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sexta-feira, 5 de abril de 2013

A TAÇA DA AMARGURA



Em seu Quadro da Vida Humana, Cebes, que nasceu em Tebas, cidade da Beócia, no Século V a. C., descreve-nos um vasto recinto onde vivem seus habitantes. Uma multidão de candidatos à vida aglomera-se à porta. Um gênio, representado por um venerável ancião, dirige aos candidatos atilados conselhos. Infelizmente, suas sábias advertências sobre a conduta que se deve observar perante a vida são de pronto esquecidas pelas almas ávidas por viver.

Tão logo entram no fatal recinto, sentem-se obrigadas a desfilar diante do trono da Impostura, mulher cujo semblante é de uma expressão convencional e que tem maneiras insinuantes. Ela apresenta-lhes um copo. Não se pode entrar sem beber pouco ou muito. Para viver intensamente, muitos bebem a grandes sorvos do erro e da ignorância; outros, mais prudentes, apenas provam a mágica beberagem e, em consequência, esquecem menos os conselhos recebidos e não sentem tanto apego à vida. 

Do mesmo modo, um cálice será apresentado ao neófito, quando ingressar na nova vida de Iniciado. O aspirante que acaba de sofrer a prova do fogo refrigera-se com esta água pura e refrescante. Mas, enquanto bebe a grandes goles, a doce bebida torna-se amarga. Quisera então rechaçar o cálice, mas se lhe ordena que beba até as fezes. Obedece dócil e decidido a suportar a carga de sofrimento que o aguarda. Bebe, mas, – oh! Milagre! – a fatídica beberagem volta ao seu primitivo sabor! 

Este rito nos inicia no grande mistério da vida que nos brinda com suas doçuras, mas que quer que saibamos aceitar também seus rigores e crueldades. 

Quando aceitamos a vida, nossa tendência é de provar tão só o agradável e desejamos a felicidade como se pudéssemos consegui-la gratuitamente sem havê-la merecido. Isso é desconhecer em absoluto a Lei do Trabalho que vale, necessariamente, para toda a vida. Viver é, em suma, cumprir uma função e, portanto, trabalhar. 

A Vida é a tal ponto inseparável do trabalho e do esforço, que não se a pode conceber na inércia. Nossa existência é ação. Descansamos para repor as forças, a fim de poder prosseguir com nossas atividades. Quem deixa de obrar renuncia à existência: o descanso definitivo esteriliza e equivale à anulação, à morte! 

Para dizer a verdade, é possível, – valendo-se de artifícios, – fugir a toda pena e obrar de maneira que só nos proporcione satisfações. Mas essa tática não produz mais que engano, e a vida sabe vingar-se daqueles que não querem acatar suas leis. Quando menos, o fastio de viver será sua herança. 

Para o Iniciado, impõe-se tanto mais a honra de viver, quanto mais ambicione possuir os segredos que são, precisamente, os da própria vida. A Iniciação ensina a viver uma vida superior, ou seja, em perfeita harmonia com a Grande Vida. Compreender bem a vida: eis aqui o objetivo de todo aspirante à sabedoria. Que nos importam os segredos da morte? Em seu devido tempo, ser-nos-ão revelados, e não há por que se preocupar com eles. Em troca, devemos viver, e viver de acordo com as exigências da vida. 

Estas exigências da vida poderão parecer tirânicas ao profano que não tenha compreendido a existência; uma inexorável necessidade condena-o ao trabalho. Em meio a trabalhos e penas, lamenta-se e revolta-se airoso contra a dor que lhe foi imposta. Esse suplício dura, enquanto não se determina a encontrar o paraíso, tão logo saiba renunciar ao mesmo. Sofrer, trabalhar: significará isso, por acaso, decadência? E quem pode ser forte e poderoso sem antes haver sofrido cruelmente? A alma que quer conquistar a nobreza e a soberania deve buscá-las nas fragas do sofrimento. 

Isto não quer dizer, todavia, que seja indispensável buscar o ascetismo ou tormentos intencionais: a vida saberá nos proporcionar provas salutíferas e nos brindará o cálice, convidando-nos a esvaziá-lo com firmeza, sem necessidade, de nossa parte, de aí acrescentarmos qualquer amargor. O Iniciado não teme a dor e sofre com coragem, mas não vive obrigado a amar nem a se comprazer com o sofrimento. Tem fé na vida. Sabe-a misericordiosa, apesar de suas leis inexoráveis, e saboreia as doçuras que nos reserva como compensação das penas que nos inflige. 

O que devemos buscar é a harmonia, o acordo harmônico com a vida. Não podemos obtê-lo de golpe; é indispensável uma penosa aprendizagem da Arte de Viver, a Grande Arte por excelência, a Arte que praticam os Iniciados. A vida é sua escola, onde não pode ser admitido aquele que não está decidido a beber do cálice da amargura. 

Sem embargo, a vida nos brinda felicidade. Todo ser acredita ter direito a ela, e esta é sua constante aspiração. Vivemos de esperanças, e nos parecem mais leves as penas de hoje, se as ponderarmos com as alegrias de amanhã. A vida corrente pode trazer para nós certas ilusões e tratar-nos como adolescentes, mas a vida iniciática considera-nos homens já maduros, pouco dispostos, portanto, a deixar-se levar por ilusões.

A felicidade nos é assegurada, contanto que a saibamos buscar nós mesmos. De nada somos credores sem merecimento: se a vida nos é dada, é para que a utilizemos como é devido, não para desfrutar dela sem pagar tributo. Saibamos, pois, considerá-la sob seu verdadeiro aspecto. Entremos a seu serviço dispostos a consagrarmo-nos ao estrito cumprimento de nossa obra de vida, que deve ser a Magna Obra dos Alquimistas. 

Em todos os tempos, a Iniciação foi privilégio dos valentes, dos heróis dispostos a sofrer, dos homens com energia que não pouparam seus esforços. É a glorificação do esforço criador do sábio que chegou à plena compreensão da vida, a tal ponto que, ao viver para trabalhar, consegue romper as correntes do presidiário condenado a trabalhar para viver.

Diz o adágio: Trabalho equivale à Liberdade, e ainda seria melhor dizer que nos libertamos da escravidão através de nosso amor ao trabalho. É, portanto, questão de desejar o trabalho, de buscar o esforço fecundo sem temor ao sofrimento que possa acompanhar sua realização. Então a vida será, para nós, amena, confortadora e bela. 

Assim fica explicado o simbolismo da poção cuja amargura não deve nos desanimar. Podemos devolver-lhe o primitivo sabor, aceitando, simplesmente, a obrigação de beber, até o fim, o Cálice Sagrado da Vida.

fonte: trecho do livro Ideal Iniciático.

 Milton Cantos Lopes

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