segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

RELIGIÃO E MAÇONARIA:DOIS CAMINHOS, UMA MESMA PERGUNTA


 

Religião e Maçonaria nascem do mesmo ponto original: a inquietação humana diante do mistério. Ambas procuram responder à pergunta fundamental — de onde venho, quem sou, para onde vou? — mas fazem-no por vias distintas, quase opostas na forma, ainda que não necessariamente no fim.

A religião estrutura-se a partir da revelação. Parte de uma verdade transmitida, fixada na palavra, no livro, no dogma. Organiza a relação com o sagrado através da crença, do culto e da pertença. A sua força reside na capacidade de criar comunidade, sentido partilhado, narrativa comum. O seu risco está em confundir o símbolo com a realidade, a mediação com o absoluto, a obediência com a consciência.

A Maçonaria, pelo contrário, estrutura-se a partir da iniciação. Não transmite verdades finais; propõe experiências simbólicas. Não exige fé; exige trabalho sobre si. Não define Deus; aponta para um Princípio, deixando à consciência de cada um a forma de o nomear. Onde a religião afirma, a Maçonaria sugere; onde a religião prescreve, a Maçonaria simboliza.

Do ponto de vista simbólico, a diferença é clara: a religião eleva o olhar para o céu; a Maçonaria baixa-o para a pedra. Uma fala da salvação da alma; a outra da construção do homem. Uma promete redenção; a outra exige lapidação. Não são caminhos rivais, mas planos distintos.

A confusão começa quando a religião pretende ser iniciática sem o ser, ou quando a Maçonaria é lida como religião alternativa — erro frequente de críticos e de alguns entusiastas. A Maçonaria não substitui o sagrado religioso nem o combate; trabalha antes num plano ético, simbólico e antropológico, anterior a qualquer confissão. Por isso pode acolher homens de diferentes crenças sem lhes pedir renúncia.

Historicamente, a tensão entre ambas nasce quando a religião institucional se sente ameaçada por um espaço onde a consciência não é tutelada. A Maçonaria afirma a liberdade interior, o uso da razão, a dignidade do símbolo. Não nega Deus; recusa falar em nome de Deus. Esse silêncio ativo é, talvez, a sua maior heresia aos olhos do dogma.

Inicialmente, a religião tende a oferecer um caminho vertical — do homem para o divino — mediado por uma autoridade espiritual. A Maçonaria propõe um caminho horizontal e circular — do homem para si mesmo, e deste para a humanidade. O divino, se existir, manifesta-se como ordem, harmonia, lei moral inscrita no coração do ser humano.

Num tempo em que as religiões perdem autoridade simbólica e a espiritualidade se fragmenta, a Maçonaria permanece como um espaço raro de trabalho simbólico não dogmático. Não promete sentido; constrói-o. Não impõe valores; exercita-os. Não oferece certezas; educa para a dúvida fecunda.

Religião e Maçonaria não se anulam. A religião pode nutrir o sentido do transcendente; a Maçonaria disciplina a ética da ação. Quando separadas, empobrecem; quando confundidas, pervertem-se.

Talvez o equilíbrio esteja aqui: uma religião que volte a ser simbólica e humilde, e uma Maçonaria que permaneça fiel à sua vocação discreta de escola de humanidade. Não para salvar almas, mas para formar homens justos, conscientes e livres — capazes, talvez, de tornar o mundo um lugar um pouco menos indigno do mistério que o habita.

Porque, no fim, não foram as religiões que falharam totalmente.

Falhou o esquecimento de que o caminho é sempre interior, e que nenhum deus substitui a responsabilidade de tornar-se humano.

Rui Calado

 

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