|
À medida que a inteligência artificial influencia cada vez
mais as decisões humanas, a questão da capacidade de agir nunca foi tão
importante. A Maçonaria ainda cultiva a responsabilidade, o discernimento, o
autogoverno e a participação? Este artigo analisa se a Ordem continua sendo
uma escola singular de formação da capacidade de agir em uma época definida
pela automação, pela conveniência e pela delegação. |
|
Em uma era de algoritmos, automação e consumo passivo, a
Maçonaria ainda ensina os homens a governarem a si mesmos? |
|
À medida que a inteligência artificial nos auxilia cada
vez mais a pensar, escolher e decidir, surge uma nova questão cívica: estamos
nos tornando mais capazes ou apenas mais dependentes? |
|
Se a capacidade de agir — isto é, a aptidão para exercer o
discernimento, assumir responsabilidades e participar de maneira
significativa da sociedade — está se tornando um dos principais desafios de
nossa época, a Maçonaria talvez tenha um papel inesperado a desempenhar. A
questão é saber se nossas Lojas ainda estão cultivando essa capacidade. |
|
Há um curioso paradoxo no centro da vida moderna. |
|
Nunca os seres humanos dispuseram de tantas ferramentas
destinadas a tornar a vida mais fácil. Os sistemas de navegação nos dizem
aonde ir. Os algoritmos nos dizem o que ler. Os mecanismos de recomendação
sugerem o que assistir. A inteligência artificial já consegue redigir
relatórios, resumir pesquisas, gerar ideias e, cada vez mais, auxiliar em
decisões que antes exigiam o discernimento humano. |
|
Esses avanços proporcionam enormes benefícios. Poucos
estariam dispostos a abandoná-los voluntariamente. |
|
Entretanto, sob essa conveniência, esconde-se uma questão
mais profunda: |
|
O que acontece quando deixamos de exercitar justamente as
capacidades que essas tecnologias desempenham cada vez mais em nosso lugar? |
|
Essa questão não diz respeito propriamente à inteligência
artificial. Diz respeito à capacidade humana de agir. E talvez seja uma das
questões mais importantes que a Maçonaria enfrenta atualmente. |
|
|
O QUE QUEREMOS DIZER COM CAPACIDADE DE AGIR? |
|
A palavra agency tornou-se frequente nas
discussões sobre liderança, educação, psicologia e tecnologia. No entanto,
muitas vezes é utilizada de maneira imprecisa. |
|
A capacidade de agir não é apenas liberdade. Não significa
simplesmente ter escolhas. Tampouco é sinônimo de independência. |
|
Ela pode ser mais bem compreendida como a capacidade
disciplinada de exercer o discernimento, assumir responsabilidades e agir
intencionalmente no mundo. |
|
Uma pessoa pode desfrutar de muitas liberdades e, ainda
assim, exercer muito pouca capacidade de ação. Da mesma forma, alguém pode
dispor de inúmeras opções, mas permitir que as circunstâncias, os hábitos, as
instituições ou os algoritmos determinem a maior parte de suas decisões. |
|
A capacidade de agir propõe uma pergunta diferente. |
- Não: Do
que sou livre?
- Mas: Pelo
que sou responsável?
|
Historicamente, as sociedades livres dependeram de
cidadãos capazes de governar a si mesmos. Esses indivíduos não apenas
desfrutam da liberdade. Eles possuem a disciplina, o discernimento e o senso
de responsabilidade necessários para utilizá-la com sabedoria. |
|
A preocupação atual não é que a liberdade esteja
desaparecendo. |
|
A preocupação é que a participação esteja. |
|
Cada vez mais, sistemas agem em nosso nome. As decisões
são recomendadas, filtradas, classificadas, automatizadas e otimizadas. O
perigo não está na dominação tecnológica, mas na delegação gradual. A
responsabilidade é abandonada uma decisão de cada vez. |
|
O resultado pode ser uma mudança sutil da participação
para a conformidade. |
|
E, se a capacidade de agir se desenvolve por meio de seu
exercício, o que acontece quando ela deixa de ser praticada regularmente? |
|
UMA RELEVÂNCIA INESPERADA |
|
É nesse ponto que a Maçonaria entra na discussão. |
|
Há gerações, os maçons falam sobre aperfeiçoamento moral,
desenvolvimento pessoal e sobre “tornar homens bons ainda melhores”.
Entretanto, essas expressões familiares às vezes ocultam uma questão mais
prática: |
|
O que exatamente a Maçonaria prepara os homens para fazer? |
|
A resposta talvez esteja menos naquilo que a Maçonaria
ensina e mais naquilo que ela exige. |
|
Diferentemente de muitas organizações contemporâneas, a
Maçonaria é essencialmente participativa. |
|
Um homem solicita seu ingresso. |
|
Ele assume obrigações voluntariamente. |
|
Aceita responsabilidades. |
|
Torna-se responsável perante seus pares. |
|
Participa da administração da instituição. |
|
Aprende a servir a instituições maiores do que ele
próprio. |
|
Sob essa perspectiva, a Maçonaria começa a se assemelhar a
algo maior do que uma sociedade fraternal. |
|
Ela se assemelha a um espaço de formação da capacidade de
agir. |
|
|
O CURRÍCULO OCULTO DA LOJA |
|
A maioria das discussões sobre a Maçonaria concentra-se no
ritual, no simbolismo, na história ou na fraternidade. |
|
Todos esses aspectos são importantes. |
|
Entretanto, talvez não constituam a contribuição mais
significativa da instituição. O currículo oculto da vida em Loja é a
participação. |
|
Consideremos o que uma Loja saudável exige de seus
membros. |
|
Os Oficiais preparam-se e desempenham suas funções. |
|
As comissões deliberam e organizam. |
|
Os membros debatem propostas. |
|
Os Irmãos orientam os candidatos. |
|
Os Tesoureiros administram os recursos. |
|
Os Veneráveis Mestres coordenam voluntários, e não
funcionários. |
|
Nenhuma dessas atividades é extraordinária. |
|
E esse é justamente o ponto. |
|
A capacidade de agir desenvolve-se por meio de
responsabilidades comuns, assumidas de maneira constante. |
|
O Mestre de Banquetes aprende a ser confiável. |
|
O Diácono aprende a executar. |
|
O Vigilante aprende a liderar. |
|
O Venerável Mestre aprende a governar. |
|
Historicamente, o sistema progressivo de cargos funcionava
como um aprendizado da responsabilidade. Seu objetivo não era apenas
assegurar a sucessão. Era formar o indivíduo. |
|
Saber se todas as Lojas ainda cumprem essa finalidade é
outra questão. Mas o mecanismo continua existindo. |
|
A DIFERENÇA ENTRE PRESERVAÇÃO E FORMAÇÃO |
|
Essa distinção talvez seja uma das mais importantes para a
Maçonaria contemporânea. |
|
Uma instituição pode preservar suas estruturas por muito
tempo depois de deixar de produzir as capacidades que essas estruturas foram
concebidas para desenvolver. |
|
As escolas podem preservar as salas de aula sem formar
cidadãos instruídos. |
|
As religiões podem preservar os rituais sem formar
crentes. |
|
As democracias podem preservar as eleições sem formar
cidadãos participativos. |
|
Da mesma forma, a Maçonaria pode preservar suas formas sem
necessariamente desenvolver a capacidade de agir. |
|
A pergunta, portanto, precisa ser reformulada. |
|
Não basta perguntar se as Lojas possuem mecanismos capazes
de desenvolver essa capacidade. Evidentemente, a maioria possui. |
|
A pergunta mais exigente é saber se esses mecanismos ainda
funcionam conforme o pretendido. |
|
As obrigações geram comprometimento? |
|
Os cargos desenvolvem a liderança? |
|
As comissões cultivam a participação? |
|
Os candidatos tornam-se colaboradores? |
|
Ou os membros vivenciam cada vez mais a vida em Loja como
observadores, e não como participantes? |
|
Essas perguntas são desconfortáveis. Também são
necessárias. |
|
A AVALIAÇÃO DA CAPACIDADE DE AGIR |
|
Talvez cada Loja devesse realizar periodicamente aquilo
que poderíamos chamar de uma “avaliação da capacidade de agir”. Não uma
auditoria financeira, mas uma avaliação da participação. |
|
As perguntas poderiam incluir: |
|
Quantos membros possuem responsabilidades significativas? |
|
Quantos Irmãos mais novos estão sendo preparados para a
liderança? |
|
Até que ponto o processo decisório é distribuído? |
|
Quantos membros orientam ativamente outros Irmãos? |
|
Com que frequência as responsabilidades são delegadas, em
vez de ficarem concentradas? |
|
Os cargos estão formando homens ou apenas preenchendo
vagas? |
|
As respostas podem revelar mais sobre a saúde de uma Loja
do que apenas os números de frequência. |
|
Muitas Lojas já reconhecem um padrão familiar. |
|
Um grupo relativamente pequeno de Irmãos assume a maior
parte das responsabilidades. |
|
Os mesmos nomes aparecem nas comissões. |
|
Os mesmos homens organizam os eventos. |
|
Os mesmos indivíduos resolvem os problemas. |
|
Esse fenômeno não é exclusivo da Maçonaria. Ele ocorre em
todas as associações voluntárias. A questão é saber se uma Loja está formando
sucessores ou apenas dependendo dos veteranos. |
|
Uma escola da capacidade de agir deve produzir
continuamente novos participantes, novos líderes e novos guardiões da
instituição. |
|
PARA ALÉM DO TEMPLO |
|
Evidentemente, a capacidade de agir dentro da Loja só tem
importância se for levada para além dela. O verdadeiro teste não é o que
acontece durante as reuniões. |
|
É o tipo de participante que a Maçonaria devolve à
sociedade. |
|
Um maçom que governa a si mesmo com maior eficácia. |
|
Um marido e pai que compreende a responsabilidade de
cuidar. |
|
Um profissional que assume responsabilidades, em vez de
evitá-las. |
|
Um cidadão capaz de participar, e não apenas de fazer
comentários. |
|
Esses resultados são difíceis de medir. Entretanto, talvez
constituam o argumento mais forte em favor da contínua relevância da
Maçonaria. |
|
A Loja não é o destino. É o ambiente de formação. |
|
Sua importância não está apenas naquilo que acontece
dentro de suas paredes, mas naquilo que os membros levam consigo para além
delas. |
|
UM DESAFIO PARA O FUTURO |
|
A Maçonaria frequentemente se pergunta se ainda é
relevante. Talvez essa seja a pergunta errada. |
|
A pergunta mais útil talvez seja se a sociedade necessita
cada vez mais das capacidades que a Maçonaria foi originalmente concebida
para cultivar. |
|
Responsabilidade. |
|
Autogoverno. |
|
Zelo pelo que nos é confiado. |
|
Liderança. |
|
Discernimento. |
|
Participação. |
|
Essas capacidades não parecem estar na moda nem são fáceis
de desenvolver. Na verdade, elas contrariam muitas tendências contemporâneas. |
|
A conveniência estimula a delegação. |
|
A cultura do consumo estimula a passividade. |
|
A tecnologia recompensa cada vez mais a eficiência em
detrimento da participação. |
|
A capacidade de agir exige algo mais difícil. |
|
Exige que os indivíduos permaneçam responsáveis. |
|
Não apesar da complexidade, mas dentro dela. |
|
Não apesar das poderosas ferramentas, mas enquanto as
utilizam. |
|
Não apesar das mudanças nas circunstâncias, mas justamente
por causa delas. |
|
Talvez isso explique por que a questão da capacidade de
agir pareça tão inesperadamente atual. O desafio enfrentado pela sociedade
não é apenas tecnológico. É humano. |
|
O futuro talvez dependa menos daquilo que as máquinas
serão capazes de fazer e mais daquilo que os seres humanos continuarão
dispostos a fazer por si mesmos. |
|
Se isso for verdade, a Maçonaria talvez possua algo cada
vez mais raro. |
|
Não porque preserve antigas tradições, mas porque, em sua
melhor expressão, preserva oportunidades para que os homens pratiquem o
autogoverno. |
|
Saber se as Lojas contemporâneas ainda funcionam dessa
maneira é uma questão em aberto. |
|
É também uma questão que merece ser discutida. |
|
Pois, se a Maçonaria for realmente uma escola da
capacidade de agir, sua relevância talvez esteja apenas começando a se
revelar. |
|
Nota |
|
Autor: Nicholas J Broadway |
|
Fonte: The Square Magazine |
|
*A tradução do texto original foi realizada com o auxílio
de IA. |
