terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A PRANCHETA DE DELINEAR NO PAINEL DO APRENDIZ MAÇÔNICO DO REAA

MAÇÔNICO DO REAA

INTRODUÇÃO

O Painel da Loja de Aprendiz Maçom é um compêndio de profunda carga simbólica, essencial para o neófito em sua jornada de autoconhecimento e aprimoramento (FREEMASON, 2020). Entre os diversos emblemas e ferramentas que constam dentro do painel, se destaca a Prancheta de Delinear— também denominada Tábua de Traçar, Prancha de Desenhar ou Tábua de Delinear.

Quais mistérios essa prancheta reserva mediante os sinais nela gravados?

DESENVOLVIMENTO

As grandes construções da Maçonaria Operativa na Europa Medieval, tinham base na discreta comunicação entre mestres e aprendizes através de instrumentos simples, porém dotados de profundo significado implícito. Entre eles, destacava-se a tábua de delinear, superfície onde o Mestre traçava, com carvão ou giz, o plano da obra a ser construída.

Essa tábua, muitas vezes improvisada sobre o chão de pedra ou sobre um tampo de madeira, era o espaço sagrado da criação — o local onde o pensamento se convertia em forma e onde a geometria dava corpo à matéria. O desenvolvimento das guildas medievais, que abrigavam os pedreiros construtores, é o ponto de partida para a história e a base dos instrumentos da Ordem (GOULD, 1883).

Esses traçados, muitas vezes realizados no solo, e apagados ao término do labor diário, representavam não apenas instruções técnicas, mas também um elo entre o saber humano e o divino. Cada linha desenhada evocava a harmonia universal, pois o ato de traçar era, para o pedreiro medieval, uma forma de participar da própria ordem da Criação.

Assim, a tábua não era apenas um suporte de trabalho, mas um símbolo de planejamento, medida e consciência. A Maçonaria, em toda sua essência, utiliza metáforas de geometria e arquitetura de pedra para informar sua busca contínua de conhecimento, ética e habilidades de liderança. (MASONS OF CALIFORNIA, [s.d.]).

Com o avanço dos séculos e a consolidação das corporações de ofício, os maçons operativos passaram a substituir os desenhos efêmeros do chão por pranchetas portáteis — tábuas cobertas por pano ou couro, que podiam ser guardadas e transportadas. Nelas eram traçados, com maior precisão, os planos das construções e os sinais que identificavam o trabalho de cada artífice. Surgiram, então, as marcas de pedreiro — pequenos símbolos gravados nas pedras ou reproduzidos na prancheta, destinados a individualizar o labor de cada obreiro e garantir-lhe o reconhecimento devido. Essas marcas, simples cruzes, estrelas, ângulos ou combinações geométricas, representavam a identidade simbólica de cada construtor diante do Grande Projeto coletivo (GOULD, 1883).

A transição

No século XVII, com o declínio da necessidade de grandes obras como castelos, igrejas e fortalezas devido ao progresso da tecnologia na construção provocou o declínio da construção em pedra no final da Idade Média, e com ele a queda gradual do ofício de pedreiro e as lojas operativas. Este declínio fragilizou o modelo estrito de guilda operativa (STRONG MAN LODGE, 2025)

Em consequência dessa evolução, essas organizações, já com menos ênfase na atividade física, passaram a admitir membros que não eram mais pedreiros operativos, e sim apenas pessoas interessadas em moral, filosofia e sociabilidade — iniciando a transição para a chamada maçonaria especulativa.”” Esta transição gradual marcou a transformação da Maçonaria de uma guilda de trabalhadores para uma fraternidade filosófica”” (MAÇONS ESOTÉRICOS, 2023).

As guildas começaram a ter a abordagem cada vez menos operativa e mais especulativa e a tábua e a prancheta deixaram de servir à construção material e passaram a operar no plano espiritual e moral.

O que antes era desenho de paredes e pilares converteu-se em arquitetura interior. Os painéis ou quadros eram usados no início da maçonaria especulativa, quando os templos ainda não existiam, para demarcar o local onde os maçons se reuniam; (RECHE, [s.d.]). A antiga tábua de madeira transformou-se no Painel do Aprendiz, o “Tracing Board”, sobre o qual se dispõem os símbolos do grau: o Esquadro, o Compasso, a Pedra Bruta, Pedra Cúbica, as Três Janelas, o Pavimento Mosaico, a Prancheta de Delinear, entre outros.

No Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), dentro do painel do Aprendiz, existe a Prancheta de Delinear (ou Tábua) conforme figura 1, e que está localizada no Oriente, junto à Janela do Mestre, servindo como espaço simbólico de planejamento e orientação da obra. Essa Prancheta, de forma retangular, apresenta duas inscrições geométricas:

uma cerquilha (jogo da velha) e um “X” (UNIVERSO MAÇÔNICO, [s.d.]). Esses sinais, outrora marcas de pedreiro, foram reinterpretados como a Cifra Maçônica ou Cifra Pigpen, código secreto usado para preservar o mistério e a comunicação reservada entre irmãos.

De fato, a adoção do alfabeto maçônico parece ser uma inovação francesa que surgiu logo após a introdução da maçonaria na França. Ela rapidamente fez muito sucesso e foi publicada em muitas divulgações; (MANGUY, 2013). Assim, a marca que distinguia o trabalho material tornou-se a assinatura espiritual do iniciado.

CONCLUSÃO

A tábua de traçar, originalmente utilizada por pedreiros operativos como superfície para delineamento de projetos arquitetônicos (MACKAY, 1898), assumia funções práticas nas guildas medievais. Com a transição para a maçonaria especulativa no século XVIII, esse instrumento foi ressignificado simbolicamente, passando a representar os planos morais e espirituais traçados pelo “Grande Arquiteto” (SCOTTISH RITE, 2020). A terminologia também evoluiu: de trestle board (quadro de planejamento físico) para tracing board (painel instrutivo e ritualístico) (PRICHARD, 1730 apud BERESINER, 2005), refletindo a mudança do ofício material para o ensinamento simbólico no contexto ritual das lojas maçônicas modernas.

A antiga trestle board hoje se tornou o Painel do Aprendiz, e permanece no coração do templo maçônico como um símbolo de criação e propósito. Nela, o Aprendiz aprende que cada traço é um pensamento, cada medida é uma virtude, e cada marca é o testemunho do esforço pessoal na edificação do Templo interior.

O Aprendiz Maçom deve trabalhar e estudar para adquirir o conhecimento do simbolismo de seu grau e sua aplicação e interpretação filosófica; (RECHE, [s.d.]). Da pedra ao espírito, da prancheta à consciência, a Tábua continua a ser o espelho da evolução humana — onde o homem, traçando sua própria obra, busca aperfeiçoar-se à semelhança do Grande Arquiteto do Universo.

REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO

BERESINER, Yasha. Tracing Boards: Origins, History & Symbolism. Freemasons- Freemasonry.com, 2005. Disponível em: https://www.freemasons-freemasonry.com/beresiner4.html?utm_source

BOUCHER, Jules. La Symbolique Maçonnique. Paris: Dervy, 1953. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=su0- 1HAZLDamp;printsec=frontcover#v=onepage&q&f=false

FREEMASON. O Painel do Grau de Aprendiz. Freemason.pt, 29 mar. 2020. Disponível em: https://www.freemason.pt/o-painel-do-grau-de-aprendiz/. GOULD, Robert Freke. The Concise History of Freemasonry. Nova York: Charles

Scribner’s Sons, 1883. Disponível em: https://linfordresearch.info/fordownload/Other%20Books/Gould%20Concise%20Histor y%201951.pdf

MACKAY, Albert G. Encyclopedia of Freemasonry. New York: Masonic History Company, 1898. Disponível em: https://ia804509.us.archive.org/26/items/historyoffreemas07mack/historyoffreemas07m ack.pdf

MAÇONS ESOTÉRICOS. Uma História Completa da Maçonaria: Das Guildas

Antigas às Lojas Modernas, 2023. Disponível em: https://esotericfreemasons.com/masonic-degrees/oldest-masonic-symbol- found/?utm_source

MANGUY, Irène. O alfabeto maçônico: mensagem codificada, o legado do quadrado mágico do mundo antigo. 2013. Disponível em: https://www.fm-mag.fr/article/611/l%E2%80%99alphabet-ma%C3%A7onnique- message-cod%C3%A9-h%C3%A9ritage-du-carr%C3%A9-magique-de- l%E2%80%99antiquit%C3%A9

MASONS OF CALIFORNIA. Símbolos da Maçonaria. [S.l.]: [s.n.], [s.d.]. Disponível em: https://freemason.org/pt/freemasonry-symbols/.

PIKE, Albert. Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite. [S.l.], s.d. Disponível em: https://archive.org/details/moralsdogmaofanc00pike_0.

PRITCHARD, Samuel. Masonry dissected: by Samuel Pritchard. Printed for J. Wilford at the Three Flowered Laces behind the Chapter Homes near St. Paul’s, 1730. 22 p. Disponível em: https://www.godtremari.it/wp-content/uploads/2021/04/1730.-Masonry- Dissected-ENG.pdf.

RECHE, Carlos E. G. O Painel do Grau de Aprendiz. [S.l.]: [s.n.], [s.d.]. Disponível em: https://www.lojamad.com.br/index.php/eventos/item/184-o-painel-do-grau-de-aprendiz.

SCOTTISH RITE. Trestle and Tracing Boards: The Freemason’s Blueprint. Scottish Rite, Northern Masonic Jurisdiction, 2020. Disponível em: https://scottishritenmj.org/blog/masonic-trestle-tracing- oards?utm_source

STRONG MAN LODGE, Nossos primeiros dias. 2025. Disponível em: https://www.strongmanlodge.org.uk/history/?utm_source

UNIVERSO MAÇÔNICO. Os Painéis do REAA do Grau de Aprendiz. [S.l.]: [s.n.], [s.d.]. Disponível em: https://www.revistauniversomaconico.com.br/tempo-de-estudos/os-paineis-do-reaa-do-

MÜLLER, M. C. (2025) - Aprendiz Maçom

 

 

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