sexta-feira, 29 de agosto de 2025

A INICIAÇÃO

Os ritos de passagem são frequentemente integrados por referências ou representações à vida anterior dos que se submetem ao rito (de onde vens), por uma ou mais provas que devem ser superadas (o que és) e por referências ou representações daquilo a que se acede (para onde vais), designadamente aos deveres ou obrigações inerentes à nova situação que é atingida.

O rito de passagem que é a Cerimônia de Iniciação maçônica não foge a este estereótipo. Tem, porém, a característica de, após uma fase inicial, destinada à preparação psicológica e interior do candidato, tudo isso ocorrer em simultâneo.

Durante praticamente todo o decurso da Cerimônia de Iniciação, processam-se, em simultâneo, simbólicas referências à vida passada do profano em geral (e, portanto, também do candidato), ocorre a prestação de provas pelo candidato, por cuja submissão e consequente superação, também simbolicamente, se processa a transformação da realidade anterior para a realidade futura e apresentam-se ao candidato os princípios morais que devem por este ser seguidos como elementos verazmente identificadores e conformadores da sua nova condição, a de maçom.

Durante todo este processo, o candidato é o centro da Loja – e, na medida em que esta simboliza também o Mundo, o candidato é o centro do Mundo. Tudo começa e acaba nele. Tudo a ele se refere. Tudo se destina a ser percepcionado, apreendido, sentido, em suma, vivido, por ele.

Porque assim é, tudo é organizado para que o máximo de atenção do candidato esteja concentrado no que se passa. Quando é que a nossa capacidade de atenção está no seu nível máximo? Quando estamos perante o desconhecido. Daí a importância de que o candidato ignore o que se vai passar.

Mas o objetivo principal da Cerimônia de Iniciação é TRANSFORMAR um profano num maçom. Importa, então, que esta efetue essa transformação. Para que tal ocorra, há que causar uma impressão no candidato, que seja o agente dessa transformação.

Isso não ocorre com a mera leitura de um texto ou a simples exposição de normas de conduta, ou sequer com a prestação de provas que, na realidade, são tão acessíveis que não há memória de terem sido falhadas. Isso ocorre com a integração de tudo isto num conjunto e numa ambiência que, vividos em direto, sem avisos prévios, sem se saber o que virá a seguir, efetivamente marquem o candidato. O que se procura é que quem se submeter a uma cerimônia de iniciação maçónica nunca a esqueça, em dias de sua vida!

Para tal, o candidato é o centro de interesse de toda a atuação de toda a Loja durante todo o tempo em que decorre a sua iniciação, em toda a sua integralidade. Procura-se atingir, tocar, todos e cada um dos cinco sentidos do candidato. É importante, assim, tudo o que o candidato vê (e o que não vê…), tudo o que ouve e entende (e tudo o que, ouvindo, não entende, no momento…), tudo o que cheira, tudo o que saboreia, tudo o que sente (e tudo o que se passa sem que ele diretamente sinta…).

A Cerimônia de Iniciação maçônica é uma cerimônia complexa para quem a executa e para quem a ela é submetido. Para quem a executa, porque, para ser feita de forma a que ela atinja os seus objetivos, se impõe concentração, coordenação e cooperação de todos os presentes, pois todos, realmente todos, os membros de uma Loja presentes participam na Cerimônia de Iniciação e contribuem para a criação do clima que permitirá o desabrochar de um maçom no interior de quem a essa cerimônia é submetido. Para este, porque, impreparado, despojado e indefeso, enfrenta uma aluvião de sensações que – sabemo-lo! – lhe será impossível devidamente processar no momento. Mas é por isso mesmo que a Cerimônia de Iniciação é marcante!

Uma Cerimônia de Iniciação bem executada, bem vivida, será fonte de ensinamento e reflexão ao longo de toda a vida. Não será imediatamente compreendida na sua integralidade. Mas isso não importa. O que importa é que marque quem a ela se submeteu. Marcará quando é vivida. Marcará de novo quando, pela primeira vez, o então já maçom assistir à iniciação de outrem. Voltará a marcar sempre que assistir a uma iniciação, sempre que executar uma função numa iniciação, sempre que dirigir uma iniciação.

E, se a sua Iniciação for proveitosa, se o maçom souber dela tirar toda sua lição e a aplicar ao longo do resto de sua vida, desejavelmente quando chegar o momento da sua Suprema Iniciação, do Derradeiro Ritual de Passagem, da sua Passagem ao Oriente Eterno, recordar-se-á do dia em que esteve, impreparado, despojado e indefeso, perante o Desconhecido e passou adiante e… não temerá!

Rui Bandeira

 

 

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