quarta-feira, 8 de abril de 2026

ASSEGURANDO O FUTURO DA ARTE REAL

Proponho à reflexão dos leitores um tema que, embora contemporâneo, toca o coração da nossa missão permanente: a continuidade da Arte Real. Observa-se, em diversos Orientes, uma realidade que merece exame sereno e objetivo: a diminuição do ingresso de novos membros e, em especial, a menor presença de gerações mais jovens em nossos quadros.

Importa afirmar, desde logo, que não se trata de crise de princípios. A Maçonaria não perdeu sua razão de ser. Seus fundamentos permanecem atuais, necessários e sólidos. O que se mostra, com frequência, como desafio é a forma pela qual nos tornamos conhecidos, acolhemos o interessado e integramos o recém iniciado ao trabalho regular da Loja. Em outras palavras: não é a filosofia que falha; é, muitas vezes, a comunicação, o acolhimento e a adaptação prudente às formas do tempo.

Trago, portanto, não uma crítica, mas uma proposta: um roteiro de reflexão e medidas práticas para que, sem tocar na sacralidade do Ritual e na dignidade da Tradição, possamos fortalecer o futuro da Arte Real.

1. COMPREENDER O HOMEM QUE BUSCAMOS ACOLHER

Meus Irmãos, para acolher bem, é preciso compreender. As novas gerações vivem em ambiente cultural distinto, marcado por rapidez de informação, presença digital e busca por sentido. Muitos jovens não se aproximam de instituições apenas por tradição: aproximam-se quando percebem propósito, coerência e impacto.

Eles valorizam autenticidade e desejam vínculos reais. Buscam mentoria, crescimento, pertença e oportunidade de servir à comunidade. Ora, tudo isso está contido na proposta maçônica — mas nem sempre é apresentado com clareza suficiente para quem olha de fora.

2. COMUNICAR COM CLAREZA, SEM PERDER A IDENTIDADE

A Maçonaria não deve ajustar seus valores a modismos. Contudo, é necessário reconhecer que a linguagem e os meios pelos quais falamos ao mundo podem — e devem — ser aprimorados.

Quando nossos conteúdos são confusos, distantes ou excessivamente fechados, criamos barreiras desnecessárias. Cumpre destacar, de modo simples e firme, aquilo que somos:

  • Escola de aperfeiçoamento moral, onde se trabalha o caráter;
  • Fraternidade real, onde se aprende a conviver em igualdade e respeito;
  • Trabalho de beneficência e serviço, onde a caridade se faz ação;
  • Caminho de instrução, que eleva o espírito e disciplina a conduta.

Se não comunicamos isso com nitidez, é nosso dever ajustar a forma — preservando o conteúdo.

3. PRESENÇA DIGITAL COMO INSTRUMENTO DE VISIBILIDADE

No contexto atual, a primeira aproximação do interessado quase sempre ocorre por meios digitais. A ausência de presença organizada na internet não preserva a Loja — a invisibiliza.

Uma presença digital digna e discreta não profana o Templo. Ao contrário: permite que homens de bem encontrem informações confiáveis e estabeleçam contato.

Assim, recomenda-se:

  • um site funcional e atual, com informações básicas, perguntas frequentes e canal de contato;
  • perfis em redes sociais com conteúdo sóbrio, voltado à cultura, à beneficência e à educação;
  • registro de ações públicas e de atividades permitidas, sem exposição indevida de ritualística.

Não se trata de publicidade vazia, mas de clareza e acessibilidade.

4. ACOLHIMENTO: TRANSFORMAR INTERESSE EM CAMINHO

Um dos pontos mais sensíveis é a jornada do interessado até a iniciação. Em muitos lugares, esse processo é lento, confuso ou impessoal, o que esfria o ânimo e dispersa o candidato.

Medidas simples, porém, eficazes, incluem:

  • designar um Irmão responsável por acolher e orientar interessados;
  • responder contatos com presteza e cordialidade;
  • apresentar, com objetividade, o passo a passo do processo;
  • criar oportunidades de convivência pública e conversas orientadas.

A primeira impressão pesa. E a Maçonaria deve ser lembrada, desde o primeiro contato, como espaço de urbanidade, firmeza e fraternidade.

5. TRADIÇÃO NO RITUAL, EVOLUÇÃO PRUDENTE NA CULTURA DA LOJA

O Ritual é patrimônio sagrado e não deve ser relativizado. Entretanto, a cultura interna — o ambiente, a forma de convivência e a dinâmica das atividades — pode ser ajustada com prudência para favorecer engajamento e formação.

Alguns pontos merecem atenção:

  • cuidado com o espaço físico: limpeza, ordem e acolhimento;
  • equilíbrio entre sessões formais e momentos fraternos;
  • fortalecimento da instrução: palestras, debates e formação simbólica;
  • redução do excesso de burocracia repetitiva, para priorizar o que edifica.

O jovem não busca apenas uma reunião; busca um lugar onde haja sentido, orientação e trabalho.

6. SERVIÇO E BENEFICÊNCIA: TORNAR VISÍVEL A PRESENÇA DA ORDEM

A juventude contemporânea é, em grande medida, movida por causas. A Maçonaria sempre ensinou o amparo fraternal e o dever de ajudar quem precisa. Contudo, se o bem não é percebido, perde-se uma poderosa ponte de aproximação.

Recomenda-se que a Loja:

  • organize ações concretas e regulares na comunidade;
  • estabeleça parcerias com instituições locais;
  • mantenha registro e comunicação sóbria dessas ações.

Divulgar a obra não é vaidade quando se faz com equilíbrio: é testemunho e convite ao serviço.

7. FORTALECER A PONTE COM AS ORDENS JUVENIS

No cenário brasileiro, é estratégico fortalecer o vínculo com as Ordens Juvenis — como De Molay, Filhas de Jó e Arco-Íris — e com iniciativas que formam jovens em liderança, disciplina e fraternidade.

Apoiar, orientar, comparecer e reconhecer esses jovens é investir no futuro com inteligência e coerência. Quem aprende cedo o valor da fraternidade, compreende melhor a dignidade do Templo quando chegar seu tempo.

8. RETER É TÃO ESSENCIAL QUANTO INICIAR: DAR VOZ E RESPONSABILIDADE

Não basta iniciar novos Irmãos: é necessário mantê-los vinculados à Ordem. Isso exige que o jovem Maçom encontre:

  • espaço real de participação;
  • responsabilidades compatíveis com seu estágio e acompanhamento;
  • ambiente em que suas ideias sejam ouvidas com maturidade;
  • oportunidade de servir e crescer, sem ser reduzido a espectador.

A Loja que dá propósito retém. A Loja que apenas observa, perde.

9. EDUCAÇÃO MAÇÔNICA VIVA E ADAPTADA AO TEMPO

A educação maçônica é o que distingue a Arte Real de outras associações. Porém, para ser eficaz, deve ser viva e orientada.

Sugere-se:

  • grupos de estudo regulares e objetivos;
  • rodas de instrução simbólica;
  • debates sobre ética, virtudes e cidadania;
  • complementos modernos, quando úteis, como podcasts, encontros online e materiais audiovisuais.

O que forma, permanece. O que não forma, enfraquece.

CONCLUSÃO

Meus Irmãos, a urgência existe, mas não é tarde. O futuro da Arte Real não depende de artifícios, nem de concessões à superficialidade. Depende de coerência, acolhimento, presença, formação e trabalho visível.

Que saibamos preservar o que é essencial — o Ritual, a Tradição e os Princípios — e, ao mesmo tempo, aprimorar os meios pelos quais nos tornamos acessíveis aos homens de bem do nosso tempo.

Se a Maçonaria é, por natureza, obra de construção, então cabe a nós agir não como conservadores de um museu, mas como construtores do amanhã. A Arte Real não espera o tempo passar: ela espera que nós retomemos o trabalho, com método, prudência e fraternidade.

Assim seja.

Nota

Este é uma adaptação do texto “Securing the Future of the Craft“, de autoria do Dr. Barry Denton.

Fonte: The Square Magazine

 

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

AS COLUNAS E AS ORDENS DE ARQUITETURA


 

Em nossa Ordem, e nos mais variados ritos, são consideradas cinco ordens de arquitetura, sendo três de origem grega e duas de origem romana, sendo no REAA, as que prevalecem são as de origem grega, que são originais, sendo que as demais são derivadas destas.

As Ordens de arquitetura, são uma combinação peculiar de três elementos arquitetônicos: base, coluna e entablamento.

Na nossa Ordem, esses estilos arquitetônicos clássicos, são utilizados em vários dos Graus maçônicos, e valem por seu simbolismo.

São cinco as ordens conhecidas:

  • De origem grega: Ordens Jônica. Dórica e a Coríntia, sendo esta última uma variação da Ordem Jônica
  • De Origem romana: Ordens Toscana e Compósita.

Apesar de não serem de origem grega, eles, os gregos a remodelaram e a tornaram a que são hoje.

Assim, faremos um pequeno resumo das ordens de arquitetura e seu simbolismo, lembrando que pelo ritual, as colunas ficam próxima ao altar das três luzes e as colunetas miniatura delas, ficam no altar dessas mesmas luzes.

– Ordem Jônica:  A Ordem Jônica também é conhecida como a Ordem de Atenas, sendo de origem Assíria, sendo seu lugar no Oriente próximo ao Venerável Mestre. Daí ela representar a Sabedoria. Ela é posterior a Ordem Dórica.  Nota-se que a coluneta no trono fica sempre de pé, indicando que a Sabedoria deve estar sempre alerta, seja no trabalho ou no descanso.

Ela vem dos Jônios que era um povo vindo da Ásia, e que fundaram várias cidades na Grécia antiga, inclusive a cidade de Atenas, de onde se originou os grandes pensadores gregos, como Sócrates, Platão e Aristóteles.

A lenda nos conta que Íon, um líder grego dos Jônios, foi enviado à Ásia, onde construiu templos em Éfeso, dedicados a deuses gregos. Íon então, observou que as folhas de cortiça, colocadas sobre os pilares para evitar infiltração de água e amortecer o peso das traves, com o tempo, cedendo à pressão, contorciam-se em forma de ornamento em espiral, que imitavam os fios de cabelo de mulher, sendo essa a principal característica da Ordem Jônica. Um dos exemplos da arquitetura Jônica encontra-se na Acrópole de Atenas. Representa ainda em nossa ordem o Rei Salomão.

– Ordem Dórica: Ela é a mais rústica das três gregas, e a mais antiga, priorizando a robustez, em confronto com a beleza, sendo que na Grécia antiga, ela ornamentava os deuses masculinos, sendo que sua origem é do Egito. Daí estar relacionada a FORÇA (Hercules), estando na Coluna do Norte que é governada pelo Primeiro Vigilante.

Suas colunas não possuem base e seus capiteis são simples, lisos e sem qualquer ornamento. A coluneta é erguida durante os trabalhos, quando é necessária força para a execução deles (do meio-dia à meia-noite). Seu nome vem de Dorusfilho de Heleno, rei da Acaia e do Peloponeso.

Os Templos mais importantes da Grécia antiga tinham colunas da desta ordem. Dos Dóricos, originaram-se os Espartanos, grandes guerreiros e combatentes. Como símbolo da força, nos anima e sustenta perante as nossas dificuldades, lembrando que nunca estamos sozinhos. Representa Hiram Rei de Tiro.

– Ordem Coríntia: É a mais bela de todas, daí representar a Beleza (Afrodite ou Vênus), estando próxima ao Segundo Vigilante. Ela é uma evolução da Ordem Dórica. Ela é esbelta e graciosa. Sua denominação refere-se a cidade de Corinto; Quando do início dos trabalhos em loja, a coluneta é abaixada. O templo de Zeus é melhor exemplo desta arquitetura.

A lenda nos conta que uma ama levou uma cesta, contendo brinquedos à sepultura da criança que cuidava, cobrindo-a com uma velha telha, por causa das chuvas. Ao iniciar-se a primavera, um pé de acanto germinou e cresceu, transformando-se em formosa árvore. Folhas de acanto, cesta e telha teriam produzido um belíssimo efeito ao crescer a planta.

Essa cena foi capturada pelo escultor Calímaco, que talhou um pilar de rara beleza, com o capitel copiado daquela cena. Representa Hiram Abiff.

Às essas três Ordens de Arquitetura, acrescentam-se às vezes a ordem Compósita, e a ordem Toscana, que não devem ser levadas em conta no simbolismo maçônico. 

Conclusão

Nosso edifício espiritual repousa sobre estas Ordens e colunas simbólicas, sendo que a Sabedoria organiza o caos, criando a ordem. A Força executa o projeto, seguindo instruções da Sabedoria, e a Beleza ornamenta nossa vida. Assim, sendo sábio temos a Força, para lutar e combater as adversidades da vida e temos a Beleza permanente na construção de nosso edifício humano.

Autor: Dermivaldo Collinetti

Dermivaldo é Mestre Maçom da ARLS Rui Barbosa, Nº 46 – GLMMG – Oriente de São Lourenço.

Referências

As Ordens Arquitetônicas na Maçonaria – Kennyo Ismail – Blog No esquadro.

WWW.MACONARIA.NET – As três colunas, Eduardo Silva Mineiro, ARLS Acácia Castelense, nº 4 – Castelo do Piauí – Piauí – Brasil.

Decálogos do grau de aprendiz – Reinaldo Assis Pellizzaro – 1 Ed. 1986.

A Simbólica Maçônica – Jules Boucher – 1979.

 

sábado, 4 de abril de 2026

O MÉTODO INICIÁTICO


 

Desde tempos imemoriais, o ser humano tenta aprender e ensinar sobre os mais variados temas. Essa postura tem sido crucial para a constante evolução das ciências, sejam elas naturais, humanas ou matemáticas.

Cada ciência tem os seus métodos de ensino, e cada tema pode ter o seu próprio. A maçonaria, não sendo uma ciência, também possui um método de aprendizagem para atingir um dos seus principais objetivos: o aperfeiçoamento dos Irmãos. Embora tenha pesquisado diversas fontes, nenhuma me convenceu plenamente de que aquele era o verdadeiro método de ensino maçônico. Talvez seja algo único ou, então, a minha pesquisa não foi suficientemente exaustiva para lhe dar um nome.

Assim, vou tentar explicar em que consiste o método e os papéis de cada um dos envolvidos. Para simplificar, o Aprendiz é aquele que aprende, e o Mestre é aquele que ensina. Na prática, todos somos aprendizes, independentemente do nosso grau, mas para este texto, partimos do princípio de que o Aprendiz é o aluno.

O método é simples, mas trabalhoso, e pode ser dividido em três fases:

  1. Pesquisa e reflexão inicial (procurar): O Aprendiz explora um tema que lhe desperta curiosidade. Pode ser um conceito de um livro ou um instrumento de cantaria. Ele aprofunda o seu conhecimento pesquisando em várias fontes. A internet e a IA podem ser boas aliadas, mas é preciso cautela, pois podem levar a enganos. No final, o Aprendiz deve fazer uma primeira reflexão para iniciar a próxima fase.
  2. Trabalho escrito (interiorizar): As reflexões da pesquisa devem ser compiladas num texto a ser apresentado a todos os Irmãos. O texto deve ser objetivo e sucinto para que o tempo de apresentação seja breve e o tempo de discussão seja maior. Nesta fase, o 2º Vigilante ou o Venerável Mestre podem orientar o Aprendiz.
  3. Apresentação (aperfeiçoar): O trabalho é apresentado à loja. Após a apresentação, os Irmãos Mestres dão críticas construtivas para melhorar o que foi apresentado. Esta fase é essencial para aprimorar o trabalho e interiorizar os valores em todos os Irmãos.

Neste processo, cada um tem o seu papel e as suas motivações:

O Aprendiz:

  • Procura o tema de estudo (que também pode ser sugerido por um Mestre);
  • Pesquisa usando várias fontes;
  • Elabora o trabalho;
  • Apresenta;
  • Escuta e interioriza as críticas construtivas;
  • Revê e amadurece os conceitos e valores trabalhados.

O Mestre:

  • Orienta o Aprendiz;
  • Sugere fontes e explica o que sabe sem dogmatismos (conceitos incontestáveis);
  • Promove o pensamento autônomo no Aprendiz;
  • Estimula o debate;
  • Avalia o processo de desbaste da pedra bruta do Aprendiz.

Este método é valorizado nas Lojas, mas nem sempre é seguido à risca. Muitas vezes, o debate prossegue no ágape, onde todos podem discutir à vontade. As regras de debate nas Lojas não o reprimem, mas sim, promovem a ordem e o respeito entre Irmãos, permitindo que um Irmão de cada vez fale.

De forma muito pessoal, penso que se o objetivo for cumprido e a pedra bruta ficar um pouco mais cúbica, qualquer método é válido.

É assim que se aprende e se ensina na R. L. Mestre Affonso Domingues e, até agora, tem corrido bem e concretiza que continuará a correr bem.

D. G., M. M. – R. L. Mestre Affonso Domingues nº 5 (GLLP / GLRP)

segunda-feira, 30 de março de 2026

O TEMPO NA MAÇONARIA

O tempo sempre foi objeto de reflexão de filósofos, teólogos e cientistas. No pensamento ocidental, ele é frequentemente compreendido de forma linear, tendo como ponto de partida o surgimento da matéria, seja na perspectiva religiosa da criação ex nihilo, iniciada por Deus "do nada", seja no modelo científico do Big Bang, quando a matéria, condensada num ponto de densidade e temperatura extremas, começou a se expandir e a formar o universo.

Em tradições orientais, o tempo é muitas vezes entendido de forma cíclica. Inspirados pelos ciclos da agricultura, surgiram mitos cosmológicos que descrevem universos em constante expansão e contração, repetindo-se em longos períodos chamados kalpas. Há também quem afirme que o tempo é uma experiência mental, como propõe Agostinho de Hipona, para quem o passado existe na memória, o presente na percepção direta e o futuro na expectativa, tudo coexistindo na mente humana.

Na maçonaria, o templo é o espaço onde os maçons se reúnem para o trabalho simbólico do "desbastar da pedra bruta", que representa o autoaprimoramento que cada membro busca. Esse processo não tem fim, pois o aperfeiçoamento do ser é contínuo e exige tempo para se desenvolver.

O tempo, no templo, não segue a lógica do mundo exterior. Cada grau e cada ritual marcam etapas do percurso iniciático, organizando o progresso do maçom de forma gradual. O ritmo dos trabalhos permite atenção, reflexão e prática sem pressa, sustentando a evolução interior de cada membro.

O templo cria uma suspensão simbólica do tempo. Ao entrar nesse espaço, o maçom abandona as ansiedades, a pressa e as preocupações do mundo exterior. Nesse ambiente ordenado e separado, a experiência espiritual sobrepõe-se às limitações materiais e temporais, tornando possível o aperfeiçoamento de si mesmo de forma profunda.

O tempo no templo tem ainda uma lógica própria em relação ao espaço profano. Os momentos que delimitam o início e o fim dos trabalhos possuem significado, indicando que o progresso depende apenas da dedicação e do esforço que o maçom aplica ao seu crescimento, e não do tempo.

Assim, o templo oferece um espaço em que o tempo se torna aliado do aperfeiçoamento. Ele permite que o maçom trabalhe sobre a própria pedra bruta com paciência e concentração, vivendo a experiência da iniciação e do crescimento espiritual como um caminho contínuo, dedicado exclusivamente ao labor de conhecer a si mesmo.

"Não havendo tempo, há eternidade; onde há eternidade, há prevalência do espírito; e onde há prevalência do espírito, há aperfeiçoamento."

— Fernando Souza

André L. B. Pereira

Deco Pereira

PM / MI

 

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

TEMPLO-IGUALMENTE MARAVILHOSO E TERRÍVEL

Imagine um lugar na natureza em que o ser humano não entre há muitos anos. Ali a natureza está preservada e intocada pelos humanos.

Dia após dia o sol surge no oriente, faz seu percurso aparente até o zênite e declina para se ocultar no ocidente.

Há dias e noites em alternância quase infinita. Uns dias faz calor e outros faz frio, alguns dias chove, outros o sol brilha.

Plantas e animais brotam e nascem, se desenvolvem e eventualmente voltam ao pó da terra. Tudo está como deve ser, até que você entra neste lugar.

No santuário da natureza, o ser humano deve ingressar com o máximo cuidado. Como ele também é obra da natureza, ali pode ser acolhido.

Ao entrar precisa observar muito mais do que ser observado. Sua tarefa é entender onde está, quais são as oportunidades e quais são os riscos.

Tem que encontrar o seu lugar e o seu papel naquele meio igualmente maravilhoso e terrível.

Entrar ali levando morte e destruição vai fazer com que seja destruído e o templo da natureza se reconstrua por si próprio, sem aquele agente do mal que conseguiu apenas destruir a si mesmo.

O templo é uma representação simbólica do universo. O iniciado ao ingressar no templo deve agir tal qual o homem que entra no santuário da natureza.

Precisa observar, achar seu lugar, conhecer suas oportunidades e, principalmente, respeitar o sagrado naquele lugar.

Aquele que entra ali buscando se impor, levando destruição, conseguirá destruir a si próprio e todo o mal que provocar será superado porque o templo, como representação da natureza, reconstruirá a si próprio.

Se você saiu do cativeiro onde contemplava sombras artificialmente projetadas e ingressou no templo da natureza, onde a ordem e a beleza resplandecem, não carregue consigo suas falsas certezas engendradas pelas sombras da ignorância, dos vícios e dos preconceitos.

Robson de Barros Granado-MI

Fonte: Retales de masonería

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

O COLAPSO DA MAÇONARIA NA ALEMANHA NAZISTA (1933-1935)


 

Antes da ascensão de Hitler ao poder em 1933, a Maçonaria alemã já se encontrava profundamente dividida e enfraquecida. Existiam 9 Grandes Lojas no país, divididas em dois grupos principais: as três "Velho Prussianas", de caráter conservador e cristão, que não de origem judaica ou do Antigo Testamento, na esperança de serem toleradas.

Aceitavam judeus em seus quadros, e as seis "Humanitárias", que nominalmente não faziam distinção religiosa. Essa cisão impedia qualquer ação unificada da Ordem, enquanto a propaganda da extrema-direita, especialmente a partir de 1919, difundia incansavelmente a teoria da "conspiração judaico maçônica", responsabilizando a Maçonaria pela derrota na Primeira Guerra e pelos males da República de Weimar. Livros como os de Friedrich Wichtl e do General Ludendorff tornaram-se best-sellers, associando a Ordem ao "perigo judaico" e difamando sua imagem perante o povo.

A pressão constante e o medo da crescente influência do Partido Nazista já causavam uma debandada de membros antes mesmo de 1933. Em 1932, uma Loja "Velho Prussiana" relatava uma perda de um terço de seus integrantes em seis anos. Imediatamente após a tomada do poder, as Grandes Lojas Humanitárias, percebendo que não teriam lugar no novo regime, simplesmente se autodissolveram.

As "Velho Prussianas", numa tentativa desesperada de sobreviver, apressaram-se em declarar sua lealdade ao regime, abandonando o título de "maçons", renomeando-se como "Ordens Cristãs Alemãs" e expurgando de seus rituais qualquer elemento

Essa estratégia de submissão revelou-se inútil. Apesar de inúmeras cartas e apelos ao governo e ao Partido Nazista, os maçons foram tratados como "cidadãos de segunda classe" e impedidos de ingressar nas organizações do partido. Em maio de 1935, o Ministério do Interior do Reich ordenou a dissolução imediata das três Ordens Cristãs Alemãs, que foram formalmente extintas em cerimônias vigiadas pela Gestapo entre junho e julho daquele ano.

A Maçonaria alemã estava oficialmente morta, e seus prédios foram posteriormente convertidos em museus antimaçônicos, enquanto uma nova onda de propaganda difamava a Ordem.

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Por Bro. Ellic Howe, 1982.

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

CIÊNCIA E RELIGIÃO: AINDA UM FALSO CONFLITO?

Relendo uma prancha que escrevi há alguns anos, sobre o eterno tema da ciência e da religião, surpreendi-me com a sua atualidade. Continuamos a debater se são opostas ou complementares. Continuamos, no fundo, a tentar descobrir se o universo tem apenas leis — ou também sentido.

Na altura escrevi que não via ali conflito, mas antes dois caminhos diferentes para uma mesma buscam: compreender o que nos rodeia e o nosso lugar nisso tudo. A ciência diz-nos como as coisas funcionam. A religião tenta explicar por quê.

Hoje, o cenário até parece que mudou, mas não para melhor, a ciência é questionada por teorias da conspiração e vídeos de TikTok, por seu lado a religião continua a ser usada para justificar guerras e ódios. Ninguém ouve, poucos pensam, e muitos gritam “o meu Deus é melhor que o teu”.

E assim voltamos ao essencial.

Mesmo Stephen Hawking, tantas vezes apontado como ateu, dizia que se descobríssemos uma teoria unificada, estaríamos conhecendo a mente de Deus. No fundo, ele sabia, como Einstein e Galileu também sabiam, que há um ponto onde a razão bate no limite. Um ponto fora da equação, onde tudo o que sabemos falha. Uma singularidade. E talvez aí, nesse exato lugar onde a física se cala, comece a linguagem do Grande Arquiteto.

Não precisamos de escolher entre razão e fé. Precisamos é que ambas iluminem o que andamos tentando ver. Recordo do Evangelho segundo São Lucas: “Ninguém, depois de acender uma candeia, a cobre com um vaso ou a coloca debaixo da cama; pelo contrário, coloca-a num lugar alto, para que os que entram vejam a luz.”

A ciência é essa candeia, acesa com esforço, com estudo, com dúvidas. E a fé é alimentada por silêncio, por prática, por esperança, mas nenhuma serve de alguma coisa caso seja escondida, nenhuma ajuda se for usada para controlar ou para envergonhar. A luz foi feita para guiar. Para mostrar. Para que quem entra veja e compreenda.

Entre leis naturais e mistérios espirituais, há sem dúvida em comum a procura sincera pela Verdade, e essa busca, se autêntica, nunca divide, pelo contrário: revela.

João B., M. M.

 

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

AS TRÊS GRANDES LUZES DA MAÇONARIA

Na iniciação maçônica, logo após o nosso juramento e ao recebermos a Luz, defrontamo-nos imediatamente com as três grandes Luzes emblemáticas da Maçonaria Universal.

É sabido que, em qualquer canto do planeta Terra, nenhuma Loja Maçônica Regular executa os seus trabalhos sem que o Esquadro e o Compasso figurem expostos sobre o(s) volume(s) da Lei Sagrada.

Sobre estes instrumentos podem-se apresentar inúmeras alegorias, pois significam uma coisa no sentido restrito das palavras e outra no seu sentido esotérico, representando na Maçonaria “grosso modo” o conhecido e o desconhecido.

Foi em meados do século XVIII que os irlandeses introduziram o conceito segundo o qual as Três Grandes Luzes da Franco Maçonaria passaram a ser o Esquadro, o Compasso e o Volume da Lei Sagrada, sendo que até esse período tais papéis eram atribuídos, ao Mestre da Loja, à Lua e ao Sol.

Foi por esses tempos que uma certa tonalidade, mais vizinha, ou mais próxima das Igrejas, apareceu, e ainda hoje se mantém nos nossos rituais.

O Esquadro e o Compasso estão sempre associados um ao outro no seu simbolismo maçônico. Estes dois utensílios são parte integrante e fundamental da formação do Maçom especulativo. Estes mesmos utensílios foram e são igualmente utilizados pelos construtores operativos desde os tempos mais recuados até aos nossos dias.

O Esquadro (do latim ex quadra – exquadrare) é um instrumento cuja propriedade/função é tornar os corpos quadrados.

O quadrado, por sua vez, representa a solidez, a estabilidade e a ordem; no Islamismo representa o coração do homem, e, no mundo espiritual é tido como o símbolo da Terra (matéria). Esse quadrado só pode, portanto, para nós, ter um significado: o dos estatutos da nossa Ordem e, de igual forma apenas age de um só modo: o do bem.

O Esquadro é o símbolo rigoroso da justiça e da conciliação; é, de algum modo, o nosso pavimento de mosaico: a justiça e a justeza; a equidade e a dualidade.

Este Esquadro é o símbolo da retidão que nos permite cortar a pedra cúbica que desejamos incluir na construção do templo ideal; templo do qual somos, simultaneamente, os portadores e os construtores.

O trabalho do aprendiz, o nosso contínuo trabalho de aprendiz, é cortar/talhar a pedra bruta; pedra essa que, por sua vez, ao ser trabalhada cumpre a função de talhar/desbastar o seu artífice, qualquer que seja o seu grau.

Para melhor entender o simbolismo do Esquadro, é muito importante ter em consideração que o habitual, nos ofícios da construção, era ser o próprio trabalhador a fabricar/produzir ele mesmo uma boa parte das suas ferramentas de trabalho, nomeadamente o “seu” esquadro.

É este Esquadro que integra as 3 Grandes Luzes da Loja, e ele está lá para garantir a transformação da nossa pedra bruta numa perfeita pedra cúbica.

Em consequência, podemos e devemos evoluir para pedras tendencialmente perfeitas, e assim passarmos a ser o elemento ativo e o passivo, o constituído e o constituinte da edificação do Templo.

O Esquadro, pois, é a primeira das ferramentas que vemos quando consideramos as 3 Grandes Luzes da Loja.

O Esquadro, um dos instrumentos operativos mais antigos, simboliza o céu, ou seja, o espírito.

O Esquadro é, como bem sabemos, um instrumento fixo, e o Compasso, por sua vez, um instrumento móvel. Se analisarmos a relação conjunta Esquadro – Compasso, claramente aceitamos que o Esquadro é o elemento passivo e o Compasso o ativo.

O nosso Compasso simbólico é o mais simples de todos; é um compasso de ponta seca com dois braços móveis, mas rígidos.

Dentro da sua simplicidade o Compasso tem dois usos principais; a saber, o de desenhar círculos (ou arcos de círculos) e o de transportar/transpor medidas de comprimento.

Esse nosso Compasso fica, em consequência associado à ideia de progressão, ou melhor, ao percurso da progressão.

Quando associado ao círculo, ele transporta-nos para o universo do qual círculo é o Símbolo, e, em consequência, em termos de intelecto, o Compasso será a “configuração/imagem” do Pensamento.

O afastamento dos braços do Compasso e a sua reaproximação, representarão eles os vários modos de raciocínio que, de acordo com as circunstâncias, podem ser abertos e abundantes ou fechados e precisos?

O ponto dentro do círculo, com toda a sua simbologia Maçônica é o lugar marcado pela ponta seca do compasso; e, o círculo marcando a partir desse ponto é a primeira figura que pode ser desenhada com um compasso. Essa figura é o emblema solar por excelência e combina o círculo infinito com o ponto; o símbolo do início de toda a evolução.

O absoluto e o relativo são, portanto, representados pela ação do compasso, que por si só oferece a dualidade (pelos braços) e a unidade (pela sua ponta seca).

A Maçonaria limita a abertura do compasso a 90° e, por sua vez, o ângulo de 90° reproduz o esquadro; sendo, consequentemente esse o limite que o Maçom não pode transpor.

Agora que já sabemos que o Esquadro é o símbolo da Matéria, e o Compasso o símbolo do Espírito; temos então a representação do poder do Espírito sobre a Matéria.

O compasso aberto a 45º como o vemos em Loja indica que a matéria não está completamente dominada, e, logicamente a abertura a 90º indicaria o equilíbrio entre as duas forças; o Compasso transformar-se-ia então, ele também, num Esquadro Justo e Perfeito.

No 1º grau o Esquadro é colocado sobre o Compasso, significando isso que se pode/deve esperar sinceridade e ao mesmo tempo incutir confiança aos Aprendizes, pois nessa fase a Matéria ainda domina o Espírito.

Chegamos, finalmente, à última etapa desta prancha sobre as 3 Grandes Luzes: o “Volume da Lei Sagrada”, ou simplesmente “o Livro da Lei”, pois é esse o nome genérico que lhe foi atribuído para se evitar qualquer tipo de sectarismo, e assim cada um terá seu conceito pessoal respeitado.

O uso da Bíblia poderá ter sido o primeiro e ser utilizado e terá sido introduzido na Escócia em 1637 no mais antigo rito da Maçonaria especulativa o “Mason’s Word”, nome talvez decalcado de “God’s Word”.

Era por esta expressão “God’s Word/Palavra de Deus” que, ao tempo, os Calvinistas da Escócia designavam a Bíblia.

O Livro da Lei, para o nosso espírito, significa, portanto, a Equidade.

Ele é o instrumento da Sabedoria que nos ilumina e nos guia, regulando a nossa conduta no lar, no trabalho, na sociedade e em Irmandade.

É sobre o Livro da Lei que é feito o nosso juramento, tornando-se ele o ponto culminante da nossa habilitação interior para o recebimento da Luz.

Não bastaria, a um aspirante a Maçom, o juramento fundamentado na Honra?

Não! Este ato solene é sempre realizado em presença do GADU, adquirindo dessa forma um caráter espiritual que compromete a nossa consciência religiosa enquanto homens. Nestas condições, a nossa Honra e a nossa Fé são garantia da autenticidade das nossas afirmações/Juramento.

A recepção da Luz é, pois, o ponto culminante da iniciação maçônica, e tem como objetivo maior a relação que une o homem a Deus.

Este nosso “Livro da Lei” não se encontra estipulado em nenhum manual, constituição ou Landmarks. Ele pode ser qualquer Livro Sagrado de qualquer das religiões que creem num Deus Único e Criador.

A única restrição é que: esse volume deve conter, real e efetivamente, as Sagradas Escrituras de uma religião conhecida, e fazer referência a Deus.

Na Maçonaria o vocábulo usado para designar Deus é, como sabemos “Grande Arquiteto do Universo” (GADU).

Para finalizar, aqui vos deixo o meu ponto de vista sobre o tema versado, e em jeito de conclusão.

As três Grandes Luzes são uma excelente fonte educativa e pedagógica para o nosso processo iniciático.

São complementarmente, o progresso, da terra ao céu, da matéria ao espírito; são aquilo que nos pode levar a compreender e adotar a mensagem da tradição iniciática, a jornada definitiva para o conhecimento.

As três grandes luzes são, tal como a trindade, um ternário, o que por si só é suficientemente complexo e, quiçá inexplicável.

Complexo e inexplicável, mas de certa forma simples e conciso e até cabalmente suficiente, porém, ainda paradoxalmente, em parte inexplicável para a minha concepção desta vida maçónica que escolhi.

Fazer um juramento solene é, sabe-se, um nobre e respeitável exercício. Quando prestei o meu juramento perante a Loja, tinha em mente manter os seguintes três objetivos: fazer crescer minha espiritualidade, ser um homem de honra e ser um cidadão fiel e correto.

Este ternário tem moldado, mais firmemente desde então, o meu ideal espiritual e, um ternário dificilmente se quebra; já Salomão, muito antes da constituição da Maçonaria havia dito: “Funiculus triplex difficile rumpitur” (Ecl. 4,12) (o cordão três fios dificilmente se rompe).

Tem sido/é este “triplex”, Compasso, Esquadro e Livro da Lei, a minha força, o meu alicerce, e o meu credo.

A Lei Sagrada para me dirigir e governar dentro da lei (ou fé); o Esquadro para ajustar as minhas ações; e o Compasso para me manter dentro de limites justos “In mensura, et numero, et pondere” (com conta, peso e medida) para com todos os homens, especialmente para convosco Meus Queridos Irmãos.

Até à minha iniciação, e em parte até à feitura desta prancha, eu não tinha percebido que a minha vida passada e o meu percurso eram regulados de acordo com estes símbolos de precisão e abertura; agora sei que eles governam, ou pelo menos pretendo que governem, os meus pensamentos e as minhas ações com a maior frequência possível.

O espírito iniciático em toda a sua transcendência, como eu gosto.

A Ruela Santos, M M

 

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

O CARGO DE ORADOR NO RITO BRASILEIRO


 O Orador numa Loja Maçônica do Rito Brasileiro, desempenha várias funções, dentre elas o de fazer os discursos, pronunciamentos e conclusões. A outra é o conhecimento e aplicação do ordenamento jurídico Maçônico, constituindo o cerne da sua missão.

É um dos cargos da Diretoria de uma Loja do Rito Brasileiro que desempenha papel de grande relevância para o funcionamento regular de uma Loja Maçônica, motivo pelo qual tecemos algumas considerações, visando proporcionar aos Irmãos um pouco dos entendimentos sobre estas funções atribuídas ao Irmão Orador.

O Orador, juntamente com o Venerável Mestre, o Primeiro e Segundo Vigilantes, o Secretário, Tesoureiro e o Chanceler, formam as Dignidades da Loja do Rito Brasileiro. Na hierarquia Maçônica, ocupa o posto da Quarta Dignidade, tendo assento no Oriente próximo a grade, ficando ao norte e à direita do Venerável.

No Altar do Irmão Orador devem estar as Constituições e o Regulamento Geral da Federação, adquirindo o direito de solicitar a palavra diretamente ao Venerável Mestre, podendo permanecer sentado nas suas manifestações, sendo um ponto de equilíbrio da Loja para que os trabalhos sejam desenvolvidos dentro da legalidade.

O Orador é um cargo de múltiplas funções numa Loja do Rito Brasileiro: apresenta perfil de Orador propriamente dito e outro de representante do Ministério Público Maçônico.

O Orador Maçônico do Rito Brasileiro, enquanto Orador, não tem qualquer diferença do orador no mundo profano, vive da arte de falar bem, com desenvoltura, na sua manifestação. Poderá sustentar-se em anotações e até em discurso a ser lido, preparado previamente, o que propiciará uma abordagem objetiva e correta do que se pretende exaltar. Em outro momento, o Orador não é apenas o orador, mas também o representante do Ministério Público Maçônico, o Guarda da Lei.

O Cargo de Orador exige que, aquele que se encontra no seu exercício, tenha discernimento suficiente para não confundir os momentos de atuação funcional – maçônica. Uma coisa é falar como

Orador e outra é atuar como representante do Ministério Público Maçónico, o Guarda da Lei.

Ao Irmão Orador, como membro do Ministério Público, compete: observar, promover e fiscalizar o rigoroso cumprimento das Leis Maçónicas e dos Rituais; cumprir e fazer cumprir os deveres e obrigações a que se comprometeram os membros da Loja; comunicar qualquer infracção; promover a denúncia do infrator; ler os textos de lei e decretos; verificar a regularidade dos documentos maçônicos que lhe forem apresentados; apresentar as suas conclusões no encerramento das discussões, sob o ponto de vista legal, qualquer que seja a matéria, de forma sucinta; opor-se, de oficio, a qualquer deliberação contrária à Lei e em caso de insistência na matéria, formalizar denúncia ao Poder competente em desfavor do infrator; manter arquivo atualizado de toda Legislação Maçônica; assinar com o Venerável Mestre e o Secretário as atas da Loja, tão logo sejam aprovadas; apresentar peças de Arquitetura nas Iniciações, Filiações, Regularizações, Elevações, Exaltações, etc.; agradecer a presença de visitante e acatar ou rejeitar denúncias formuladas à Loja, escritas ou verbais, representando aos Poderes Constituídos. Em caso de rejeição, recorrer ao Tribunal competente.

O Irmão Orador tem como Joia do cargo um Livro aberto, simbolizando o livro da Lei Maçônica, pois o Orador é o representante do Ministério Público, é o guardião das Constituições Maçônicas e representa a consciência da Loja. As decisões da Loja são um livro aberto, indicando também que você deve ser um livro aberto à conduta dos seus Irmãos, bem como compreender as responsabilidades que o seu cargo atribui, devendo estudar profundamente toda Legislação Maçônica e Rituais.

O Orador fala sempre no final das discussões, sobre qualquer assunto proposto, dando o seu parecer sobre a legalidade, dizendo se as proposições estão ou não dentro da legalidade Maçônica, mesmo que ele seja contra a matéria em discussão, deve opinar somente quanto a legalidade da proposta.

O Irmão Orador poderá também se manifestar a respeito do assunto proposto na condição de membro da Oficina, que deverá solicitar ao Venerável Mestre a palavra nessa condição. A respeito do assunto é expresso muito bem pelo Emin. Irmão Sylvio Cláudio, Ex–Presidente do Supremo Tribunal de Justiça Maçônico do Grande Oriente do Brasil, na sua obra Manual do Orador de Loja (Jurisprudência e Doutrina Maçônica, pág. 469):

“Quando o Orador pretende participar da discussão, no mérito, deve informar ao Venerável que deseja falar como Obreiro e não como Orador, dará a sua opinião pessoal e nada falará sobre o aspecto legal da proposta. Nas conclusões, porém, limitar-se-á a dizer sobre a legalidade ou não da matéria em pauta, ocasião em que demonstrará a sua isenção, pois pode ter sido contra a proposta, mas considerá-la “legal” para efeito de prosseguimento da discussão.”

Quando da abertura dos trabalhos Maçônicos, cabe ainda, ao Irmão Orador, a abertura do Livro Sagrado lendo a parte correspondente ao Grau no qual os trabalhos serão realizados e rogar a presença do Supremo Arquiteto do Universo, Deus, para radiar sobre a Oficina energia, ungindo-nos, transformando-nos em iluminados e conservar todos unidos na lei Divina, para que os trabalhos transcorram justos e perfeitos. E o fechamento do Livro da Lei da Lei através de ritual adequado.

Portanto, como podemos observar, a área de atuação do Orador é extremamente extensa e nem sempre fácil.

Um Guarda da Lei que conheça a legislação Maçônica jamais permitiria que certas coisas sejam praticadas em Loja, impunemente, uma vez que é seu dever zelar pelo cumprimento da Legislação Maçônica e Rituais, denunciando os responsáveis pelo descumprimento.

O Orador de uma Loja do Rito Brasileiro não é apenas um fazedor de discursos, ao contrário. Ele deve ser comedido no falar e só fazer as brilhantes Peças de Arquitetura nas ocasiões propicias, abstendo-se nas sessões ordinárias de produzir erudição longa e demorada, que não trará nenhum proveito para os participantes, após várias horas de trabalho, que precisam sim, ouvir informações simples, claras, objetivas e não discursos retóricos que, no fim não diz nada a respeito do assunto tratado.

Como tudo na nossa Ordem, o Orador deve ser aquele que fala com o coração, sendo a boca mero instrumento de transmissão das ideias; tem de ser equilibrado, sereno e fraterno no cumprimento da sua missão, estar entrosado com o Venerável, sendo recomendável que nunca demonstre, em Loja, discordância com o Altar da Sabedoria, salvo quando uma solução envolve responsabilidade do Irmão Orador, ocasião que deverá solicitar para consignar em acta o seu entendimento a respeito da ilegalidade do ato.

O Orador é o assessor do Venerável Mestre em assuntos envolvendo a aplicação de leis e normas jurídicas, devendo ser tratados, previamente para que ele estude e apresente em Loja uma opinião a respeito do assunto dentro do interesse da Administração e da sua legalidade.

Portanto, o irmão que venha ocupar tal cargo deve fazê-lo com propriedade e dedicação, a fim de contribuir com o funcionamento regular de uma Loja Maçônica.

Carlos Augusto F. de Viveiros, Loja Simbólica 7 de Setembro nº 2126 – GOEGO – GOB – Oriente de Goiânia-GO

Bibliografia

  • Rituais de Maçons Antigos, Livre e Aceitos do Rito Brasileiro – GOB.
  • Regulamento Geral da Federação – GOB, edição
  • Constituição do GOB, edição
  • Constituição do GOEGO, ed. 2003.
  • Carvalho, Francisco de Assis. Cargos em Loja, 7a. ed. Londrina: Ed. Maçónica “A TROLHA”, 1998.
  • Monteiro Filho, Arthur de Almeida. Ramos da acácia. Antonio Rocha Fadista, trad. e Jefferson Soares Carvalho. 1a. ed. Londrina: Ed. Maçónica “A TROLHA”, 2005.
  • Ferreira Sobrinho, José Legislação maçônica, 1a. ed. Londrina: Ed. Maçónica “A TROLHA”, 2002.
  • Ferreira Sobrinho, José Maçonaria e direito, 1a. ed. Londrina: Ed. Maçónica “A TROLHA”, 2001.
  • Joaquim da Silva Pires. Rituais Maçônicos Brasileiros, 1a. ed. Londrina: Ed. Maçónica “A TROLHA”, 1996.
  • Jakobi, Heinz Roland. Como gerenciar uma Loja Maçônica: recomendado para a administração de uma Loja Maçônica, a nível de Venerável Mestre, Luz, Secretários, Tesoureiros e Oficiais/Heinz Roland Jakobi e José Soares Barbosa. 3a. ed. Londrina: Ed. Maçônica “A TROLHA”, 2003.
  • Carlos Simões, O Rito Brasileiro, 1a. ed. “A GAZETA MAÇÓNICA”, 1999.
  • Mota, Willian Felício da. Rito Brasileiro de maçons antigos, livres e aceitos “normas – ritualística e estrutura”, 1a. ed. “PONTUAL”, 2001.
  • Valter Martins de Toledo. Jurisprudência de Doutrina Maçônica. Impressão – Gráfica 2002.
  • Pinto, G. Hercules. A Maçonaria e o rito brasileiro. Maçônica, 1981.
  • Conte, Carlos Brasílio. O livro do orador: oratória maçônica, São Paulo, Ed. Madras, 2004.

 


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