terça-feira, 2 de junho de 2026

A ENCÍCLICA PAPAL À LUZ DA MAÇONARIA REGULAR

A exortação feita pelo Santo Padre Leão XIV no final da introdução da Carta Encíclica ‘MAGNIFICA HUMANITAS’ é clara: “A todos os fiéis católicos, a todos os cristãos, a todos os homens e mulheres de boa vontade, dirijo um sentido apelo: não tenhamos medo de sujar as mãos no canteiro de obras do nosso tempo”.

Em resposta a esse mesmo apelo, como Obediência que inclui, nos seus princípios, a crença obrigatória em Deus, e que integra um número extremamente representativo de maçons que são também professos da religião católica, entende a Maçonaria Regular portuguesa responder positivamente a esta chamada ao serviço por parte do Papa e face a um tema tão profundamente determinante para o futuro não apenas da tecnologia e da ciência, mas de toda a Humanidade pela sua transversalidade e alcance disruptivo.

Tal como o texto da Encíclica reafirma, “a técnica não deve ser considerada, em si mesma, como uma força antagónica em relação à pessoa”. Mas é também crucial entender que “outrora, eram sobretudo os Estados a orientar e a dirigir a inovação. Hoje, pelo contrário, os principais motores do desenvolvimento são sujeitos privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos Governos. O poder tecnológico assume, destarte, uma identidade inédita, predominantemente “privada” e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum”, alerta o Papa Leão XIV.

Ainda na sua introdução, o texto aponta claramente o caminho a seguir para transpor este desafio, e que é o da partilha e não da divisão, o da Nova Jerusalém e não o de Babel. Em suma, o da incorporação do divino no propósito da construção comum, em lugar da tentação do humano centrismo que transporta consigo a inevitável queda.

Nesse caminho, e obviamente sem entrar no campo teológico que é do foro da Igreja Católica Apostólica Romana, interessa à Maçonaria Regular regozijar-se com a menção a “um discernimento partilhado, capaz de penetrar nas raízes espirituais e culturais das transformações em curso” e salientar a dimensão otimista e humanista da ‘MAGNIFICA HUMANITAS’ que é, em essência, uma chamada à ação.

Ao escrever que “Se nos limitarmos às contingências, corremos o risco de deixar que uma série de emergências decida, em nosso lugar, a direção do caminho”, o Papa coloca-nos a todos a responsabilidade de fazer, não apenas de entender. De agir e não apenas de ouvir.

A Maçonaria Regular não poderia estar mais de acordo com o Santo Padre quando ele aponta que

“a verdadeira realização não nasce da supressão das fragilidades, mas de um crescimento harmonioso: onde a liberdade e a responsabilidade se entrelaçam com o cuidado recíproco e a verdadeira solidariedade, e onde o progresso se mede pela dignidade de cada um e pelo bem dos povos”.

Este é um parágrafo que, de certa forma, descreve um dos eixos principais da Maçonaria Regular, o do desenvolvimento harmonioso do Homem em solidariedade para com os restantes. Ao sublinhar que “construir um mundo onde todos possam ‘florescer’ exige uma corresponsabilidade corajosa”, os Maçons reconhecem-se nessa corresponsabilização e estamos prontos a unir os nossos esforços e contributos para o objetivo comum.

Há alguns meses, a Maçonaria Regular portuguesa promoveu um debate sobre a Inteligência Artificial e a Saúde. Mas os assombrosos progressos, a par das questões que nos assombram, extrapolam para todos os setores da atividade humana.

Neste seu histórico texto, o Papa alerta-nos também para a “responsabilidade duma autêntica participação” e aponta que “a solidariedade se expressa quando cada um, pessoalmente e com os outros, participa na vida da comunidade – informa-se, associa-se, faz-se ouvir, contribui para as decisões e escolhas públicas – assumindo responsabilidades concretas para que o bem comum se traduza em escolhas partilhadas”.

Aqui também estamos completamente em sintonia e aqui também se manifesta um valor tão católico e cristão quanto maçónico, essa “solidariedade efetiva” de que fala Leão XIV.

É sabido que existe uma doutrina que lamentavelmente impede o diálogo institucional concertado entre Igreja Católica e Maçonaria, mesmo a Regular, mesmo sendo nós crentes e tantos de nós praticantes. É uma decisão que mais uma vez, à luz desta encíclica, acreditamos que possa vir a ser revertida no futuro próximo.

Obviamente, para impedir uma nova Babel e pelo contrário seguirmos o exemplo de Neemias na reconstrução de Jerusalém, todos somos necessários, e o diálogo é tão mais justificado quando olhamos mais para o que nos une nos princípios e nas ações, e menos para o que eventualmente nos divida.

Em nome de todos os maçons regulares, envio à Igreja Católica e ao Santo Padre Leão XIV os nossos sinceros agradecimentos por uma magnífica encíclica, que a todos nos ilumina e ajuda no caminho da luz.

Paulo Rola – Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP

Fonte: Publicado no Jornal Observador em 31 de maio de 2026

 

 

Postagem em destaque

OS TRÊS TRAIDORES DO TEMPLO INTERIOR

Dentro da tradição maçônica, poucos relatos possuem uma profundidade simbólica tão poderosa quanto a morte de Hiram Abif, o Mestre Construto...