Os
ritos de passagem são frequentemente integrados por referências ou
representações à vida anterior dos que se submetem ao rito (de onde vens), por
uma ou mais provas que devem ser superadas (o que és) e por referências ou
representações daquilo a que se acede (para onde vais), designadamente aos
deveres ou obrigações inerentes à nova situação que é atingida.
O
rito de passagem que é a Cerimônia de Iniciação maçônica não foge a este
estereótipo. Tem, porém, a característica de, após uma fase inicial, destinada
à preparação psicológica e interior do candidato, tudo isso ocorrer em
simultâneo.
Durante
praticamente todo o decurso da Cerimônia de Iniciação, processam-se, em
simultâneo, simbólicas referências à vida passada do profano em geral (e,
portanto, também do candidato), ocorre a prestação de provas pelo candidato,
por cuja submissão e consequente superação, também simbolicamente, se processa
a transformação da realidade anterior para a realidade futura e apresentam-se
ao candidato os princípios morais que devem por este ser seguidos como
elementos verazmente identificadores e conformadores da sua nova condição, a de
maçom.
Durante
todo este processo, o candidato é o centro da Loja – e, na medida em que esta
simboliza também o Mundo, o candidato é o centro do Mundo. Tudo começa e acaba
nele. Tudo a ele se refere. Tudo se destina a ser percepcionado, apreendido,
sentido, em suma, vivido, por ele.
Porque
assim é, tudo é organizado para que o máximo de atenção do candidato esteja
concentrado no que se passa. Quando é que a nossa capacidade de atenção está no
seu nível máximo? Quando estamos perante o desconhecido. Daí a importância de
que o candidato ignore o que se vai passar.
Mas
o objetivo principal da Cerimônia de Iniciação é TRANSFORMAR um profano num
maçom. Importa, então, que esta efetue essa transformação. Para que tal ocorra,
há que causar uma impressão no candidato, que seja o agente dessa
transformação.
Isso
não ocorre com a mera leitura de um texto ou a simples exposição de normas de
conduta, ou sequer com a prestação de provas que, na realidade, são tão
acessíveis que não há memória de terem sido falhadas. Isso ocorre com a
integração de tudo isto num conjunto e numa ambiência que, vividos em direto,
sem avisos prévios, sem se saber o que virá a seguir, efetivamente marquem o
candidato. O que se procura é que quem se submeter a uma cerimônia de iniciação
maçónica nunca a esqueça, em dias de sua vida!
Para
tal, o candidato é o centro de interesse de toda a atuação de toda a Loja
durante todo o tempo em que decorre a sua iniciação, em toda a sua
integralidade. Procura-se atingir, tocar, todos e cada um dos cinco sentidos do
candidato. É importante, assim, tudo o que o candidato vê (e o que não vê…),
tudo o que ouve e entende (e tudo o que, ouvindo, não entende, no momento…),
tudo o que cheira, tudo o que saboreia, tudo o que sente (e tudo o que se passa
sem que ele diretamente sinta…).
A
Cerimônia de Iniciação maçônica é uma cerimônia complexa para quem a executa e
para quem a ela é submetido. Para quem a executa, porque, para ser feita de
forma a que ela atinja os seus objetivos, se impõe concentração, coordenação e
cooperação de todos os presentes, pois todos, realmente todos, os membros de
uma Loja presentes participam na Cerimônia de Iniciação e contribuem para a
criação do clima que permitirá o desabrochar de um maçom no interior de quem a
essa cerimônia é submetido. Para este, porque, impreparado, despojado e
indefeso, enfrenta uma aluvião de sensações que – sabemo-lo! – lhe será
impossível devidamente processar no momento. Mas é por isso mesmo que a Cerimônia
de Iniciação é marcante!
Uma
Cerimônia de Iniciação bem executada, bem vivida, será fonte de ensinamento e
reflexão ao longo de toda a vida. Não será imediatamente compreendida na sua
integralidade. Mas isso não importa. O que importa é que marque quem a ela se
submeteu. Marcará quando é vivida. Marcará de novo quando, pela primeira vez, o
então já maçom assistir à iniciação de outrem. Voltará a marcar sempre que
assistir a uma iniciação, sempre que executar uma função numa iniciação, sempre
que dirigir uma iniciação.
E,
se a sua Iniciação for proveitosa, se o maçom souber dela tirar toda sua lição
e a aplicar ao longo do resto de sua vida, desejavelmente quando chegar o
momento da sua Suprema Iniciação, do Derradeiro Ritual de Passagem, da sua
Passagem ao Oriente Eterno, recordar-se-á do dia em que esteve, impreparado,
despojado e indefeso, perante o Desconhecido e passou adiante e… não temerá!
Rui
Bandeira
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