Humanitárias", que nominalmente não faziam distinção religiosa. Essa cisão impedia qualquer ação unificada da Ordem, enquanto a propaganda da extrema-direita, especialmente a partir de 1919, difundia incansavelmente a teoria da "conspiração judaico maçônica", responsabilizando a Maçonaria pela derrota na Primeira Guerra e pelos males da República de Weimar. Livros como os de Friedrich Wichtl e do General Ludendorff tornaram-se best-sellers, associando a Ordem ao "perigo judaico" e difamando sua imagem perante o povo.

A pressão constante e o medo da crescente influência do Partido Nazista já causavam uma debandada de membros antes mesmo de 1933. Em 1932, uma Loja "Velho Prussiana" relatava uma perda de um terço de seus integrantes em seis anos. Imediatamente após a tomada do poder, as Grandes Lojas Humanitárias, percebendo que não teriam lugar no novo regime, simplesmente se autodissolveram.

As "Velho Prussianas", numa tentativa desesperada de sobreviver, apressaram-se em declarar sua lealdade ao regime, abandonando o título de "maçons", renomeando-se como "Ordens Cristãs Alemãs" e expurgando de seus rituais qualquer elemento

Essa estratégia de submissão revelou-se inútil. Apesar de inúmeras cartas e apelos ao governo e ao Partido Nazista, os maçons foram tratados como "cidadãos de segunda classe" e impedidos de ingressar nas organizações do partido. Em maio de 1935, o Ministério do Interior do Reich ordenou a dissolução imediata das três Ordens Cristãs Alemãs, que foram formalmente extintas em cerimônias vigiadas pela Gestapo entre junho e julho daquele ano.

A Maçonaria alemã estava oficialmente morta, e seus prédios foram posteriormente convertidos em museus antimaçônicos, enquanto uma nova onda de propaganda difamava a Ordem.

.

Por Bro. Ellic Howe, 1982.

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

CIÊNCIA E RELIGIÃO: AINDA UM FALSO CONFLITO?

Relendo uma prancha que escrevi há alguns anos, sobre o eterno tema da ciência e da religião, surpreendi-me com a sua atualidade. Continuamos a debater se são opostas ou complementares. Continuamos, no fundo, a tentar descobrir se o universo tem apenas leis — ou também sentido.

Na altura escrevi que não via ali conflito, mas antes dois caminhos diferentes para uma mesma buscam: compreender o que nos rodeia e o nosso lugar nisso tudo. A ciência diz-nos como as coisas funcionam. A religião tenta explicar por quê.

Hoje, o cenário até parece que mudou, mas não para melhor, a ciência é questionada por teorias da conspiração e vídeos de TikTok, por seu lado a religião continua a ser usada para justificar guerras e ódios. Ninguém ouve, poucos pensam, e muitos gritam “o meu Deus é melhor que o teu”.

E assim voltamos ao essencial.

Mesmo Stephen Hawking, tantas vezes apontado como ateu, dizia que se descobríssemos uma teoria unificada, estaríamos conhecendo a mente de Deus. No fundo, ele sabia, como Einstein e Galileu também sabiam, que há um ponto onde a razão bate no limite. Um ponto fora da equação, onde tudo o que sabemos falha. Uma singularidade. E talvez aí, nesse exato lugar onde a física se cala, comece a linguagem do Grande Arquiteto.

Não precisamos de escolher entre razão e fé. Precisamos é que ambas iluminem o que andamos tentando ver. Recordo do Evangelho segundo São Lucas: “Ninguém, depois de acender uma candeia, a cobre com um vaso ou a coloca debaixo da cama; pelo contrário, coloca-a num lugar alto, para que os que entram vejam a luz.”

A ciência é essa candeia, acesa com esforço, com estudo, com dúvidas. E a fé é alimentada por silêncio, por prática, por esperança, mas nenhuma serve de alguma coisa caso seja escondida, nenhuma ajuda se for usada para controlar ou para envergonhar. A luz foi feita para guiar. Para mostrar. Para que quem entra veja e compreenda.

Entre leis naturais e mistérios espirituais, há sem dúvida em comum a procura sincera pela Verdade, e essa busca, se autêntica, nunca divide, pelo contrário: revela.

João B., M. M.

 

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

AS TRÊS GRANDES LUZES DA MAÇONARIA

Na iniciação maçônica, logo após o nosso juramento e ao recebermos a Luz, defrontamo-nos imediatamente com as três grandes Luzes emblemáticas da Maçonaria Universal.

É sabido que, em qualquer canto do planeta Terra, nenhuma Loja Maçônica Regular executa os seus trabalhos sem que o Esquadro e o Compasso figurem expostos sobre o(s) volume(s) da Lei Sagrada.

Sobre estes instrumentos podem-se apresentar inúmeras alegorias, pois significam uma coisa no sentido restrito das palavras e outra no seu sentido esotérico, representando na Maçonaria “grosso modo” o conhecido e o desconhecido.

Foi em meados do século XVIII que os irlandeses introduziram o conceito segundo o qual as Três Grandes Luzes da Franco Maçonaria passaram a ser o Esquadro, o Compasso e o Volume da Lei Sagrada, sendo que até esse período tais papéis eram atribuídos, ao Mestre da Loja, à Lua e ao Sol.

Foi por esses tempos que uma certa tonalidade, mais vizinha, ou mais próxima das Igrejas, apareceu, e ainda hoje se mantém nos nossos rituais.

O Esquadro e o Compasso estão sempre associados um ao outro no seu simbolismo maçônico. Estes dois utensílios são parte integrante e fundamental da formação do Maçom especulativo. Estes mesmos utensílios foram e são igualmente utilizados pelos construtores operativos desde os tempos mais recuados até aos nossos dias.

O Esquadro (do latim ex quadra – exquadrare) é um instrumento cuja propriedade/função é tornar os corpos quadrados.

O quadrado, por sua vez, representa a solidez, a estabilidade e a ordem; no Islamismo representa o coração do homem, e, no mundo espiritual é tido como o símbolo da Terra (matéria). Esse quadrado só pode, portanto, para nós, ter um significado: o dos estatutos da nossa Ordem e, de igual forma apenas age de um só modo: o do bem.

O Esquadro é o símbolo rigoroso da justiça e da conciliação; é, de algum modo, o nosso pavimento de mosaico: a justiça e a justeza; a equidade e a dualidade.

Este Esquadro é o símbolo da retidão que nos permite cortar a pedra cúbica que desejamos incluir na construção do templo ideal; templo do qual somos, simultaneamente, os portadores e os construtores.

O trabalho do aprendiz, o nosso contínuo trabalho de aprendiz, é cortar/talhar a pedra bruta; pedra essa que, por sua vez, ao ser trabalhada cumpre a função de talhar/desbastar o seu artífice, qualquer que seja o seu grau.

Para melhor entender o simbolismo do Esquadro, é muito importante ter em consideração que o habitual, nos ofícios da construção, era ser o próprio trabalhador a fabricar/produzir ele mesmo uma boa parte das suas ferramentas de trabalho, nomeadamente o “seu” esquadro.

É este Esquadro que integra as 3 Grandes Luzes da Loja, e ele está lá para garantir a transformação da nossa pedra bruta numa perfeita pedra cúbica.

Em consequência, podemos e devemos evoluir para pedras tendencialmente perfeitas, e assim passarmos a ser o elemento ativo e o passivo, o constituído e o constituinte da edificação do Templo.

O Esquadro, pois, é a primeira das ferramentas que vemos quando consideramos as 3 Grandes Luzes da Loja.

O Esquadro, um dos instrumentos operativos mais antigos, simboliza o céu, ou seja, o espírito.

O Esquadro é, como bem sabemos, um instrumento fixo, e o Compasso, por sua vez, um instrumento móvel. Se analisarmos a relação conjunta Esquadro – Compasso, claramente aceitamos que o Esquadro é o elemento passivo e o Compasso o ativo.

O nosso Compasso simbólico é o mais simples de todos; é um compasso de ponta seca com dois braços móveis, mas rígidos.

Dentro da sua simplicidade o Compasso tem dois usos principais; a saber, o de desenhar círculos (ou arcos de círculos) e o de transportar/transpor medidas de comprimento.

Esse nosso Compasso fica, em consequência associado à ideia de progressão, ou melhor, ao percurso da progressão.

Quando associado ao círculo, ele transporta-nos para o universo do qual círculo é o Símbolo, e, em consequência, em termos de intelecto, o Compasso será a “configuração/imagem” do Pensamento.

O afastamento dos braços do Compasso e a sua reaproximação, representarão eles os vários modos de raciocínio que, de acordo com as circunstâncias, podem ser abertos e abundantes ou fechados e precisos?

O ponto dentro do círculo, com toda a sua simbologia Maçônica é o lugar marcado pela ponta seca do compasso; e, o círculo marcando a partir desse ponto é a primeira figura que pode ser desenhada com um compasso. Essa figura é o emblema solar por excelência e combina o círculo infinito com o ponto; o símbolo do início de toda a evolução.

O absoluto e o relativo são, portanto, representados pela ação do compasso, que por si só oferece a dualidade (pelos braços) e a unidade (pela sua ponta seca).

A Maçonaria limita a abertura do compasso a 90° e, por sua vez, o ângulo de 90° reproduz o esquadro; sendo, consequentemente esse o limite que o Maçom não pode transpor.

Agora que já sabemos que o Esquadro é o símbolo da Matéria, e o Compasso o símbolo do Espírito; temos então a representação do poder do Espírito sobre a Matéria.

O compasso aberto a 45º como o vemos em Loja indica que a matéria não está completamente dominada, e, logicamente a abertura a 90º indicaria o equilíbrio entre as duas forças; o Compasso transformar-se-ia então, ele também, num Esquadro Justo e Perfeito.

No 1º grau o Esquadro é colocado sobre o Compasso, significando isso que se pode/deve esperar sinceridade e ao mesmo tempo incutir confiança aos Aprendizes, pois nessa fase a Matéria ainda domina o Espírito.

Chegamos, finalmente, à última etapa desta prancha sobre as 3 Grandes Luzes: o “Volume da Lei Sagrada”, ou simplesmente “o Livro da Lei”, pois é esse o nome genérico que lhe foi atribuído para se evitar qualquer tipo de sectarismo, e assim cada um terá seu conceito pessoal respeitado.

O uso da Bíblia poderá ter sido o primeiro e ser utilizado e terá sido introduzido na Escócia em 1637 no mais antigo rito da Maçonaria especulativa o “Mason’s Word”, nome talvez decalcado de “God’s Word”.

Era por esta expressão “God’s Word/Palavra de Deus” que, ao tempo, os Calvinistas da Escócia designavam a Bíblia.

O Livro da Lei, para o nosso espírito, significa, portanto, a Equidade.

Ele é o instrumento da Sabedoria que nos ilumina e nos guia, regulando a nossa conduta no lar, no trabalho, na sociedade e em Irmandade.

É sobre o Livro da Lei que é feito o nosso juramento, tornando-se ele o ponto culminante da nossa habilitação interior para o recebimento da Luz.

Não bastaria, a um aspirante a Maçom, o juramento fundamentado na Honra?

Não! Este ato solene é sempre realizado em presença do GADU, adquirindo dessa forma um caráter espiritual que compromete a nossa consciência religiosa enquanto homens. Nestas condições, a nossa Honra e a nossa Fé são garantia da autenticidade das nossas afirmações/Juramento.

A recepção da Luz é, pois, o ponto culminante da iniciação maçônica, e tem como objetivo maior a relação que une o homem a Deus.

Este nosso “Livro da Lei” não se encontra estipulado em nenhum manual, constituição ou Landmarks. Ele pode ser qualquer Livro Sagrado de qualquer das religiões que creem num Deus Único e Criador.

A única restrição é que: esse volume deve conter, real e efetivamente, as Sagradas Escrituras de uma religião conhecida, e fazer referência a Deus.

Na Maçonaria o vocábulo usado para designar Deus é, como sabemos “Grande Arquiteto do Universo” (GADU).

Para finalizar, aqui vos deixo o meu ponto de vista sobre o tema versado, e em jeito de conclusão.

As três Grandes Luzes são uma excelente fonte educativa e pedagógica para o nosso processo iniciático.

São complementarmente, o progresso, da terra ao céu, da matéria ao espírito; são aquilo que nos pode levar a compreender e adotar a mensagem da tradição iniciática, a jornada definitiva para o conhecimento.

As três grandes luzes são, tal como a trindade, um ternário, o que por si só é suficientemente complexo e, quiçá inexplicável.

Complexo e inexplicável, mas de certa forma simples e conciso e até cabalmente suficiente, porém, ainda paradoxalmente, em parte inexplicável para a minha concepção desta vida maçónica que escolhi.

Fazer um juramento solene é, sabe-se, um nobre e respeitável exercício. Quando prestei o meu juramento perante a Loja, tinha em mente manter os seguintes três objetivos: fazer crescer minha espiritualidade, ser um homem de honra e ser um cidadão fiel e correto.

Este ternário tem moldado, mais firmemente desde então, o meu ideal espiritual e, um ternário dificilmente se quebra; já Salomão, muito antes da constituição da Maçonaria havia dito: “Funiculus triplex difficile rumpitur” (Ecl. 4,12) (o cordão três fios dificilmente se rompe).

Tem sido/é este “triplex”, Compasso, Esquadro e Livro da Lei, a minha força, o meu alicerce, e o meu credo.

A Lei Sagrada para me dirigir e governar dentro da lei (ou fé); o Esquadro para ajustar as minhas ações; e o Compasso para me manter dentro de limites justos “In mensura, et numero, et pondere” (com conta, peso e medida) para com todos os homens, especialmente para convosco Meus Queridos Irmãos.

Até à minha iniciação, e em parte até à feitura desta prancha, eu não tinha percebido que a minha vida passada e o meu percurso eram regulados de acordo com estes símbolos de precisão e abertura; agora sei que eles governam, ou pelo menos pretendo que governem, os meus pensamentos e as minhas ações com a maior frequência possível.

O espírito iniciático em toda a sua transcendência, como eu gosto.

A Ruela Santos, M M

 

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

O CARGO DE ORADOR NO RITO BRASILEIRO


 O Orador numa Loja Maçônica do Rito Brasileiro, desempenha várias funções, dentre elas o de fazer os discursos, pronunciamentos e conclusões. A outra é o conhecimento e aplicação do ordenamento jurídico Maçônico, constituindo o cerne da sua missão.

É um dos cargos da Diretoria de uma Loja do Rito Brasileiro que desempenha papel de grande relevância para o funcionamento regular de uma Loja Maçônica, motivo pelo qual tecemos algumas considerações, visando proporcionar aos Irmãos um pouco dos entendimentos sobre estas funções atribuídas ao Irmão Orador.

O Orador, juntamente com o Venerável Mestre, o Primeiro e Segundo Vigilantes, o Secretário, Tesoureiro e o Chanceler, formam as Dignidades da Loja do Rito Brasileiro. Na hierarquia Maçônica, ocupa o posto da Quarta Dignidade, tendo assento no Oriente próximo a grade, ficando ao norte e à direita do Venerável.

No Altar do Irmão Orador devem estar as Constituições e o Regulamento Geral da Federação, adquirindo o direito de solicitar a palavra diretamente ao Venerável Mestre, podendo permanecer sentado nas suas manifestações, sendo um ponto de equilíbrio da Loja para que os trabalhos sejam desenvolvidos dentro da legalidade.

O Orador é um cargo de múltiplas funções numa Loja do Rito Brasileiro: apresenta perfil de Orador propriamente dito e outro de representante do Ministério Público Maçônico.

O Orador Maçônico do Rito Brasileiro, enquanto Orador, não tem qualquer diferença do orador no mundo profano, vive da arte de falar bem, com desenvoltura, na sua manifestação. Poderá sustentar-se em anotações e até em discurso a ser lido, preparado previamente, o que propiciará uma abordagem objetiva e correta do que se pretende exaltar. Em outro momento, o Orador não é apenas o orador, mas também o representante do Ministério Público Maçônico, o Guarda da Lei.

O Cargo de Orador exige que, aquele que se encontra no seu exercício, tenha discernimento suficiente para não confundir os momentos de atuação funcional – maçônica. Uma coisa é falar como

Orador e outra é atuar como representante do Ministério Público Maçónico, o Guarda da Lei.

Ao Irmão Orador, como membro do Ministério Público, compete: observar, promover e fiscalizar o rigoroso cumprimento das Leis Maçónicas e dos Rituais; cumprir e fazer cumprir os deveres e obrigações a que se comprometeram os membros da Loja; comunicar qualquer infracção; promover a denúncia do infrator; ler os textos de lei e decretos; verificar a regularidade dos documentos maçônicos que lhe forem apresentados; apresentar as suas conclusões no encerramento das discussões, sob o ponto de vista legal, qualquer que seja a matéria, de forma sucinta; opor-se, de oficio, a qualquer deliberação contrária à Lei e em caso de insistência na matéria, formalizar denúncia ao Poder competente em desfavor do infrator; manter arquivo atualizado de toda Legislação Maçônica; assinar com o Venerável Mestre e o Secretário as atas da Loja, tão logo sejam aprovadas; apresentar peças de Arquitetura nas Iniciações, Filiações, Regularizações, Elevações, Exaltações, etc.; agradecer a presença de visitante e acatar ou rejeitar denúncias formuladas à Loja, escritas ou verbais, representando aos Poderes Constituídos. Em caso de rejeição, recorrer ao Tribunal competente.

O Irmão Orador tem como Joia do cargo um Livro aberto, simbolizando o livro da Lei Maçônica, pois o Orador é o representante do Ministério Público, é o guardião das Constituições Maçônicas e representa a consciência da Loja. As decisões da Loja são um livro aberto, indicando também que você deve ser um livro aberto à conduta dos seus Irmãos, bem como compreender as responsabilidades que o seu cargo atribui, devendo estudar profundamente toda Legislação Maçônica e Rituais.

O Orador fala sempre no final das discussões, sobre qualquer assunto proposto, dando o seu parecer sobre a legalidade, dizendo se as proposições estão ou não dentro da legalidade Maçônica, mesmo que ele seja contra a matéria em discussão, deve opinar somente quanto a legalidade da proposta.

O Irmão Orador poderá também se manifestar a respeito do assunto proposto na condição de membro da Oficina, que deverá solicitar ao Venerável Mestre a palavra nessa condição. A respeito do assunto é expresso muito bem pelo Emin. Irmão Sylvio Cláudio, Ex–Presidente do Supremo Tribunal de Justiça Maçônico do Grande Oriente do Brasil, na sua obra Manual do Orador de Loja (Jurisprudência e Doutrina Maçônica, pág. 469):

“Quando o Orador pretende participar da discussão, no mérito, deve informar ao Venerável que deseja falar como Obreiro e não como Orador, dará a sua opinião pessoal e nada falará sobre o aspecto legal da proposta. Nas conclusões, porém, limitar-se-á a dizer sobre a legalidade ou não da matéria em pauta, ocasião em que demonstrará a sua isenção, pois pode ter sido contra a proposta, mas considerá-la “legal” para efeito de prosseguimento da discussão.”

Quando da abertura dos trabalhos Maçônicos, cabe ainda, ao Irmão Orador, a abertura do Livro Sagrado lendo a parte correspondente ao Grau no qual os trabalhos serão realizados e rogar a presença do Supremo Arquiteto do Universo, Deus, para radiar sobre a Oficina energia, ungindo-nos, transformando-nos em iluminados e conservar todos unidos na lei Divina, para que os trabalhos transcorram justos e perfeitos. E o fechamento do Livro da Lei da Lei através de ritual adequado.

Portanto, como podemos observar, a área de atuação do Orador é extremamente extensa e nem sempre fácil.

Um Guarda da Lei que conheça a legislação Maçônica jamais permitiria que certas coisas sejam praticadas em Loja, impunemente, uma vez que é seu dever zelar pelo cumprimento da Legislação Maçônica e Rituais, denunciando os responsáveis pelo descumprimento.

O Orador de uma Loja do Rito Brasileiro não é apenas um fazedor de discursos, ao contrário. Ele deve ser comedido no falar e só fazer as brilhantes Peças de Arquitetura nas ocasiões propicias, abstendo-se nas sessões ordinárias de produzir erudição longa e demorada, que não trará nenhum proveito para os participantes, após várias horas de trabalho, que precisam sim, ouvir informações simples, claras, objetivas e não discursos retóricos que, no fim não diz nada a respeito do assunto tratado.

Como tudo na nossa Ordem, o Orador deve ser aquele que fala com o coração, sendo a boca mero instrumento de transmissão das ideias; tem de ser equilibrado, sereno e fraterno no cumprimento da sua missão, estar entrosado com o Venerável, sendo recomendável que nunca demonstre, em Loja, discordância com o Altar da Sabedoria, salvo quando uma solução envolve responsabilidade do Irmão Orador, ocasião que deverá solicitar para consignar em acta o seu entendimento a respeito da ilegalidade do ato.

O Orador é o assessor do Venerável Mestre em assuntos envolvendo a aplicação de leis e normas jurídicas, devendo ser tratados, previamente para que ele estude e apresente em Loja uma opinião a respeito do assunto dentro do interesse da Administração e da sua legalidade.

Portanto, o irmão que venha ocupar tal cargo deve fazê-lo com propriedade e dedicação, a fim de contribuir com o funcionamento regular de uma Loja Maçônica.

Carlos Augusto F. de Viveiros, Loja Simbólica 7 de Setembro nº 2126 – GOEGO – GOB – Oriente de Goiânia-GO

Bibliografia

  • Rituais de Maçons Antigos, Livre e Aceitos do Rito Brasileiro – GOB.
  • Regulamento Geral da Federação – GOB, edição
  • Constituição do GOB, edição
  • Constituição do GOEGO, ed. 2003.
  • Carvalho, Francisco de Assis. Cargos em Loja, 7a. ed. Londrina: Ed. Maçónica “A TROLHA”, 1998.
  • Monteiro Filho, Arthur de Almeida. Ramos da acácia. Antonio Rocha Fadista, trad. e Jefferson Soares Carvalho. 1a. ed. Londrina: Ed. Maçónica “A TROLHA”, 2005.
  • Ferreira Sobrinho, José Legislação maçônica, 1a. ed. Londrina: Ed. Maçónica “A TROLHA”, 2002.
  • Ferreira Sobrinho, José Maçonaria e direito, 1a. ed. Londrina: Ed. Maçónica “A TROLHA”, 2001.
  • Joaquim da Silva Pires. Rituais Maçônicos Brasileiros, 1a. ed. Londrina: Ed. Maçónica “A TROLHA”, 1996.
  • Jakobi, Heinz Roland. Como gerenciar uma Loja Maçônica: recomendado para a administração de uma Loja Maçônica, a nível de Venerável Mestre, Luz, Secretários, Tesoureiros e Oficiais/Heinz Roland Jakobi e José Soares Barbosa. 3a. ed. Londrina: Ed. Maçônica “A TROLHA”, 2003.
  • Carlos Simões, O Rito Brasileiro, 1a. ed. “A GAZETA MAÇÓNICA”, 1999.
  • Mota, Willian Felício da. Rito Brasileiro de maçons antigos, livres e aceitos “normas – ritualística e estrutura”, 1a. ed. “PONTUAL”, 2001.
  • Valter Martins de Toledo. Jurisprudência de Doutrina Maçônica. Impressão – Gráfica 2002.
  • Pinto, G. Hercules. A Maçonaria e o rito brasileiro. Maçônica, 1981.
  • Conte, Carlos Brasílio. O livro do orador: oratória maçônica, São Paulo, Ed. Madras, 2004.

 


sábado, 7 de março de 2026

SE NÃO PUDER FALAR COM FRATERNIDADE, MANTENHA O SILÊNCIO

A Maçonaria, enquanto escola de aperfeiçoamento, nos educa para o uso responsável da palavra. Sabemos que a linguagem pode levantar colunas ou derrubar pilares; pode aproximar ou dividir; pode curar ou ferir. Por isso, desde os primeiros ensinamentos, somos conduzidos a uma regra simples e elevada: falar bem de um Irmão, na sua presença e na sua ausência. E, se tal não for possível com justiça, verdade e retidão, a orientação é igualmente clara: calarmo-nos.

1. O Silêncio como virtude e como prova de caráter

No mundo profano, a palavra frequentemente se torna instrumento de vaidade, de disputa e de entretenimento. Multiplicam-se comentários, suspeitas, “meias verdades” e narrativas que se agigantam à medida que circulam. Porém, ao adentrarmos o Templo, não trazemos apenas o corpo: trazemos hábitos, inclinações e modos de agir que precisam ser retificados à luz da Arte.

Se a Maçonaria nos propõe um caminho distinto, é justamente porque a Loja não deve ser extensão das práticas profanas, mas oficina de disciplina moral, onde se aperfeiçoa o homem para que, no mundo exterior, ele seja presença de equilíbrio e de concórdia.

Nesse sentido, o silêncio não é ausência: é governo. É a capacidade de refrear o impulso, de evitar o juízo precipitado, de impedir que a língua se transforme em lâmina. É, portanto, virtude de alta exigência — e, por isso mesmo, profundamente iniciática.

2. A palavra que constrói e a palavra que divide

Se não podemos falar bem de um Irmão, com honra e verdade, não nos cabe “compensar” com insinuações, nem sustentar conversas de bastidores, nem vestir a maledicência com o manto de um suposto “zelo” pela Ordem. Na prática, aquilo que se diz pelas costas raramente é correção fraterna; quase sempre é ruído, ressentimento ou vaidade.

A correção fraterna, quando necessária, possui natureza distinta: é discreta, direta, responsável e útil. Visa ao bem do Irmão e à harmonia da Oficina; não busca plateia, não circula em rodas, não se converte em espetáculo. Já a maledicência é difusa, corrosiva e estéril. Em vez de fortalecer, enfraquece; em vez de edificar, desagrega.

A Maçonaria ensina Caridade — e Caridade não significa ignorar a realidade, mas não ampliar o mal, não criar escândalo onde não há, não converter fragilidades humanas em instrumento de desunião.

3. Coerência moral: a obrigação assumida livremente

Há um aspecto que merece atenção. Na vida social e profissional, muitos se mostram rigorosos no cumprimento de normas: apresentam-se conforme o traje exigido, cumprem horários, obedecem a protocolos, zelam pela reputação, temendo as consequências da negligência.

Entretanto, quando se trata da honra maçônica, por vezes surge uma triste inversão: relativiza-se o dever, flexibiliza-se o compromisso, tolera-se a incoerência. Convém recordar, com sobriedade, que somos nós que buscamos a Ordem. Não fomos compelidos. Pedimos admissão de livre vontade. Fomos advertidos, antes da entrada, quanto às obrigações que assumiríamos. Sendo assim, a fidelidade ao compromisso deve ser natural, não ocasional.

Não se exige perfeição — pois a Maçonaria não opera milagres. Mas é razoável esperar diligência, constância e esforço sincero para viver aquilo que se aprende no Templo. E uma das provas mais evidentes desse esforço está no modo como tratamos o nome e a honra do nosso Irmão.

4. O duplo discurso como ruptura do espírito fraternal

Entre os comportamentos mais nocivos à fraternidade, destaca-se o duplo discurso: aquele que se apresenta cordial na presença do Irmão, mas o diminui na ausência; que sustenta gestos de amizade no salão e distribui suspeitas no corredor; que invoca “zelo” enquanto promove divisão.

Esse comportamento fere diretamente a harmonia da Oficina. Porque a Loja se sustenta não apenas por ritual e forma, mas por confiança e retidão. E a confiança não sobrevive quando a palavra perde o compromisso com a verdade e com a caridade.

Por isso, este ensinamento permanece atual e indispensável:

  • Se pudermos falar bem, falemos com justiça e verdade.
  • Se não pudermos falar bem, calemos com dignidade e prudência.

5. Conclusão: que o escândalo fique aos portais do Templo

Meus Irmãos, se desejamos uma Maçonaria forte, precisamos de Oficinas em que a harmonia não seja apenas um termo do ritual, mas uma prática constante: verdade com prudência; fraternidade com responsabilidade; e silêncio quando o silêncio é dever.

Que deixemos o escândalo do lado de fora — aos portais do Templo. Aqui dentro, não há lugar para o fomentador de intrigas, para o mensageiro do “disse-me disse”, para a língua que não edifica.

Ou cultivamos uma língua de boa fama, capaz de reconhecer virtudes e preservar a dignidade do Irmão; ou, na ausência disso, adotamos o silêncio honroso, que protege a harmonia e revela domínio de si.

Que o Grande Arquiteto do Universo nos conceda firmeza para vigiar a palavra, humildade para corrigir nossos impulsos e sabedoria para escolher o silêncio sempre que ele for a expressão mais elevada da honra.

Assim seja.

Nota

Este é uma adaptação do texto Silence, Or A Tongue Of Good Report, publicado originalmente nas The Freemason’s Chronicleem 17 de março de 1877.

Fonte: The Square Magazine

*A tradução e adaptação do texto original foram realizadas com o auxílio de IA.

 

 

terça-feira, 3 de março de 2026

A VERDADE NO ATUAL CONTEXTO MUNDIAL-VISTO A LUZ DA RAZÃO

Uma das características do ser humano é a pesquisa permanente da verdade. O desejo de comprovar a veracidade dos fatos e de distinguir o verdadeiro do falso é o que frequentemente nos coloca dúvidas no que nos foi ensinado. A sua procura surge logo na infância e ao longo da vida, estamos permanentemente questionando as verdades estabelecidas pela sociedade. O desejo de a desvelar deve-se à aspiração de fundar um conhecimento seguro acerca do mundo e das coisas.

Procura-se uma base estável – a verdade – que permita uma relação de confiança, absolutamente necessária, entre o homem e aquilo que deseja conhecer. Quando se vê confrontado com este impulso, o homem questiona-se sobre o que é a verdade, que num certo sentido será aquilo que efetua a ligação entre si e as coisas.

Porventura, ao longo dos séculos, a verdade foi construída a partir de três concepções diferentes, vindas da língua grega, da latina e da hebraica.

Em grego aletheia, a verdade é aquilo que não foi oculto, aquilo que não foi escondido ou mesmo dissimulado por alguém. O verdadeiro é o que se manifesta aos olhos do corpo e do espírito, a verdade é a manifestação daquilo que é ou existe tal como é. O verdadeiro é o evidente ou o plenamente visível para a razão. Assim, a verdade é uma qualidade das próprias coisas e o verdadeiro está nas próprias coisas. Conhecer é ver e dizer a verdade que está na própria realidade e, portanto, a verdade depende da manifestação da realidade, enquanto a falsidade depende da dissimulação em aparências.

Em latim, verdade diz veritas e refere-se à precisão, ao rigor e à exatidão de um relato, no qual se diz com detalhes, pormenores e fidelidade o que aconteceu. Verdadeiro refere-se à linguagem enquanto narrativa de fatos acontecidos. Um relato é autêntico ou dotado de veracidade quando a linguagem enuncia os fatos. A verdade depende da veracidade, da memória e da acuidade mental de quem fala e de que o enunciado corresponda aos fatos acontecidos. O oposto é a mentira ou a deturpação. As coisas e os fatos não são reais ou imaginários, os relatos enunciados sobre eles é que são verdadeiros ou falsos.

Em hebraico verdade diz-se emunah e significa confiança. Agora são as pessoas e é Deus quem são verdadeiros. Um Deus verdadeiro ou um amigo verdadeiro são aqueles que cumprem o que prometem, são fiéis à palavra dada ou a um pacto feito, não traem a confiança. A verdade relaciona- se com a presença, com a espera de que aquilo que foi prometido ou estipulado irá cumprir-se ou acontecer. A verdade é uma crença fundada na esperança e na confiança, referidas ao futuro, ao que será ou virá. A forma mais elevada é a revelação divina e a expressão mais perfeita é a profecia.

Desta forma podemos admitir que a verdade é uma síntese destas três fontes e por isso refere-se às coisas presentes e à própria realidade (aletheia), aos fatos passados e à linguagem (veritas) e às coisas futuras, à confiança e esperança (emunah).

Ao longo da história, e de acordo com as mudanças na estrutura e organização das sociedades, foram surgindo várias concepções da verdade.

Nas sociedades antigas, baseadas no trabalho escravo, a ideia da verdade como utilidade e eficácia prática não poderia surgir, pois a verdade era considerada a forma superior do espírito humano, desligada do trabalho e das técnicas e tomada como um valor autônomo do conhecimento enquanto pura contemplação da realidade, isto é, como teoria.

Nas sociedades nascidas com o capitalismo, em que o trabalho escravo e servil é substituído pelo trabalho livre e em que é elaborada a ideia de indivíduo como um átomo social, isto é, como um ser que pode ser conhecido e pensado por si mesmo e sem os outros, a verdade tenderá a ser concebida como dependendo exclusivamente das operações do sujeito do conhecimento ou da consciência de si reflexiva autônoma.

Também nas sociedades capitalistas, regidas pelo princípio do crescimento ou acumulação do capital por meio do crescimento das forças produtivas (trabalho e técnicas) e por meio do aumento da capacidade industrial para dominar e controlar as forças da Natureza e a sociedade, a verdade tenderá a aparecer como utilidade e eficácia, ou seja, como algo que tenha uso prático e verificável.

Assim como o trabalho deve produzir lucro, também o conhecimento deve produzir resultados úteis. Numa sociedade altamente tecnológica, como a do século XX ocidental europeu e norte-americano, em que as investigações científicas tendem a criar nos laboratórios o próprio objeto do conhecimento, isto é, em que o objeto do conhecimento é uma construção do pensamento científico produzido pelas teorias e pelas experimentações, a verdade tende a ser considerada a forma lógica e coerente assumida pela própria teoria, bem como a ser considerada como o consenso teórico estabelecido entre os membros da comunidade de investigadores.

Também as transformações internas à própria Filosofia modificam a concepção da verdade. A teoria da verdade como correspondência entre coisa e ideia, ou fato e ideia, liga-se à concepção realista da razão e do conhecimento, isto é, à prioridade do objeto do conhecimento, ou realidade, sobre o sujeito do conhecimento. Ao contrário, a concepção da verdade como coerência interna e lógica das ideias ou dos conceitos liga-se à concepção idealista da razão e do conhecimento, isto é, à prioridade do sujeito do conhecimento ou do pensamento sobre o objeto a ser conhecido.

Em Fevereiro de 1967, a genial filósofa judia de origem alemã Hannah Arendt publicou um texto (na The New Yorker) paradigmático sobre o tema, intitulado “Verdade e Política”.

Na sua exposição, Hannah Arendt defende que a natureza da verdade é essencialmente política, ou seja, “é sempre relativa a várias pessoas e diz respeito a acontecimentos e circunstâncias nos quais muitos estiveram implicados. É estabelecida por testemunhas e repousa em testemunhos, existe apenas na medida em que se fala dela, mesmo que se passe em privado”. Se a verdade é essencialmente política ela pode ser ameaçada pelas mentiras estratégicas dos poderosos e precisa continuamente de ser defendida e conquistada com o máximo de interpelações e debates públicos.

O mais relevante no texto de Hannah Arendt, para além da tensão estrutural entre verdade e política, é a mudança no modo clássico e contemporâneo do uso da mentira na disputa pelo poder. A mentira clássica era dirigida estrategicamente para este ou aquele grupo de inimigos e por isso poderia ser facilmente deletada pelos historiadores.

A contemporaneidade é marcada por uma forma de “mentira organizada”, uma aliança entre os meios de comunicação e os regimes totalitários, onde toda a matriz da realidade pode ser falsificada através das estratégias mediáticas de manipulação em massa. O resultado não é apenas a substituição da verdade pela mentira, mas a paulatina destruição na crença em qualquer sentido que nos oriente pelo mundo. A mentira organizada contemporânea conduz a um cinismo niilista, uma recusa em acreditar na verdade de qualquer coisa. A descrença é a desistência da tarefa de fazer qualquer avaliação.

Porventura, o melhor auxílio para combater as falsidades não são as estratégias, mas as pessoas. Pessoas que, livres da ambição, estão prontas a ouvir e, através de um diálogo sincero, deixam emergir a verdade. Pessoas que, atraídas pelo bem, revelam-se responsáveis no uso da linguagem.

Atualmente, o jornalista, “guardião das notícias” não deve desempenhar apenas uma profissão, mas uma verdadeira e própria missão. Numa azáfama de notícias e obstinado em ser o primeiro a comunicar, tem o dever de considerar que, na essência da notícia, não estão a velocidade em comunicá-la nem o impacto sobre a audiência, mas as pessoas.

Numa visão cristã, a verdade não é uma realidade apenas conceptual, que diz respeito ao juízo sobre as coisas, definindo-as verdadeiras ou falsas. A verdade é aquilo sobre o qual nós podemos apoiar para não cair. Neste sentido relacional, o único verdadeiramente fiável e digno de confiança sobre o qual se pode contar, ou seja, o único “verdadeiro” é o Deus vivo. Eis a afirmação de Jesus: “Eu sou a verdade”. “Fake news e jornalismo de paz” – Mensagem do Papa Francisco para o dia das comunicações).

O conhecimento não deve ser ideologia, não deve ser máscara e véu para dissimular e ocultar a realidade servindo os interesses da exploração e do domínio entre os homens. Assim como a verdade exige a liberdade de pensamento para o conhecimento, também exige que os seus frutos propiciem a liberdade de todos e a emancipação de todos.

A verdade deve ser objetiva, isto é, deve ser compreendida e aceita universal e necessariamente, sem que isso signifique que ela seja “neutra” ou “imparcial”, pois o sujeito do conhecimento está vitalmente envolvido na atividade do conhecimento e o conhecimento adquirido pode resultar em mudanças que afetem a realidade natural, social e cultural.

“O homem que mente para si mesmo e escuta as próprias mentiras chega a um ponto em que não pode distinguir a verdade e a mentira dentro de si ou ao redor de si, e assim perde todo o respeito por si mesmo e pelos outros”

(Dostoiévski, em Irmãos Karamazov).

De acordo com o pensamento dos filósofos Jean Paul Sartre e Maurice Merleau Ponty,

“somos “seres em situação” e a verdade está sempre situada nas condições objetivas em que foi alcançada e está sempre voltada para compreender e interpretar a situação na qual nasceu e à qual volta para trazer transformações. Não escolhemos o país, a data, a família e a classe social em que nascemos – essa é a nossa condição -, mas podemos escolher o que fazer com isso, conhecendo a nossa situação e analisar se merece ou não ser mantida”.

Um importante texto de Blaise Pascal mostra-nos a fragilidade e a força do desejo do verdadeiro.

“O homem é apenas um caniço, o mais fraco da natureza; mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para o aniquilar: um vapor, uma gota de água, bastam para o matar. Mas quando o universo o aniquilasse o homem seria ainda mais nobre do que quem o mata, porque sabe que morre, e a superioridade que o universo tem sobre ele; o universo não sabe nada disso. Toda a nossa dignidade consiste no pensamento. É daí que deveremos elevar-nos e não do espaço e do tempo, que não poderíamos preencher. Esforcemo-nos, pois, por pensar bem: eis o princípio da moral “.

A verdade exige que nos libertemos da aparência das coisas e da ilusão dos nossos órgãos dos sentidos. A verdade é o conhecimento da essência real e profunda dos seres e por isso universal e necessária, enquanto as opiniões variam de lugar para lugar, de época para época, de sociedade para sociedade e de pessoa para pessoa. Essa variabilidade e inconstância das opiniões provam que a essência das pessoas ainda não está perfeitamente conhecida e se continuarmos no plano dos sentidos, dificilmente alcançaremos a verdade.

A verdade é, ao mesmo tempo, frágil e poderosa. Frágil porque os poderes estabelecidos podem destrui-la, assim como mudanças teóricas podem substitui-la por outra. Poderosa, porque a exigência do verdadeiro é o que dá sentido à existência humana.

A verdade, como a razão, está na História e é histórica.

Tomás de Aquino (nome simbólico)

Fonte: freemason


Postagem em destaque

A SIMBOLOGIA DA VENDA NA INICIAÇÃO MAÇÔNICA

À glória do G.·.A.·.D.·.U.·. , por me ter concedido a dádiva de iniciar nos AAug.·. MMist.·. da Arte Real. INTRODUÇÃO A palavra Iniciaçã...