segunda-feira, 27 de abril de 2026

JURAMENTOS COM PENAS CORPORAIS


Já ouvi e li que os juramentos voluntários baseados em castigos corporais em contextos privados têm vantagens para os membros e para o grupo, tais como demonstrar maior compromisso e lealdade, coesão, preservar uma tradição, ser símbolos de seriedade, evidenciar o carácter etc.

Mas a questão não é tão simples quanto isto, pois quando são exigidos ou impostos no decurso de uma cerimônia solene ou ritual sem aviso prévio de que se trata apenas de uma figura simbólica sem efeito real, acarretam implicações jurídicas e éticas sensíveis relacionadas com os direitos humanos, a integridade física e a dignidade das pessoas.

Idealmente, as associações que os têm simbolicamente em alta estimam podem encontrar formas diferentes de promover os próprios valores que procuram induzir, mesmo que sejam confrontadas com o consentimento prévio de quem os jura. De fato, o consentimento não legitima jurídica ou eticamente situações que possam ser entendidas como atentatórias da integridade física ou moral de uma pessoa.

A maior parte dos países do mundo proíbe os castigos corporais nas suas constituições e leis nacionais e, a nível internacional, podemos referir sobretudo, no mesmo sentido, instrumentos como a Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948), o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (1966) e a Convenção contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes (1984). Isto significa que, de uma perspectiva jurídica, estes requisitos de adesão acabaram por ser problemáticos.

Ao longo da história, algumas associações secretas e discretas, fraternidades, ordens religiosas ou militares, tradições tribais, cerimônias de vassalagem etc., basearam-se em juramentos e promessas que incluíam ameaças físicas em caso de traição ou incumprimento do dever. Isto não pode ser considerado uma coisa do passado, porque, no século XXI, existem associações privadas, baseadas em tradições, que nos seus rituais mantêm intimidações e exigem a sua aceitação por parte do novo membro no momento da adesão.

Do ponto de vista ético, estes juramentos com castigos físicos, que são realizados sob pressão ritualística, afetam a autonomia pessoal, que é um valor central na ética moderna, e que tem limites quando são acompanhados de ameaças a que os novos membros têm de se submeter para serem aceites.

Conheço organizações tradicionais que prescindiram da parte simbólica dos castigos corporais no texto dos seus juramentos de adesão e dotaram os símbolos antigos com conteúdo e valores mais coerentes com os seus princípios e valores gerais.

Pessoalmente, penso que esta é uma boa ideia.

Ivan Herrera Michel

Tradução de António Jorge, M M, membro de:

R L Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)

Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)

Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)

Fonte

Blog Ivan Herrera Michel

  

sábado, 25 de abril de 2026

FRATERNIDADE MAÇÔNICA


 

A Maçonaria é uma instituição iniciática de caráter fraternal, logo é uma “fraternidade”. Uma fraternidade de irmãos não de sangue, mas de irmãos unidos pela virtude; pois tudo o que por ela foi unido jamais será separado…E é vivendo essa união fraternal que o maçom complementa o seu trabalho. Ela está lá, ela existe (para assim persistir…).

Na Maçonaria, qualquer Irmão é igual entre si, a Igualdade existe seja para quem for, seja para o que faz na sua vida profana. Dentro da Maçonaria todos são iguais! E sempre que algum maçom necessitar de auxílio, alguém “correrá” em seu socorro.

Mas, todavia, essa “corrida” apenas existirá se a necessidade de auxílio for real e se dela não se depreender nada que seja ou se torne ilegal. Nada em Maçonaria é ilegal!!!

As leis do Estado, as leis morais e sociais, da Sociedade onde se vive devem ser sempre(!) respeitadas, sob pena do não auxílio e/ou consequente pena de expulsão da fraternidade maçônica. E se bem que se fala em auxílio, nem sempre ele terá de ser necessariamente financeiro.

Uma boa maioria das vezes o auxílio que se pode dar ou oferecer é a presença, a companhia, um bom conselho, uma palavra de estímulo para algo, ou simplesmente um abraço caloroso.

E nada disso é de somenos importância. Pois um irmão assim deve agir, tal como faz com a sua “família de sangue”. A Maçonaria é apenas uma família de acolhimento que ele escolheu para prosseguir também o seu caminho de aperfeiçoamento moral.

Tal como um bom amigo meu (e Mestre Maçom) diz: “Na Maçonaria faz-se amizade “pret-a-porter”, isto é, em qualquer parte do mundo, um maçom tem um amigo, um irmão que o guiará, que o auxiliará no que lhe for necessário e lhe seja possível assim fazer. E de fato é isso mesmo, um maçom só está “obrigado” a prestar a ajuda que lhe for possível e mais nada que isso lhe é exigido.

E é essa sensação de ajuda, amizade, presença e pertença a algo maior que permanentemente existe, que incute a vivência da fraternidade de uma forma que se de outra maneira fosse, não seria possível de fazer e vivenciar! E é vivendo esta troca de sentimentos, esta partilha, que o sentimento fraternal cresce e se vai solidificando entre os irmãos.

Quando um recém maçom, recente Aprendiz, neófito ainda, é cooptado pela Loja, terá logo à sua volta quem lhe transmitirá esses valores fraternais, esses valores familiares que infelizmente nos dias que correm nem sempre se encontram ou se reconhecem na família de origem…

Naqueles “novos familiares”, o neófito encontrará alguém que o poderá guiar, apoiar, ensinar, e que acima de tudo o vai criticar. Sim, criticar! Nem toda a crítica tem de ser pejorativa e nem todo o auxílio tem de ser assertivo. Faz-se o que é possível e necessário para o bom encaminhamento do recente Irmão.

É bem verdade que de início a integração na Loja possa parecer difícil, pois se estará num local onde caras que não se conhecem e que nos são estranhas nos tratam de imediato como se nos conhecessem há vários anos e/ou fizéssemos parte dos seus amigos ou familiares. E por mais que diferente pensemos ou mais diferente opinemos (e existem muitas e diversas formas de pensar entre maçons!

E principalmente maçons de diferentes culturas, origens sociais e financeiras), a tolerância e o mútuo respeito sempre existe e se encontra à frente de tudo. E a bem da verdade, é assim que se passa e assim se deve passar entre irmãos, pois a partir daquele momento em que temos um vislumbre da “Luz”, passamos a ser todos parte de uma grande família, a Maçonaria.

E que juntos seguimos o nosso caminho, num trajeto pleno de virtude e amor fraternal, ou não tivéssemos também como mote a frase latina “ Virtus Junxit, Mors Non Separabit”…

Nuno Raimundo

Fonte: “Pedra de Buril”

sexta-feira, 24 de abril de 2026

GNOSE E MAÇONARIA

A JORNADA DA CENTELHA À LUZ

A compreensão da Gnose e sua íntima relação com a Maçonaria exige um olhar que ultrapassa o intelecto e mergulha na experiência direta do ser. Etimologicamente, Gnose deriva do grego gnosis, que significa "conhecimento", mas um saber de natureza intuitiva, experiencial e libertadora, que propõe que a verdade sobre o cosmos e o divino reside no interior de cada indivíduo.

1. O PONTO DE CONVERGÊNCIA:

O CONHECIMENTO COMO LIBERTAÇÃO

O pilar central que une ambas as tradições é a busca pela Luz. Enquanto o gnosticismo histórico via a alma humana como uma "centelha divina" aprisionada na matéria, a Maçonaria utiliza a metáfora da Pedra Bruta que precisa ser desbastada. Em ambos os casos, a salvação ou o aperfeiçoamento não vem por dogmas externos ou ritos vazios, mas pelo despertar de uma consciência que permite ao homem transcender a ilusão do mundo profano. É a aplicação prática do "Conhece-te a ti mesmo".

2. O MÉTODO INICIÁTICO E O DRAMA DE HIRAM ABIFF:

A correlação se manifesta de forma poderosa no ritual. A jornada do iniciado espelha a busca gnóstica pela reintegração:

O Mito de Hiram: No Grau de Mestre, a queda de Hiram Abiff pelas mãos da ignorância e do fanatismo representa a queda da alma na densidade material. Seu "erguimento" simbólico é o despertar gnóstico — o momento em que o homem "morre" para a vida limitada e "nasce" para uma realidade superior.

A Palavra Perdida: Assim como os gnósticos buscavam resgatar a Sophia (Sabedoria), o maçom busca a Palavra Perdida, que simboliza o estado de plenitude espiritual e a conexão original com o Sagrado que foi esquecido pela humanidade.

3. A ALQUIMIA ESOTÉRICA E O V.I.T.R.I.O.L.

Sob a ótica mística, ambas são escolas de Alquimia Espiritual. O processo de transmutação é interno:

A Câmara de Reflexões: Funciona como o "Athanor" alquímico, onde o acrônimo V.I.T.R.I.O.L. convida o iniciado a descer ao interior da terra (seu próprio corpo e mente) para retificar sua alma e encontrar a Pedra Oculta.

A Dualidade: O dualismo gnóstico (Luz vs. Trevas) encontra eco no Pavimento Mosaico e nas colunas J e B. O objetivo místico é o equilíbrio das polaridades para que o iniciado possa caminhar com retidão, governando a matéria (o Esquadro) através do espírito (o Compasso).

4. A TEURGIA E A GEOMETRIA DO G.A.D.U.:

Para o esoterismo, o ritual maçônico é um ato telúrico que cria uma Egrégora — uma força coletiva que facilita a conexão com planos superiores.

O GRANDE ARQUITETO:

A figura do G.A.D.U. ressoa com o conceito gnóstico de uma inteligência ordenadora. Através da Geometria Sagrada e da numerologia (os números 3, 5, 7 e 9), o iniciado compreende as leis que regem o universo e a si mesmo.

O TEMPLO VIVO:

A construção do Templo de Salomão é interpretada misticamente como a edificação do próprio corpo espiritual, um espaço sagrado onde o "Cristo Interno" (ou a consciência gnóstica) pode habitar.

5. AS CATEGORIAS DE EVOLUÇÃO:

Historicamente, os gnósticos dividiam a humanidade em três níveis, que encontram paralelo direto na evolução dos graus simbólicos:

Hílicos (Matéria):

O Aprendiz focado no domínio dos sentidos.

Psíquicos (Mente):

O Companheiro dedicado ao estudo das ciências e da alma.

Pneumáticos (Espírito):

O Mestre que alcançou a Gnose, a compreensão direta do plano espiritual.

Conclusão:

A Maçonaria pode ser vista como um veículo ritualístico e ético que preservou e operacionalizou a essência da Gnose através dos séculos. Enquanto a Gnose oferece a visão do alvo, a Maçonaria fornece as ferramentas — o Maço, o Cinzel, o Esquadro e o Compasso — para que o iniciado percorra o caminho da autotransformação, transformando a "Gnose Teórica" em uma Gnose Ativa e construtora em benefício da humanidade.

Deco Pereira

PM / MI

 

 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

RITUALÍSTICA: DISCIPLINA, EQUILÍBRIO E FORMAÇÃO MAÇÔNICA

A ritualística dentro de loja, bem aplicada e trabalhada com perfeição, serenidade e responsabilidade, é um agente transformador do maçom. Um dos maiores agentes de transformação dentro da Maçonaria é a aplicação da ritualística com rigor, amor e alegria em loja; sua capacidade de transformar o ser humano nem sempre é plenamente compreendida pelos iniciados.

Importante destacar que, quando você se prepara para produzir uma sessão com ritualística bem executada, trabalha diversos pontos de equilíbrio dentro de si, como foco, dedicação, motivação, liderança, servidão e confiança. O foco é essencial para que possamos cumprir todos os objetivos da simbologia do ritual, bem como a forma de se expressar, conduzir e transmitir as instruções dentro do templo. Sem dedicação ao estudo dos movimentos e à prática constante, não há como realizar uma sessão capaz de engajar e envolver o irmão.

Quando, porém, os movimentos, as falas e toda a simbologia ritualística são executados com responsabilidade, você naturalmente motiva seu irmão a agir da mesma forma, tornando-se exemplo e exercendo liderança dentro da oficina — o que também o fortalece a desempenhar esse papel fora da loja.

A condução dos irmãos e o exercício dos cargos com respeito e amor fortalecem o espírito de servir ao próximo. Ao se preparar para exercer um papel com perfeição e serenidade — sendo esse papel fundamental na forma como o maçom enxerga a Maçonaria — não apenas aprendemos a servir, mas adquirimos a confiança necessária para dar continuidade à nossa evolução pessoal.

A ritualística é parte essencial da formação do maçom, pois sua aplicação verdadeira representa um ponto elevado na maneira como o maçom percebe a própria loja. É importante compreender que a preparação para executar com precisão os movimentos, as falas e a aplicação dos conceitos e símbolos do ritual é elemento central dessa formação.

Dedicar-se a cumprir rigorosamente os princípios do ritual é dever do maçom. Precisamos que nossos irmãos compreendam isso dessa forma e tratem a ritualística com a devida responsabilidade, estudando e praticando constantemente, para que possam oferecer o melhor de si dentro da loja e, assim, servir com respeito e amor ao próximo.

Vejo com satisfação a preocupação e o empenho dos nossos Secretários Gerais e Estaduais de Ritualística na correta aplicação do ritual. Sou um incentivador do trabalho desses irmãos e deixo aqui minha gratidão a toda a equipe, em nome do Eminente irmão Pedro Juk, Secretário Geral de Ritualística do GOB, grande aplicador dessa doutrina.

Que possamos manter vivas nossas tradições e o respeito pelos rituais aplicados em loja e no capítulo.

Fraternalmente,
Arlindo Batista Chapeta
-Secretário-Geral de Comunicação do GOB
-Pró-Primeiro Grande Principal do Supremo Grande Capítulo dos Maçons do Sagrado Arco Real do Brasil - GOB

 

domingo, 19 de abril de 2026

A ARQUITETURA DO SER CONSTRÓI O INVISÍVEL AOS OLHOS

Transcendendo a construção física, focando na relação profunda entre o indivíduo (o ser) e o ambiente construído, agindo como um reflexo da identidade, emoções e necessidades humanas, busca a arquitetura do ser erigir o homem moral, justo e humano. Esse conceito une psicologia e design para promover o bem-estar físico e psicológico, alinhado à neuro arquitetura e à fenomenologia.

Habilidosa, a Arquitetura do Ser propõe a vida humana como uma obra de arte em construção, onde cada indivíduo atua como arquiteto de sua própria existência.  Indo além da arquitetura física, abrange a forma como cada pessoa organiza suas escolhas, valores, relações e experiências para dar sentido à vida. Funciona como uma extensão do morador, refletindo seus valores e percepções. 

Le Corbusier definiu arquitetura como um estado de espírito, exigindo empatia para entender as necessidades do outro. Foca no bem-estar humano, estimulando os sentidos (tato, visão, audição, olfato) para reduzir estresse e promover cura emocional. Defende que as experimentações vividas e as "atmosferas" do lugar são fundamentais, pois, conectam o “ser” ao seu habitat. 

Baseando-se em conceitos filosóficos como os de Martin-Heidegger, refere-se à expressão do ser no mundo através do "habitar e construir". No projeto, o "conceito" é a ideia abstrata que orienta todas as decisões, visando transmitir uma sensação específica ao ocupante. O indivíduo não nasce com um sentido pré-definido, porém, cria-o ativamente por meio de decisões conscientes, ações e compromissos. 

A arquitetura do ser prioriza a experiência humana e o bem-estar, transformando espaços em ambientes que acolhem e moldam o comportamento e as emoções de quem os habita. Na Arquitetura Wellness, por exemplo, os projetos priorizam o ser humano em vez de, tão somente a sustentabilidade do planeta. A arquitetura aqui é um reflexo de valores e percepções internas. 

Na Arquitetura do Cuidado, o fito são os ambientes que acolhem e geram conforto emocional, unindo psicologia e lar. O "habitar" é a condição fundamental do ser; o espaço não é apenas um abrigo, mas onde a vida e a identidade se manifestam. Essa visão holística propõe que projetar um espaço é, em última análise, projetar uma experiência de vida que respeite a essência do "ser" que irá ocupá-lo. 

Embora o termo "Arquitetura do Ser" não esteja diretamente ligado à arquitetura tradicional, ele compartilha o princípio central de projetar e organizar o espaço – físico ou existencial – com intenção, propósito e significado.  Assim como um arquiteto planeja um edifício com base em conceitos, o indivíduo planeja sua vida com base em ideias profundas sobre quem é e para onde quer ir.

Resolutamente, a Arquitetura do Ser é o processo de projetar a própria vida como uma obra significativa, onde cada ação contribui para a construção de uma identidade autêntica e um legado duradouro.  A capacidade de transformar adversidades em parte do projeto existencial é essencial. Entender valores, limites e desejos é o primeiro passo para construir uma vida moral e justa.

Valores são os princípios que guiam nossas decisões e dão significado à vida (como honestidade, respeito, compaixão e justiça). Entendê-los é essencial para viver de acordo com o que se considera correto, em vez de apenas seguir normas por medo de punição. A verdadeira moralidade jamais será, meramente, seguir regras, mas sim, a capacidade de internalizar critérios próprios de conduta.  

Conhecer os limites – tanto os seus (o que é suportável, ético ou possível) quanto os do outro – é crucial para evitar abusos e construir relações saudáveis. A falta de limites pode transformar uma virtude (como ser prestativo) em fragilidade ou exaustão. Limites bem definidos permitem a autorregulação, ajudando a gerenciar emoções como a raiva e promovendo relações mais justas e assertivas.  

Entender os próprios desejos, sem deixá-los controlar as ações, permite que a pessoa alinhe o que quer com o que é moralmente correto (eudaimonia, ou vida boa). Conhecer a si mesmo nesse nível – o que você valoriza, onde você para e o que você deseja – torna-se, portanto, a base para a integridade, permitindo que a pessoa construa uma vida coerente e justa, sob a égide da sã moral e da razão.  

A Arquitetura do Ser se relaciona profundamente com a moral, especialmente na perspectiva da Filosofia Marquesiana, que integra as ideias de Viktor Frankl sobre o sentido da vida.  Segundo essa abordagem, o ser humano não é apenas um conjunto de partes fragmentadas, mas, uma unidade interna que se organizar em torno de uma missão de vida, que atua como o motor imóvel da existência moral. 

Viktor Frankl observou que, mesmo em condições extremas como os campos de concentração, a última liberdade humana é a de escolher sua atitude diante da dor.  Essa escolha é o fundamento da moralidade existencial: o indivíduo pode transformar o sofrimento em sentido, tornando-se herói de sua própria história. A Arquitetura do Ser estrutura essa transformação por meio de três instâncias internas: 

  • Self 1: focado em necessidades externas (dinheiro, status). 
  • Self 3 (Guardião): responsável pela segurança e proteção. 
  • Self 2 (Maestro): a essência elevada, a Regência Suprema, que expressa o propósito verdadeiro.  

Quando o Guardião se sente seguro, o Maestro pode emergir, guiando a vida com coerência e integridade.  Nesse estado, o indivíduo vive de acordo com seu sentido, o que gera autenticidade moral – não por imposição externa, mas, indubitavelmente, por alinhamento interno com valores profundos. Eles definem o que é inegociável e dão sentido às escolhas, pois, é expressão autêntica do caráter do ser.  

O sentido da vida é, portanto, o alicerce da moralidade.  Ele não é criado artificialmente, mas, detectado através de uma escuta honesta do próprio Ser.  A moralidade nesse contexto não é uma lista de regras, mas, uma vida coerente, onde o agir é guiado pelo propósito, transformando dor em legado e firmando um compromisso pessoal com a autenticidade e a coerência entre o que se sente, pensa e faz. 

Além disso, a ciência moderna reforça essa visão: pessoas com alto senso de propósito apresentam maior ativação no córtex pré-frontal ventromedial – vetor que inibe a reatividade da amígdala (centro do medo) e gera resiliência emocional – demonstram que viver com sentido não é tão somente uma escolha filosófica, mas, decididamente, uma condição biológica de saúde mental e longevidade celular. 

A perspectiva de que o sentido da vida é "detectado" sugere que ele preexiste no “ser”, exigindo introspecção e autoconhecimento para ser desvelado, em vez de ser uma invenção puramente artificial.  Claramente, neste contexto, desviando-se de uma lista de regras rígidas, a moralidade passa a ser entendida como caráter do ser, cujas agências são fidedignas à essência e valores que pratica.

A moralidade, quando expressa pela autenticidade e pela integração do propósito na vida cotidiana, atua, portentosamente, como um pilar fundamental para o senso de justiça. A integridade, como virtude essencial, exige assumir responsabilidade por decisões, respeitar normas éticas mesmo sem vigilância externa e agir com retidão, o que fortalece a confiança social e a legitimidade das decisões coletivas. 

Portanto, a moralidade prática que se manifesta na autenticidade e no propósito não é apenas uma escolha individual, mas um ato político e social que sustenta a justiça.  Agir com integridade reforça instituições mais justas, combate a corrupção e constrói ambiências onde o respeito à dignidade humana é prioridade. A justiça deixa de ser um ideal distante e torna-se um resultado concreto da ética vivida no cotidiano. 

Embora distintos em origem, convergem em sua dimensão ética e existencial, especialmente, na perspectiva da Filosofia Marquesiana, que percebe a Arquitetura do Ser com a estrutura prática que sustenta a missão do indivíduo, baseada na Criação, Experiência e Atitude diante do sofrimento, e manifestada sob à luz do senso de justiça, essencial para a estabilidade social. 

Para John Rawls, todos os membros da sociedade possuem um senso de justiça inato, que se desenvolve com base em princípios morais racionais e no respeito à igualdade de cooperação. Esse senso não é unicamente jurídico, mas, moral, e é fundamental para a legitimação das instituições e para a manutenção da ordem social. Havendo Arquitetura do Ser bem construída, existe forte senso de justiça. 

Enquanto a arquitetura do ser refere-se ao processo contínuo de autoconstrução e organização dos "ambientes internos" da consciência, o senso de justiça atua como a ferramenta de equilíbrio e medida para essa obra. Ao viver com integridade, criar valor e aceitar o sofrimento com dignidade, o ser humano internaliza princípios de equidade e solidariedade que se refletem nas relações sociais. 

Desta forma, a Arquitetura do Ser é o alicerce interno que sustenta o senso de justiça no cotidiano, tornando-o não somente um ideal teórico, mas uma prática vivida. A verdadeira arquitetura do ser exige transcender interesses meramente individuais (justiça "não verdadeira") em favor de uma visão que beneficie a humanidade como um todo – transição do egoísmo para o altruísmo ou para uma consciência coletiva.  

Quanto maior o nível de consciência de um ser, maior é sua responsabilidade por seus atos dentro dessa estrutura de justiça. O senso de justiça é o eixo central que sustenta a estrutura de um ser humano íntegro, permitindo que ele se construa de forma a ser útil e harmonioso com o mundo ao seu redor. A arquitetura dessa justiça interna é representada por símbolos clássicos que refletem o trabalho interior: 

  • Compasso: Simboliza a perfeição, o equilíbrio e o "Grande Arquiteto". Representa a capacidade humana de delimitar espaços e criar ordem a partir do caos. 
  • Esquadro: Representa a retidão, os ângulos precisos e a base sólida necessária para qualquer construção, seja ela física ou moral. 
  • Régua e Escalímetro: Ferramentas de medição que simbolizam a escala humana e a necessidade de adequar o mundo construído às dimensões e necessidades reais das pessoas. 
  • Maço e Cinzel: Simbolizam a força de vontade e o intelecto usados para "lapidar" o caráter humano, removendo as imperfeições da personalidade. 
  • Nível e Prumo: Representam, respectivamente, a igualdade entre os seres e a retidão ética ou ligação entre o terreno e o transcendental. 
  • A Balança: Representa o equilíbrio e o peso das intenções e ações no "coração" do ser. 
  • A Espada: Simboliza a força necessária para aplicar a retidão e cortar o que é injusto dentro de si. 
  • A Pluma de Maat: No Egito Antigo, representava a justiça que pesava o coração para verificar se ele era leve e justo. 

A Arquitetura do Ser implica construir uma vida baseada na justiça, entendida como harmonia interna e com o coletivo, impulsionada pela consciência moral. Seus traçados – plantas e cortes – permitem ao ser humano "ver o invisível" e planejar o futuro antes que ele se torne concreto.  As cores, texturas e luz influenciam o sistema nervoso e o bem-estar (Neuro arquitetura), moldando a experiência humana no espaço. 

Maranguape, Ceará, 12 de março de 2026 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9 

 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

A SIMBOLOGIA DA VENDA NA INICIAÇÃO MAÇÔNICA


À glória do G.·.A.·.D.·.U.·. , por me ter concedido a dádiva de iniciar nos AAug.·. MMist.·. da Arte Real.

INTRODUÇÃO

A palavra Iniciação (derivada do latim Initiare é formada pelos vocábulos In, isto é, “para dentro”; e Ire, que significa “ir”) pode ser interpretada como “ir para dentro” ou “penetrar no interior”. Sob o aspecto místico, alguns escritores afirmam que a Iniciação pode ser entendida como sendo um processo que permite o ingresso ao nosso mundo interior, que nos leva ao conhecimento de nós mesmos e, em consequência, do Deus Pessoal que habita em nós, para começar uma nova vida.

A iniciação maçônica, legado de escolas iniciáticas da Antiguidade, mantém o costume de vendar os olhos de quem será iniciado por dois motivos aparentes: Primeiro, ocultar o ritual aos olhos profanos; segundo estimular o candidato a fazer uma reflexão sobre si mesmo.

Sabemos que variados métodos de meditação, relaxamento, higiene mental e outras técnicas, mesmo sem fazer uso da venda, também podem levar o praticante a níveis de reflexão, interiorização e conscientização.

Mas a iniciação maçônica, quando bem conduzida ritualisticamente e vivenciada intimamente pelo candidato, é capaz de deixar o iniciando surpreso e perplexo diante da profundidade dos sentimentos que experimenta: De início é acometido pelos conflitos de isolamento, ansiedade e angústia; depois começa a sentir a calma, a paz, a sensação paradoxal do pleno e do vazio, o inesperado sentimento de estar em contato com o mais íntimo do seu ser, isto é, com o seu próprio EU, e o insight de perceber a inspiração e a presença do Criador em tudo e em todos.

Diante dessa experiência mística, da qual a razão não pode explicar ou compreender, há de se questionar qual é a relevância da venda na iniciação maçônica. E nesta investigação a pergunta que propomos é simples e direta:

Por que o simples ato de vendar os olhos, com a supressão de apenas um dos nossos sentidos [a visão], tem a capacidade de nos desorientar e, ao mesmo tempo, de nos induzir à introspecção e ao exame profundo da nossa consciência? Qual é, então, o simbolismo da venda na iniciação maçônica?

A VISÃO

“Os olhos são a janela da alma, o espelho do mundo” (Leonardo Da Vinci).

Temos cinco (ou mais!) sentidos sensoriais que nos ligam ao mundo exterior, dos quais a visão é o mais importante.

É através da visão que podemos contemplar a escuridão da noite e o céu estrelado, a luz do dia e as belezas da natureza. Isto mostra que a visão nos permite tomar conhecimento das coisas que nos cercam e do mundo em que vivemos.

A visão também é a principal maneira que temos para estabelecer contato com as pessoas. Quando encontramos um conhecido dizemos “Que bom te ver” e na despedida falamos “Até mais ver”. Estas expressões derivam do verbo “ver” e mostram a influência da visão sobre a linguagem.

Quando observamos um estranho prestamos atenção na sua aparência, gestos, comportamento e começamos a fazer pressuposições sobre seu modo de vida, suas intenções e seu humor. Assim, criamos uma boa ou má ideia sobre os outros simplesmente olhando-os mesmo antes de falar com eles. Isto também mostra que a visão precede a experiência verbal.

Mas os nossos olhos são meros sensores passivos que apenas transmitem dados ao cérebro, sem fazer nenhuma avaliação prévia. É a mente que filtra, edita e interpreta as imagens captadas do mundo externo e as interligam com outros sentidos internos como a razão, a emoção, a intuição e a memória.

É através da mente e do processo da cognição que formamos conceitos sobre as nossas percepções do mundo. Alguém já disse que “a beleza está nos olhos de quem vê”, mas, na verdade, deveria dizer que “a beleza está na mente de quem vê”.

Na área da neurociência as pesquisas comprovam que nem sempre as imagens mentais reproduzem com exatidão o objeto visualizado, porque podem ser influenciadas por nossos conceitos linguísticos, pelas emoções e sentimentos. Assim, a percepção original pode tornar-se vulnerável a ambiguidades, como as observadas nas representações de ilusão de ótica.

A ILUSÃO

“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”. (Saint-Exupéry).

Ao acreditar que o que vemos no nosso cotidiano é a única realidade, estamos completamente iludidos. É como se estivéssemos dentro de um denso nevoeiro, onde a luz, distorcida pela condensação, pode deformar a nossa visão e criar a ilusão. Essa parábola do nevoeiro (um ensinamento hinduísta sobre a ilusão das percepções) é uma alegoria para os nossos preconceitos, nossas atrações e repulsões.

Quando sentimos atração ou aversão demasiada por alguém ou alguma coisa, tendemos a enxergar de forma exagerada o objeto ou a pessoa que nos atrai ou repulsa. Se alguém admira uma rosa, por exemplo, tende a ver apenas a beleza das pétalas e fica cego para os espinhos. Porém, se for ferido pelos espinhos pode ficar assustado e passar a ver apenas o perigo dos espinhos, deixando de perceber a beleza da mesma flor, que antes era o seu objeto de admiração.

O filósofo grego Platão, nascido em 428 a. C (há quase 2.500 anos!), acreditava que o mundo que conhecemos não é o verdadeiro. Para ele, a realidade não está no que podemos ver e que, para atingir a verdade e o bem, devemos nos libertar da sedução da visão e nos guiar pela razão. Platão nos mostrou a distinção entre aparência e realidade.

Na sua Alegoria da Caverna ele disse que as pessoas vivem como se estivessem aprisionadas, desde a infância, numa caverna escura, acorrentadas de frente para uma parede e de costas para a entrada, onde tem uma fogueira acesa que projeta sombras de coisas e de pessoas que estão do lado de fora. É tudo o que podem ver e, erradamente, consideram as sombras como sendo verdadeiras. Porém, se um dos prisioneiros conseguisse se libertar e saísse da caverna, de início seus olhos seriam ofuscados pela luz, mas aos poucos perceberia que o que via no interior da caverna eram apenas sombras e começaria, então, a ter consciência de que vivia num mundo de aparências, de ilusão e de ignorância.

Platão ainda pergunta o que aconteceria a esse homem se ele descesse novamente à caverna para contar a seus amigos o que havia descoberto. Em princípio seus olhos demorariam a acostumar-se às trevas novamente e certamente ele seria ridicularizado, hostilizado e até ameaçado de morte pelos prisioneiros que não acreditariam nas suas “fantasias”.

Esta Alegoria ainda hoje pode nos mostrar que aquilo que acreditamos como real pode ser uma ilusão. Portanto, é importante ter a consciência de que os nossos olhos não podem nos revelar a verdade e a essência do que vemos.

Esta é a maneira mais segura de formar uma concepção mais fiel do mundo em que vivemos, porque a visão clara da realidade só é obtida através da percepção da verdadeira Luz, que é o ponto de partida para o crescimento e o aperfeiçoamento humano, que são obtidos por intermédio da razão, pela busca do conhecimento, da justiça e da Verdade.

Como veremos mais adiante, é bom prevenir que há uma distinção entre a caverna platônica e a maçônica: Dentro da caverna de Platão estão as trevas e as ilusões, e fora dela existem a luz e a realidade. Na Caverna Iniciática, segundo Ragon, ao invés de ser um lugar tenebroso, é iluminada interiormente.

 Fora dela, ao contrário, reina as trevas, as aparências e a ignorância. Isto porque, de acordo com o mesmo autor, no simbolismo maçônico as “Luzes” encontram-se no interior na Loja, e não é por acaso que a palavra Loja [do sânscrito loka, que significa mundo] deriva de uma raiz cujo sentido designa a Luz.

VENDAR OS OLHOS

“Conheça-te a ti mesmo” (Sócrates).

O ato de vendar os olhos do candidato tem enorme relevância porque marca o princípio do ritual de iniciação e o começo da preparação daquele que será iniciado.

O Ritual não é explícito quanto ao momento em que o candidato deve ser vendado, tanto que em algumas Lojas nos deparamos com pequenas variações nesta ação. Mas isto não é relevante porque sabemos que a Maçonaria tem suas raízes na Tradição Primordial, pela qual se conservam símbolos, conhecimentos, costumes e hábitos que remontam a um passado longínquo.

Porém, o mais importante é que o candidato precisa passar por uma preparação psicológica e espiritual, ser estimulado a fazer uma reflexão prolongada e profunda para que tenha uma compreensão mais realista e coerente de si mesmo.

Mas para refletir sobre nós mesmos é necessário que estejamos isolados e abstraídos. É preciso olhar unicamente para “dentro” sem se distrair com o que se passa lá fora. Neste contexto, o uso da venda contribui para fugirmos das “ideias prontas”, isto é, das nossas crenças, preconceitos e prejulgamentos.

Sabemos que com a privação da visão ficamos isolados do mundo exterior. Ficamos perturbados, cheios de dúvidas, angústia e ansiedade. Nesta circunstância vacilamos, tateamos e arrastamo-nos passo a passo e ficamos dependentes de um guia. Nesta obscuridade, o recurso disponível é voltar para nós mesmos e somos compelidos à introspecção, quando então passamos a ter uma visão mais clara sobre nossas atitudes, comportamentos, virtudes e erros.

Até agora discorremos sobre os efeitos aparentes do uso da venda, os quais podem ser experimentados por qualquer pessoa que esteja predisposta, independentemente de qualquer ritual iniciático.

Mas na Maçonaria o simbolismo da venda extrapola a mera acepção de um estado de cegueira. A venda usada na iniciação maçônica se reveste de uma profunda significação porque o candidato, uma vez vendado, é compelido a se isolar do mundo exterior e, efetivamente, este ato provoca um profundo estado de perplexidade no iniciando, tendo em vista que ele não esperava por este isolamento.

Com a privação da visão acentua-se a acuidade dos outros sentidos, principalmente o da audição. E a Maçonaria com isso, segundo Boucher, quer mostrar ao profano que ele “não sabe ver” e que também está habituado aos “ruídos do mundo”, os quais o levam a adotar concepções, crenças e decisões, não por sua livre escolha, mas por influências do meio social no qual ele vive.

A Venda na Maçonaria também não deixa de ser uma representação dos labirintos que permeavam as cavernas iniciáticas da antiguidade. Pelo costume usado em nossa Loja, por exemplo, o candidato já é vendado quando sai da sua residência. O “distante” e tortuoso percurso até o local da iniciação já o leva a perder o sentido de tempo, espaço e localização. Neste estado de desorientação, dúvidas e incertezas é como se o candidato estivesse em um labirinto do qual ele não conhece o trajeto e nem sabe o caminho que leva à saída. Toda esta situação de angústia e dependência provoca no candidato um profundo impacto emocional levando-o a ficar mais reflexivo e preparado para submeter-se às provas iniciáticas.

DAS TREVAS À LUZ

“E é morrendo que se vive para a vida eterna” (São Francisco de Assis).

Além do preparo espiritual, estimulado pelo uso da venda e pelo prolongado tempo que permanece em reflexão, o candidato também passa por uma preparação física e moral: Primeiro, é despojado dos metais como símbolo de renúncia aos bens materiais e ao abandono das paixões; em seguida é desnudado de modo a ficar com o coração a descoberto (em sinal de sinceridade e de franqueza), com o joelho direito despido (como sentimento de humildade) e com o pé esquerdo descalço (em sinal de respeito).

Só depois destas preparações o candidato estará apto a continuar a percorrer os trajetos do Labirinto: Inicialmente ele desce até a Cam.·. de Refl.·. local em que passará pela sua primeira morte e o seu primeiro renascimento ritualístico. Concluída esta primeira prova o candidato, agora recipiendário, terá novamente os olhos vendados para ser conduzido à porta do Templo ― lugar que separa o mundo profano da realidade sagrada vivenciada em Loja (“Quem é o temerário que ousa interromper os nossos AAug.·. TTrab.·.?).

Em seguida ele deverá transpor as demais provas para confrontar-se com os dilemas da existência humana e passar pelas purificações. Finalmente, e se tiver passado ileso por todas as provas, ele adquire o direito de receber a Luz e o privilégio de, já como neófito, ser admitido às revelações dos Augustos Mistérios.

O auge do ritual de iniciação está na recompensa da Luz, que é solenemente simbolizada pela retirada da venda: “FAÇA-SE A LUZ... E A LUZ FOI FEITA... QUE A LUZ SEJA DADA AO NEÓFITO”. Para o homem que emerge das trevas e do caos este é o seu momento mais glorioso. É como a fênix que, queimada, renasce das próprias cinzas. A grandiosidade desde momento parece explicar um texto bíblico que cita: “Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos e do cárcere os que jazem em trevas” (Isaías 43:7).

Ainda, e para esclarecer o alerta feito anteriormente, é necessário fazer a distinção entre o Labirinto e a Caverna Iniciática.

O Labirinto representa o caminho que o iniciando tem que percorrer para realizar as provas iniciáticas. Caminhar pelo Labirinto é “viajar” pelas experiências da matéria e vagar a esmo pelas sensações de angústia, dúvidas, inquietações e temores. O seu complexo e confuso percurso representa a “descida aos infernos”, as “trevas exteriores”, os estados “errantes” do mundo profano e simboliza a morte ritualística. É como a citação de um texto de Isaías (42:16) que diz: “E guiarei os cegos por um caminho que não conhecem; fá-los-ei andar por veredas que sempre ignoraram...”.

Já a Caverna Iniciática é a representação do mundo e do cosmo, é o local onde acontece a segunda morte e o segundo renascimento. Não é de se admirar e nem motivo de ceticismo, bastando relembrar as palavras do próprio Cristo que disse: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (João 14:2). Daí porque este local também é conhecido como sendo a “Caverna do Coração”, isto é, a nossa própria consciência, a nossa interioridade mais profunda, a representação do nosso próprio EU.

É nesta Caverna, e somente nela, que deve ser assimilado o simbolismo da iniciação, que nos oferece a oportunidade de libertar das ilusões da existência material e renascer para uma realidade espiritual, ascendendo a uma visão mais sagrada do sentido da vida e de nós mesmos. E esta “Ressurreição em Vida” também lembra um texto bíblico (João 3:7): “Não te admires de eu te haver dito: Necessário vos é nascer de novo”. Neste sentido, devemos nos conscientizar que a iniciação é puramente espiritual e que, portanto, ela deve ocorrer do interior de cada iniciado.

CONCLUSÃO

“Não, não tenho caminho novo. O que tenho de novo é o jeito de caminhar”. (Thiago de Mello).

O uso da venda na iniciação maçônica ajuda o candidato a fazer uma reflexão sobre si mesmo, e contribui para que ele tenha consciência dos estados “errantes” e das “trevas exteriores” que permeiam o mundo profano, que é influenciado pelas aparências, ilusões e apegos.

Sem o uso da Venda a cerimônia de iniciação certamente correria o risco de perder muito da sua significação, porque o candidato, ainda contaminado pela vida profana, permaneceria subjugado a suas crenças, preconceitos e prejulgamentos. Do mesmo modo, se ele fosse submetido a olho nu às provas iniciáticas elas poderiam parecer dramatizações ridículas e todo o simbolismo poderia ser visto apenas em sua exterioridade.

Boucher afirma que “O simbolismo da Venda, que parece tão elementar, é um dos mais profundos de toda a Maçonaria”, e que “Seria lamentável que a Venda simbólica continuasse, mesmo depois de ser desatada e do Choque Iniciático”.

Compartilhamos da opinião de Boucher porque, por incrível que pareça, ainda encontramos maçons, mesmo em altos degraus da escada de Jacó, que aparentam não ter compreendido qual é o simbolismo da Venda, pois demonstram continuar nos estados “errantes” ou “labirínticos”, com os mesmos apegos, ilusões e vaidades de um profano comum, e permanecem ignorando a necessidade de nos livrar da nossa “Venda congênita”.

Dizem que o pior cego é aquele que não quer ver. É o insensível que, deliberadamente, “venda” os próprios olhos e passa a ignorar as aflições dos seus semelhantes e as preocupações do mundo em que vivemos.

E quanto a nós, será que realmente já tomamos consciência da necessidade de desatar a Venda que cobre os nossos próprios olhos?

Ir.·. Antônio Lara Rezende

Loja Fênix de Brasília - 1959

Or de Brasília

Referência Bibliográfica

1. BOUCHER, Jules. A Simbólica Maçônica. Pensamento. 1979

2. GUENON, René. Os Símbolos da Ciência Sagrada. Ed. Pensamento

3. VAROLI, Theobaldo. Curso de Maçonaria Simbólica. Gazeta. 1981.

4. ZOCCOLI, Hiran L. Maçonaria Esotérica - Grau I. 1991.

5. ZOCCOLI, Hiran L. A Iniciação Maçônica. 1985.

6. CARVALHO, Assis. O Aprendiz Maçom. Trolha, 1995.

7. BAYARD, Jean-Pierre. A Espiritualidade da Maçonaria. Madras. 2004.

8. CAMINO, Rizzardo. Dicionário Maçônico. Madras. 2004.

9. MARINOFF, Lou. Mais Platão, Menos Prosac. Record. 2004

10. GOB. Ritual do Grau 1 – REAA. 2001.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

IGREJA CATÓLICA E MAÇONARIA: UMA ABORDAGEM INSTITUCIONAL


Ao tratar da relação entre a Igreja Católica e a Maçonaria, entendo que é preciso reconhecer, com serenidade, que se trata de um tema historicamente marcado por posicionamentos distintos e por compreensões próprias de cada instituição.

Desde o século XVIII, com as primeiras manifestações formais da Igreja, estabeleceu-se um distanciamento que atravessou o tempo. Ainda assim, sob a perspectiva maçônica que compartilho, a Ordem nunca se apresentou como alternativa ou oposição a qualquer religião. Sempre a compreendi como uma instituição de caráter filosófico, moral e espiritual, voltada ao aperfeiçoamento do homem e ao fortalecimento de valores como ética, responsabilidade e fraternidade.

Na Maçonaria, convivem homens de diferentes crenças, unidos pelo respeito à liberdade de consciência. Esse é, para mim, um ponto essencial: cada irmão mantém sua fé e sua convicção, sem qualquer imposição, encontrando na Ordem um espaço de reflexão e crescimento.

É importante destacar também um dado da realidade brasileira: estima-se que mais de 85% dos maçons no Brasil se declarem católicos ou tenham vivência na fé católica. Muitos desses irmãos são cristãos atuantes, participam assiduamente da vida religiosa e, não raramente, exercem funções relevantes em suas comunidades, colaborando com obras de caridade e com a própria liturgia. Esse aspecto evidencia que, na prática, a convivência entre fé e vivência maçônica é uma realidade presente na vida de muitos.

As divergências históricas, a meu ver, decorrem principalmente de interpretações distintas sobre temas sensíveis, especialmente no campo espiritual. Essas diferenças acabaram por consolidar posições institucionais que contribuíram para o distanciamento da cúpula da Igreja com a Maçonaria.

Por outro lado, não posso deixar de observar que, no plano individual, há aqueles que buscam conciliar sua vivência religiosa com os ensinamentos da Ordem. Isso demonstra que o tema não é simples, e que comporta diferentes formas de compreensão.

Diante disso, procuro tratar essa questão com equilíbrio e respeito. Mais do que acentuar divergências, entendo que o assunto exige maturidade, reconhecimento das diferenças e valorização de tudo aquilo que contribui para o aprimoramento moral e espiritual do ser humano.

Arlindo Batista Chapeta

-Presidente da Academia Maçônica de Letras da Baixada Santista e membro da AIMI

-Secretário Geral de Comunicação do GOB

“As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, o posicionamento oficial da instituição.”

Sempre à frente, o GOB e você!

Secretaria Geral de Comunicação do GOB

 

domingo, 12 de abril de 2026

A PALAVRA SEMESTRAL

É norma contida no Ritual Escocês, de 1928, das GG.·. LL.·. Brasileiras, que a Palavra Semestral deve ser trocada com o Cobridor da Loja que se visita, como prova da regularidade recíproca entre o visitante e a visitada. Quando Aprendiz, indaguei: como é que se processa esse trocar? Responderam-me que eu deveria dar ao Cobridor da Loja visitada uma falsa palavra, isto é, inventada; caso ela fosse aceita ou recusada, haveria a prova da irregularidade ou regularidade da Loja.

E, à guisa de pá-de-cal, me foi acrescentado: se a Loja for regular, o Cobridor não aceitará tal troca e voltará a pedir a Palavra - e aí sim! - darás a verdadeira, aquela recebida na Cadeia de União. Ponderei que a explicação não abrangia todas as possibilidades, inclusive a do Visitante ser colocado no olho-da-rua, por irregular ou por metido a engraçadinho... Ante o frio olhar do Mestre, calei-me...

O tempo passou. Visitei muitas Lojas. Nunca foi necessário trocar a Palavra Semestral com quem quer que fosse, embora a dúvida de como proceder continuasse latente no subconsciente. Até que um dia, ao longo das pesquisas e estudos, inesperadamente, nas últimas páginas da obra A Simbólica Maçônica - de Jules Boucher - lá estava a resposta concisa à invencionice que tentaram me impingir (e, sabe-se lá, a quantos outros...).

Então, juntei o dito por Jules Boucher com outras leituras e, hoje, tantos anos passados, creio estar suficientemente informado para explicar, sem magister dixit, aos Aprendizes de agora, a verdade sobre tal assunto, vazada num texto simples, como eu gostaria de ter recebido em 1977/78. Buscando reunir as informações essenciais à compreensão do tema, situá-lo no tempo e resumir seus eventos desencadeantes, vejamos...

A Maçonaria Francesa do século XVIII — de onde, em grande parte, o nosso Rito provém —, foi pródiga em Graus, Ritos e Corpos: quase 400 Graus, mais de 50 Ritos e, englobando tudo isso, diversas Ordens e Obediências. Evidentemente, todas digladiando-se por precedências. No sentido de amplitude, no de entrecruzar caminhos, descaminhos e trilhas ― uma savana — verbera Allec Mellor.

Assim, lá por 1770, existiam três grandes Obediências: duas Grandes Lojas, a da França e a Nacional de França, mais o Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente (Grande e Soberana Loja Escocesa de São João de Jerusalém), além de vários Grupos e Lojas esparsas.

No início de 1773, buscando dar fim ao divisionismo, limitar o número de Graus e, segundo dizem, para impor suserania à Maçonaria Francesa, a maior parte da Grande Loja da França (e outras dissidências) reestruturou-se como ―Ordem Real da Maçonaria em França, gerando e dando à luz em 24.05.1773 ao Grande Oriente de França, Obediência que, em 28 de outubro daquele ano, empossa seu primeiro Grão-mestre, Felipe de Orleans, Duque de Charters (1).

Afora a estranha personalidade de tal Grão-Mestre (2), o que importa assinalar é o fato de que na data de sua posse nasceu a Palavra Semestral (3), criada para impedir a presença de Maçons não filiados às reuniões do GOF. Foi uma medida bem diferente daquela tomada em 1730 pela Grande Loja de Londres que, ao trocar a sequência das colunas de BJ para JB, buscava impedir o acesso de profanos nas Lojas, em decorrência das inconfidências de Prichard, quando publicou nossos segredos num jornal londrino.

Contrariamente, o GOF atingia os Maçons, tentando obrigá-los à filiação na nova Obediência, limitando o livre direito de visitação até então vigente.

Concluído o cenário e vistas às motivações que ensejaram o nascimento da Palavra Semestral, vejamos como ela foi planejada para ter eficácia, no sentido concebido por seus mentores, os quais, com inteligência, uniram dois usos tradicionais: um militar, o da Senha; e o outro obreiro, o da Cadeia de União (4). Tais parâmetros foram conjugados e, até hoje, mantidos em vigor nas Obediências Escocesas da Europa, assim:

a) A PS não é UM só vocábulo, são DOIS, ambos com a mesma inicial; por exemplo:  Luz/Lua, Sol/Saber ou Fé/Força... É Senha e Contrassenha ou melhor, tal como se diz na França: são as palavras semestrais;

b) Na Cadeia de União, uma palavra vai pela direita, a outra pela esquerda; e, pelo retorno aos ouvidos do Venerável, este diz do acerto da recepção: ―Justas e Perfeitas.

Caso ocorra algum erro, o procedimento é repetido até poder ser dado como correto.

À luz do até aqui exposto, retornando à indagação inicial de como trocar a Palavra Semestral com o Cobridor, bastaria que o visitante desse a Senha (uma palavra) e recebesse a Contrassenha (a outra palavra) para que, inegavelmente, ficasse estabelecida a regularidade de ambos. Ou seja, a do visitante e a da Loja. Tudo simples, sem invencionices, de forma inteligente!

Aqui poderíamos dar por concluído este trabalho, mas nossos leitores talvez ficassem com duas indagações:

1ª) A implantação das Palavras Semestrais surtiu o efeito desejado?

2ª) Por que nós temos somente uma Palavra Semestral?

Respondendo-as, ressalvando a existência de divergências entre os historiadores,

podemos dizer que:

Na França, como vimos, a implantação das Palavras fazia parte de um contexto obediencial e programático que, no sentido hegemônico, não alcançou seu fim, pois a animosidade dos IIr.·., Lojas e Obediências tidas por irregulares avolumou-se contra ao GOF que, embora enobrecido com um príncipe de sangue na titularidade do Grão-Mestrado, não conseguiu unificar a Maçonaria Francesa, mas ficou com sua maior fatia.

No nosso caso, a existência de uma só Palavra Semestral, em vez de duas, podemos creditar somente ao desconhecimento do tema, tanto por tradutores quanto por autoridades litúrgicas, os quais — por certo — desconheciam a História da Franco Maçonaria de Findel, que à pág. 65, descrevendo uma iniciação de antanho, quase ao final diz: ―Era libertado da venda de seus olhos, mostravam-lhe as três grandes luzes, colocavam-lhe um avental novo e davam-lhe o santo e a senha, conduzindo-o ao lugar que lhe correspondia no recinto da Assembleia. Santo-e-senha, segundo os dicionaristas, são palavras de mútuo reconhecimento.

Aliás, fazendo-se um parêntese, os nossos Vven.·. recebem a Palavra Semestral inserida num triângulo (?) e cifrada num código primário, para não dizer infantil, quando bem poderia ser criptografada no antigo alfabeto maçônico. Pelo menos assim, recordaríamos como decifrar certos sinais inseridos no Painel de Mestre, além de nos lembrar a ausência da Prancheta em Loja.

Concluindo, embora desagradando aqueles que buscam origens místicas e mágicas em tudo quando maçônicamente nos cerca, vimos que a Palavra Semestral nasceu de uma contingência nada esotérica. Aliás, daquele contexto, convém ressaltar, se originou a forma democrática de eleição dos VVen.·. (5) - (apanágio que o GOF até hoje ostenta e orgulhosamente relembra). No mais, acreditamos ter ficado evidente a forma equivocada de transmitir e trocar a Palavra Semestral, totalmente em desacordo com a tradição mais que bicentenária.

Por fim, com a última Palavra Semestral distribuída pela CMSB, a do primeiro semestre de 2001, apressadamente julgamos ter retornado ao tradicional molde de Senha -Contrassenha. Ledo engano, mas razão suficiente para reformatarmos este trabalho e continuarmos esperando que, um dia, a Palavra retorne à forma originária. Caso isso não aconteça — o que é bem provável — contentamo-nos em fazer a nossa parte: a de difundir mais uma informação sobre nossos Usos e Costumes, para proveito dos cultores das Tradições do R.E.A.A. .

NOTAS:

1- Sendo seus oficiais: o Duque de Montmorency — Luxemburgo (Administrador-Geral); o Conde de Buzencois (Grande-Conservador (!?); o Príncipe de Rohan (Representante do GM); o Barão de Chevalerie (Grande Orador); o Príncipe de Pignatelly (Grande Experto).

2 – Militante revolucionário que, sob o cognome de Felipe-Igualdade, votou na Convenção pela morte de seu primo e Ir.·., o rei Luiz XVI. Além disso, em quase vinte anos de mandato, poucas vezes presidiu os trabalhos do GOF; ao fim, renunciou e abjurou a Maçonaria. Foi expulso da Ordem e sua espada foi quebrada ―em Loja. Acabou seus dias guilhotinado como contrarrevolucionário.

3- Segundo o Dic. De Frau Ablines (elencado na bibliografia), a Palavra nasceu em 23.07.1777, sob a alegação de que ―convencidos por uma larga experiência da insuficiência dos meios empregados para afastar os falsos Maçons, acreditamos que o melhor que se pode fazer é rogar ao Grão-Mestre que dê a cada seis meses uma palavra, que se comunicará aos Maçons regulares, por meio da qual se farão reconhecer nas Lojas que visitarem.

4- Não era, e continua não sendo, um costume universal da Maçonaria, pois presumidamente nasceu na Compagnonnage, corporação obreira do continente europeu que não penetrou na Maçonaria de Ofício Insular (Ilhas Britânicas); consequentemente, a Maçonaria de origem Anglo-Saxã não pratica a Cadeia de União, dizendo-a fora dos cânones maçônicos.

5- Os Mestres de Loja, como eram chamados naquela época, tinham conseguido tornar- se donos de Lojas particulares, inamovíveis até 24.05.1773. Nesta data, criado o GOF, foi usado pela primeira vez a expressão “Venerável Mestre de Loja” e declarado que, daí em diante, não se reconheceria o Mestre elevado àquela dignidade, senão pela livre escolha dos membros da Loja.

Autor: Ir.·. Adayr Paulo Modena. Ex-Deputado do Grão-Mestre da Grande Loja Maçônica do Estado do Rio Grande do Sul. Hoje, no Oriente Eterno!

Bibliografia:

A Franco-Maçonaria Simbólica e Iniciática — Jean Palou.

A Simbólica Maçônica – Jules Boucher.

Dicionário da FM e dos F. Maçons — Ajec Mellor.

Dic. Enciclop. de la Masonería — Don Lorenzo Frau Abrines e Don Rosendo Arús Arferiu.

Gr. Dic. Enciclop. de Maçonaria e Simbologia — Nicola Aslan.

Jornal ―Le Monde, ar]go publicado em 15.09.2000 — Alain Bauer, Grão-Mestre do

GOF.

O R.E.A.A. — José Castellani.

Programa Radiofônico — Domingo, 05.11.2000 — Entrevista do Grão-Mestre do GOF,

Alain Bauer.

Revista ―A Renascença, nº 22 — abril de 1998

 

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