Religião e Maçonaria nascem do
mesmo ponto original: a inquietação humana diante do mistério. Ambas procuram
responder à pergunta fundamental — de onde venho, quem sou, para onde vou? —
mas fazem-no por vias distintas, quase opostas na forma, ainda que não
necessariamente no fim.
A religião estrutura-se a partir
da revelação. Parte de uma verdade transmitida, fixada na palavra, no livro, no
dogma. Organiza a relação com o sagrado através da crença, do culto e da
pertença. A sua força reside na capacidade de criar comunidade, sentido
partilhado, narrativa comum. O seu risco está em confundir o símbolo com a
realidade, a mediação com o absoluto, a obediência com a consciência.
A Maçonaria, pelo contrário,
estrutura-se a partir da iniciação. Não transmite verdades finais; propõe
experiências simbólicas. Não exige fé; exige trabalho sobre si. Não define
Deus; aponta para um Princípio, deixando à consciência de cada um a forma de o
nomear. Onde a religião afirma, a Maçonaria sugere; onde a religião prescreve,
a Maçonaria simboliza.
Do ponto de vista simbólico, a
diferença é clara: a religião eleva o olhar para o céu; a Maçonaria baixa-o
para a pedra. Uma fala da salvação da alma; a outra da construção do homem. Uma
promete redenção; a outra exige lapidação. Não são caminhos rivais, mas planos
distintos.
A confusão começa quando a
religião pretende ser iniciática sem o ser, ou quando a Maçonaria é lida como
religião alternativa — erro frequente de críticos e de alguns entusiastas. A
Maçonaria não substitui o sagrado religioso nem o combate; trabalha antes num
plano ético, simbólico e antropológico, anterior a qualquer confissão. Por isso
pode acolher homens de diferentes crenças sem lhes pedir renúncia.
Historicamente, a tensão entre
ambas nasce quando a religião institucional se sente ameaçada por um espaço
onde a consciência não é tutelada. A Maçonaria afirma a liberdade interior, o
uso da razão, a dignidade do símbolo. Não nega Deus; recusa falar em nome de
Deus. Esse silêncio ativo é, talvez, a sua maior heresia aos olhos do dogma.
Inicialmente, a religião tende a
oferecer um caminho vertical — do homem para o divino — mediado por uma
autoridade espiritual. A Maçonaria propõe um caminho horizontal e circular — do
homem para si mesmo, e deste para a humanidade. O divino, se existir,
manifesta-se como ordem, harmonia, lei moral inscrita no coração do ser humano.
Num tempo em que as religiões
perdem autoridade simbólica e a espiritualidade se fragmenta, a Maçonaria
permanece como um espaço raro de trabalho simbólico não dogmático. Não promete
sentido; constrói-o. Não impõe valores; exercita-os. Não oferece certezas;
educa para a dúvida fecunda.
Religião e Maçonaria não se
anulam. A religião pode nutrir o sentido do transcendente; a Maçonaria
disciplina a ética da ação. Quando separadas, empobrecem; quando confundidas,
pervertem-se.
Talvez o equilíbrio esteja aqui:
uma religião que volte a ser simbólica e humilde, e uma Maçonaria que permaneça
fiel à sua vocação discreta de escola de humanidade. Não para salvar almas, mas
para formar homens justos, conscientes e livres — capazes, talvez, de tornar o
mundo um lugar um pouco menos indigno do mistério que o habita.
Porque, no fim, não foram as
religiões que falharam totalmente.
Falhou o esquecimento de que o
caminho é sempre interior, e que nenhum deus substitui a responsabilidade de
tornar-se humano.
Rui Calado
