quinta-feira, 11 de junho de 2026

A MORTE DO "EU PROFANO"


Toda verdadeira iniciação começa com uma renúncia.

O homem que procura a Luz não pode entrar no Templo sendo exatamente o mesmo que era antes de bater em suas portas. Deve estar disposto a se livrar daquilo que limita o seu crescimento: orgulho, preconceitos, falsas certezas e domínio das suas paixões.

É por isso que a tradição maçônica fala de uma transformação interior que muitos descrevem como uma “morte simbólica”. Não morre o homem físico, mas a maneira antiga de pensar e compreender o mundo.

O termo profano vem do latim pró fanum: “fora do templo”. Representa o homem que ainda vive condicionado pelo ego, aparência e apegos materiais, sem ter iniciado o trabalho consciente sobre si mesmo.

Atravessar o limiar implica então uma decisão profunda:

abandonar o conforto das certezas para entrar no caminho da busca.

Maçonaria não promete perfeição imediata. Entrega ferramentas. O resto depende do trabalho constante do iniciado.

A pedra bruta simboliza precisamente esse estado inicial do ser humano: uma obra incompleta, cheia de arestas e contradições. Com vontade, disciplina e reflexão, cada golpe do baralho representa um esforço para se corrigir, compreender e elevar moralmente.

- Ninguém se transforma sem sacrifício

- Ninguém alcança clareza sem antes enfrentar sua própria escuridão

- Ninguém constrói um templo firme sem remover primeiro os destroços interiores

A verdadeira mudança começa quando o homem deixa de se perguntar o que pode obter do mundo e começa a se perguntar o que deve corrigir dentro de si mesmo.

Porque a iniciação não consiste em adquirir segredos, mas em iniciar uma batalha silenciosa contra as próprias limitações.

E é aí, nesse combate interior, que realmente nasce o iniciado.

Por Carlos L. Sánchez

segunda-feira, 8 de junho de 2026

OS TRÊS TRAIDORES DO TEMPLO INTERIOR

Dentro da tradição maçônica, poucos relatos possuem uma profundidade simbólica tão poderosa quanto a morte de Hiram Abif, o Mestre Construtor do Templo de Salomão. Longe de ser apenas uma alegoria ritual, este drama representa um ensino iniciático sobre a queda e regeneração do ser humano.

Os chamados “três traidores” não devem ser entendidos apenas como personagens históricos ou rituais. Desde a interpretação filosófica e esotérica da Maçonaria, simbolizam as forças inferiores que ameaçam constantemente a construção do Templo interior.

A ignorância é o primeiro deles.

Não é simplesmente falta de informação, mas sim permanecer voluntariamente na escuridão. É a negação da busca, a rejeição da reflexão e a renúncia do autoconhecimento. Quando domina, o homem perde a orientação e esquece o propósito superior da sua existência.

Ambição desordenada é o segundo traidor.

Nas antigas tradições iniciáticas, as ferramentas do construtor simbolizam faculdades espirituais destinadas ao aperfeiçoamento do ser. No entanto, quando a ambição substitui o serviço, essas ferramentas param de construir e começam a destruir. Poder, posição ou reconhecimento acabam ocupando o lugar da virtude.

O terceiro é o fanatismo.

Historicamente, a Maçonaria combateu todas as formas de dogmatismo que impedem o livre pensamento. O fanático não procura compreender, mas impor. Confunde convicção com verdade absoluta e transforma sua própria cegueira em bandeira. Por isso, este traidor representa o golpe final contra a sabedoria.

Em conjunto, estes três inimigos simbolizam a rebelião da natureza inferior contra os princípios superiores do homem.

Então, Hiram morre cada vez que:

A razão é substituída pelo preconceito.

A virtude é sacrificada por interesse pessoal

A tolerância cede ao ódio ou à intolerância

A tragédia hirâmica não pertence apenas ao ritual maçônico. Manifesta-se constantemente na história humana. Civilizações inteiras viram seus templos morais cair quando a ignorância foi exaltada, a ambição glorificada e o fanatismo legitimado como verdade.

Por isso, a busca da Palavra Perdida representa muito mais do que um símbolo ritual: é a recuperação da consciência, do equilíbrio e da luz interior enterrada sob as ruínas do ego.

O ensino final é claro:

O templo não é destruído primeiro na pedra, mas na alma do homem.

E enquanto os três traidores continuarem habitando no interior humano, o trabalho do iniciado permanecerá o mesmo:

vigiar-se, purificar-se e reconstruir-se.

A/D

 

 

terça-feira, 2 de junho de 2026

A ENCÍCLICA PAPAL À LUZ DA MAÇONARIA REGULAR

A exortação feita pelo Santo Padre Leão XIV no final da introdução da Carta Encíclica ‘MAGNIFICA HUMANITAS’ é clara: “A todos os fiéis católicos, a todos os cristãos, a todos os homens e mulheres de boa vontade, dirijo um sentido apelo: não tenhamos medo de sujar as mãos no canteiro de obras do nosso tempo”.

Em resposta a esse mesmo apelo, como Obediência que inclui, nos seus princípios, a crença obrigatória em Deus, e que integra um número extremamente representativo de maçons que são também professos da religião católica, entende a Maçonaria Regular portuguesa responder positivamente a esta chamada ao serviço por parte do Papa e face a um tema tão profundamente determinante para o futuro não apenas da tecnologia e da ciência, mas de toda a Humanidade pela sua transversalidade e alcance disruptivo.

Tal como o texto da Encíclica reafirma, “a técnica não deve ser considerada, em si mesma, como uma força antagónica em relação à pessoa”. Mas é também crucial entender que “outrora, eram sobretudo os Estados a orientar e a dirigir a inovação. Hoje, pelo contrário, os principais motores do desenvolvimento são sujeitos privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos Governos. O poder tecnológico assume, destarte, uma identidade inédita, predominantemente “privada” e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum”, alerta o Papa Leão XIV.

Ainda na sua introdução, o texto aponta claramente o caminho a seguir para transpor este desafio, e que é o da partilha e não da divisão, o da Nova Jerusalém e não o de Babel. Em suma, o da incorporação do divino no propósito da construção comum, em lugar da tentação do humano centrismo que transporta consigo a inevitável queda.

Nesse caminho, e obviamente sem entrar no campo teológico que é do foro da Igreja Católica Apostólica Romana, interessa à Maçonaria Regular regozijar-se com a menção a “um discernimento partilhado, capaz de penetrar nas raízes espirituais e culturais das transformações em curso” e salientar a dimensão otimista e humanista da ‘MAGNIFICA HUMANITAS’ que é, em essência, uma chamada à ação.

Ao escrever que “Se nos limitarmos às contingências, corremos o risco de deixar que uma série de emergências decida, em nosso lugar, a direção do caminho”, o Papa coloca-nos a todos a responsabilidade de fazer, não apenas de entender. De agir e não apenas de ouvir.

A Maçonaria Regular não poderia estar mais de acordo com o Santo Padre quando ele aponta que

“a verdadeira realização não nasce da supressão das fragilidades, mas de um crescimento harmonioso: onde a liberdade e a responsabilidade se entrelaçam com o cuidado recíproco e a verdadeira solidariedade, e onde o progresso se mede pela dignidade de cada um e pelo bem dos povos”.

Este é um parágrafo que, de certa forma, descreve um dos eixos principais da Maçonaria Regular, o do desenvolvimento harmonioso do Homem em solidariedade para com os restantes. Ao sublinhar que “construir um mundo onde todos possam ‘florescer’ exige uma corresponsabilidade corajosa”, os Maçons reconhecem-se nessa corresponsabilização e estamos prontos a unir os nossos esforços e contributos para o objetivo comum.

Há alguns meses, a Maçonaria Regular portuguesa promoveu um debate sobre a Inteligência Artificial e a Saúde. Mas os assombrosos progressos, a par das questões que nos assombram, extrapolam para todos os setores da atividade humana.

Neste seu histórico texto, o Papa alerta-nos também para a “responsabilidade duma autêntica participação” e aponta que “a solidariedade se expressa quando cada um, pessoalmente e com os outros, participa na vida da comunidade – informa-se, associa-se, faz-se ouvir, contribui para as decisões e escolhas públicas – assumindo responsabilidades concretas para que o bem comum se traduza em escolhas partilhadas”.

Aqui também estamos completamente em sintonia e aqui também se manifesta um valor tão católico e cristão quanto maçónico, essa “solidariedade efetiva” de que fala Leão XIV.

É sabido que existe uma doutrina que lamentavelmente impede o diálogo institucional concertado entre Igreja Católica e Maçonaria, mesmo a Regular, mesmo sendo nós crentes e tantos de nós praticantes. É uma decisão que mais uma vez, à luz desta encíclica, acreditamos que possa vir a ser revertida no futuro próximo.

Obviamente, para impedir uma nova Babel e pelo contrário seguirmos o exemplo de Neemias na reconstrução de Jerusalém, todos somos necessários, e o diálogo é tão mais justificado quando olhamos mais para o que nos une nos princípios e nas ações, e menos para o que eventualmente nos divida.

Em nome de todos os maçons regulares, envio à Igreja Católica e ao Santo Padre Leão XIV os nossos sinceros agradecimentos por uma magnífica encíclica, que a todos nos ilumina e ajuda no caminho da luz.

Paulo Rola – Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP

Fonte: Publicado no Jornal Observador em 31 de maio de 2026

 

 

domingo, 31 de maio de 2026

A VERDADEIRA FORTUNA MAÇÔNICA


A Maçonaria não é um sistema de ganhos externos, mas uma jornada de Ontogênese, onde o ser humano "nasce de novo" através do conhecimento. Unir o prático ao místico exige entender que cada ação no mundo material é um reflexo de uma verdade espiritual superior.

A Riqueza da Transmutação:

O Ouro dos Filósofos

I. Da Pedra Bruta ao Logos Interior (Autoconhecimento Alquímico)

A verdadeira fortuna do iniciado começa com o Solve et Coagula. Ao entrar na Câmara de Reflexões, ocorre a primeira grande "ganho": a morte do ego profano.

A riqueza aqui é o poder de desbastar a Pedra Bruta, não apenas como um exercício moral, mas como uma alquimia mental. O maçom ganha a capacidade de transmutar o chumbo de suas paixões no ouro da espiritualidade, despertando o Logos interior — a centelha divina que permite a comunicação direta com o Grande Arquiteto do Universo.

II. A Geometria das Leis Universais

(O Legado Ético)

Ganha-se a posse das "Chaves do Templo". Enquanto o mundo caminha no caos, o iniciado enriquece-se com a compreensão das Leis Universais. A retidão do Esquadro e a abrangência do Compasso deixam de ser ferramentas de madeira e metal para se tornarem bússolas vibracionais. A verdadeira riqueza é viver em harmonia com o ritmo do cosmos, entendendo que a Justiça e a Tolerância são manifestações da Lei de Correspondência: "O que está em cima é como o que está embaixo".

III. A Egrégora e a Fraternidade Iniciática

A riqueza humana da Maçonaria é elevada ao plano da Unidade Mística. Não se ganham apenas amigos, mas integra-se uma Egrégora — um reservatório de força espiritual alimentado por milênios de busca pela Verdade. O tesouro aqui é a dissolução da separatividade; o maçom descobre que sua obra é parte de uma construção eterna. É o acesso a uma corrente de consciência que transcende o tempo, unindo o obreiro aos mestres do passado e às promessas do futuro.

IV. A Gnose do Simbolismo Sagrado (Conhecimento Oculto)

O acesso ao simbolismo não é apenas estudo, é Gnose. A verdadeira riqueza é a capacidade de "ler" o universo através de seus arquétipos. Cada grau alcançado é um véu de Ísis que se levanta, revelando que o verdadeiro Templo é o próprio ser humano. O ganho real é a Palavra Perdida, que representa a consciência plena de sua própria natureza divina e a capacidade de vibrar em sintonia com os planos superiores da existência.

V. A Paz de Espírito no Equilíbrio das Colunas

Finalmente, conquista-se o Equilíbrio Real. A riqueza suprema é o posicionamento exato entre as colunas J e B — o caminho do meio entre o Rigor e a Misericórdia. Dessa síntese nasce a paz de espírito, uma harmonia interior que reflete a Geometria Sagrada. É o estado onde o pensamento, a vontade e a ação estão em perfeito esquadro, gerando uma vida que é, em si mesma, uma obra de arte dedicada à Luz.

"A riqueza maçônica é o tesouro que o iniciado carrega para além do túmulo; é a luz acumulada na alma que, tendo sido polida pelo trabalho constante, brilha com a intensidade de mil sóis no Oriente Eterno."

Deco Pereira PM / MI

"Urbi et Orbi"

"Homo Homini Frater"

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

SISTEMA FEDERATIVO DO GRANDE ORIENTE DO BRASIL É MODELO ÚNICO NA MAÇONARIA MUNDIAL

O Grande Oriente do Brasil possui uma das mais sólidas e organizadas estruturas institucionais da Maçonaria contemporânea. Seu sistema federativo, construído ao longo de décadas, é considerado único no Brasil e no mundo pela sua amplitude territorial, capacidade de integração administrativa e unidade institucional.

Atualmente, o GOB é composto por 27 unidades federativas, sendo 26 Grandes Orientes Estaduais e um Grande Oriente Distrital no Distrito Federal, formando uma estrutura nacional integrada que garante presença em todo o território brasileiro.

Esse modelo federativo representa uma das maiores forças do Grande Oriente do Brasil, permitindo que cada Estado possua sua administração própria, respeitando suas particularidades regionais, mas mantendo plena harmonia com os princípios, normas e diretrizes da Potência nacional.

A estrutura federativa do GOB consolidou um modelo de união institucional que alia autonomia administrativa estadual à unidade nacional, preservando a identidade histórica da instituição e fortalecendo sua capacidade de atuação em todo o país.

Não existe atualmente na Maçonaria brasileira ou mundial uma organização com características equivalentes ao sistema federativo do Grande Oriente do Brasil. A dimensão territorial, a integração entre os entes federados e a organização administrativa nacional tornam o modelo gobiano singular dentro da Maçonaria universal.

Outro ponto fundamental deste sistema é que existe apenas uma unidade federativa vinculada ao Grande Oriente do Brasil em cada Estado da Federação e uma no Distrito Federal. Esse princípio preserva a estabilidade institucional, evita conflitos de representação e mantém a harmonia administrativa e maçônica dentro da estrutura federativa do GOB.

Como defensores da tradição, das leis e da fraternidade entre os irmãos, permaneceremos sempre vigilantes na preservação dessa premissa, mantendo firme o compromisso histórico e institucional de um só GOB, unido e integrado com todos os irmãos pertencentes ao Grande Oriente do Brasil em cada unidade da Federação.

Ao longo de sua história, o Grande Oriente do Brasil construiu uma estrutura baseada na união, no respeito federativo e na preservação de sua identidade nacional, consolidando-se como a maior e mais tradicional Potência Maçônica da América Latina e uma das maiores organizações maçônicas do mundo.

Arlindo B Chapeta 
Secretário Geral de Comunicação do GOB
Grande Oriente do Brasil
Sempre à frente, o GOB e você!

 

 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

MAÇONARIA NO MUNDO ISLÂMICO


ENTRE REFORMAS, CONFLITOS E SOBREVIVÊNCIA

A relação entre a maçonaria e o mundo islâmico é marcada por contrastes profundos. Ao longo da história, essa fraternidade discreta foi, ao mesmo tempo, vista como um instrumento de modernização e alvo de desconfiança religiosa e perseguição política. Entre períodos de florescimento e repressão, sua trajetória revela muito sobre as transformações sociais e políticas em países de maioria muçulmana.

RAÍZES HISTÓRICAS E O IMPULSO REFORMISTA

O auge da maçonaria no mundo islâmico ocorreu durante a Revolução dos Jovens Turcos, quando ideias de liberdade, progresso e constitucionalismo ganharam força no Império Otomano. Em cidades como Istambul, lojas maçônicas com nomes como La Renaissance e L'Aurore simbolizavam um novo espírito intelectual e político, alinhado com os ideais iluministas.

Entre os nomes mais influentes associados à maçonaria estava Jamal ad-Din al-Afghani, um dos principais articuladores do modernismo islâmico. Ele via na instituição uma ferramenta para combater o autoritarismo e promover reformas políticas no mundo muçulmano.

Outro nome frequentemente ligado a esses círculos é Mustafa Kemal Atatürk, cuja atuação foi decisiva na construção de um Estado secular na Turquia.

Curiosamente, estudiosos como Thierry Zarcone apontam semelhanças entre a estrutura da maçonaria e as ordens do Sufismo. A organização hierárquica, os rituais de iniciação e o simbolismo eram elementos familiares a muitos muçulmanos, o que facilitou a aceitação inicial da fraternidade em determinados contextos.

Tensões religiosas e perseguições políticas.  Apesar dessas afinidades, a maçonaria enfrentou forte resistência dentro do mundo islâmico. Embora a organização exija de seus membros a crença em um “Ser Supremo” — o chamado Grande Arquiteto do Universo, muitos líderes religiosos a consideraram incompatível com os princípios do Islã.

Para esses críticos, a maçonaria promovia valores seculares que poderiam enfraquecer a autoridade religiosa e os dogmas tradicionais.

Além da oposição teológica, fatores políticos contribuíram decisivamente para sua repressão. Ao longo do século XX, diversos países proibiram suas atividades.

No Egito, a maçonaria foi banida após a queda da monarquia. Já no Irã, a proibição ocorreu após a Revolução Islâmica de 1979, levando a Grande Loja do país a operar no exílio, em Los Angeles.

Outro elemento que contribuiu para sua rejeição foi o estigma colonial. Em países como a Indonésia, a maçonaria passou a ser vista como uma extensão das potências europeias especialmente dos holandeses — e como um instrumento de afastamento das elites locais de suas tradições religiosas.

A maçonaria hoje: resistência e adaptação. Atualmente, a presença da maçonaria no mundo islâmico é limitada, mas não inexistente. Países como Turquia, Líbano e Marrocos figuram entre os poucos onde a instituição ainda atua oficialmente, em alguns casos, até com sinais de renovação.

As práticas também se adaptaram às realidades locais. Em geral, maçons muçulmanos devem professar o monoteísmo, alinhando-se ao princípio islâmico da unicidade divina. Em lojas turcas de perfil mais liberal, por exemplo, o juramento pode ser feito sobre o Livro das Constituições Maçônicas, em vez de um texto sagrado específico, refletindo uma abordagem mais pluralista.

ENTRE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

A história da maçonaria no mundo islâmico é, em essência, uma narrativa de tensão entre tradição e modernidade. Em determinados momentos, ela funcionou como um espaço de debate intelectual e articulação política; em outros, foi vista como ameaça à ordem religiosa e cultural.

Essa dualidade ajuda a explicar por que a maçonaria, embora ainda presente, permanece envolta em controvérsias. Mais do que uma simples organização, ela se tornou um espelho das disputas mais amplas que moldaram, e continuam a moldar o mundo islâmico contemporâneo.

Fonte: O Malhete

  

segunda-feira, 18 de maio de 2026

INSTALAÇÃO DO VENERÁVEL MESTRE

É uma cerimônia Maçônica, repleta de simbolismo e alegorias, tendo por finalidade a transmissão do cargo de Venerável Mestre, que é a autoridade máxima de uma determinada Loja. Ao ocupar o “Trono de Salomão”, alegoricamente falando, o obreiro deverá ficar revestido de poder e sabedoria e, durante um ou dois anos, assumirá o veneralato da referida Loja.

Segundo alguns historiadores maçônicos essa cerimônia foi, a princípio, típica do Rito praticado na Inglaterra, na metade do século XVIII, quando ainda havia lá duas emergentes Obediências: a dos Modernos e a dos Antigos, que posteriormente, em 1813, se uniram e formaram a GLUI.

Segundo Mackey, a Instalação é mais antiga, surgindo juntamente com as Constituições de Anderson, em 1723, elaborada por Desaguliers.

Inclusive, em 1827, devido a pequenos desvios que começaram a surgir, foi criado, pelo Grão Mestre, na Inglaterra, um “Conselho de Mestres Instalados” com a finalidade de coordenar todas as atividades contidas no Ritual de Instalação.

Com o passar dos tempos, todos os demais Ritos, como o REAA, por exemplo, copiaram e adotaram essa prática Maçônica.

O novo Venerável Mestre é “Instalado” pelo Mestre Instalador, que pode ser um Grão Mestre, ou um ex-Venerável Mestre, e sua comitiva. Em seguida, o novo Venerável Mestre instala todos os Oficiais de sua Loja que realizarão suas funções, sob juramento, até que sejam substituídos por outros, instalados da mesma forma.

Na verdade, esse ato de dar posse de um cargo, dando o direito de exercer os privilégios inerentes, é bem antiga e já era praticada pelos antigos romanos, que instalavam seus novos sacerdotes, normalmente pelos Augures (sacerdotes que prediziam o futuro).

A origem do nome “instalação”, em português, vem da palavra francesa installer que por sua vez vem do latim medieval Installare (stallumsignifica cadeira, e in é estar dentro, adentrar).

Outras associações iniciáticas, também possuem Instalações. Os padres da Igreja Católica, por exemplo, também são instalados em suas paróquias.

Fonte: Pílulas Maçônicas

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

O QUE TEMOS ADIADO?


Estamos, de fato, usando bem o tempo que nos foi confiado? 

Poucos aspectos da vida revelam com tanta clareza nossas prioridades quanto a forma como o empregamos. Universal e irrecuperável, ele permanece um dos maiores desafios da condição humana.

 

Paradoxalmente, quanto mais ferramentas temos à disposição para aproveitar melhor o tempo, maior a sensação de escassez. As incômodas razões são corroboradas por diversas pesquisas: passamos, em média, mais de nove horas por dia conectados à internet, além de sermos o terceiro maior consumidor global de redes sociais. 

Isso se soma ao fazer incessante e à sobrecarga de informações, intensificadores do mau uso da atenção no mundo contemporâneo. Essa realidade alcança todas as idades e gera problemas como o distanciamento nos relacionamentos, dificuldades para dormir e sensação de inadequação. 

O ritmo atual parece não permitir que nos detenhamos — ainda que por instantes — para questionar a própria vida, ou deixar certas coisas irem embora para abrir espaço ao que chega. 

A esse contexto soma-se uma dificuldade que não possui fronteiras: a distância que separa o que desejamos daquilo que estamos dispostos a sustentar. Para exemplificar, um recente levantamento revelou que cerca de 80% dos brasileiros acreditam ser possível viver mais e melhor — mas apenas uma parcela ínfima, próxima de 4%, efetivamente se planeja para isso no longo prazo. 

 

Muito do nosso tempo também é consumido revisitando mentalmente situações que já não podem ser alteradas, como se nelas ainda residisse alguma possibilidade de controle — ou de um sentido que talvez nunca tenha existido. Por vezes, aquilo que chamamos de “deixar fluir” não passa de uma forma socialmente aceitável de evitar decisões que exigiriam coragem — e responsabilidade pelas suas consequências. 

Dúvidas se acumulam nos finais de domingo: continuo vivendo apenas na espera entre um fim de semana e o outro?

 

É importante considerar também que nem todo desperdício de tempo se perde nas distrações da vida virtual ou na inércia. A diligência também pode se dispersar em esforços que não apaziguam as angústias. Há formas mais sutis — e, não raro, socialmente recompensadas — como o envolvimento em afazeres contínuos ou a busca exagerada pelo reconhecimento alheio.

Na direção contrária, o que fazer com os nossos dias quando a vida se estabiliza e vem o desassossego de não ter pelo que lutar?

 

 Enquanto a atenção se volta para fora pelo temor de ficar só, invisível ou sem propósito, a construção interior tende a ser adiada.


Neste ponto, percebe-se que considerar apenas a falta de tempo — ou mesmo de consciência — é uma simplificação do problema. Em muitos casos, a inércia vem acompanhada da percepção do que deveria ser feito, da carência de força interior e do entusiasmo para assumir a condução da própria vida.

 

É nesse ponto que as buscas por sentido tendem a se iniciar. Para alguns, surge então a Maçonaria; para outros, já iniciados, ela deixa de ser apenas uma filosofia de vida e passa a se apresentar como um campo de trabalho, no qual a própria experiência se torna matéria-prima para a edificação interior.

 

Ainda assim, a condição de Maçom não nos imuniza contra as dificuldades inerentes à natureza humana ou às pressões da vida contemporânea — inclusive no que diz respeito à má gestão do tempo. O que ela pode oferecer, no entanto, são instrumentos que ajudarão o indivíduo a desenvolver maior lucidez — tanto interna quanto na forma de perceber o mundo —, de modo a lidar melhor com as adversidades.

 

 

Nessa direção, a tradição maçônica oferece ricos caminhos simbólicos nos quais compreender é apenas o primeiro estágio. Eles só começarão a fazer sentido a partir do momento em que os integramos ao nosso dia a dia. Viver é praticar.


 Escada em Caracol sugere um avanço gradual — não imediato. Ela nos lembra que não há como pular etapas — e que o entendimento chega no tempo próprio da experiência. É o próprio ritmo da jornada que nos dará sabedoria para lidar com o presente e reinterpretar acontecimentos distantes com mais clareza.

 O Ternário ensina que passado, presente e futuro não estão separados, mas se refletem continuamente nas escolhas que fazemos.

 Já a Câmara de Reflexões confronta o indivíduo com a finitude, instigando-o a reconsiderar prioridades e a reconhecer o valor do tempo que lhe é dado. A Régua orienta para alcançar o equilíbrio — mas, na prática, raramente nos perdemos por distração ou excesso de descanso. Nos desviamos por não saber interromper o que nos consome — ou o que colocar no lugar. 

 

Ainda assim, saber de tudo isso não garante mudança. Muitos de nós já reconhecemos essas verdades — e seguimos adiando o que sabemos que deveria ser feito.

 

Mais do que conceitos, esses símbolos incentivam observar com naturalidade o próprio agir e sentir, ampliando aos poucos a autopercepção no cotidiano. Um recurso valioso, quem sabe para notar mais cedo o que desagrada e eventualmente corrigir rumos, até mesmo quanto a formas de pensar.

 Recordar como a realidade era sem determinados bens ou pessoas pode renovar o olhar sobre o presente. Reinterpretar experiências como aprendizado tem o potencial de atenuar pesos que antes pareciam permanentes — ou, ao menos, torná-los mais suportáveis. Há momentos em que compreender deixa de ser possível — e ainda assim precisamos seguir.

 Diante da impossibilidade de interromper o fluxo do existir e das lembranças que irrompem a todo instante, procurar amparos nos oferece esperança. 

 

Mais do que isso, se estivermos verdadeiramente comprometidos com os valores que professamos, talvez consigamos evitar que nossa jornada siga no piloto automático — ainda que parcialmente.

 Como sugere a filosofia aristotélica, o esforço orientado pela intenção já confere dignidade à existência, independentemente de seus resultados. Cultivadas na simplicidade dos gestos diários, essas práticas podem sustentar uma caminhada mais consciente — ainda que mais lenta do que gostaríamos.

 E, nesse ritmo mais atento, pode residir não apenas a possibilidade de uma vida mais autêntica, mas também a chance de finalmente percebê-la com clareza.

 

E tu, Irmão, o que tens adiado — mesmo sabendo que já poderias ter começado? 

 

Autor: Mauro José de Oliveira

*Mauro é Mestre da Loja Maçônica Novos Tempos Nº 288 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte.

 

Notas

1.     CNN BRASIL. Mais de 9h online por dia: hiper conexão preocupa brasileiros, diz estudo. CNN Brasil, 30 jun. 2025.

2.     Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/mais-de-9h-online-por-dia-hiperconexao-preocupa-brasileiros-diz-estudo/>. Acesso em: 27 out. 2025. 

3.     A permanência da impermanência. [s.l.]: Neura, 2025. 

  

sábado, 9 de maio de 2026

O POSICIONAMENTO DO MAÇOM DIANTE DE QUESTIONAMENTOS RELIGIOSOS E SOCIAIS: DIÁLOGO SEM CONFLITO E CONDUTA DIANTE DE OPINIÕES DIVERGENTES


Tem sido frequente, nas redes e mídias sociais, questionamentos de religiosos e leigos sobre a verdadeira face da Maçonaria. E muitos irmãos não sabem como enfrentar essa questão que, por vezes, não está apenas no ambiente digital, mas também dentro da própria família, no trabalho e em diversos momentos da vida cotidiana.

Muitos irmãos, em algum momento, já se viram diante de questionamentos mais rigorosos ou pouco fundamentados, e nem sempre é simples saber como se portar nessas situações. Este texto não pretende ser uma cartilha perfeita, mas sim uma reflexão fraterna, construída a partir da convivência com diferentes doutrinas, católicas, protestantes e de outras matrizes, buscando apontar um caminho mais sereno e equilibrado.

O primeiro ponto é compreender que, na maioria das vezes, o desconforto não nasce daquilo que somos, mas daquilo que se imagina sobre nós. Por isso, entrar em debates ou tentar convencer pela argumentação raramente produz bons resultados. O melhor caminho costuma ser o da aproximação pelos valores que nos são comuns: a fé em Deus, o respeito à família, a ética e o desejo sincero de evolução como seres humanos.

É importante também deixar claro, de forma simples e tranquila, que a Maçonaria não é religião, não substitui a fé de ninguém e não interfere na crença individual. Quando falamos com naturalidade, sem termos complexos, transmitimos segurança e serenidade.

Outro aspecto fundamental é evitar o confronto. Diante de opiniões mais firmes, a postura respeitosa sempre se mostra mais eficaz. Reconhecer o direito do outro de pensar diferente, sem necessidade de embate, revela equilíbrio e maturidade.

Ainda assim, nada é mais convincente do que o exemplo. Um maçom que vive com retidão, que honra sua família, que pratica o bem e se conduz com coerência, naturalmente transforma a percepção daqueles que o observam.

Na convivência com opiniões mais extremas, é importante compreender que muitas vezes o outro fala a partir de convicções profundas, construídas ao longo de anos. Tentar desconstruí-las em uma conversa pontual tende a gerar resistência e afastamento. Nesses casos, o mais sábio é manter uma postura firme, porém serena: ouvir sem absorver o confronto, responder com respeito e, quando necessário, saber encerrar o diálogo sem desgaste.

Não é preciso concordar, mas é essencial não reagir com a mesma intensidade. A tranquilidade diante da crítica demonstra segurança de propósito. E, muitas vezes, o silêncio respeitoso, aliado a uma vida coerente, produz mais efeito do que qualquer explicação.

A boa convivência se constrói na constância: no trato respeitoso, na ausência de provocação, na clareza sem imposição. Com o tempo, mesmo aqueles que mantêm suas posições mais rígidas passam a reconhecer a postura e a conduta, ainda que não mudem suas crenças.

No fim, não se trata de convencer ou vencer um argumento, mas de saber conviver com as diferenças, mantendo a dignidade, a serenidade e o respeito, valores que, por si só, já dizem muito sobre quem somos.

Fraternalmente,

Arlindo Batista Chapeta 
Secretário Geral de Comunicação do Grande Oriente do Brasil 
Pró-Primeiro Grande Principal do SGCMSARB-GOB

 

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