terça-feira, 28 de julho de 2026

QUAL MAÇONARIA ESTAMOS PRATICANDO?


Qual Maçonaria estamos praticando? A que nos transforma ou apenas a que nos mantém iguais?

A Maçonaria é uma escola de aprimoramento pessoal. Sua linguagem é simbólica, suas ferramentas são inspiradas na construção operativa e seus ensinamentos apontam para a edificação de um homem melhor. Mas uma pergunta precisa ser feita com sinceridade: estamos realmente utilizando essas ferramentas para transformar a nossa vida? E, mais importante ainda, como medimos essa transformação?

Ao longo dos meus vinte anos de Ordem, essa talvez tenha sido a reflexão que mais me acompanhou. Como a Maçonaria transformou a minha vida?

Posso afirmar, sem hesitar, que ela me tornou um homem melhor. Mais do que isso, ensinou-me algo ainda mais valioso: reconhecer diariamente as minhas imperfeições. Compreendi que a evolução não é um estado permanente, mas um exercício constante. Basta um momento de orgulho, de vaidade, de ira ou de descuido para retrocedermos anos de aprendizado.

A Maçonaria não nos promete homens perfeitos. Ela nos convida a sermos homens conscientes de nossas limitações. Ensina que a queda faz parte da caminhada, mas também que jamais devemos desistir. Se necessário for, voltamos ao início, retomamos as ferramentas e recomeçamos nossa construção interior.

Frequentar as sessões, estudar os rituais, apresentar trabalhos ou ouvir palestras sobre filosofia, história, espiritualidade e simbolismo, por si só, não nos torna melhores. Todo esse conhecimento só cumpre sua finalidade quando ultrapassa as paredes do Templo e passa a fazer parte das nossas atitudes.

A verdadeira pergunta não é o quanto aprendemos, mas o quanto aplicamos. Como cada símbolo, cada alegoria e cada ferramenta podem nos ajudar a sermos melhores pais, filhos, esposos, profissionais, amigos e cidadãos? Primeiro compreendemos o ensinamento. Depois, temos a coragem de vivê-lo.

Vivemos em uma época em que o tempo é escasso, os relacionamentos se tornam superficiais e a competição parece ocupar o lugar da cooperação. Talvez nunca tenha sido tão necessário colocar em prática aquilo que aprendemos na Ordem. Afinal, a verdadeira construção maçônica acontece quando o homem leva o Templo para dentro de si e faz de sua própria vida a maior obra que poderá realizar.

No fim, a resposta à pergunta inicial depende apenas de cada um de nós. Estamos praticando a Maçonaria que transforma ou apenas a Maçonaria que frequentamos?

Fraternalmente,

Arlindo Batista Chapeta

 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

O VM ESTÁ SOB A ÉGIDE DE MINERVA OU DA JUSTITIA?


Antes de adentrarmos no tema, há um aspecto que gostaria de apresentar. Sabemos que há deuses gregos e deuses romanos e que muitos deles têm os mesmos atributos, mudando apenas o nome.

A representação da sabedoria pela iconografia grega é Atena e, pela iconografia romana, é Minerva. Ambas personificam a sabedoria, a estratégia, as artes ou os artesões. Contudo, Atena tem um plus diferencial: ela também inspira a aplicação da justiça.

Quando, então, falamos do Trono de Salomão, de forma instintiva somos remetidos à ideia de que ele foi o homem mais sábio do mundo. Portanto, o Venerável Mestre, ao ser instalado, deve ser a sabedoria personificada, estando, logo, sob a égide de Minerva?

Permitam-me, pois, uma indagação. Qual é o momento histórico de Salomão de que o Irmão se lembra da aplicação de sua sabedoria? Teria sido quando ele se casava com as filhas de seus parceiros comerciais e possíveis desafetos, aumentando seu reino e evitando guerras?

Nesse árduo trabalho de evitar conflitos, ele teve 700 esposas e 300 concubinas. Haja sabedoria horizontal! Todavia, sua sabedoria vertical é sempre lembrada no tribunal, quando duas mulheres reclamavam a maternidade de um bebê (1Reis 3:23-28). Salomão mandou buscar uma espada para que a criança fosse cortada em duas partes e cada mulher ficasse com uma. A verdadeira mãe preferiu que o filho permanecesse vivo com outra pessoa, demonstrando, assim, o verdadeiro amor materno.

É nesse ponto que destaco o versículo 28: “E todo o Israel ouviu a sentença que dera o rei e temeu ao rei, porque viram que havia nele a sabedoria de Deus para fazer justiça”.

O VENERÁVEL MESTRE TEM A CONDIÇÃO E A MISSÃO DE SABIAMENTE FAZER JUSTIÇA.

É uma instrução maçônica que a espada à frente do Venerável Mestre consiste em uma arma simbólica, que deve ser usada para repelir, de forma rápida, toda insubordinação, tudo o que possa aviltar os Obreiros e, sobretudo, excluir de nosso meio aqueles que não nos reconhecem e não nos tratam como Irmãos.

A JUSTIÇA DE SALOMÃO É A SABEDORIA MAÇÔNICA.

A ESPADA NÃO É PARA EMANAR LUZ E FOGO, MAS, SIM, EQUIDADE E IMPARCIALIDADE.

O Esquadro colocado sobre seu peito é a marca indelével de que só se deve agir de uma única forma – com retidão. Quando vemos as imagens da justiça com os olhos vendados, pensamos que ela é cega ou é para demonstrar sua imparcialidade.

Entretanto, na Maçonaria, a justiça não é cega. Ela visualiza a má intenção nos recôncavos mais escuros do homem. Por incrível que possa parecer, ela não é imparcial, ela é sectarista na aplicação única dos Estatutos da Ordem.

Por isso, retorno à pergunta tema: O VM ESTÁ SOB A ÉGIDE DE MINERVA OU DA JUSTITIA?

Sem qualquer tentativa de afronta ou desrespeito às tradições, mas em prol das Lojas e do futuro da Maçonaria, creio que o Venerável Mestre deveria atuar menos em Minerva e mais em Justitia, a deusa romana da justiça. Ela personifica a moral e o cumprimento dos deveres como base para os direitos.

Duas décadas de compartilhamento do que aprendi com o único propósito de ofertar às Lojas material para o QUARTO DE HORA DE ESTUDO, ATIVIDADE OBRIGATÓRIA DE UMA LOJA MAÇÔNICA, e uma salutar provocação dominical aos amados Irmãos. São artigos curtos e objetivos, a fim de dar espaço à pesquisa, entre o pouco que sei e o muito que desejo que os Irmãos se aprofundem sobre os temas.

Salamaleico - Rubor et Furor

Fraternalmente

Sérgio Quirino
Minas Gerais Shrine Club

 

 

domingo, 19 de julho de 2026

POR QUE FUNDAR UMA LOJA MACÔNICA?

Se existe um “tabu” na Maçonaria é a fundação de novas lojas maçônicas, principalmente nas cidades onde já existem lojas.

Sob a alegação que “os irmãos vão-se dividir, ao invés de somar” ou uma simples pergunta “por que mais uma Loja?”, os maçons parecem não aceitar com naturalidade o argumento da criação de uma nova oficina.

Mas, quais são os motivos, as razões que levam os irmãos a fundarem uma Loja maçônica?

É o que pretendemos analisar neste texto.

1_ Implementação de um novo rito:

* um rito é um sistema de cerimônias que pretende dar continuidade ao ensinamento maçônico.

* Funda-se uma nova Loja maçônica para que os maçons possam ter acesso a um novo modo de difundir o conhecimento na Maçonaria, isto é, uma nova escola de pensamento que segue as linhas gerais da instituição.

* Assim, o primeiro ponto da fundação de novas lojas diz respeito à possibilidade de ofertar aos irmãos um rito diferenciado dos que já existem numa cidade, por exemplo.

* Claro que, ao conhecer um novo rito, o Maçom pode, consequentemente, incentivar o debate sadio de cultura da instituição.

* Lógico que, no final desta conta, todos saem ganhando.

2_ Resolução de conflitos:

* não são raras as situações que novas lojas maçônicas são criadas para solucionar problemas de relacionamento entre os irmãos.

* Talvez esta seja a oportunidade mais adequada para dizimar conflitos internos.

* Ora, se existem dois grupos com ideais distintos, qual a vantagem de mantê-los dividindo o mesmo teto, a mesma sessão?

* Sim, o ideal é que não entrassem em querela.

* Entretanto, elas são típicas do ser humano.

* Se ambos desejam trabalhar maçônicamente, a instituição não se pode privar de oferecer esta possibilidade.

3_ Ampliação de território:

* Seja para uma cidade em que não há Maçonaria, seja para “ganhar terreno” dentro de um grande município, a criação de lojas neste sentido é interessante, uma vez que uma nova comunidade pode ser beneficiada com os trabalhos de uma Loja maçônica.

* Cada grupo, portando as suas peculiaridades, irá atuar maçônicamente de acordo com os seus princípios, a sua vocação.

* E, assim, todos ganham: a região que ainda não possui uma Loja passará a contar com homens dispostos a mudar a realidade local;

* a que já possui ampliará o leque de possibilidades da atuação da Maçonaria naquela localidade.

Diante destas vantagens, constatamos que os argumentos dos contrários à fundação de novas lojas maçônicas não se sustentam.

Para isto, os “fundadores” devem levar a sério a criação da nova oficina, pois a responsabilidade tanto interna quanto externa é grande.

A instituição não pode e não deve fugir do dever dos membros de uma Loja maçônica para a comunidade em que ela está instalada.

Portanto, pense bem antes de propor a criação de uma Loja.

Afinal, se o projeto não vingar, os fracos argumentos contrários continuarão sempre a prosperar face aos inúmeros benefícios existentes – por única e exclusiva culpa daqueles que não souberam alavancar o novo empreendimento.

Tiago Valenciano M.'.M.'.

 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

PRECE MAÇÔNICA

 

O amanhecer não conhece fronteiras.

Quando a luz rompe o horizonte, ela não escolhe sobre qual credo, qual bandeira ou qual história ela irá repousar, pois ela simplesmente desperta o mundo.

O novo dia é a página em branco que nos é oferecida, sendo um consenso universal de uma nova oportunidade, independentemente de como nomeamos o Mistério da Origem ou da Existência.

Todos compartilhamos a mesma respiração que nos permite saudar o Sol.

O Convite da Alvorada é que, neste momento em que o mundo recomeça, deixemos de lado o que nos separa.

A luz que entra pela janela não pertence a nenhuma doutrina, ela é o presente comum de uma vida que insiste em florescer.

Na quietude do reinício, encontramos o espaço para agradecer o dom de estarmos aqui.

No movimento reconhecemos que nossas mãos, independentemente da crença que carregam, são instrumentos de construção, cura e cuidado.

Na esperança, nos unimos de forma silenciosa, para que este dia seja, para todos e cada um de nós, um terreno de paz e compreensão.

"Que a luz deste novo dia seja o fio que nos tece em uma única humanidade, lembrando-nos de que a bondade é o idioma que todos compreendem sem precisar de tradução."

O compromisso comum com o novo dia não exige perfeição, apenas presença.

Que possamos vivê-lo com a consciência de que o outro é, também, um viajante da mesma jornada.

Que o nosso agir hoje seja reflexo de um respeito profundo pela sacralidade da vida, essa força vital que, em silêncio, habita cada coração, cada cultura e cada horizonte.

Hoje é, por natureza, um dia sagrado, porque é o dia em que temos a chance de sermos, simplesmente, melhores uns para os outros.

Que a aurora de hoje nos encontre não como estranhos, mas como guardiões da mesma luz que nos desperta.

Sob a Luz e a crença nos sagrados que cada um de nós, em nosso mais profundo íntimo, possui, e que sintetizamos na expressão GRANDE ou SUPREMO ARQUITETO DO UNIVERSO, nos faça cada dia mais humanos e mais focados em construir uma sociedade mais justa e mais perfeita.

Antônio Guedes

terça-feira, 14 de julho de 2026

IRMÃO ADORMECIDO

Muitas vezes ouvimos alguém dizer: “aquele Irmão está adormecido “, “aquele ali é um Maçom adormecido “, e outras expressões parecidas.

Mas afinal, o que é um “Irmão Adormecido”?

Se tiver uma resposta como por exemplo, que é aquele Irmão que pediu o seu Quite Placet e está há muito tempo sem frequentar uma Loja Maçônica, podemos até concordar em certo ponto.

Porém, há outra forma de intitular um verdadeiro “Irmão Adormecido”, ou até mesmo num “Coma Induzido”.

O Irmão adormecido por muito tempo, na verdade, é como um passarinho caído do ninho, que desaparecerá sem deixar vestígios, mas temos também aquele que encontramos em “todas”.

Num ponto de vista, o Irmão Adormecido é aquele que está Regular com a sua Loja, que está em dia com as suas mensalidades, que vez ou outra participa no ágape, mas quando participa, está presente em algumas Sessões apenas para cumprir com o número mínimo de presenças.

É também aquele que quando comparece aos trabalhos, muitas vezes atrasado, não sabe o seu lugar na formação do cortejo de entrada, abre a sua pasta e não encontra o seu ritual, quando o encontra não sabe a página em que o deve abrir, não sabe o que deve ler ou dizer quando ocupa um cargo e por aí vai.

Irmão Adormecido é também aquele que durante os trabalhos está de olhos fechados, acreditando que aqueles que o estão a ver, acham que está a meditar sobre as instruções que estão a ser transmitidas.

No entanto, tem o pensamento lá fora, olhando para o relógio e contando os minutos para o encerramento da Sessão, muitas vezes já ansioso para saber o menu e o local do ágape.

Irmão Adormecido é aquele que só retira o seu Ritual no dia da Sessão, que não lê, que não escreve ou apresenta uma Peça de Arquitetura, sempre com a desculpa de que não teve tempo para isso.

Irmão Adormecido é aquele que só é reconhecido como Maçom perante os seus Irmãos em Loja, vestido com o seu Avental, mas que, longe dali se torna num simples mortal, um profano.

Portanto, não podemos esquecer aquele Irmão regularmente adormecido, ou seja, que está com Quite Placet, mas nunca deixou de colocar em prática os ensinamentos que obteve em Loja, que nunca deixou de ler livros e Peças de Arquitetura, que nunca deixou de estender as suas mãos a um outro Irmão.

Na prática, o Irmão adormecido é aquele que está de posse do Quite Placet, embora tenhamos também o Maçom “entorpecido”, aquele que está regular, porém, inativo em relação aos trabalhos Maçônicos.

Movimenta-se como um ser sem vida e é incapaz de olhar para os lados onde estão os seus irmãos.

Então, antes de intitularmos um Irmão Adormecido, temos primeiro que avaliar a sua conduta, a sua inteligência, a sua capacidade, as suas qualidades e principalmente o seu caráter e personalidade no mundo profano, muitas vezes melhor que um Irmão Regular.

Nivaldo Tono M.'.M.'.

 

 

sábado, 11 de julho de 2026

A SENDA DO COMPANHEIRO: AS CINCO FASES DA ELEVAÇÃO

A jornada do Companheiro Maçom é um processo geométrico e progressivo que expande a consciência do operário e o transforma em um verdadeiro construtor social. 

Ao deixar a penumbra da Coluna do Norte, o iniciado passa a percorrer cinco etapas sucessivas e distintas, representadas pelas suas viagens simbólicas, onde cada fase exige o entendimento de novas ferramentas e novos conceitos morais e intelectuais.

Na Primeira Fase, o operário recapitula o uso do Maço e do Cinzel, garantindo que a base de sua estrutura está firme e livre das arestas mais grosseiras do ego. 

Superada essa transição, a Segunda Fase introduz a Régua de 24 Polegadas e o Compasso, inaugurando a disciplina mental. O tempo passa a ser rigidamente planejado e os desejos internos recebem o limite exato do círculo da razão.

O progresso se acentua na Terceira Fase, onde a Régua se junta à Alavanca e ao Prumo. O foco aqui se desloca para a verticalidade do caráter e para o estudo das ciências e das artes liberais; o maçom descobre que o conhecimento serve para elevar estruturas e buscar a verdade. 

Em seguida, na Quarta Fase, a aplicação do Nível ensina o autêntico nivelamento social. Compreendendo a igualdade absoluta entre os homens, a pedra polida encontra o seu perfeito encaixe junto às demais na construção do Templo Social.

O ápice desse desenvolvimento se consolida na Quinta Fase. Nela, o Companheiro realiza o seu movimento de mãos totalmente livres, desprovido de qualquer ferramenta material. Organizar, elevar e nivelar foram etapas vencidas; agora, na Coluna do Sul, sob a plena claridade do Meio-Dia, o operário assume a nobre postura de quem simplesmente assiste a tudo. 

Livre do peso mecânico, ele usa a mente, o coração e a intuição para testemunhar os mistérios, zelar pela harmonia da oficina, proteger a egrégora e guiar os novos Irmãos que estão começando.

Nota de Rodapé e Alinhamento Filosófico:

As cinco fases do Companheiro desenham a transição da força para a sabedoria. As mãos livres no final da jornada (Quinta Fase) são a recompensa por terem sido firmes e operosas nas etapas anteriores: somente o operário que aprendeu a retidão da Régua, o limite do Compasso, a elevação do Prumo e a igualdade do Nível adquire a clareza necessária para olhar para cima, assistir ao Todo e servir de legítimo amparo para a sua Loja e para a humanidade.

A/D

 

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

ENTRE A LUZ E A SOMBRA: A PEDRA BRUTA DO AUTOCONHECIMENTO

A antiga inscrição do Templo de Delfos dizia: “Conhece-te a ti mesmo.”

Séculos depois, essa continua sendo uma das maiores e mais difíceis tarefas do ser humano.

Conhecer o mundo é importante. Conhecer os outros também. Mas talvez o maior desafio seja olhar para dentro de si mesmo com honestidade suficiente para reconhecer virtudes, defeitos, limites e potencialidades.

Foi justamente nesse caminho que Carl Jung desenvolveu a teoria da Sombra. Segundo ele, todos nós carregamos uma parte oculta da personalidade: medos, ressentimentos, vaidades, preconceitos, inseguranças e impulsos que preferimos não enxergar. Não porque sejamos maus, mas porque somos humanos.

A sombra não é formada apenas pelos defeitos que escondemos dos outros. Muitas vezes, ela é composta pelos defeitos que escondemos de nós mesmos.

E talvez aí esteja uma das mais belas conexões entre a psicologia junguiana e a Maçonaria.

Quando ingressamos na Ordem, recebemos a missão simbólica de lapidar a Pedra Bruta. À primeira vista, imaginamos que essa pedra representa apenas nossos vícios mais evidentes. Com o passar do tempo, porém, descobrimos que as arestas mais difíceis de aparar são justamente aquelas que não conseguimos ver.

A vaidade que criticamos nos outros.

A intolerância que condenamos.

O orgulho que apontamos.

 

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

QUAL É O DESTINO DO MAÇOM?

Existem conceitos enraizados que consideramos verdades absolutas e aplicáveis em tudo e em toda vida. Por exemplo: “tudo tem princípio, meio e fim”, “haverá sempre uma partida e uma chegada”, e outras mais que envolvem o “tempo” e o “espaço”.

Como Maçons, não nos apegamos ao passado, uma vez que, sendo glorioso, torna-se combustível da vaidade e da intolerância. É quando surge a frase: “No MEU tempo...”. Em contrapartida, constituindo algo a se esquecer e não o conseguindo, é a ancora que trava o navio da vida.

Quanto ao espaço, as instruções referentes às dimensões do Templo devem ultrapassar o macro, que é o Templo Material/Externo, e servir de medidas ao micro, que consiste no Templo Espiritual/Interno. Vide o início da quinta instrução do Grau de Aprendiz.

Portanto, a essência da instrução é que, não havendo limites espaciais, a Maçonaria é universal. Mas atenção: “universal”, nesse sentido, ultrapassa o conceito de Universo como estruturas sensoriais.

A UNIVERSALIDADE DA MAÇONARIA ENCONTRA-SE
NOS VALORES ÉTICOS E MORAIS APREGOADOS.
POR ISSO, A DIVERSIDADE DE RITOS E RITUAIS NÃO MUDA SUA ESSÊNCIA.


Como seria, então, a universalidade do/no Maçom?

A UNIVERSALIDADE DO MAÇOM RESIDE NOS VALORES ÉTICOS E MORAIS PRATICADOS. LOGO, A DIVERSIDADE DE AMBIENTES E SITUAÇÕES NÃO MUDA SUA CONDUTA.


Sendo assim, tempo e espaço são entendidos, em âmbito profano, como noções autônomas para a compreensão dos sentidos. Tudo o que vejo ocupa um espaço; tudo o que ouço teve um tempo determinado. Porém, no contexto maçônico, essas duas noções tornam-se entidades que trabalham não por heteronímia – algo que age sob regras ou controle externo –, mas por “leis” próprias.

Já observaram “nossa” régua? Ela é organizada em polegadas (espaço), contudo a utilizamos para dividir as atividades (tempo). Régua de 24 polegadas (60,96 centímetros) = oito horas de trabalho, oito de descanso e oito de estudo (um dia de vida).

Onde mais se consubstanciam o espaço e o tempo em nossos simbolismos e alegorias?

Nas marchas dos Graus! Reflitam bem! E é um trabalho bonito e complexo relacionarmos o conteúdo do grau com o número, os movimentos e as direções de passos e pés.

A marcha não é ensinada para sair ou chegar a algum lugar, mas para mostrar como são os passos, onde (espaço) e quando (tempo) devemos estar ou deixar de estar, porém sempre à Ordem.

A resposta para a pergunta “qual é o destino do Maçom” é: destino nenhum. Isso porque destino representa alcance, complementação, finalização, e o 20º Landmark é a certeza de que não há tempo nem espaço. Maçonaria não é um caminho, é apenas um caminhar.

Duas décadas de compartilhamento do que aprendi com o único propósito de ofertar às Lojas material para o QUARTO DE HORA DE ESTUDO, ATIVIDADE OBRIGATÓRIA DE UMA LOJA MAÇÔNICA, e uma salutar provocação dominical aos amados Irmãos. São artigos curtos e objetivos, a fim de dar espaço à pesquisa, entre o pouco que sei e o muito que desejo que os Irmãos se aprofundem sobre os temas.

Fraternalmente

Sérgio Quirino
TFA

 

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O PALÁCIO MAÇÔNICO DO LAVRADIO, RIO DE JANEIRO


O Palácio Maçônico, construído na década de 1840, é a sede do Grande Oriente do Brasil, fundado a 17 de junho de 1822, tendo como seus primeiros Grão-Mestres a José Bonifácio de Andrada e Silva, seguido por D. Pedro I, Imperador do Brasil.

O Palácio, aberto à visitação pública, é de estilo neoclássico e tem sua planta original atribuída ao arquiteto Grandjean de Montigny. No acervo histórico do Museu está o trono maçônico de Dom Pedro I, retratos de maçons históricos e a Mesa com que Deodoro da Fonseca e Benjamin Constant se reuniam para organizar o Golpe de 15 de novembro de 1889

Em 1831 após anos fechado por Dom Pedro I foi restaurado o Grande Oriente do Brasil. Foi de novo aclamado Grão-mestre o Sr. José Bonifácio de Andrada e Silva, que dirigiu então aos maçons do mundo e do Brasil um famoso "manifesto maçônico" pedindo a Unificação das lojas Maçônicas

A atividade maçónica no Brasil vinha se acentuando desde o entardecer do século XVIII. Foi muito silenciosa até 1815, quando se fundou a famosa Loja Comércio e Artes. Em 1821, montava-se o Poder Maçônico brasileiro no Rio e em 1822 fundava-se, afinal, o Grande Oriente do Brasil. E, segundo Gonçalves Lêdo e José Bonifácio, é de crer que a primeira loja maçônica regular no Brasil foi a Reunião, estabelecida em 1801.

Na sua atuação em prol da independência, a Maçonaria no Brasil do Século XIX procurou condicioná-la a uma verdadeira transação entre os elementos nacionais conservadores e os mais revolucionários.

Estes queriam logo a república. Aqueles a repeliam. Daí se tomar como base a permanência da dinastia bragantina num império constitucional e democrático. A república viria a seu tempo, como veio, coroando a obra da Maçonaria em 1889.

Em 1831 após anos fechado por Dom Pedro I foi restaurado o Grande Oriente do Brasil. Foi de novo aclamado Grão-mestre o Sr. José Bonifácio de Andrada e Silva, que dirigiu então aos maçons do mundo e do Brasil um famoso "manifesto maçônico" pedindo a Unificação das lojas Maçônicas.

Em 1843, instalou-se o Grande Oriente do Brasil no Palácio Maçônico do Lavradio.

#maconaria

sexta-feira, 19 de junho de 2026

QUEM OU O QUE É A VIÚVA EM MAÇONARIA?

No coração das ideias maçônicas, há uma figura enigmática que despertou curiosidade, admiração e profundas reflexões: a Viúva. Não só despertou a curiosidade de maçons, mas também de NÃO maçons, perguntamo-nos é um nome ou uma imagem arquetípica de algo representante do Eterno Feminino, e é que é o símbolo central de todo um mistério que liga antigas tradições, mitos universais e a própria essência da Maçonaria.

Esta narração percorre sua história, seus significados ocultos e as múltiplas faces que teve ao longo de séculos, convidando-nos a descobrir quem é realmente essa figura a que todos os iniciados chamam de “mãe”. É um percurso cheio de sabedoria, onde a Maçonaria se mostra como a herdeira fiel destes conhecimentos antigos, guardiã da luz e do sentido profundo que une céu e terra, espírito e matéria.

Antes de seguirmos em frente, devemos lembrar que, na Maçonaria, não há dogmas fixos, para vos dizer ou definir quem ou o que é a viúva, e deixa a livre interpretação do Maçom defini-la.

A lenda de Isis e Osíris: a possível origem do mistério

Tudo começa no antigo Egito, com uma história que é muito mais do que um mito: é a representação perfeita do ciclo eterno de morte e renascimento, base de todo ensinamento esotérico. Osíris e Ísis eram irmãos e maridos, filhos da deusa Nut; Seth e Neftis também nasceram juntos, seus parentes mais jovens.

Uma noite, por um erro, Osíris juntou-se a Neftis acreditando que era Isis, e dessa união nasceu Anubis. Seth, cheio de ciúmes e rancor, planejou sua vingança: tomou as medidas exatas do irmão, mandou construir um sarcófago do seu tamanho e, em uma festa, ofereceu-o como presente para quem copiasse perfeitamente. Ao entrar Osíris, imediatamente ele e seus 72 cúmplices fecharam a tampa, amarraram-no e jogaram-no no Nilo.

Assim morreu o deus que representava vida, fertilidade e ordem. Seu destino ficou ligado ao rio: seu corpo viajou para a Síria, onde cresceu uma árvore linda e perfumada que envolveu o sarcófago dentro dela. O rei dessa terra, admirando sua beleza, cortou-o e transformou-o na coluna central do seu palácio.

Entretanto, Isis ficou viúva, mas não desistiu. Começou sua busca incansável, uma imagem que passou para todas as tradições: a deusa que percorre o mundo para recuperar o que foi perdido, que desce até ao reino da morte para redimi-lo e devolvê-lo à vida. Chegou ao palácio real, reconheceu nessa coluna o rasto do marido e fingiu ser ama do filho do rei.

À noite, transformada em andorinha, voando ao redor do pilar, e queria dar imortalidade à criança colocando-a no fogo, até que a rainha descobriu e interrompeu o ritual. Então Isis revelou sua identidade e pediu que lhe entregassem o que era seu: o rei concordou, e pôde levar de volta os restos de Osíris.

Junto a ele, concebeu Hórus, o filho que nasceria para restaurar a ordem e derrotar a escuridão. Aqui está o sentido mais profundo: da morte nasce a vida; da ausência, a nova luz. Esta mãe viúva que dá à luz sem companhia terrena é o modelo da Virgem Mãe, da natureza que sempre renasce, da sabedoria que nunca morre.

Neste sentido Isis, a Deusa Viúva, seria a representante da Mãe Natureza, a Mãe Cósmica, que está grávida pela Luz, neste caso a Luz do Sol, Sol que morre todos os dias no horizonte do poente, e a natureza fica viúva do seu marido o sol, mas renasce no dia seguinte.

Na visão esotérica, Osíris é o princípio divino que se manifesta e depois parece desaparecer; Isis é a substância, a terra, o espírito materno que o sustenta, busca e faz renascer. Por isso, em catedrais antigas como a de Chartres, veremos a Virgem sentada como um trono: ela é o assento, o lugar onde habita o divino, assim como Isis era o trono sobre o qual se sentavam os faraós, representantes da luz na terra.

Este mito não é único: repete-se em Adonis, Gilgamesh, Hiram, Cristo... todos são o deus que morre e ressuscita, seguindo o ritmo da lua, que se apaga e volta a brilhar, ou do solstício de inverno, quando a luz parece se perder para renascer com mais força. Não se trata apenas de datas, mas do que significam: em nós também morre o velho, o instintivo, o animal, para nascer o espiritual, o consciente, o eterno.

Isis ou Balkis? Duas caras da mesma verdade

Mas aqui surge uma dúvida que percorreu séculos: Isis é realmente a única imagem da Viúva? Muitas tradições e textos antigos, inclusive em línguas como o árabe, o hebraico ou o grego, mencionam Balkis, a rainha de Sabá, como outra possível representação dessa mesma figura suprema. Ela, sábia e poderosa, viajou para conhecer o verdadeiro conhecimento, e segundo algumas lendas, estava ligada a Hiram, o arquiteto do Templo, tornando-se mãe espiritual e guardiã dos segredos.

Isis é a Viúva Maçônica? Balkis é a Rainha Mãe que procuramos? Ou serão dois nomes, dois rostos da mesma realidade? Nos ensinamentos ocultos, ambos são reflexos de algo maior: a Mãe Universal, que tem mil nomes, mas uma única essência. Em obras antigas como O Asno de Ouro de Apuleyo, Isis diz: “Eu sou a mãe de todas as coisas, senhora dos elementos, aquela que está no céu, na terra e no inferno”. É a mesma voz que poderíamos ouvir dos lábios de Balkis: ambas representam a sabedoria, a natureza, o poder que transforma e eleva o ser humano.

A Viúva como princípio universal: Shakti e a Mãe Cósmica.

Para melhor compreendê-la, olhamos para outras tradições, como a hindu, onde se fala de Shakti, uma palavra que não se traduz simplesmente como força ou energia, mas como o feminino poder criador, sustento e transformador de tudo o que existe.

Neste sentido, a Viúva é essa mesma Shakti: o princípio feminino que age porque o divino absoluto está além do manifesto, “ausente” no mundo visível, e ela permanece como guardiã, como vida que continua a fluir, como mãe que não abandona seus filhos.

Na visão gnóstica e ocultista, ela é a natureza inteira, que destrói para reconstruir, que tira para dar algo melhor. Está em tudo: na luz e na sombra, na dor e no prazer, na ignorância e na sabedoria. O iniciado maçom, o “filho da Viúva”, aprende a vê-la em tudo, a juntar-se a ela, porque ela é o caminho, a verdade e a vida. Como se diz nos ensinamentos: “Ela está em todas as coisas, e todas as coisas estão nela”.

Maçonaria: herdeira e guardiã deste mistério da Viúva, somos chamados os maçons de “Os Filhos da Viúva”.

É impossível falar da Viúva sem elogiar a Maçonaria, que foi, ao longo da história, a única instituição que manteve intacta este ensino profundo. A Maçonaria reúne tudo isso: as antigas escolas de mistérios, a lenda de Hiram, o sentido de morte e renascimento, a presença dessa mãe espiritual que nos acolhe, nos ensina e nos transforma.

Entrar em uma loja é voltar ao peito da Viúva: lá nascemos de novo, passamos da escuridão para a luz, abandonamos o superficial para descobrir o eterno. A Maçonaria não fala apenas dela; vive-a, representa-a e honra em cada ritual, em cada símbolo, em cada trabalho. Ensina-nos que ser “filho da Viúva” não é apenas um título, mas uma condição: somos filhos da sabedoria, da natureza, da verdade que nunca morre, e que nossa missão é fazer essa luz brilhar no mundo.

Desde textos maçônicos que a chamam de “a Mãe de todos os Iniciados”, até autores maçons que a descrevem como “a Sabedoria que espera e procura o seu marido divino”, passando por tradições esotéricas maçônicas que a chamam de “a Eterna, aquela que nunca envelhece”, todos concordam: a Viúva é o coração de tudo o que procuramos compreender. E a Maçonaria é o templo onde este coração continua pulsando, intacto e vivo, para todos que queiram se aproximar.

A Viúva é um símbolo central que nasce do mito de Isis, que busca e faz Osíris renascer; representa o princípio materno universal, a natureza, a sabedoria e o poder que transforma. Balkis, rainha de Sabá, está associada à ideia hindu de Shakti: força criadora e sustentadora de tudo. A Maçonaria manteve este ensinamento, chamando seus membros de “filhos da Viúva”, porque encerra o sentido de morte, renascimento e união com o divino, sendo a única que mantém vivo este conhecimento antigo.

A grande pergunta

Isis é realmente a viúva maçônica? Balkis é a rainha Mãe viúva que procuramos? Ou talvez ambos sejam apenas dois nomes, duas imagens, de algo muito maior e mais profundo que ainda estamos prestes a compreender? Quem é realmente a Viúva que a Maçonaria fala?

Alcoseri

 

 

domingo, 14 de junho de 2026

OITO PONTOS DE RECONHECIMENTO


Para o conhecimento dos Irmãos, segue a seguir os oito pontos de reconhecimento emitidos pela Grande Loja Unida da Inglaterra em 1929 e aceitos pelas Obediências Regulares (no caso do Brasil: Grande Oriente do Brasil e CMSB) com as quais a Grande Loja Unida da Inglaterra mantém relações:

1. Regularidade de origem, ou seja, que cada Obediência deverá ter sido estabelecida legalmente por uma outra Obediência reconhecida ou por três ou mais Lojas regularmente constituídas.

2. Que a crença no G.A.D.U. e Sua vontade revelada deverá ser uma qualificação essencial de seus membros;

3. Que todos os Iniciados deverão tomar seu Juramento sobre ou à vista de um Volume aberto da Lei Sagrada, pelo qual seja pleno o reconhecimento sobre os valores de consciência dos indivíduos particulares que estejam sendo iniciados.

4. Que os membros das Obediências e Lojas individuais sejam compostos exclusivamente por homens; e que cada Obediência não poderá ter nenhum intercurso maçônico de qualquer tipo com Lojas mistas ou Corpos que admitam mulheres como membros.

5. Que a Obediência deverá ter soberana jurisdição sobre as Lojas sobre seu controle; ou seja, que será responsável, independente, auto governável, com somente uma e indisputável autoridade sobre a Loja ou Graus Simbólicos (Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom) dentro de sua Jurisdição e não poderá dividir sob quaisquer meios tal autoridade com Supremo Conselho ou outro Poder que clame qualquer controle ou supervisão sobre estes Graus.

6. Que as três Grandes Luzes da Franco-Maçonaria (nomeadas o Livro da Lei, o Esquadro e o Compasso) deverão sempre serem exibidas quando a Obediência ou suas Lojas subordinadas estiverem em trabalho, sendo o chefe destes o Volume da Lei Sagrada.

7. Que a discussão sobre religião e política dentro das Lojas seja estritamente proibida.

8. Que os princípios dos Antigos Landmarks, costumes e usos das Oficinas sejam estritamente observados.

Fraternalmente,

Ir. Fábio Cyrino, M. I.

Harmonia e Concórdia 3522 - GOB/GOSP

Oriente de São Paulo (SP)


 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

A MORTE DO "EU PROFANO"


Toda verdadeira iniciação começa com uma renúncia.

O homem que procura a Luz não pode entrar no Templo sendo exatamente o mesmo que era antes de bater em suas portas. Deve estar disposto a se livrar daquilo que limita o seu crescimento: orgulho, preconceitos, falsas certezas e domínio das suas paixões.

É por isso que a tradição maçônica fala de uma transformação interior que muitos descrevem como uma “morte simbólica”. Não morre o homem físico, mas a maneira antiga de pensar e compreender o mundo.

O termo profano vem do latim pró fanum: “fora do templo”. Representa o homem que ainda vive condicionado pelo ego, aparência e apegos materiais, sem ter iniciado o trabalho consciente sobre si mesmo.

Atravessar o limiar implica então uma decisão profunda:

abandonar o conforto das certezas para entrar no caminho da busca.

Maçonaria não promete perfeição imediata. Entrega ferramentas. O resto depende do trabalho constante do iniciado.

A pedra bruta simboliza precisamente esse estado inicial do ser humano: uma obra incompleta, cheia de arestas e contradições. Com vontade, disciplina e reflexão, cada golpe do baralho representa um esforço para se corrigir, compreender e elevar moralmente.

- Ninguém se transforma sem sacrifício

- Ninguém alcança clareza sem antes enfrentar sua própria escuridão

- Ninguém constrói um templo firme sem remover primeiro os destroços interiores

A verdadeira mudança começa quando o homem deixa de se perguntar o que pode obter do mundo e começa a se perguntar o que deve corrigir dentro de si mesmo.

Porque a iniciação não consiste em adquirir segredos, mas em iniciar uma batalha silenciosa contra as próprias limitações.

E é aí, nesse combate interior, que realmente nasce o iniciado.

Por Carlos L. Sánchez

segunda-feira, 8 de junho de 2026

OS TRÊS TRAIDORES DO TEMPLO INTERIOR

Dentro da tradição maçônica, poucos relatos possuem uma profundidade simbólica tão poderosa quanto a morte de Hiram Abif, o Mestre Construtor do Templo de Salomão. Longe de ser apenas uma alegoria ritual, este drama representa um ensino iniciático sobre a queda e regeneração do ser humano.

Os chamados “três traidores” não devem ser entendidos apenas como personagens históricos ou rituais. Desde a interpretação filosófica e esotérica da Maçonaria, simbolizam as forças inferiores que ameaçam constantemente a construção do Templo interior.

A ignorância é o primeiro deles.

Não é simplesmente falta de informação, mas sim permanecer voluntariamente na escuridão. É a negação da busca, a rejeição da reflexão e a renúncia do autoconhecimento. Quando domina, o homem perde a orientação e esquece o propósito superior da sua existência.

Ambição desordenada é o segundo traidor.

Nas antigas tradições iniciáticas, as ferramentas do construtor simbolizam faculdades espirituais destinadas ao aperfeiçoamento do ser. No entanto, quando a ambição substitui o serviço, essas ferramentas param de construir e começam a destruir. Poder, posição ou reconhecimento acabam ocupando o lugar da virtude.

O terceiro é o fanatismo.

Historicamente, a Maçonaria combateu todas as formas de dogmatismo que impedem o livre pensamento. O fanático não procura compreender, mas impor. Confunde convicção com verdade absoluta e transforma sua própria cegueira em bandeira. Por isso, este traidor representa o golpe final contra a sabedoria.

Em conjunto, estes três inimigos simbolizam a rebelião da natureza inferior contra os princípios superiores do homem.

Então, Hiram morre cada vez que:

A razão é substituída pelo preconceito.

A virtude é sacrificada por interesse pessoal

A tolerância cede ao ódio ou à intolerância

A tragédia hirâmica não pertence apenas ao ritual maçônico. Manifesta-se constantemente na história humana. Civilizações inteiras viram seus templos morais cair quando a ignorância foi exaltada, a ambição glorificada e o fanatismo legitimado como verdade.

Por isso, a busca da Palavra Perdida representa muito mais do que um símbolo ritual: é a recuperação da consciência, do equilíbrio e da luz interior enterrada sob as ruínas do ego.

O ensino final é claro:

O templo não é destruído primeiro na pedra, mas na alma do homem.

E enquanto os três traidores continuarem habitando no interior humano, o trabalho do iniciado permanecerá o mesmo:

vigiar-se, purificar-se e reconstruir-se.

A/D

 

 

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