Relendo uma prancha que escrevi há alguns anos, sobre o
eterno tema da ciência e da religião, surpreendi-me com a sua atualidade.
Continuamos a debater se são opostas ou complementares. Continuamos, no fundo,
a tentar descobrir se o universo tem apenas leis — ou também sentido.
Na altura escrevi que não via ali conflito, mas antes dois
caminhos diferentes para uma mesma buscam: compreender o que nos rodeia e o
nosso lugar nisso tudo. A ciência diz-nos como as coisas funcionam. A religião
tenta explicar por quê.
Hoje, o cenário até parece que mudou, mas não para melhor,
a ciência é questionada por teorias da conspiração e vídeos de TikTok, por seu
lado a religião continua a ser usada para justificar guerras e ódios. Ninguém
ouve, poucos pensam, e muitos gritam “o meu Deus é melhor que o teu”.
E assim voltamos ao essencial.
Mesmo Stephen Hawking, tantas vezes apontado como ateu,
dizia que se descobríssemos uma teoria unificada, estaríamos conhecendo a mente
de Deus. No fundo, ele sabia, como Einstein e Galileu também sabiam, que há um
ponto onde a razão bate no limite. Um ponto fora da equação, onde tudo o que
sabemos falha. Uma singularidade. E talvez aí, nesse exato lugar onde a física
se cala, comece a linguagem do Grande Arquiteto.
Não precisamos de escolher entre razão e fé. Precisamos é
que ambas iluminem o que andamos tentando ver. Recordo do Evangelho segundo São
Lucas: “Ninguém, depois de acender uma candeia, a cobre com um vaso ou a coloca
debaixo da cama; pelo contrário, coloca-a num lugar alto, para que os que
entram vejam a luz.”
A ciência é essa candeia, acesa com esforço, com estudo,
com dúvidas. E a fé é alimentada por silêncio, por prática, por esperança, mas
nenhuma serve de alguma coisa caso seja escondida, nenhuma ajuda se for usada
para controlar ou para envergonhar. A luz foi feita para guiar. Para mostrar.
Para que quem entra veja e compreenda.
Entre leis naturais e mistérios espirituais, há sem dúvida
em comum a procura sincera pela Verdade, e essa busca, se autêntica, nunca
divide, pelo contrário: revela.
João B., M. M.

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