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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

ONDE ESTÃO OS MESTRES?


“O verdadeiro mestre não é aquele que ensina, é aquele que de repente descobre que aprende”.  (João Guimarães Rosa)

A comunidade Maçônica sabe não ser possível afirmar que apenas o domínio da ritualística contemplada em nossos Rituais proporciona o acesso ao conhecimento encerrado nos mistérios e simbologia da Ordem. Para compreendê-los e vivenciar a essência desse aprendizado são necessários esforço e dedicação adicionais.
Por outro lado, não se sustenta o argumento de que o quarto de hora de estudos das sessões de trabalho tem a finalidade de propiciar o tempo suficiente, se e quando utilizados, para as reflexões e apresentação de trabalhos que esgotem as temáticas envolvidas e nivelem informações e conhecimentos filosóficos.
Para suprir essas necessidades complementares de aprendizagem e estudos funcionam, nas dependências da GLMMG, dois excelentes fóruns representados pela Escola Maçônica “Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida”, criada pelo Decreto nº 1.537, de 25.08.03, e pela Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda, na forma do Decreto do Grão Mestrado nº 1.713, de 08.11.07.

A Escola Maçônica tem o objetivo de “promover e instituir a revitalização de instruções e aprendizagem aos moldes da padronização ritualística”. Por sua vez, a Loja de Pesquisas se dedica a estudos, pesquisas e apresentação de trabalhos maçônicos.

Esses dois centros de estudos são dirigidos por irmãos voluntários, competentes e dedicados, que não medem esforços para proporcionar as melhores oportunidades para estimular a investigação, o debate e o intercâmbio de experiências e informações sobre a essência da Maçonaria.
Ocorre que, em que pese à carga de trabalho e tempo dedicados à preparação dos eventos imprescindíveis ao cumprimento dos objetivos propostos, a receptividade por parte da população maçônica que frequenta semanalmente as Lojas ativas no Palácio Maçônico, em torno de 60, envolvendo mais de 1.000 obreiros, não tem sido satisfatória. Não é raro registrar-se a presença bastante reduzida de interessados em várias sessões, tanto na Escola Maçônica quando na Loja de Pesquisas. E tal situação enseja algumas reflexões.
No que se refere à Escola Maçônica, é divulgada uma programação mensal contemplando a apresentação das instruções dos Graus 1, 2 e 3 do REAA, onde são discutidos e analisados os rituais, a liturgia e o simbolismo maçônico. No decorrer das apresentações são frequentes as oportunidades em que as discussões se aprofundam mesmo com reduzido número de participantes, ensejando sinergias enriquecedoras para gáudio dos presentes.
Nessas oportunidades, são recorrentes as observações dos presentes quanto à falta de interesse dos demais obreiros em participar de eventos da espécie, em face de eventuais conflitos entre a ritualística e a prática nas sessões de trabalho. Mesmo entre aqueles que estão iniciando na senda maçônica ou vem de galgar os degraus da elevação ou exaltação, não se verifica uma constância no cumprimento da programação. Não resta dúvida de que os ciclos de aprendizagem demandam tempo, disciplina e dedicação.
Sabemos todos das responsabilidades dos padrinhos no processo de formação dos seus afilhados na Ordem, no sentido de que se tornem pessoas melhores e mais preparadas, entretanto, a situação se assemelha aos pais que delegam às escolas a educação dos filhos e se mostram negligentes no acompanhamento no processo de desenvolvimento e aperfeiçoamento pessoal, moral e espiritual de seus afiançados e futuros dirigentes da Ordem. Têm-se notícias de que são raros os convites para que um afilhado acompanhe um padrinho nas sessões ou mesmo a ocorrência de uma sutil sugestão de comparecimento.
Não poderíamos deixar de registrar um comentário frequente que se ouve nas instruções do Grau 3, objeto da constatação do reduzido  número de Mestres presentes às sessões. Algumas reflexões se resumem no questionamento: “será que os Mestres estão suficientemente repletos de sabedoria que não há nada a aprender?

Outra observação destacada e também atribuída aos trabalhos em Loja aborda o entusiasmo inicial com a plenitude alcançada, onde em pouco tempo muitos passam a ter “bode do trabalho” maçônico, adotando ritmo mais lento, quando não desinteressado ou com foco em outros proveitos.

No mesmo diapasão transcorrem as sessões da Loja de Pesquisas.
É rara a oportunidade de Templo com plateia numerosa. Por vezes, trabalhos do mais alto gabarito são apresentados para um grupo pequeno. As Lojas que funcionam nas datas dos eventos perdem excelentes oportunidades de incorporar-se aos trabalhos e tirar vantagens dos ensinamentos oferecidos.
Mas tal fato não inibe que se ouça ou que se leia em currículos ou pranchas os vínculos à fundação da Loja ou outra de destaque em cargos de direção. Apenas citar que é membro de uma Loja, seja ela qual for e, efetivamente não participar, não se mostrar, é apenas se beneficiar com o trabalho daqueles que permanecem na senda, é colher o que os abnegados estão cultivando. Fazer parte sem estar presente, onde está o mérito?
Não se pode deixar de dar destaque aos obreiros que honram a Ordem e fazem-na respeitada e valorizada e que são maioria. A presente reflexão visa a estimular aqueles reputados como sábios e referencial para os demais que se doem àqueles que buscam o conhecimento e o debate saudável e enriquecedor.

É corriqueiro ouvirmos que determinados irmãos são profundos conhecedores da Ordem, têm muito tempo de lida e são portadores de inúmeros títulos, porém se mostram silenciosos. Mas, como diz o Livro da Lei, “ninguém acende uma lâmpada para cobri-la com uma vasilha ou colocá-la debaixo da cama. Ele a coloca no candeeiro, a fim de que todos os que entram vejam a luz”. Observados o protocolo e as exigências da cada Grau, o saber não pode ser egoísta.

É motivo de comentários por vezes irônicos que muitos Mestres quando desafiados a comentar a respeito de determinado assunto devolvem a pergunta ou afirmam que o questionador não está preparado para aquele conhecimento demandado.

Muitos interpretam tal comportamento como insegurança, talvez por falta de conteúdo ou por deficiências nos estudos ou medo de demonstrar ignorância. Por isso faz-se mister matutar sobre a dica de Cora Coralina: “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”.

Nesse sentido, a missão do Mestre no exercício da sua plenitude é transmitir aquilo que aprendeu, compartilhando informações e experiências, estimulando, questionando, provocando e, por vezes, confundindo o Aprendiz, mostrando-lhe vertentes ou caminhos que possam ser exploradas.
O verdadeiro Mestre deve dar o seu testemunho e honrar o compromisso de ser um facilitador para os novos Aprendizes e Companheiros, para que os mesmos sejam sempre melhores do que aqueles que os treinaram.
Como reflexão derradeira, porém sem esgotar a temática, merece destaque o comentário do catedrático Philip Kotler, referência no ensino e no planejamento de marketing, autor dos livros e das teorias mais citadas no setor que afirma: “Demora dias para se aprender marketing. Infelizmente leva-se uma vida inteira para ser um mestre”. Sopesadas as diferenças, podemos tirar algum proveito do pensamento.

“A messe é grande, mas poucos são os operários!” (Divino Mestre)

Autor: Márcio dos Santos Gomes
Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras.

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