É norma contida no Ritual Escocês, de 1928, das GG.·. LL.·.
Brasileiras, que a Palavra Semestral deve ser trocada com o Cobridor da Loja
que se visita, como prova da regularidade recíproca entre o visitante e a
visitada. Quando Aprendiz, indaguei: como é que se processa esse trocar?
Responderam-me que eu deveria dar ao Cobridor da Loja visitada uma falsa
palavra, isto é, inventada; caso ela fosse aceita ou recusada, haveria a prova
da irregularidade ou regularidade da Loja.
E, à guisa de pá-de-cal, me foi acrescentado: se a Loja for
regular, o Cobridor não aceitará tal troca e voltará a pedir a Palavra - e aí
sim! - darás a verdadeira, aquela recebida na Cadeia de União. Ponderei que a
explicação não abrangia todas as possibilidades, inclusive a do Visitante ser colocado
no olho-da-rua, por irregular ou por metido a engraçadinho... Ante o frio olhar
do Mestre, calei-me...
O tempo passou. Visitei muitas Lojas. Nunca foi necessário
trocar a Palavra Semestral com quem quer que fosse, embora a dúvida de como
proceder continuasse latente no subconsciente. Até que um dia, ao longo das
pesquisas e estudos, inesperadamente, nas últimas páginas da obra A Simbólica
Maçônica - de Jules Boucher - lá estava a resposta concisa à invencionice que
tentaram me impingir (e, sabe-se lá, a quantos outros...).
Então, juntei o dito por Jules Boucher com outras leituras
e, hoje, tantos anos passados, creio estar suficientemente informado para
explicar, sem magister dixit, aos Aprendizes de agora, a verdade sobre tal
assunto, vazada num texto simples, como eu gostaria de ter recebido em 1977/78.
Buscando reunir as informações essenciais à compreensão do tema, situá-lo no
tempo e resumir seus eventos desencadeantes, vejamos...
A Maçonaria Francesa do século XVIII — de onde, em grande
parte, o nosso Rito provém —, foi pródiga em Graus, Ritos e Corpos: quase 400
Graus, mais de 50 Ritos e, englobando tudo isso, diversas Ordens e Obediências.
Evidentemente, todas digladiando-se por precedências. No sentido de amplitude,
no de entrecruzar caminhos, descaminhos e trilhas ― uma savana — verbera Allec
Mellor.
Assim, lá por 1770, existiam três grandes Obediências: duas
Grandes Lojas, a da França e a Nacional de França, mais o Conselho dos
Imperadores do Oriente e do Ocidente (Grande e Soberana Loja Escocesa de São
João de Jerusalém), além de vários Grupos e Lojas esparsas.
No início de 1773, buscando dar fim ao divisionismo,
limitar o número de Graus e, segundo dizem, para impor suserania à Maçonaria
Francesa, a maior parte da Grande Loja da França (e outras dissidências)
reestruturou-se como ―Ordem Real da Maçonaria em França‖, gerando e dando à luz — em 24.05.1773 — ao Grande Oriente de França, Obediência que, em 28 de
outubro daquele ano, empossa seu primeiro Grão-mestre, Felipe de Orleans, Duque
de Charters (1).
Afora a estranha personalidade de tal Grão-Mestre (2), o
que importa assinalar é o fato de que na data de sua posse nasceu a Palavra
Semestral (3), criada para impedir a presença de Maçons não filiados às
reuniões do GOF. Foi uma medida bem diferente daquela tomada em 1730 pela
Grande Loja de Londres que, ao trocar a sequência das colunas de BJ para JB,
buscava impedir o acesso de profanos nas Lojas, em decorrência das
inconfidências de Prichard, quando publicou nossos segredos num jornal
londrino.
Contrariamente, o GOF atingia os Maçons, tentando
obrigá-los à filiação na nova Obediência, limitando o livre direito de
visitação até então vigente.
Concluído o cenário e vistas às motivações que ensejaram o
nascimento da Palavra Semestral, vejamos como ela foi planejada para ter
eficácia, no sentido concebido por seus mentores, os quais, com inteligência,
uniram dois usos tradicionais: um militar, o da Senha; e o outro obreiro, o da
Cadeia de União (4). Tais parâmetros foram conjugados e, até hoje, mantidos em
vigor nas Obediências Escocesas da Europa, assim:
a) A PS não é UM só vocábulo, são DOIS, ambos com a mesma
inicial; por exemplo: Luz/Lua, Sol/Saber
ou Fé/Força... É Senha e Contrassenha ou melhor, tal como se diz na França: são
as palavras semestrais;
b) Na Cadeia de União, uma palavra vai pela direita, a
outra pela esquerda; e, pelo retorno aos ouvidos do Venerável, este diz do
acerto da recepção: ―Justas e Perfeitas.
Caso ocorra algum erro, o procedimento é repetido até poder
ser dado como correto.
À luz do até aqui exposto, retornando à indagação inicial
de como trocar a Palavra Semestral com o Cobridor, bastaria que o visitante
desse a Senha (uma palavra) e recebesse a Contrassenha (a outra palavra) para
que, inegavelmente, ficasse estabelecida a regularidade de ambos. Ou seja, a do
visitante e a da Loja. Tudo simples, sem invencionices, de forma inteligente!
Aqui poderíamos dar por concluído este trabalho, mas nossos
leitores talvez ficassem com duas indagações:
1ª) A implantação das Palavras Semestrais surtiu o efeito
desejado?
2ª) Por que nós temos somente uma Palavra Semestral?
Respondendo-as, ressalvando a existência de divergências
entre os historiadores,
podemos dizer que:
Na França, como vimos, a implantação das Palavras fazia
parte de um contexto obediencial e programático que, no sentido hegemônico, não
alcançou seu fim, pois a animosidade dos IIr.·., Lojas e Obediências tidas por
irregulares‖
avolumou-se contra ao GOF que, embora enobrecido com um príncipe de sangue na
titularidade do Grão-Mestrado, não conseguiu unificar a Maçonaria Francesa, mas
ficou com sua maior fatia.
No nosso caso, a existência de uma só Palavra Semestral, em
vez de duas, podemos creditar somente ao desconhecimento do tema, tanto por
tradutores quanto por autoridades litúrgicas, os quais — por certo —
desconheciam a História da Franco Maçonaria de Findel, que à pág. 65,
descrevendo uma iniciação de antanho, quase ao final diz: ―Era libertado da
venda de seus olhos, mostravam-lhe as três grandes luzes, colocavam-lhe um
avental novo e davam-lhe o santo e a senha, conduzindo-o ao lugar que lhe
correspondia no recinto da Assembleia. Santo-e-senha, segundo os dicionaristas,
são palavras de mútuo reconhecimento.
Aliás, fazendo-se um parêntese, os nossos Vven.·. recebem a
Palavra Semestral inserida num triângulo (?) e cifrada num código primário,
para não dizer infantil, quando bem poderia ser criptografada no antigo
alfabeto maçônico. Pelo menos assim, recordaríamos como decifrar certos sinais
inseridos no Painel de Mestre, além de nos lembrar a ausência da Prancheta em
Loja.
Concluindo, embora desagradando aqueles que buscam origens
místicas e mágicas em tudo quando maçônicamente nos cerca, vimos que a Palavra
Semestral nasceu de uma contingência nada esotérica. Aliás, daquele contexto,
convém ressaltar, se originou a forma democrática de eleição dos VVen.·. (5) -
(apanágio que o GOF até hoje ostenta e orgulhosamente relembra). No mais,
acreditamos ter ficado evidente a forma equivocada de transmitir e trocar a
Palavra Semestral, totalmente em desacordo com a tradição mais que
bicentenária.
Por fim, com a última Palavra Semestral distribuída pela
CMSB, a do primeiro semestre de 2001, apressadamente julgamos ter retornado ao
tradicional molde de Senha -Contrassenha. Ledo engano, mas razão suficiente
para reformatarmos este trabalho e continuarmos esperando que, um dia, a
Palavra retorne à forma originária. Caso isso não aconteça — o que é bem
provável — contentamo-nos em fazer a nossa parte: a de difundir mais uma
informação sobre nossos Usos e Costumes, para proveito dos cultores das
Tradições do R.E.A.A. .
NOTAS:
1- Sendo seus oficiais: o Duque de Montmorency — Luxemburgo
(Administrador-Geral); o Conde de Buzencois (Grande-Conservador (!?); o
Príncipe de Rohan (Representante do GM); o Barão de Chevalerie (Grande Orador);
o Príncipe de Pignatelly (Grande Experto).
2 – Militante revolucionário que, sob o cognome de
Felipe-Igualdade, votou na Convenção pela morte de seu primo e Ir.·., o rei
Luiz XVI. Além disso, em quase vinte anos de mandato, poucas vezes presidiu os
trabalhos do GOF; ao fim, renunciou e abjurou a Maçonaria. Foi expulso da Ordem
e sua espada foi quebrada ―em Loja. Acabou seus dias guilhotinado como contrarrevolucionário.
3- Segundo o Dic. De Frau Ablines (elencado na
bibliografia), a Palavra nasceu em 23.07.1777, sob a alegação de que
―convencidos por uma larga experiência da insuficiência dos meios empregados
para afastar os falsos Maçons, acreditamos que o melhor que se pode fazer é
rogar ao Grão-Mestre que dê a cada seis meses uma palavra, que se comunicará
aos Maçons regulares, por meio da qual se farão reconhecer nas Lojas que
visitarem.
4- Não era, e continua não sendo, um costume universal da
Maçonaria, pois presumidamente nasceu na Compagnonnage, corporação obreira do
continente europeu que não penetrou na Maçonaria de Ofício Insular (Ilhas
Britânicas); consequentemente, a Maçonaria de origem Anglo-Saxã não pratica a
Cadeia de União, dizendo-a fora dos cânones maçônicos.
5- Os Mestres de Loja, como eram chamados naquela época,
tinham conseguido tornar- se donos de Lojas particulares, inamovíveis até
24.05.1773. Nesta data, criado o GOF, foi usado pela primeira vez a expressão
“Venerável Mestre de Loja” e declarado que, daí em diante, não se reconheceria
o Mestre elevado àquela dignidade, senão pela livre escolha dos membros da
Loja.
Autor: Ir.·. Adayr Paulo Modena. Ex-Deputado do Grão-Mestre
da Grande Loja Maçônica do Estado do Rio Grande do Sul. Hoje, no Oriente
Eterno!
Bibliografia:
A Franco-Maçonaria Simbólica e Iniciática — Jean Palou.
A Simbólica Maçônica – Jules Boucher.
Dicionário da FM e dos F. Maçons — Ajec Mellor.
Dic. Enciclop. de la Masonería — Don Lorenzo Frau Abrines e
Don Rosendo Arús Arferiu.
Gr. Dic. Enciclop. de Maçonaria e Simbologia — Nicola
Aslan.
Jornal ―Le Monde, ar]go publicado em 15.09.2000 — Alain
Bauer, Grão-Mestre do
GOF.
O R.E.A.A. — José Castellani.
Programa Radiofônico — Domingo, 05.11.2000 — Entrevista do
Grão-Mestre do GOF,
Alain Bauer.
Revista ―A Renascença, nº 22 — abril de 1998
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