MAÇÔNICO DO REAA
INTRODUÇÃO
O Painel da Loja de Aprendiz
Maçom é um compêndio de profunda carga simbólica, essencial para o neófito em
sua jornada de autoconhecimento e aprimoramento (FREEMASON, 2020). Entre os
diversos emblemas e ferramentas que constam dentro do painel, se destaca a
Prancheta de Delinear— também denominada Tábua de Traçar, Prancha de Desenhar
ou Tábua de Delinear.
Quais mistérios essa prancheta
reserva mediante os sinais nela gravados?
DESENVOLVIMENTO
As grandes construções da
Maçonaria Operativa na Europa Medieval, tinham base na discreta comunicação
entre mestres e aprendizes através de instrumentos simples, porém dotados de
profundo significado implícito. Entre eles, destacava-se a tábua de delinear,
superfície onde o Mestre traçava, com carvão ou giz, o plano da obra a ser
construída.
Essa tábua, muitas vezes
improvisada sobre o chão de pedra ou sobre um tampo de madeira, era o espaço
sagrado da criação — o local onde o pensamento se convertia em forma e onde a
geometria dava corpo à matéria. O desenvolvimento das guildas medievais, que
abrigavam os pedreiros construtores, é o ponto de partida para a história e a
base dos instrumentos da Ordem (GOULD, 1883).
Esses traçados, muitas vezes
realizados no solo, e apagados ao término do labor diário, representavam não
apenas instruções técnicas, mas também um elo entre o saber humano e o divino.
Cada linha desenhada evocava a harmonia universal, pois o ato de traçar era,
para o pedreiro medieval, uma forma de participar da própria ordem da Criação.
Assim, a tábua não era
apenas um suporte de trabalho, mas um símbolo de planejamento, medida e
consciência. A Maçonaria, em toda sua essência, utiliza metáforas de geometria
e arquitetura de pedra para informar sua busca contínua de conhecimento, ética
e habilidades de liderança. (MASONS OF CALIFORNIA, [s.d.]).
Com o avanço dos séculos e a
consolidação das corporações de ofício, os maçons operativos passaram a
substituir os desenhos efêmeros do chão por pranchetas portáteis — tábuas
cobertas por pano ou couro, que podiam ser guardadas e transportadas. Nelas
eram traçados, com maior precisão, os planos das construções e os sinais que
identificavam o trabalho de cada artífice. Surgiram, então, as marcas de pedreiro
— pequenos símbolos gravados nas pedras ou reproduzidos na prancheta, destinados
a individualizar o labor de cada obreiro e garantir-lhe o reconhecimento devido.
Essas marcas, simples cruzes, estrelas, ângulos ou combinações geométricas, representavam
a identidade simbólica de cada construtor diante do Grande Projeto coletivo
(GOULD, 1883).
A transição
No século XVII, com o
declínio da necessidade de grandes obras como castelos, igrejas e fortalezas
devido ao progresso da tecnologia na construção provocou o declínio da
construção em pedra no final da Idade Média, e com ele a queda gradual do
ofício de pedreiro e as lojas operativas. Este declínio fragilizou o modelo
estrito de guilda operativa (STRONG MAN LODGE, 2025)
Em consequência dessa
evolução, essas organizações, já com menos ênfase na atividade física, passaram
a admitir membros que não eram mais pedreiros operativos, e sim apenas pessoas
interessadas em moral, filosofia e sociabilidade — iniciando a transição para a
chamada maçonaria especulativa.”” Esta transição gradual marcou a transformação
da Maçonaria de uma guilda de trabalhadores para uma fraternidade filosófica””
(MAÇONS ESOTÉRICOS, 2023).
As guildas começaram a ter a
abordagem cada vez menos operativa e mais especulativa e a tábua e a prancheta deixaram
de servir à construção material e passaram a operar no plano espiritual e moral.
O que antes era desenho de
paredes e pilares converteu-se em arquitetura interior. Os painéis ou quadros
eram usados no início da maçonaria especulativa, quando os templos ainda não
existiam, para demarcar o local onde os maçons se reuniam; (RECHE, [s.d.]). A
antiga tábua de madeira transformou-se no Painel do Aprendiz, o “Tracing
Board”, sobre o qual se dispõem os símbolos do grau: o Esquadro, o Compasso, a
Pedra Bruta, Pedra Cúbica, as Três Janelas, o Pavimento Mosaico, a Prancheta de
Delinear, entre outros.
No Rito Escocês Antigo e
Aceito (REAA), dentro do painel do Aprendiz, existe a Prancheta de Delinear (ou
Tábua) conforme figura 1, e que está localizada no Oriente, junto à Janela do
Mestre, servindo como espaço simbólico de planejamento e orientação da obra.
Essa Prancheta, de forma retangular, apresenta duas inscrições geométricas:
uma cerquilha (jogo da
velha) e um “X” (UNIVERSO MAÇÔNICO, [s.d.]). Esses sinais, outrora marcas de
pedreiro, foram reinterpretados como a Cifra Maçônica ou Cifra Pigpen, código
secreto usado para preservar o mistério e a comunicação reservada entre irmãos.
De fato, a adoção do
alfabeto maçônico parece ser uma inovação francesa que surgiu logo após a
introdução da maçonaria na França. Ela rapidamente fez muito sucesso e foi
publicada em muitas divulgações; (MANGUY, 2013). Assim, a marca que distinguia
o trabalho material tornou-se a assinatura espiritual do iniciado.
CONCLUSÃO
A tábua de traçar,
originalmente utilizada por pedreiros operativos como superfície para
delineamento de projetos arquitetônicos (MACKAY, 1898), assumia funções
práticas nas guildas medievais. Com a transição para a maçonaria especulativa no
século XVIII, esse instrumento foi ressignificado simbolicamente, passando a representar
os planos morais e espirituais traçados pelo “Grande Arquiteto” (SCOTTISH RITE,
2020). A terminologia também evoluiu: de trestle board (quadro de planejamento
físico) para tracing board (painel instrutivo e ritualístico) (PRICHARD, 1730
apud BERESINER, 2005), refletindo a mudança do ofício material para o ensinamento
simbólico no contexto ritual das lojas maçônicas modernas.
A antiga trestle board hoje
se tornou o Painel do Aprendiz, e permanece no coração do templo maçônico como
um símbolo de criação e propósito. Nela, o Aprendiz aprende que cada traço é um
pensamento, cada medida é uma virtude, e cada marca é o testemunho do esforço
pessoal na edificação do Templo interior.
O Aprendiz Maçom deve
trabalhar e estudar para adquirir o conhecimento do simbolismo de seu grau e sua
aplicação e interpretação filosófica; (RECHE, [s.d.]). Da pedra ao espírito, da
prancheta à consciência, a Tábua continua a ser o espelho da evolução humana —
onde o homem, traçando sua própria obra, busca aperfeiçoar-se à semelhança do
Grande Arquiteto do Universo.
REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO
BERESINER, Yasha. Tracing
Boards: Origins, History & Symbolism. Freemasons- Freemasonry.com,
2005. Disponível em: https://www.freemasons-freemasonry.com/beresiner4.html?utm_source
BOUCHER, Jules. La
Symbolique Maçonnique. Paris: Dervy, 1953. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=su0- 1HAZLDamp;printsec=frontcover#v=onepage&q&f=false
FREEMASON. O Painel do Grau
de Aprendiz. Freemason.pt, 29 mar. 2020. Disponível em: https://www.freemason.pt/o-painel-do-grau-de-aprendiz/.
GOULD, Robert Freke. The Concise History of Freemasonry. Nova York: Charles
Scribner’s Sons, 1883.
Disponível em: https://linfordresearch.info/fordownload/Other%20Books/Gould%20Concise%20Histor
y%201951.pdf
MACKAY, Albert G.
Encyclopedia of Freemasonry. New York: Masonic History Company, 1898.
Disponível em: https://ia804509.us.archive.org/26/items/historyoffreemas07mack/historyoffreemas07m
ack.pdf
MAÇONS ESOTÉRICOS. Uma
História Completa da Maçonaria: Das Guildas
Antigas às Lojas Modernas,
2023. Disponível em: https://esotericfreemasons.com/masonic-degrees/oldest-masonic-symbol-
found/?utm_source
MANGUY, Irène. O alfabeto
maçônico: mensagem codificada, o legado do quadrado mágico do mundo antigo.
2013. Disponível em: https://www.fm-mag.fr/article/611/l%E2%80%99alphabet-ma%C3%A7onnique-
message-cod%C3%A9-h%C3%A9ritage-du-carr%C3%A9-magique-de- l%E2%80%99antiquit%C3%A9
MASONS OF CALIFORNIA.
Símbolos da Maçonaria. [S.l.]: [s.n.], [s.d.]. Disponível em: https://freemason.org/pt/freemasonry-symbols/.
PIKE, Albert. Morals and
Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite. [S.l.], s.d. Disponível em: https://archive.org/details/moralsdogmaofanc00pike_0.
PRITCHARD, Samuel. Masonry
dissected: by Samuel Pritchard. Printed for J. Wilford at the Three Flowered
Laces behind the Chapter Homes near St. Paul’s, 1730. 22 p. Disponível em: https://www.godtremari.it/wp-content/uploads/2021/04/1730.-Masonry- Dissected-ENG.pdf.
RECHE, Carlos E. G. O Painel
do Grau de Aprendiz. [S.l.]: [s.n.], [s.d.]. Disponível em: https://www.lojamad.com.br/index.php/eventos/item/184-o-painel-do-grau-de-aprendiz.
SCOTTISH RITE. Trestle and Tracing Boards: The Freemason’s Blueprint. Scottish Rite, Northern Masonic Jurisdiction, 2020. Disponível em: https://scottishritenmj.org/blog/masonic-trestle-tracing- oards?utm_source
STRONG MAN LODGE, Nossos
primeiros dias. 2025. Disponível em: https://www.strongmanlodge.org.uk/history/?utm_source
UNIVERSO MAÇÔNICO. Os
Painéis do REAA do Grau de Aprendiz. [S.l.]: [s.n.], [s.d.]. Disponível em: https://www.revistauniversomaconico.com.br/tempo-de-estudos/os-paineis-do-reaa-do-
MÜLLER, M. C. (2025) - Aprendiz
Maçom
