A exortação feita pelo Santo Padre Leão XIV no final da
introdução da Carta Encíclica ‘MAGNIFICA HUMANITAS’ é clara: “A todos os fiéis
católicos, a todos os cristãos, a todos os homens e mulheres de boa vontade,
dirijo um sentido apelo: não tenhamos medo de sujar as mãos no canteiro de
obras do nosso tempo”.
Em resposta a esse mesmo apelo, como Obediência que inclui,
nos seus princípios, a crença obrigatória em Deus, e que integra um número
extremamente representativo de maçons que são também professos da religião
católica, entende a Maçonaria Regular portuguesa responder positivamente a esta
chamada ao serviço por parte do Papa e face a um tema tão profundamente
determinante para o futuro não apenas da tecnologia e da ciência, mas de toda a
Humanidade pela sua transversalidade e alcance disruptivo.
Tal como o texto da Encíclica reafirma, “a técnica não deve
ser considerada, em si mesma, como uma força antagónica em relação à pessoa”.
Mas é também crucial entender que “outrora, eram sobretudo os Estados a
orientar e a dirigir a inovação. Hoje, pelo contrário, os principais motores do
desenvolvimento são sujeitos privados, frequentemente transnacionais, dotados
de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos Governos. O
poder tecnológico assume, destarte, uma identidade inédita, predominantemente
“privada” e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o
bem comum”, alerta o Papa Leão XIV.
Ainda na sua introdução, o texto aponta claramente o
caminho a seguir para transpor este desafio, e que é o da partilha e não da
divisão, o da Nova Jerusalém e não o de Babel. Em suma, o da incorporação do
divino no propósito da construção comum, em lugar da tentação do humano
centrismo que transporta consigo a inevitável queda.
Nesse caminho, e obviamente sem entrar no campo teológico
que é do foro da Igreja Católica Apostólica Romana, interessa à Maçonaria
Regular regozijar-se com a menção a “um discernimento partilhado, capaz de
penetrar nas raízes espirituais e culturais das transformações em curso” e
salientar a dimensão otimista e humanista da ‘MAGNIFICA HUMANITAS’ que é, em
essência, uma chamada à ação.
Ao escrever que “Se nos limitarmos às contingências,
corremos o risco de deixar que uma série de emergências decida, em nosso lugar,
a direção do caminho”, o Papa coloca-nos a todos a responsabilidade de fazer,
não apenas de entender. De agir e não apenas de ouvir.
A Maçonaria Regular não poderia estar mais de acordo com o
Santo Padre quando ele aponta que
“a verdadeira realização não nasce da supressão das
fragilidades, mas de um crescimento harmonioso: onde a liberdade e a
responsabilidade se entrelaçam com o cuidado recíproco e a verdadeira
solidariedade, e onde o progresso se mede pela dignidade de cada um e pelo bem
dos povos”.
Este é um parágrafo que, de certa forma, descreve um dos
eixos principais da Maçonaria Regular, o do desenvolvimento harmonioso do Homem
em solidariedade para com os restantes. Ao sublinhar que “construir um mundo
onde todos possam ‘florescer’ exige uma corresponsabilidade corajosa”, os
Maçons reconhecem-se nessa corresponsabilização e estamos prontos a unir os
nossos esforços e contributos para o objetivo comum.
Há alguns meses, a Maçonaria Regular portuguesa promoveu um
debate sobre a Inteligência Artificial e a Saúde. Mas os assombrosos
progressos, a par das questões que nos assombram, extrapolam para todos os
setores da atividade humana.
Neste seu histórico texto, o Papa alerta-nos também para a
“responsabilidade duma autêntica participação” e aponta que “a solidariedade se
expressa quando cada um, pessoalmente e com os outros, participa na vida da
comunidade – informa-se, associa-se, faz-se ouvir, contribui para as decisões e
escolhas públicas – assumindo responsabilidades concretas para que o bem comum
se traduza em escolhas partilhadas”.
Aqui também estamos completamente em sintonia e aqui também
se manifesta um valor tão católico e cristão quanto maçónico, essa
“solidariedade efetiva” de que fala Leão XIV.
É sabido que existe uma doutrina que lamentavelmente impede
o diálogo institucional concertado entre Igreja Católica e Maçonaria, mesmo a
Regular, mesmo sendo nós crentes e tantos de nós praticantes. É uma decisão que
mais uma vez, à luz desta encíclica, acreditamos que possa vir a ser revertida
no futuro próximo.
Obviamente, para impedir uma nova Babel e pelo contrário
seguirmos o exemplo de Neemias na reconstrução de Jerusalém, todos somos
necessários, e o diálogo é tão mais justificado quando olhamos mais para o que
nos une nos princípios e nas ações, e menos para o que eventualmente nos divida.
Em nome de todos os maçons regulares, envio à Igreja
Católica e ao Santo Padre Leão XIV os nossos sinceros agradecimentos por uma
magnífica encíclica, que a todos nos ilumina e ajuda no caminho da luz.
Paulo Rola – Grão-Mestre da Grande
Loja Legal de Portugal / GLRP
Fonte: Publicado no Jornal Observador em 31 de maio de 2026

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