domingo, 23 de agosto de 2026

GRAU DE APRENDIZ MAÇOM (GRAU 1)

Introdução

A senda iniciática da Maçonaria tem início com o Aprendiz Maçom — aquele que, saído do mundo profano, é conduzido ao limiar de um novo universo simbólico, ético e espiritual. A Maçonaria, enquanto instituição iniciática e filosófica, é formada por homens livres e de bons costumes que se dedicam ao aperfeiçoamento de si mesmos e, por consequência, à edificação de uma sociedade mais justa e harmoniosa. Seu fundamento é o Grande Arquiteto do Universo; sua regra, a Lei Natural; sua causa, a Verdade, a Liberdade e a Moral; seus princípios, a Igualdade, a Fraternidade e a Caridade; e seus frutos, a Virtude, o Progresso e a Paz.

Ao ser admitido entre os Irmãos, o neófito rompe os véus da ignorância que antes o mantinham preso à matéria bruta e desforme. Sua iniciação representa o renascimento simbólico, o despertar da consciência adormecida. Ele deixa de ser apenas um número no seio indistinto da massa profana para se tornar um ser singular, dotado de propósito, forma e destino. Essa transformação, porém, não ocorre de imediato. Exige esforço, vigilância e trabalho constante — pois é na lapidação da Pedra Bruta que reside a essência da jornada do Aprendiz.

A Maçonaria se utiliza de símbolos e alegorias milenares como ferramentas de transmissão de sabedoria. Com o auxílio do Maço e do Cinzel — instrumentos simbólicos entregues ao Aprendiz —, o novo iniciado é chamado a desbastar suas imperfeições, a vencer suas paixões e a alinhar sua vontade com os princípios mais elevados da Ordem. Cada gesto, cada palavra, cada símbolo apresentado em Loja possui um significado oculto, esperando ser revelado à medida que o Aprendiz avança no caminho da Luz.

Este grau é, por excelência, o da humildade, do silêncio e da observação. O Aprendiz deve aprender mais a escutar do que a falar, mais a observar do que a julgar, mais a servir do que a exigir. Ele se encontra ainda fora do Templo, representado no Painel pelo posicionamento fora da Oficina, indicando que sua alma ainda busca a elevação e que seu espírito ainda trilha os primeiros passos na Arte Real.

Ao longo deste texto, mergulharemos nos símbolos, nos deveres, nos desafios e nas virtudes que marcam o grau de Aprendiz Maçom, compreendendo que este não é apenas um estágio inicial, mas o alicerce de toda a vida maçônica. Pois aquele que não se compromete verdadeiramente com o trabalho de aprimoramento em si mesmo jamais poderá erguer o Templo Interior digno da morada do G A D U.

I – O Aprendiz e o Ofício da Superação

Costuma-se dizer que o Aprendiz Maçom ainda não sabe ler — apenas soletrar. Essa frase, aparentemente simples, traz uma profunda verdade simbólica: o caminho do iniciado começa na humildade do reconhecimento de sua ignorância e na disposição de aprender passo a passo, sílaba por sílaba, os mistérios do saber.

No mundo antigo, Plutarco narra a impressionante trajetória de Demóstenes, célebre orador grego, que no início da vida pública era motivo de escárnio por sua voz fraca, má dicção e gestos descoordenados. Ao invés de se render à zombaria, mergulhou numa jornada solitária de autossuperação. Treinava sua fala com seixos na boca, exercitava-se à beira-mar para projetar sua voz acima do som das ondas, e até apoiava o peito contra a lâmina de uma espada para corrigir seus movimentos impulsivos. Enclausurado por longos períodos, estudava sem cessar, buscando refinar cada aspecto de sua retórica.

Um de seus críticos, Píteas, ironizava dizendo que seus talentos “cheiravam a lamparina”, referindo-se à luz fraca sob a qual estudava durante as noites. Mas o próprio Demóstenes fez da ofensa um elogio, demonstrando que a verdadeira excelência não nasce do dom puro, mas do esforço persistente. Daí nasceu o provérbio “queimar as pestanas”, sinônimo de dedicação ao estudo.

Assim também caminha o Aprendiz Maçom. Sua jornada exige renúncia à vaidade, constância na busca do saber e entrega ao processo iniciático. Cada símbolo, cada ferramenta apresentada no Templo, oferece ao Aprendiz a chance de lapidar-se, de elevar-se acima do caos do mundo profano e de construir, dentro de si, um santuário de virtudes.

É por meio do estudo contínuo e da convivência fraterna com os Irmãos que o Aprendiz começa a perceber que o universo simbólico da Maçonaria não é uma alegoria vazia, mas um espelho da própria existência. Os desafios do cotidiano se tornam degraus na escada do autoconhecimento, e a busca pela Luz deixa de ser apenas um ideal e passa a ser uma prática concreta de vida.

Buffon afirmava que “o gênio é apenas uma longa paciência”. Emmanuel, através de Chico Xavier, ensinava que “o gênio é a paciência que não se esgota”. Ambas as visões se encontram na essência do Aprendiz Maçom, cuja missão é resistir às distrações do mundo, perseverar no aprendizado e transformar o simples em sagrado.

Ser Aprendiz é aceitar que o caminho não tem fim, e que cada lição aprendida revela uma nova pergunta. É compreender que o tempo não retrocede — assim como a água de um rio nunca percorre duas vezes o mesmo leito. Mas também é confiar que cada esforço gravará no espírito marcas de crescimento, deixando um legado silencioso, porém eterno.

A vida do Aprendiz é, portanto, um rito de passagem contínuo, onde o verdadeiro progresso está na constância, no silêncio fecundo, e na vontade de ser melhor a cada novo alvorecer.

II – Os Instrumentos de Trabalho do 1º Grau

Após termos abordado a importância do Aprendiz Maçom e sua jornada inicial, é natural que avancemos agora à contemplação dos seus instrumentos de trabalho – aqueles mesmos que lhe são entregues como símbolos profundos na cerimônia de iniciação. Longe de serem meras ferramentas operativas, eles se revestem de significados espirituais e filosóficos que nos convidam à reflexão e à transformação interior.

Esses instrumentos – o Malho e o Cinzel – representam os primeiros passos na arte do trabalho consciente, ordenado e direcionado ao aperfeiçoamento de si mesmo e da humanidade.

O Malho

O primeiro instrumento do Aprendiz é o Malho, que representa a Força, simbolizada pelo 1º Vigilante. Ele é o primeiro veículo da vontade em ação. Seu papel é transmitir energia, aplicar movimento, agir sobre a matéria bruta. O Malho não trabalha sozinho – ele precisa de orientação e de precisão (do Cinzel) – mas é com ele que a obra começa a ganhar forma. É ele que desfaz as arestas mais grosseiras da pedra bruta, que quebra os excessos do ego, da ignorância e da indisciplina.

O Malho é símbolo da ação consciente, do esforço aplicado com propósito, da perseverança. Ele nos ensina que o verdadeiro poder não é o de destruir, mas o de moldar; não o de impor, mas o de construir. Assim, cada golpe do Malho torna-se uma expressão de força dirigida à evolução.

O Cinzel

Por fim, temos o Cinzel, que corresponde à Beleza, representada pelo 2º Vigilante. Se o Malho aplica a força, é o Cinzel que confere direção e forma a essa força. Ele é o instrumento de refinamento, de detalhe, de sensibilidade. Com ele, o Aprendiz não apenas desbasta a pedra bruta, mas começa a moldá-la, revelando nela contornos que se aproximam da perfeição.

No simbolismo iniciático, o Cinzel representa a consciência sensível, a percepção estética e moral, a capacidade de sentir e de transformar. É através dele que se manifestam os valores da harmonia, da proporção e do propósito na vida do iniciado. Ele nos recorda que não basta agir com força: é preciso saber onde, como e quando aplicar cada toque, com equilíbrio e sabedoria.

Unidade dos Instrumentos

Em conjunto, os instrumentos expressam os dois grandes pilares da Maçonaria: Sabedoria e Força. São também, como vimos, expressões de duas faculdades fundamentais do ser humano: ação (Malho) e sentimento (Cinzel). Nenhuma obra verdadeira pode ser realizada sem a ação dessas 2 potências. Assim como nenhuma iniciação é completa sem o pleno uso e compreensão desses instrumentos simbólicos.

Portanto, ao Aprendiz cabe mais do que portar esses instrumentos – cabe internalizá-los, vivenciá-los e transformar-se através deles. É com essa tríade simbólica que ele inicia sua jornada de lapidação da pedra bruta de sua própria alma, rumo à perfeição moral e espiritual que a Maçonaria tanto preza.

Na próxima parte, nos aprofundaremos em como o uso contínuo e disciplinado desses instrumentos conduz à verdadeira transmutação interior, à medida que a pedra bruta se aproxima da pedra cúbica – símbolo da plenitude do homem regenerado.

III – A Pedra Bruta

Depois de ter recebido seus instrumentos e de aprender seus usos simbólicos, o Aprendiz é então conduzido ao centro da obra: a pedra. É sobre ela que recai todo o esforço, toda a técnica e toda a intenção do trabalho maçônico. Mas não se trata de uma pedra qualquer – trata-se da Pedra Bruta, símbolo do próprio homem em estado natural, ainda não lapidado pela luz da Iniciação e pela prática da virtude.

A Pedra Bruta

A Pedra Bruta é a representação do ser humano em sua forma primitiva, carregando ainda os vícios, os impulsos, os excessos e os erros que o distanciam de sua verdadeira natureza espiritual. Ela é irregular, imperfeita e disforme – exatamente como o ego quando ainda não foi submetido à disciplina do Templo interior.

Na tradição iniciática, ela também representa o caos primordial, a matéria não organizada, o mundo profano antes da luz do GADU. Por isso, o trabalho do Aprendiz é essencialmente um trabalho sobre si mesmo, um trabalho de lapidação interior, onde cada golpe com o malho e o cinzel, remove pouco a pouco as impurezas da alma.

Mas é preciso compreender que esse trabalho não se dá de forma imediata ou mecânica. Cada aresta retirada da pedra exige reflexão, arrependimento, superação. A pedra bruta nos ensina que a evolução moral é construída com paciência, esforço e sinceridade – sem atalhos, sem máscaras, sem ilusões.

A Pedra Cúbica

A meta do Aprendiz é transformar a Pedra Bruta na Pedra Cúbica – uma figura geométrica perfeita, símbolo da harmonia, da estabilidade e da perfeição moral. Ela representa o homem que passou pela Iniciação, que venceu a si mesmo, que subjugou suas paixões, disciplinou seus pensamentos e ordenou sua vida em conformidade com a Lei Superior.

A Pedra Cúbica é também o alicerce do Templo. Nenhum edifício pode ser erguido sem pedras bem talhadas, sem matéria purificada, sem homens verdadeiramente preparados para a obra comum. Por isso, na simbologia da Loja, ela não é apenas um fim em si mesma, mas uma peça essencial na edificação coletiva da Fraternidade Universal.

Contudo, convém lembrar que mesmo a Pedra Cúbica não é o fim da jornada, mas apenas um marco – um ponto de passagem. O homem que se lapida e se ajusta à forma ideal torna-se apto a ser elevado, a receber novas luzes, novos conhecimentos, e a ser erguido para tarefas ainda mais elevadas nos Graus seguintes.

Entre o Caos e a Ordem

A Pedra Bruta e a Pedra Cúbica são arquétipos do processo de reintegração do homem. Uma representa o caos, a outra a ordem. Uma simboliza a ignorância, a outra a sabedoria. Uma está cheia de potenciais ainda não realizados; a outra expressa a concretização dos ideais mais nobres.

É nesse intervalo entre uma e outra que se desenrola o drama iniciático, o combate interior entre a Luz e as Trevas, entre o velho homem e o novo ser regenerado. E é nesse combate que o Aprendiz deve permanecer firme, silencioso e humilde, sempre recordando que o verdadeiro Templo é edificado no coração do homem.

Considerações Finais

Ao longo desta jornada simbólica pelo Grau de Aprendiz Maçom, mergulhamos nas primeiras luzes que iluminam o caminho do iniciado. Vimos que o Aprendiz não é um simples espectador dentro do Templo: ele é um operário do espírito, convocado a lapidar a si mesmo, a purificar suas intenções e a alinhar sua conduta com os princípios eternos da Verdade, da Justiça e da Fraternidade.

Cada instrumento entregue em sua iniciação carrega um sentido profundo, cada gesto ritualístico é um convite à reflexão, e cada símbolo é uma chave que abre portas interiores. Nada é aleatório. Tudo é ensinamento velado, linguagem sagrada, preparação para algo maior.

A Pedra Bruta e a Pedra Cúbica nos revelaram o drama interior do homem em busca da perfeição. O trabalho do Aprendiz é silencioso, modesto, mas essencial – pois sem base firme, nenhuma edificação se sustenta. Sem a humildade da auto lapidação, não há verdadeira elevação. Sem o domínio de si, não há liberdade real.

Mas a senda iniciática não termina aqui. Quando o Aprendiz já domina os rudimentos do ofício, quando sua pedra já apresenta faces retas e ângulos firmes, ele se torna apto a novos aprendizados, novas responsabilidades e novas luzes.

É então que ele se prepara para ascender ao Grau de Companheiro Maçom – o segundo passo na escada simbólica da Maçonaria, onde o foco se desloca da lapidação da matéria bruta para a busca da sabedoria, o domínio das ciências e a compreensão mais profunda dos mistérios da natureza e do universo.

Fonte: Círculo de Estudo Maçônico do Brasil. 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

DIA DO MAÇOM – UMA DATA PARA CELEBRAR, REFLETIR E AGIR

Amados Irmãos,

O Dia do Maçom, em 20 de agosto, é mais do que uma data comemorativa. É um momento de lembrar nossa história, honrar aqueles que nos antecederam e refletir sobre a responsabilidade que assumimos ao ingressar na Maçonaria.

A data remete à participação de Maçons nos acontecimentos que antecederam a Independência do Brasil. Mais importante do que detalhes históricos é reconhecer o essencial: desde sua origem, a Maçonaria esteve presente nos debates e transformações da sociedade brasileira.

Mais de dois séculos se passaram, e essa responsabilidade continua atual.

Vivemos um tempo de mudanças profundas. A tecnologia aproximou pessoas e trouxe novos desafios, enquanto o país ainda enfrenta problemas antigos, como desigualdade social e fragilidades na educação. Isso nos leva a uma pergunta central: qual é o papel da Maçonaria hoje?

A resposta começa na conduta de cada Maçom. Os princípios que defendemos no Templo precisam estar presentes na vida diária. Liberdade, Igualdade e Fraternidade devem se refletir em nossas atitudes com a família, os Irmãos e a sociedade.

A Maçonaria deve seguir formando homens conscientes, preparados para o diálogo, abertos ao pensamento diferente e comprometidos com a ética, a solidariedade, a educação e o respeito às leis.

O Grande Oriente do Brasil, assim como as demais Potências Maçônicas regulares do país, tem papel importante nesse processo. Fortalecer Lojas, incentivar o estudo e promover a formação dos Irmãos são caminhos essenciais para manter viva essa missão.

A grandeza da Ordem não está no número de Lojas ou membros, mas na qualidade dos homens que forma e na contribuição que eles oferecem à sociedade.

Por isso, nossas Lojas devem ser espaços de aprendizado e reflexão, e o que nelas se aprende precisa se traduzir em prática na vida.

Preservar a tradição é fundamental, mas tradição não é imobilidade. É continuidade com consciência das mudanças do mundo e abertura ao diálogo com novas gerações.

Valores como honestidade, respeito, tolerância, justiça e fraternidade permanecem indispensáveis, talvez hoje ainda mais do que antes.

Neste 20 de agosto de 2026, deixo três reflexões:

Que Maçom tenho sido?

O que minha Loja tem feito pela comunidade?

O que estamos deixando para o futuro?

Temos orgulho do passado, mas também responsabilidade com o que estamos construindo. Que nossos princípios se expressem em nossas atitudes e que a Maçonaria continue sendo uma força positiva na sociedade.

A todos os Maçons brasileiros, independentemente da Potência a que pertençam, meu abraço fraterno e um Feliz Dia do Maçom!

Que sigamos unidos, conscientes de nossa responsabilidade com a Ordem, com a sociedade e com o Brasil.

Fraternalmente,

Ademir Cândido da Silva

Grão-Mestre Geral do Grande Oriente do Brasil

 

 

O JURAMENTO E O ALTAR SAGRADO

Para enfrentar o tema, temos de definir o que é juramento e o que é o Altar onde se jura. Podemos fazer uma analogia grosseira com um contrato. Um contrato sempre é bilateral, isto é, tem duas partes, o sujeito ativo e o sujeito passivo, e é a manifestação da vontade não viciada de ambos, exteriorizando, a intenção da realização de um negócio, que gera um compromisso, onde OS interesses se cruzam: um de vender e outro de comprar.

No direito Romano o termo “pacta servanda” é o que designa a responsabilidade contratual, ou por outras palavras, informa que o contrato faz Lei entre as partes e só poderá ser alterado, com a autorização de ambas as partes.

O altar dos juramentos é o lado visível, de um outro lado invisível, onde celebramos um contrato espiritual com Deus, por assim dizer, comprometendo-nos, em presença de testemunhas, em não profanar as instruções, rituais, sinais e etc., neste ponto já podemos visualizar a bilateralidade do juramento.

O altar é equivalente às ermidas sagradas das religiões, e o seu significado primitivo e contemporâneo é uma estrada já pavimentada pelos antigos caminhantes, que conduz a transcendência subjetiva, que leva o viajante à realidade ou Deus e a obra de Deus que é o mundo, através do despertar espiritual ou consciência de si mesmo ou ainda a consciência da alma, progressivamente.

A legalidade que buscamos no altar é espiritual e a importância do juramento advém dos cânones sagrados, deixados por mentes superiores, para a humanidade, como fossem um holofote, iluminando uma plateia escura.

Um juramento é muito mais importante que um contrato, sem, todavia perder o seu caráter formal, legal, vinculante e bilateral, formal porque exigem certos ritos, legal porque são baseados em cânones sagrados e na tradição e vinculante, porque comprometem e vinculam, mas os vínculos aqui, transcendem o mundo físico, pois além de envolver conscientemente um compromisso físico, envolve um compromisso mental, psíquico e espiritual, estabelecendo um vínculo definitivo e envolvente que não pode ser rompido, pois sendo bilateral, compromete o próprio Senhor do Universo, respeitosamente designado aqui, com muita justiça, como Supremo Arquiteto do Universo. Mesmo porque, está escrito, que o que ligarmos, na terra, será ligado no céu, e o que desligarmos na terra, será desligado no céu, compreendendo-se a princípio, que este céu, pode ser, a mente do homem singular e coletivo, para depois haver um transbordamento para a mente cósmica. Este é o principal fundamento bíblico-legal e espiritual do juramento.

Quando Jesus disse: “amigo, com um beijo atraiçoas o filho do Homem”, Judas caiu em si, acordou do seu sono, dormia no ego e acordou no eu desperto, só então viu o que fez, e não teve mais paz, a vaidade, o egoísmo e a ambição exacerbados do seu ego, custou-lhe à vida, tirada por suas próprias mãos, dado o desgosto que lhe sobreveio e com o qual não podia conviver.

A traição e o perjúrio podem levar, o que não é raro, ao que assim se comporta, a um grau de arrependimento e sofrimento tamanho, que, não diferente de Judas, muitos acabam direta ou indireta, preferindo de livre consciência e por si mesmos, à morte, à vida, tamanha a vergonha da desonra, e a impossibilidade de conviver com ela, ou de perdoar a si próprio, mesmo obtendo-se o perdão do ofendido. Sabendo disso o rei dos Mestres, instruiu o homem ordinário a não jurar.

No livro de Thiago em 5-12, lemos: “Mas, sobretudo, meus irmãos, não jureis, nem pelo céu, nem pela terra, nem façais qualquer outro [juramento]; seja, porém, o vosso sim, sim, e o vosso não, não, para não cairdes em condenação.” Efetivamente, advertiu Jesus, como vimos acima, que um juramento não deve ser quebrado, se feito, instruindo inclusive a todos para que não jurem, para não caírem em condenação, se quebrado o juramento, não condenem a si mesmos, como aconteceu com Judas.

Extrai-se do texto e da conjuntura das escrituras, que queria exprimir o Mestre, que é mais fácil não jurar do que jurar, pois o juramento, se quebrado, pode levar a condenação. Jesus mais do que ninguém, sabia do que estava falando, sabia que um juramento envolve leis naturais e espirituais ou psíquicas, que pouco conhecemos, por isso, instruiu para o não jurar.

A instrução de Jesus, conforme a letra e a hermenêutica bíblica, de acordo com a lógica do novo testamento e a sua conjuntura, sintonizadas no velho testamento, não é uma proibição, é antes uma advertência seriíssima, uma exortação e um grave alerta sobre a importância espiritual ou mental, do juramento: como um sinal de trânsito, numa estrada perigosa.

Conhecendo antecipadamente, os reflexos e consequências graves, se quebrado. Judas Iscariotes, apesar de homem de personalidade forte, com excelente formação educacional e moral, tendo estudado nas melhores escolas, Rico de nascença, criado sob o regime da lei mosaica, escolhido de Jesus, quebrou o juramento e traiu o maior dos Mestres. Por que o fez? Por designo cósmico? Por ambição pessoal, já que lucrou 30 moedas de prata? Por motivos políticos? Por afastar-se dos irmãos? Por possuir uma imaginação descontrolada? Por que se permitiu cair em tentação? Ao certo não sabemos! Mas sabemos que não pôde conviver, com a sua traição, já que o assassinato de Jesus, estava tramado e seria simplesmente uma questão de dias. E mais, não foi ele, Judas que o matou.

Existem estudiosos que dão a entender, que Judas não tinha a intenção de trair Jesus, mas sim de precipitar os acontecimentos, na intenção de ver Jesus defender-se no Sinédrio, com obras milagrosas e tornar-se reconhecido em definitivo como o tão esperado Messias ou mesmo o Rei do povo hebreu.

Porém os fatos não se realizaram conforme os seus planos, Jesus deixou-se sacrificar, em cumprimento aos desígnios Cósmicos. De toda forma, tendo usado o seu livre arbítrio, precipitando os fatos, baseado num plano, sonho ou delírio, sempre imprudente do ego, e não do eu, Judas, com a escolha errada, deixando-se dominar pelo ego e não pelo eu, traiu de fato Jesus e, não suportou o fato desonroso e altamente humilhante de não ter ouvido o seu eu verdadeiro e usado da virtude da prudência, principalmente por isso suicidou-se, não podia superar ou conviver com a sua desonrosa covardia – pelo que consta, tentou em vão perdoar-se, devolvendo inclusive, as 30 moedas, mas não conseguiu.

Pessoas existem, que ficam doentes e até não raro, veem a falecer, por doenças psicossomáticas ou até, suicidam-se, por contratos celebrados no mundo profano. Sabemos que um juramento é muito mais que um contrato profano. Jesus, como sempre estava certo, é mais fácil, não jurar do que jurar.

Como legislador que foi, Jesus, não proibiu o juramento, senão o teria expressamente feito. Para não fiquem dúvidas no espírito dos irmãos maçons, que aceitam o cristianismo, como é o meu caso, sobre a questão do juramento e a legitimidade do seu uso, aqui, como juramento maçónico – a própria igreja Católica, no seu catecismo permite o juramento declarando: “Não jurar nem pelo Criador, nem pela criatura, se não for com verdade, necessidade e reverência”.

Na verdade, irmãos, o Nosso Senhor Jesus Cristo, confirmou sob juramento o seu testemunho supremo, isto é, o testemunho da sua Filiação Divina, quando o Sumo Sacerdote o conjurou a responder “pelo Deus vivo” (Mt 26,63). Por isso a Igreja declara ser lícito o juramento em assuntos de grande relevância. Daí a licitude bíblica dos juramentos: a bandeira, dos juramentos de formatura, de investidura em cargos públicos, o que não exclui o tradicional juramento maçônico. Tal prática é comum no Ocidente.

Ele – Jesus – instruiu, alertou e advertiu, que é melhor não jurar, porque sabia que a juridicidade do juramento não é da legislação profana, mas sim da lei natural transcendente, conforme vimos acima. A natureza do juramento é sempre subjetiva e espiritual. O juramento maçônico é perfeitamente fundamentado no direito natural, sendo absolutamente legítimo, em nada ilícito, em nada conflituante com a Bíblia, ou com qualquer outro livro considerado santo ou sagrado.

Na mesma ordem e para finalizar, a Maçonaria é uma instituição que não conflita com qualquer sistema filosófico, místico, espiritual, religioso, psicológico, sociológico ou legal, fundamentados na razão e aceitos modernamente, como dignos ou mesmo razoáveis.

Usamos a régua maçônica avaliamos o lado negativo do juramento, que não deve ser desprezado. E se existe um lado negativo, terá de existir um lado positivo, a régua maçônica assim nos diz, ela continua infinitamente para frente. Conforme vimos, a Maçonaria é uma instituição perfeitamente lícita e limpa, sendo uma das melhores, mais antigas e belas construções do cenário social, por consequência é uma das melhores obras humanas, para o exclusivo benefício da humanidade.

A régua maçônica mostra-nos ainda um lado que nos leva a amizade, a paz e a prosperidade, por outras palavras, ao sucesso, ao bem-estar, ao progresso, a proteção, a felicidade e porque não, até a iluminação se assim o quisermos.

Devemos procurar descobrir o lado positivo do juramento maçónico, isso exige esforço, construindo o templo interior, compenetrando-nos no estudo, e ao mesmo tempo, captando o espírito maçônico, transformando-nos pelo saber – estudando sempre ; ousando pelo fazer o possível – o bem a nós mesmos e ao próximo; e calando-nos – quanto aos nossos segredos, tornamo-nos verdadeiramente, em benfeitores de nós mesmos, das nossas famílias, dos nossos irmãos e das nossas cidades e países, sabendo separar o possível do impossível, e o primeiro passo desse caminho é envidar esforços sérios, seguidos de mais esforços, para vivermos no eu e não no ego, só assim poderemos então ser dignos do “nome” filhos da luz.

Miguel Amador, M. M., Loja Rui Barbosa nº 3419 – Sinop/MT, Brasil

Bibliografia

  • Bíblia Sagrada – Tradução do padre João Ferreira D’Almeida
  • Bíblia Sagrada – Versão Ave Maria
  • Catecismo Católico
  • “O Quarto Caminho”, P. D. Ouspenski – Ed. Pensamento
  • “Glossário Teosófico”, Helena Blavatski – Ed. Pensamento
  • “O Drama Milenar do Cristo e Anticristo”, Humberto Rohdem – Ed. Alvorada
  • “A Mensagem Viva do Cristo”, Humberto Rohden – Ed. Alvorada
  • Código Civil Brasileiro – Actual – ed. Saraiva
  • “Vocabulário Jurídico”, Plácido e Silva – ed. Forense
  • “Valores Humanos Num Mundo em Mutação”, Daisaku Ikeda e Bryan Wilson – Record
  • “O Buda Vivo”, Daisaku Ikeda – ed. Record
  • “A Vida de Maomé” – Círculo do Livro

 


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

PARA QUE OS TRÊS PONTINHOS?

Talvez o primeiro ponto a ser tratado acerca desse assunto seja a origem. Contudo, permita-me me abster, pois já li e ouvi as mais diversas “certezas” de destacados Mestres Maçons que chegaram a me despertar a dúvida sobre o real conhecimento maçônico. Então, simplesmente afirmo: “só sei que nada sei”.

Mantras, orações, movimentos corporais, gestos, pensamentos repetidos, visualizações e audições foram criados pelo homem como elementos de gatilho mental a despertá-lo, motivá-lo ou conectá-lo a um propósito ou uma ideia.

Difícil fazer o Sinal da Cruz sem algum vínculo religioso, assim como bater palmas sem a sensação de regozijo. Assim, as sociedades vão criando elementos de vinculação destes com o grupo e do grupo com estes.

Outro detalhe é que não há “por que”, “por quê”, “porque” ou “porquê” dos Três Pontinhos, uma vez que eles não estão vinculados a alguma resposta que se encaixe na “razão”, “por qual motivo”, “pelo qual”, “já que” ou “visto que”.

O TRI-PONTO NÃO É RESPOSTA.
É GATILHO MENTAL DE PERGUNTA.

Pode parecer sem nexo, mas lembre-se de que estamos sempre trabalhando com símbolos e alegorias. Portanto, responda a três perguntas:

1. Quando você usa o tri-ponto?

2. Onde você usa o tri-ponto?

3. O que você faz após usar o tri-ponto?

Na maioria das vezes, as respostas serão:

1. Quando você usa o tri-ponto? = Quando assino um documento!

2. Onde você usa o tri-ponto? = Após minha assinatura em um documento!

3. O que você faz após usar o tri-ponto? = Guardo o determinado documento!

Importante entendermos o que, de fato, seja “um documento”. Desse modo, precisamos resgatar o sentido exato do termo, pois a palavra deriva do latim documentum, representando “lição”, “prova” ou “demonstração”.

Quando a vida lhe dá a oportunidade de lecionar, de provar ou de demonstrar que você foi iniciado em nossos Augustos Mistérios e é guiado pelos Sãos Princípios da Maçonaria, antes de colocar seu ne varietur (expressão em latim que significa “para que nada seja mudado”), você se pergunta:

Há VONTADE (ânimo/coragem), INTELIGÊNCIA (aprendizado/raciocínio/planejamento) e SABEDORIA (entendimento da realidade) para e no cumprimento da minha palavra?

A ASSINATURA MAÇÔNICA É A EXPRESSÃO GRÁFICA DA PALAVRA DADA PELO MAÇOM, E NOSSA PALAVRA NÃO PODE VARIAR.

E não basta cumprir apenas um dos pontinhos, pois o Maçom dotado apenas da vontade é um verdadeiro bruto; se for usar apenas a inteligência, será o pior dos egoístas; e se acreditar que o amor é a máxima da sabedoria, tornar-se-á apenas um grande assistencialista, condição extremamente nociva ao progresso da sociedade.

Finalizo com o alerta sobre o pensamento comum dos que acham que colocar os três pontinhos de tinta em um papel lhes dará admiração. É o homem que segura a caneta que deve despertar respeito.

Duas décadas de compartilhamento do que aprendi com o único propósito de ofertar às Lojas material para o QUARTO DE HORA DE ESTUDO, ATIVIDADE OBRIGATÓRIA DE UMA LOJA MAÇÔNICA, e uma salutar provocação dominical aos amados Irmãos. São artigos curtos e objetivos, a fim de dar espaço à pesquisa, entre o pouco que sei e o muito que desejo que os Irmãos se aprofundem sobre os temas.

Fraternalmente

Sérgio Quirino

 

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

MAÇONARIA: SERVIR OU USUFRUIR?

Imagino que, de pronto, parte dos leitores responderia que estamos na Maçonaria para servir, e nunca para usufruir. O que pode parecer, e até mesmo ser, um rompante sanfranciscano de idealistas maçônicos.

Em hipótese alguma há uma crítica, apenas o desejo semanal de provocar reflexões e lembrar aos Irmãos nossa condição de, em matéria, sermos imperfeitos. Por isso, a Tolerância e a Temperança constituem virtudes trabalhadas na Maçonaria.

TOLERÂNCIA SOBRETUDO CONSIGO MESMO, POIS, COM O OUTRO, PODE DESENCADEAR NOCIVA CONIVÊNCIA.


Sim, precisamos de uma dose de tolerância pessoal. Uns chamam de “autoestima”, outros, de “amor-próprio”. Sendo assim, de forma despreocupada, sirva e também usufrua da Maçonaria.

A realidade pejorativa de usufruir, no sentido de tirar proveito de algo, acontece em menos de 10% de nosso quadro. Faça uma varredura mental pelas colunas e, decerto, encontrará um, dois, três ou quatro usurpadores da Justiça e da Perfeição. Contudo, os outros 90% são doadores de Beleza, Força e Sabedoria.

E, assim, compreendemos quão relevante é servir e usufruir:

SERVIR DE BOM EXEMPLO PARA OS DE MÁ CONDUTA.
USUFRUIR DOS DE BOA CONDUTA PARA NÃO SERMOS MAU EXEMPLO.


Usufruir, derivado de “usufruto”, significa desfrutar, aproveitar os frutos sem alterar a frutífera. Imaginemos que cada Irmão é uma semente de Romã, que a Loja seja a Romã e a Maçonaria, a romãzeira.

Cada Irmão (semente) serve e usufrui da Loja (romã) a qual, por sua vez, serve e usufrui da Maçonaria (romãzeira). Tal alegoria simbólica da harmonia social é explícita na diversidade estrutural das sementes, que se apoiam mutuamente, dando forma à romã (Loja), e uma romãzeira carregada dá potência à Maçonaria.

Em essência, romãzeira, romã e sementes são a mesma “substância”, assim como a Maçonaria, a Loja Maçônica e o Maçom são expressões e manifestações dos mesmos Princípios. Estes vão se multiplicando, não obstante as sementes secas, as romãs rachadas e as romãzeiras mau plantadas.

O entendimento do “servir/usufruir” é essencial, posto que as maiores instruções maçônicas não estão grafadas nas páginas dos Rituais. Elas são transmitidas na convivência. No estarmos lado a lado, sabemos que, em âmbito histórico, a Maçonaria iniciou seus trabalhos ao redor de uma mesa. Percebam o quão significativo é estarmos todos ombreados, no mesmo nível, servindo e usufruindo dos alimentos, da matéria, da alma e do espírito.

Se houver ainda alguma relutância quanto a essa linha de pensamento, peço aos Irmãos que reflitam sobre o relacionamento conjugal. Tem futuro um casal em que apenas um quer servir ou quer apenas usufruir? A perpetuidade da relação Maçom/Maçonaria estará sempre garantida quando bem aplicada a Virtude da Temperança.

Duas décadas de compartilhamento do que aprendi com o único propósito de ofertar às Lojas material para o QUARTO DE HORA DE ESTUDO, ATIVIDADE OBRIGATÓRIA DE UMA LOJA MAÇÔNICA, e uma salutar provocação dominical aos amados Irmãos. São artigos curtos e objetivos, a fim de dar espaço à pesquisa, entre o pouco que sei e o muito que desejo que os Irmãos se aprofundem sobre os temas.

Fraternalmente

Sérgio Quirino

 

 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

A MAÇONARIA É UMA ESCOLA DE AUTONOMIA E RESPONSABILIDADE?

À medida que a inteligência artificial influencia cada vez mais as decisões humanas, a questão da capacidade de agir nunca foi tão importante. A Maçonaria ainda cultiva a responsabilidade, o discernimento, o autogoverno e a participação? Este artigo analisa se a Ordem continua sendo uma escola singular de formação da capacidade de agir em uma época definida pela automação, pela conveniência e pela delegação.

 

Em uma era de algoritmos, automação e consumo passivo, a Maçonaria ainda ensina os homens a governarem a si mesmos?

 

À medida que a inteligência artificial nos auxilia cada vez mais a pensar, escolher e decidir, surge uma nova questão cívica: estamos nos tornando mais capazes ou apenas mais dependentes?

 

Se a capacidade de agir — isto é, a aptidão para exercer o discernimento, assumir responsabilidades e participar de maneira significativa da sociedade — está se tornando um dos principais desafios de nossa época, a Maçonaria talvez tenha um papel inesperado a desempenhar. A questão é saber se nossas Lojas ainda estão cultivando essa capacidade.

 

Há um curioso paradoxo no centro da vida moderna.

 

Nunca os seres humanos dispuseram de tantas ferramentas destinadas a tornar a vida mais fácil. Os sistemas de navegação nos dizem aonde ir. Os algoritmos nos dizem o que ler. Os mecanismos de recomendação sugerem o que assistir. A inteligência artificial já consegue redigir relatórios, resumir pesquisas, gerar ideias e, cada vez mais, auxiliar em decisões que antes exigiam o discernimento humano.

 

Esses avanços proporcionam enormes benefícios. Poucos estariam dispostos a abandoná-los voluntariamente.

 

Entretanto, sob essa conveniência, esconde-se uma questão mais profunda:

 

O que acontece quando deixamos de exercitar justamente as capacidades que essas tecnologias desempenham cada vez mais em nosso lugar?

 

Essa questão não diz respeito propriamente à inteligência artificial. Diz respeito à capacidade humana de agir. E talvez seja uma das questões mais importantes que a Maçonaria enfrenta atualmente.

 

“A questão central da era da inteligência artificial talvez não seja se as máquinas se tornarão agentes, mas se os seres humanos continuarão a sê-lo.”

 

O QUE QUEREMOS DIZER COM CAPACIDADE DE AGIR?

 

A palavra agency tornou-se frequente nas discussões sobre liderança, educação, psicologia e tecnologia. No entanto, muitas vezes é utilizada de maneira imprecisa.

 

A capacidade de agir não é apenas liberdade. Não significa simplesmente ter escolhas. Tampouco é sinônimo de independência.

 

Ela pode ser mais bem compreendida como a capacidade disciplinada de exercer o discernimento, assumir responsabilidades e agir intencionalmente no mundo.

 

Uma pessoa pode desfrutar de muitas liberdades e, ainda assim, exercer muito pouca capacidade de ação. Da mesma forma, alguém pode dispor de inúmeras opções, mas permitir que as circunstâncias, os hábitos, as instituições ou os algoritmos determinem a maior parte de suas decisões.

 

A capacidade de agir propõe uma pergunta diferente.

  • Não: Do que sou livre?
  • Mas: Pelo que sou responsável?

Historicamente, as sociedades livres dependeram de cidadãos capazes de governar a si mesmos. Esses indivíduos não apenas desfrutam da liberdade. Eles possuem a disciplina, o discernimento e o senso de responsabilidade necessários para utilizá-la com sabedoria.

 

A preocupação atual não é que a liberdade esteja desaparecendo.

 

A preocupação é que a participação esteja.

 

Cada vez mais, sistemas agem em nosso nome. As decisões são recomendadas, filtradas, classificadas, automatizadas e otimizadas. O perigo não está na dominação tecnológica, mas na delegação gradual. A responsabilidade é abandonada uma decisão de cada vez.

 

O resultado pode ser uma mudança sutil da participação para a conformidade.

 

E, se a capacidade de agir se desenvolve por meio de seu exercício, o que acontece quando ela deixa de ser praticada regularmente?

 

UMA RELEVÂNCIA INESPERADA

 

É nesse ponto que a Maçonaria entra na discussão.

 

Há gerações, os maçons falam sobre aperfeiçoamento moral, desenvolvimento pessoal e sobre “tornar homens bons ainda melhores”. Entretanto, essas expressões familiares às vezes ocultam uma questão mais prática:

 

O que exatamente a Maçonaria prepara os homens para fazer?

 

A resposta talvez esteja menos naquilo que a Maçonaria ensina e mais naquilo que ela exige.

 

Diferentemente de muitas organizações contemporâneas, a Maçonaria é essencialmente participativa.

 

Um homem solicita seu ingresso.

 

Ele assume obrigações voluntariamente.

 

Aceita responsabilidades.

 

Torna-se responsável perante seus pares.

 

Participa da administração da instituição.

 

Aprende a servir a instituições maiores do que ele próprio.

 

Sob essa perspectiva, a Maçonaria começa a se assemelhar a algo maior do que uma sociedade fraternal.

 

Ela se assemelha a um espaço de formação da capacidade de agir.

 

“Os indivíduos tornam-se responsáveis ao assumirem responsabilidades. Tornam-se dignos de confiança quando alguém confia neles.”

 

O CURRÍCULO OCULTO DA LOJA

 

A maioria das discussões sobre a Maçonaria concentra-se no ritual, no simbolismo, na história ou na fraternidade.

 

Todos esses aspectos são importantes.

 

Entretanto, talvez não constituam a contribuição mais significativa da instituição. O currículo oculto da vida em Loja é a participação.

 

Consideremos o que uma Loja saudável exige de seus membros.

 

Os Oficiais preparam-se e desempenham suas funções.

 

As comissões deliberam e organizam.

 

Os membros debatem propostas.

 

Os Irmãos orientam os candidatos.

 

Os Tesoureiros administram os recursos.

 

Os Veneráveis Mestres coordenam voluntários, e não funcionários.

 

Nenhuma dessas atividades é extraordinária.

 

E esse é justamente o ponto.

 

A capacidade de agir desenvolve-se por meio de responsabilidades comuns, assumidas de maneira constante.

 

O Mestre de Banquetes aprende a ser confiável.

 

O Diácono aprende a executar.

 

O Vigilante aprende a liderar.

 

O Venerável Mestre aprende a governar.

 

Historicamente, o sistema progressivo de cargos funcionava como um aprendizado da responsabilidade. Seu objetivo não era apenas assegurar a sucessão. Era formar o indivíduo.

 

Saber se todas as Lojas ainda cumprem essa finalidade é outra questão. Mas o mecanismo continua existindo.

 

A DIFERENÇA ENTRE PRESERVAÇÃO E FORMAÇÃO

 

Essa distinção talvez seja uma das mais importantes para a Maçonaria contemporânea.

 

Uma instituição pode preservar suas estruturas por muito tempo depois de deixar de produzir as capacidades que essas estruturas foram concebidas para desenvolver.

 

As escolas podem preservar as salas de aula sem formar cidadãos instruídos.

 

As religiões podem preservar os rituais sem formar crentes.

 

As democracias podem preservar as eleições sem formar cidadãos participativos.

 

Da mesma forma, a Maçonaria pode preservar suas formas sem necessariamente desenvolver a capacidade de agir.

 

A pergunta, portanto, precisa ser reformulada.

 

Não basta perguntar se as Lojas possuem mecanismos capazes de desenvolver essa capacidade. Evidentemente, a maioria possui.

 

A pergunta mais exigente é saber se esses mecanismos ainda funcionam conforme o pretendido.

 

As obrigações geram comprometimento?

 

Os cargos desenvolvem a liderança?

 

As comissões cultivam a participação?

 

Os candidatos tornam-se colaboradores?

 

Ou os membros vivenciam cada vez mais a vida em Loja como observadores, e não como participantes?

 

Essas perguntas são desconfortáveis. Também são necessárias.

 

A AVALIAÇÃO DA CAPACIDADE DE AGIR

 

Talvez cada Loja devesse realizar periodicamente aquilo que poderíamos chamar de uma “avaliação da capacidade de agir”. Não uma auditoria financeira, mas uma avaliação da participação.

 

As perguntas poderiam incluir:

 

Quantos membros possuem responsabilidades significativas?

 

Quantos Irmãos mais novos estão sendo preparados para a liderança?

 

Até que ponto o processo decisório é distribuído?

 

Quantos membros orientam ativamente outros Irmãos?

 

Com que frequência as responsabilidades são delegadas, em vez de ficarem concentradas?

 

Os cargos estão formando homens ou apenas preenchendo vagas?

 

As respostas podem revelar mais sobre a saúde de uma Loja do que apenas os números de frequência.

 

Muitas Lojas já reconhecem um padrão familiar.

 

Um grupo relativamente pequeno de Irmãos assume a maior parte das responsabilidades.

 

Os mesmos nomes aparecem nas comissões.

 

Os mesmos homens organizam os eventos.

 

Os mesmos indivíduos resolvem os problemas.

 

Esse fenômeno não é exclusivo da Maçonaria. Ele ocorre em todas as associações voluntárias. A questão é saber se uma Loja está formando sucessores ou apenas dependendo dos veteranos.

 

Uma escola da capacidade de agir deve produzir continuamente novos participantes, novos líderes e novos guardiões da instituição.

 

PARA ALÉM DO TEMPLO

 

Evidentemente, a capacidade de agir dentro da Loja só tem importância se for levada para além dela. O verdadeiro teste não é o que acontece durante as reuniões.

 

É o tipo de participante que a Maçonaria devolve à sociedade.

 

Um maçom que governa a si mesmo com maior eficácia.

 

Um marido e pai que compreende a responsabilidade de cuidar.

 

Um profissional que assume responsabilidades, em vez de evitá-las.

 

Um cidadão capaz de participar, e não apenas de fazer comentários.

 

Esses resultados são difíceis de medir. Entretanto, talvez constituam o argumento mais forte em favor da contínua relevância da Maçonaria.

 

A Loja não é o destino. É o ambiente de formação.

 

Sua importância não está apenas naquilo que acontece dentro de suas paredes, mas naquilo que os membros levam consigo para além delas.

 

UM DESAFIO PARA O FUTURO

 

A Maçonaria frequentemente se pergunta se ainda é relevante. Talvez essa seja a pergunta errada.

 

A pergunta mais útil talvez seja se a sociedade necessita cada vez mais das capacidades que a Maçonaria foi originalmente concebida para cultivar.

 

Responsabilidade.

 

Autogoverno.

 

Zelo pelo que nos é confiado.

 

Liderança.

 

Discernimento.

 

Participação.

 

Essas capacidades não parecem estar na moda nem são fáceis de desenvolver. Na verdade, elas contrariam muitas tendências contemporâneas.

 

A conveniência estimula a delegação.

 

A cultura do consumo estimula a passividade.

 

A tecnologia recompensa cada vez mais a eficiência em detrimento da participação.

 

A capacidade de agir exige algo mais difícil.

 

Exige que os indivíduos permaneçam responsáveis.

 

Não apesar da complexidade, mas dentro dela.

 

Não apesar das poderosas ferramentas, mas enquanto as utilizam.

 

Não apesar das mudanças nas circunstâncias, mas justamente por causa delas.

 

Talvez isso explique por que a questão da capacidade de agir pareça tão inesperadamente atual. O desafio enfrentado pela sociedade não é apenas tecnológico. É humano.

 

O futuro talvez dependa menos daquilo que as máquinas serão capazes de fazer e mais daquilo que os seres humanos continuarão dispostos a fazer por si mesmos.

 

Se isso for verdade, a Maçonaria talvez possua algo cada vez mais raro.

 

Não porque preserve antigas tradições, mas porque, em sua melhor expressão, preserva oportunidades para que os homens pratiquem o autogoverno.

 

Saber se as Lojas contemporâneas ainda funcionam dessa maneira é uma questão em aberto.

 

É também uma questão que merece ser discutida.

 

Pois, se a Maçonaria for realmente uma escola da capacidade de agir, sua relevância talvez esteja apenas começando a se revelar.

 

Nota

 

Autor: Nicholas J Broadway

 

Fonte: The Square Magazine

 

*A tradução do texto original foi realizada com o auxílio de IA.

 


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