domingo, 19 de abril de 2026

A ARQUITETURA DO SER CONSTRÓI O INVISÍVEL AOS OLHOS

Transcendendo a construção física, focando na relação profunda entre o indivíduo (o ser) e o ambiente construído, agindo como um reflexo da identidade, emoções e necessidades humanas, busca a arquitetura do ser erigir o homem moral, justo e humano. Esse conceito une psicologia e design para promover o bem-estar físico e psicológico, alinhado à neuro arquitetura e à fenomenologia.

Habilidosa, a Arquitetura do Ser propõe a vida humana como uma obra de arte em construção, onde cada indivíduo atua como arquiteto de sua própria existência.  Indo além da arquitetura física, abrange a forma como cada pessoa organiza suas escolhas, valores, relações e experiências para dar sentido à vida. Funciona como uma extensão do morador, refletindo seus valores e percepções. 

Le Corbusier definiu arquitetura como um estado de espírito, exigindo empatia para entender as necessidades do outro. Foca no bem-estar humano, estimulando os sentidos (tato, visão, audição, olfato) para reduzir estresse e promover cura emocional. Defende que as experimentações vividas e as "atmosferas" do lugar são fundamentais, pois, conectam o “ser” ao seu habitat. 

Baseando-se em conceitos filosóficos como os de Martin-Heidegger, refere-se à expressão do ser no mundo através do "habitar e construir". No projeto, o "conceito" é a ideia abstrata que orienta todas as decisões, visando transmitir uma sensação específica ao ocupante. O indivíduo não nasce com um sentido pré-definido, porém, cria-o ativamente por meio de decisões conscientes, ações e compromissos. 

A arquitetura do ser prioriza a experiência humana e o bem-estar, transformando espaços em ambientes que acolhem e moldam o comportamento e as emoções de quem os habita. Na Arquitetura Wellness, por exemplo, os projetos priorizam o ser humano em vez de, tão somente a sustentabilidade do planeta. A arquitetura aqui é um reflexo de valores e percepções internas. 

Na Arquitetura do Cuidado, o fito são os ambientes que acolhem e geram conforto emocional, unindo psicologia e lar. O "habitar" é a condição fundamental do ser; o espaço não é apenas um abrigo, mas onde a vida e a identidade se manifestam. Essa visão holística propõe que projetar um espaço é, em última análise, projetar uma experiência de vida que respeite a essência do "ser" que irá ocupá-lo. 

Embora o termo "Arquitetura do Ser" não esteja diretamente ligado à arquitetura tradicional, ele compartilha o princípio central de projetar e organizar o espaço – físico ou existencial – com intenção, propósito e significado.  Assim como um arquiteto planeja um edifício com base em conceitos, o indivíduo planeja sua vida com base em ideias profundas sobre quem é e para onde quer ir.

Resolutamente, a Arquitetura do Ser é o processo de projetar a própria vida como uma obra significativa, onde cada ação contribui para a construção de uma identidade autêntica e um legado duradouro.  A capacidade de transformar adversidades em parte do projeto existencial é essencial. Entender valores, limites e desejos é o primeiro passo para construir uma vida moral e justa.

Valores são os princípios que guiam nossas decisões e dão significado à vida (como honestidade, respeito, compaixão e justiça). Entendê-los é essencial para viver de acordo com o que se considera correto, em vez de apenas seguir normas por medo de punição. A verdadeira moralidade jamais será, meramente, seguir regras, mas sim, a capacidade de internalizar critérios próprios de conduta.  

Conhecer os limites – tanto os seus (o que é suportável, ético ou possível) quanto os do outro – é crucial para evitar abusos e construir relações saudáveis. A falta de limites pode transformar uma virtude (como ser prestativo) em fragilidade ou exaustão. Limites bem definidos permitem a autorregulação, ajudando a gerenciar emoções como a raiva e promovendo relações mais justas e assertivas.  

Entender os próprios desejos, sem deixá-los controlar as ações, permite que a pessoa alinhe o que quer com o que é moralmente correto (eudaimonia, ou vida boa). Conhecer a si mesmo nesse nível – o que você valoriza, onde você para e o que você deseja – torna-se, portanto, a base para a integridade, permitindo que a pessoa construa uma vida coerente e justa, sob a égide da sã moral e da razão.  

A Arquitetura do Ser se relaciona profundamente com a moral, especialmente na perspectiva da Filosofia Marquesiana, que integra as ideias de Viktor Frankl sobre o sentido da vida.  Segundo essa abordagem, o ser humano não é apenas um conjunto de partes fragmentadas, mas, uma unidade interna que se organizar em torno de uma missão de vida, que atua como o motor imóvel da existência moral. 

Viktor Frankl observou que, mesmo em condições extremas como os campos de concentração, a última liberdade humana é a de escolher sua atitude diante da dor.  Essa escolha é o fundamento da moralidade existencial: o indivíduo pode transformar o sofrimento em sentido, tornando-se herói de sua própria história. A Arquitetura do Ser estrutura essa transformação por meio de três instâncias internas: 

  • Self 1: focado em necessidades externas (dinheiro, status). 
  • Self 3 (Guardião): responsável pela segurança e proteção. 
  • Self 2 (Maestro): a essência elevada, a Regência Suprema, que expressa o propósito verdadeiro.  

Quando o Guardião se sente seguro, o Maestro pode emergir, guiando a vida com coerência e integridade.  Nesse estado, o indivíduo vive de acordo com seu sentido, o que gera autenticidade moral – não por imposição externa, mas, indubitavelmente, por alinhamento interno com valores profundos. Eles definem o que é inegociável e dão sentido às escolhas, pois, é expressão autêntica do caráter do ser.  

O sentido da vida é, portanto, o alicerce da moralidade.  Ele não é criado artificialmente, mas, detectado através de uma escuta honesta do próprio Ser.  A moralidade nesse contexto não é uma lista de regras, mas, uma vida coerente, onde o agir é guiado pelo propósito, transformando dor em legado e firmando um compromisso pessoal com a autenticidade e a coerência entre o que se sente, pensa e faz. 

Além disso, a ciência moderna reforça essa visão: pessoas com alto senso de propósito apresentam maior ativação no córtex pré-frontal ventromedial – vetor que inibe a reatividade da amígdala (centro do medo) e gera resiliência emocional – demonstram que viver com sentido não é tão somente uma escolha filosófica, mas, decididamente, uma condição biológica de saúde mental e longevidade celular. 

A perspectiva de que o sentido da vida é "detectado" sugere que ele preexiste no “ser”, exigindo introspecção e autoconhecimento para ser desvelado, em vez de ser uma invenção puramente artificial.  Claramente, neste contexto, desviando-se de uma lista de regras rígidas, a moralidade passa a ser entendida como caráter do ser, cujas agências são fidedignas à essência e valores que pratica.

A moralidade, quando expressa pela autenticidade e pela integração do propósito na vida cotidiana, atua, portentosamente, como um pilar fundamental para o senso de justiça. A integridade, como virtude essencial, exige assumir responsabilidade por decisões, respeitar normas éticas mesmo sem vigilância externa e agir com retidão, o que fortalece a confiança social e a legitimidade das decisões coletivas. 

Portanto, a moralidade prática que se manifesta na autenticidade e no propósito não é apenas uma escolha individual, mas um ato político e social que sustenta a justiça.  Agir com integridade reforça instituições mais justas, combate a corrupção e constrói ambiências onde o respeito à dignidade humana é prioridade. A justiça deixa de ser um ideal distante e torna-se um resultado concreto da ética vivida no cotidiano. 

Embora distintos em origem, convergem em sua dimensão ética e existencial, especialmente, na perspectiva da Filosofia Marquesiana, que percebe a Arquitetura do Ser com a estrutura prática que sustenta a missão do indivíduo, baseada na Criação, Experiência e Atitude diante do sofrimento, e manifestada sob à luz do senso de justiça, essencial para a estabilidade social. 

Para John Rawls, todos os membros da sociedade possuem um senso de justiça inato, que se desenvolve com base em princípios morais racionais e no respeito à igualdade de cooperação. Esse senso não é unicamente jurídico, mas, moral, e é fundamental para a legitimação das instituições e para a manutenção da ordem social. Havendo Arquitetura do Ser bem construída, existe forte senso de justiça. 

Enquanto a arquitetura do ser refere-se ao processo contínuo de autoconstrução e organização dos "ambientes internos" da consciência, o senso de justiça atua como a ferramenta de equilíbrio e medida para essa obra. Ao viver com integridade, criar valor e aceitar o sofrimento com dignidade, o ser humano internaliza princípios de equidade e solidariedade que se refletem nas relações sociais. 

Desta forma, a Arquitetura do Ser é o alicerce interno que sustenta o senso de justiça no cotidiano, tornando-o não somente um ideal teórico, mas uma prática vivida. A verdadeira arquitetura do ser exige transcender interesses meramente individuais (justiça "não verdadeira") em favor de uma visão que beneficie a humanidade como um todo – transição do egoísmo para o altruísmo ou para uma consciência coletiva.  

Quanto maior o nível de consciência de um ser, maior é sua responsabilidade por seus atos dentro dessa estrutura de justiça. O senso de justiça é o eixo central que sustenta a estrutura de um ser humano íntegro, permitindo que ele se construa de forma a ser útil e harmonioso com o mundo ao seu redor. A arquitetura dessa justiça interna é representada por símbolos clássicos que refletem o trabalho interior: 

  • Compasso: Simboliza a perfeição, o equilíbrio e o "Grande Arquiteto". Representa a capacidade humana de delimitar espaços e criar ordem a partir do caos. 
  • Esquadro: Representa a retidão, os ângulos precisos e a base sólida necessária para qualquer construção, seja ela física ou moral. 
  • Régua e Escalímetro: Ferramentas de medição que simbolizam a escala humana e a necessidade de adequar o mundo construído às dimensões e necessidades reais das pessoas. 
  • Maço e Cinzel: Simbolizam a força de vontade e o intelecto usados para "lapidar" o caráter humano, removendo as imperfeições da personalidade. 
  • Nível e Prumo: Representam, respectivamente, a igualdade entre os seres e a retidão ética ou ligação entre o terreno e o transcendental. 
  • A Balança: Representa o equilíbrio e o peso das intenções e ações no "coração" do ser. 
  • A Espada: Simboliza a força necessária para aplicar a retidão e cortar o que é injusto dentro de si. 
  • A Pluma de Maat: No Egito Antigo, representava a justiça que pesava o coração para verificar se ele era leve e justo. 

A Arquitetura do Ser implica construir uma vida baseada na justiça, entendida como harmonia interna e com o coletivo, impulsionada pela consciência moral. Seus traçados – plantas e cortes – permitem ao ser humano "ver o invisível" e planejar o futuro antes que ele se torne concreto.  As cores, texturas e luz influenciam o sistema nervoso e o bem-estar (Neuro arquitetura), moldando a experiência humana no espaço. 

Maranguape, Ceará, 12 de março de 2026 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9 

 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

A SIMBOLOGIA DA VENDA NA INICIAÇÃO MAÇÔNICA


À glória do G.·.A.·.D.·.U.·. , por me ter concedido a dádiva de iniciar nos AAug.·. MMist.·. da Arte Real.

INTRODUÇÃO

A palavra Iniciação (derivada do latim Initiare é formada pelos vocábulos In, isto é, “para dentro”; e Ire, que significa “ir”) pode ser interpretada como “ir para dentro” ou “penetrar no interior”. Sob o aspecto místico, alguns escritores afirmam que a Iniciação pode ser entendida como sendo um processo que permite o ingresso ao nosso mundo interior, que nos leva ao conhecimento de nós mesmos e, em consequência, do Deus Pessoal que habita em nós, para começar uma nova vida.

A iniciação maçônica, legado de escolas iniciáticas da Antiguidade, mantém o costume de vendar os olhos de quem será iniciado por dois motivos aparentes: Primeiro, ocultar o ritual aos olhos profanos; segundo estimular o candidato a fazer uma reflexão sobre si mesmo.

Sabemos que variados métodos de meditação, relaxamento, higiene mental e outras técnicas, mesmo sem fazer uso da venda, também podem levar o praticante a níveis de reflexão, interiorização e conscientização.

Mas a iniciação maçônica, quando bem conduzida ritualisticamente e vivenciada intimamente pelo candidato, é capaz de deixar o iniciando surpreso e perplexo diante da profundidade dos sentimentos que experimenta: De início é acometido pelos conflitos de isolamento, ansiedade e angústia; depois começa a sentir a calma, a paz, a sensação paradoxal do pleno e do vazio, o inesperado sentimento de estar em contato com o mais íntimo do seu ser, isto é, com o seu próprio EU, e o insight de perceber a inspiração e a presença do Criador em tudo e em todos.

Diante dessa experiência mística, da qual a razão não pode explicar ou compreender, há de se questionar qual é a relevância da venda na iniciação maçônica. E nesta investigação a pergunta que propomos é simples e direta:

Por que o simples ato de vendar os olhos, com a supressão de apenas um dos nossos sentidos [a visão], tem a capacidade de nos desorientar e, ao mesmo tempo, de nos induzir à introspecção e ao exame profundo da nossa consciência? Qual é, então, o simbolismo da venda na iniciação maçônica?

A VISÃO

“Os olhos são a janela da alma, o espelho do mundo” (Leonardo Da Vinci).

Temos cinco (ou mais!) sentidos sensoriais que nos ligam ao mundo exterior, dos quais a visão é o mais importante.

É através da visão que podemos contemplar a escuridão da noite e o céu estrelado, a luz do dia e as belezas da natureza. Isto mostra que a visão nos permite tomar conhecimento das coisas que nos cercam e do mundo em que vivemos.

A visão também é a principal maneira que temos para estabelecer contato com as pessoas. Quando encontramos um conhecido dizemos “Que bom te ver” e na despedida falamos “Até mais ver”. Estas expressões derivam do verbo “ver” e mostram a influência da visão sobre a linguagem.

Quando observamos um estranho prestamos atenção na sua aparência, gestos, comportamento e começamos a fazer pressuposições sobre seu modo de vida, suas intenções e seu humor. Assim, criamos uma boa ou má ideia sobre os outros simplesmente olhando-os mesmo antes de falar com eles. Isto também mostra que a visão precede a experiência verbal.

Mas os nossos olhos são meros sensores passivos que apenas transmitem dados ao cérebro, sem fazer nenhuma avaliação prévia. É a mente que filtra, edita e interpreta as imagens captadas do mundo externo e as interligam com outros sentidos internos como a razão, a emoção, a intuição e a memória.

É através da mente e do processo da cognição que formamos conceitos sobre as nossas percepções do mundo. Alguém já disse que “a beleza está nos olhos de quem vê”, mas, na verdade, deveria dizer que “a beleza está na mente de quem vê”.

Na área da neurociência as pesquisas comprovam que nem sempre as imagens mentais reproduzem com exatidão o objeto visualizado, porque podem ser influenciadas por nossos conceitos linguísticos, pelas emoções e sentimentos. Assim, a percepção original pode tornar-se vulnerável a ambiguidades, como as observadas nas representações de ilusão de ótica.

A ILUSÃO

“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”. (Saint-Exupéry).

Ao acreditar que o que vemos no nosso cotidiano é a única realidade, estamos completamente iludidos. É como se estivéssemos dentro de um denso nevoeiro, onde a luz, distorcida pela condensação, pode deformar a nossa visão e criar a ilusão. Essa parábola do nevoeiro (um ensinamento hinduísta sobre a ilusão das percepções) é uma alegoria para os nossos preconceitos, nossas atrações e repulsões.

Quando sentimos atração ou aversão demasiada por alguém ou alguma coisa, tendemos a enxergar de forma exagerada o objeto ou a pessoa que nos atrai ou repulsa. Se alguém admira uma rosa, por exemplo, tende a ver apenas a beleza das pétalas e fica cego para os espinhos. Porém, se for ferido pelos espinhos pode ficar assustado e passar a ver apenas o perigo dos espinhos, deixando de perceber a beleza da mesma flor, que antes era o seu objeto de admiração.

O filósofo grego Platão, nascido em 428 a. C (há quase 2.500 anos!), acreditava que o mundo que conhecemos não é o verdadeiro. Para ele, a realidade não está no que podemos ver e que, para atingir a verdade e o bem, devemos nos libertar da sedução da visão e nos guiar pela razão. Platão nos mostrou a distinção entre aparência e realidade.

Na sua Alegoria da Caverna ele disse que as pessoas vivem como se estivessem aprisionadas, desde a infância, numa caverna escura, acorrentadas de frente para uma parede e de costas para a entrada, onde tem uma fogueira acesa que projeta sombras de coisas e de pessoas que estão do lado de fora. É tudo o que podem ver e, erradamente, consideram as sombras como sendo verdadeiras. Porém, se um dos prisioneiros conseguisse se libertar e saísse da caverna, de início seus olhos seriam ofuscados pela luz, mas aos poucos perceberia que o que via no interior da caverna eram apenas sombras e começaria, então, a ter consciência de que vivia num mundo de aparências, de ilusão e de ignorância.

Platão ainda pergunta o que aconteceria a esse homem se ele descesse novamente à caverna para contar a seus amigos o que havia descoberto. Em princípio seus olhos demorariam a acostumar-se às trevas novamente e certamente ele seria ridicularizado, hostilizado e até ameaçado de morte pelos prisioneiros que não acreditariam nas suas “fantasias”.

Esta Alegoria ainda hoje pode nos mostrar que aquilo que acreditamos como real pode ser uma ilusão. Portanto, é importante ter a consciência de que os nossos olhos não podem nos revelar a verdade e a essência do que vemos.

Esta é a maneira mais segura de formar uma concepção mais fiel do mundo em que vivemos, porque a visão clara da realidade só é obtida através da percepção da verdadeira Luz, que é o ponto de partida para o crescimento e o aperfeiçoamento humano, que são obtidos por intermédio da razão, pela busca do conhecimento, da justiça e da Verdade.

Como veremos mais adiante, é bom prevenir que há uma distinção entre a caverna platônica e a maçônica: Dentro da caverna de Platão estão as trevas e as ilusões, e fora dela existem a luz e a realidade. Na Caverna Iniciática, segundo Ragon, ao invés de ser um lugar tenebroso, é iluminada interiormente.

 Fora dela, ao contrário, reina as trevas, as aparências e a ignorância. Isto porque, de acordo com o mesmo autor, no simbolismo maçônico as “Luzes” encontram-se no interior na Loja, e não é por acaso que a palavra Loja [do sânscrito loka, que significa mundo] deriva de uma raiz cujo sentido designa a Luz.

VENDAR OS OLHOS

“Conheça-te a ti mesmo” (Sócrates).

O ato de vendar os olhos do candidato tem enorme relevância porque marca o princípio do ritual de iniciação e o começo da preparação daquele que será iniciado.

O Ritual não é explícito quanto ao momento em que o candidato deve ser vendado, tanto que em algumas Lojas nos deparamos com pequenas variações nesta ação. Mas isto não é relevante porque sabemos que a Maçonaria tem suas raízes na Tradição Primordial, pela qual se conservam símbolos, conhecimentos, costumes e hábitos que remontam a um passado longínquo.

Porém, o mais importante é que o candidato precisa passar por uma preparação psicológica e espiritual, ser estimulado a fazer uma reflexão prolongada e profunda para que tenha uma compreensão mais realista e coerente de si mesmo.

Mas para refletir sobre nós mesmos é necessário que estejamos isolados e abstraídos. É preciso olhar unicamente para “dentro” sem se distrair com o que se passa lá fora. Neste contexto, o uso da venda contribui para fugirmos das “ideias prontas”, isto é, das nossas crenças, preconceitos e prejulgamentos.

Sabemos que com a privação da visão ficamos isolados do mundo exterior. Ficamos perturbados, cheios de dúvidas, angústia e ansiedade. Nesta circunstância vacilamos, tateamos e arrastamo-nos passo a passo e ficamos dependentes de um guia. Nesta obscuridade, o recurso disponível é voltar para nós mesmos e somos compelidos à introspecção, quando então passamos a ter uma visão mais clara sobre nossas atitudes, comportamentos, virtudes e erros.

Até agora discorremos sobre os efeitos aparentes do uso da venda, os quais podem ser experimentados por qualquer pessoa que esteja predisposta, independentemente de qualquer ritual iniciático.

Mas na Maçonaria o simbolismo da venda extrapola a mera acepção de um estado de cegueira. A venda usada na iniciação maçônica se reveste de uma profunda significação porque o candidato, uma vez vendado, é compelido a se isolar do mundo exterior e, efetivamente, este ato provoca um profundo estado de perplexidade no iniciando, tendo em vista que ele não esperava por este isolamento.

Com a privação da visão acentua-se a acuidade dos outros sentidos, principalmente o da audição. E a Maçonaria com isso, segundo Boucher, quer mostrar ao profano que ele “não sabe ver” e que também está habituado aos “ruídos do mundo”, os quais o levam a adotar concepções, crenças e decisões, não por sua livre escolha, mas por influências do meio social no qual ele vive.

A Venda na Maçonaria também não deixa de ser uma representação dos labirintos que permeavam as cavernas iniciáticas da antiguidade. Pelo costume usado em nossa Loja, por exemplo, o candidato já é vendado quando sai da sua residência. O “distante” e tortuoso percurso até o local da iniciação já o leva a perder o sentido de tempo, espaço e localização. Neste estado de desorientação, dúvidas e incertezas é como se o candidato estivesse em um labirinto do qual ele não conhece o trajeto e nem sabe o caminho que leva à saída. Toda esta situação de angústia e dependência provoca no candidato um profundo impacto emocional levando-o a ficar mais reflexivo e preparado para submeter-se às provas iniciáticas.

DAS TREVAS À LUZ

“E é morrendo que se vive para a vida eterna” (São Francisco de Assis).

Além do preparo espiritual, estimulado pelo uso da venda e pelo prolongado tempo que permanece em reflexão, o candidato também passa por uma preparação física e moral: Primeiro, é despojado dos metais como símbolo de renúncia aos bens materiais e ao abandono das paixões; em seguida é desnudado de modo a ficar com o coração a descoberto (em sinal de sinceridade e de franqueza), com o joelho direito despido (como sentimento de humildade) e com o pé esquerdo descalço (em sinal de respeito).

Só depois destas preparações o candidato estará apto a continuar a percorrer os trajetos do Labirinto: Inicialmente ele desce até a Cam.·. de Refl.·. local em que passará pela sua primeira morte e o seu primeiro renascimento ritualístico. Concluída esta primeira prova o candidato, agora recipiendário, terá novamente os olhos vendados para ser conduzido à porta do Templo ― lugar que separa o mundo profano da realidade sagrada vivenciada em Loja (“Quem é o temerário que ousa interromper os nossos AAug.·. TTrab.·.?).

Em seguida ele deverá transpor as demais provas para confrontar-se com os dilemas da existência humana e passar pelas purificações. Finalmente, e se tiver passado ileso por todas as provas, ele adquire o direito de receber a Luz e o privilégio de, já como neófito, ser admitido às revelações dos Augustos Mistérios.

O auge do ritual de iniciação está na recompensa da Luz, que é solenemente simbolizada pela retirada da venda: “FAÇA-SE A LUZ... E A LUZ FOI FEITA... QUE A LUZ SEJA DADA AO NEÓFITO”. Para o homem que emerge das trevas e do caos este é o seu momento mais glorioso. É como a fênix que, queimada, renasce das próprias cinzas. A grandiosidade desde momento parece explicar um texto bíblico que cita: “Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos e do cárcere os que jazem em trevas” (Isaías 43:7).

Ainda, e para esclarecer o alerta feito anteriormente, é necessário fazer a distinção entre o Labirinto e a Caverna Iniciática.

O Labirinto representa o caminho que o iniciando tem que percorrer para realizar as provas iniciáticas. Caminhar pelo Labirinto é “viajar” pelas experiências da matéria e vagar a esmo pelas sensações de angústia, dúvidas, inquietações e temores. O seu complexo e confuso percurso representa a “descida aos infernos”, as “trevas exteriores”, os estados “errantes” do mundo profano e simboliza a morte ritualística. É como a citação de um texto de Isaías (42:16) que diz: “E guiarei os cegos por um caminho que não conhecem; fá-los-ei andar por veredas que sempre ignoraram...”.

Já a Caverna Iniciática é a representação do mundo e do cosmo, é o local onde acontece a segunda morte e o segundo renascimento. Não é de se admirar e nem motivo de ceticismo, bastando relembrar as palavras do próprio Cristo que disse: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (João 14:2). Daí porque este local também é conhecido como sendo a “Caverna do Coração”, isto é, a nossa própria consciência, a nossa interioridade mais profunda, a representação do nosso próprio EU.

É nesta Caverna, e somente nela, que deve ser assimilado o simbolismo da iniciação, que nos oferece a oportunidade de libertar das ilusões da existência material e renascer para uma realidade espiritual, ascendendo a uma visão mais sagrada do sentido da vida e de nós mesmos. E esta “Ressurreição em Vida” também lembra um texto bíblico (João 3:7): “Não te admires de eu te haver dito: Necessário vos é nascer de novo”. Neste sentido, devemos nos conscientizar que a iniciação é puramente espiritual e que, portanto, ela deve ocorrer do interior de cada iniciado.

CONCLUSÃO

“Não, não tenho caminho novo. O que tenho de novo é o jeito de caminhar”. (Thiago de Mello).

O uso da venda na iniciação maçônica ajuda o candidato a fazer uma reflexão sobre si mesmo, e contribui para que ele tenha consciência dos estados “errantes” e das “trevas exteriores” que permeiam o mundo profano, que é influenciado pelas aparências, ilusões e apegos.

Sem o uso da Venda a cerimônia de iniciação certamente correria o risco de perder muito da sua significação, porque o candidato, ainda contaminado pela vida profana, permaneceria subjugado a suas crenças, preconceitos e prejulgamentos. Do mesmo modo, se ele fosse submetido a olho nu às provas iniciáticas elas poderiam parecer dramatizações ridículas e todo o simbolismo poderia ser visto apenas em sua exterioridade.

Boucher afirma que “O simbolismo da Venda, que parece tão elementar, é um dos mais profundos de toda a Maçonaria”, e que “Seria lamentável que a Venda simbólica continuasse, mesmo depois de ser desatada e do Choque Iniciático”.

Compartilhamos da opinião de Boucher porque, por incrível que pareça, ainda encontramos maçons, mesmo em altos degraus da escada de Jacó, que aparentam não ter compreendido qual é o simbolismo da Venda, pois demonstram continuar nos estados “errantes” ou “labirínticos”, com os mesmos apegos, ilusões e vaidades de um profano comum, e permanecem ignorando a necessidade de nos livrar da nossa “Venda congênita”.

Dizem que o pior cego é aquele que não quer ver. É o insensível que, deliberadamente, “venda” os próprios olhos e passa a ignorar as aflições dos seus semelhantes e as preocupações do mundo em que vivemos.

E quanto a nós, será que realmente já tomamos consciência da necessidade de desatar a Venda que cobre os nossos próprios olhos?

Ir.·. Antônio Lara Rezende

Loja Fênix de Brasília - 1959

Or de Brasília

Referência Bibliográfica

1. BOUCHER, Jules. A Simbólica Maçônica. Pensamento. 1979

2. GUENON, René. Os Símbolos da Ciência Sagrada. Ed. Pensamento

3. VAROLI, Theobaldo. Curso de Maçonaria Simbólica. Gazeta. 1981.

4. ZOCCOLI, Hiran L. Maçonaria Esotérica - Grau I. 1991.

5. ZOCCOLI, Hiran L. A Iniciação Maçônica. 1985.

6. CARVALHO, Assis. O Aprendiz Maçom. Trolha, 1995.

7. BAYARD, Jean-Pierre. A Espiritualidade da Maçonaria. Madras. 2004.

8. CAMINO, Rizzardo. Dicionário Maçônico. Madras. 2004.

9. MARINOFF, Lou. Mais Platão, Menos Prosac. Record. 2004

10. GOB. Ritual do Grau 1 – REAA. 2001.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

IGREJA CATÓLICA E MAÇONARIA: UMA ABORDAGEM INSTITUCIONAL


Ao tratar da relação entre a Igreja Católica e a Maçonaria, entendo que é preciso reconhecer, com serenidade, que se trata de um tema historicamente marcado por posicionamentos distintos e por compreensões próprias de cada instituição.

Desde o século XVIII, com as primeiras manifestações formais da Igreja, estabeleceu-se um distanciamento que atravessou o tempo. Ainda assim, sob a perspectiva maçônica que compartilho, a Ordem nunca se apresentou como alternativa ou oposição a qualquer religião. Sempre a compreendi como uma instituição de caráter filosófico, moral e espiritual, voltada ao aperfeiçoamento do homem e ao fortalecimento de valores como ética, responsabilidade e fraternidade.

Na Maçonaria, convivem homens de diferentes crenças, unidos pelo respeito à liberdade de consciência. Esse é, para mim, um ponto essencial: cada irmão mantém sua fé e sua convicção, sem qualquer imposição, encontrando na Ordem um espaço de reflexão e crescimento.

É importante destacar também um dado da realidade brasileira: estima-se que mais de 85% dos maçons no Brasil se declarem católicos ou tenham vivência na fé católica. Muitos desses irmãos são cristãos atuantes, participam assiduamente da vida religiosa e, não raramente, exercem funções relevantes em suas comunidades, colaborando com obras de caridade e com a própria liturgia. Esse aspecto evidencia que, na prática, a convivência entre fé e vivência maçônica é uma realidade presente na vida de muitos.

As divergências históricas, a meu ver, decorrem principalmente de interpretações distintas sobre temas sensíveis, especialmente no campo espiritual. Essas diferenças acabaram por consolidar posições institucionais que contribuíram para o distanciamento da cúpula da Igreja com a Maçonaria.

Por outro lado, não posso deixar de observar que, no plano individual, há aqueles que buscam conciliar sua vivência religiosa com os ensinamentos da Ordem. Isso demonstra que o tema não é simples, e que comporta diferentes formas de compreensão.

Diante disso, procuro tratar essa questão com equilíbrio e respeito. Mais do que acentuar divergências, entendo que o assunto exige maturidade, reconhecimento das diferenças e valorização de tudo aquilo que contribui para o aprimoramento moral e espiritual do ser humano.

Arlindo Batista Chapeta

-Presidente da Academia Maçônica de Letras da Baixada Santista e membro da AIMI

-Secretário Geral de Comunicação do GOB

“As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, o posicionamento oficial da instituição.”

Sempre à frente, o GOB e você!

Secretaria Geral de Comunicação do GOB

 

domingo, 12 de abril de 2026

A PALAVRA SEMESTRAL

É norma contida no Ritual Escocês, de 1928, das GG.·. LL.·. Brasileiras, que a Palavra Semestral deve ser trocada com o Cobridor da Loja que se visita, como prova da regularidade recíproca entre o visitante e a visitada. Quando Aprendiz, indaguei: como é que se processa esse trocar? Responderam-me que eu deveria dar ao Cobridor da Loja visitada uma falsa palavra, isto é, inventada; caso ela fosse aceita ou recusada, haveria a prova da irregularidade ou regularidade da Loja.

E, à guisa de pá-de-cal, me foi acrescentado: se a Loja for regular, o Cobridor não aceitará tal troca e voltará a pedir a Palavra - e aí sim! - darás a verdadeira, aquela recebida na Cadeia de União. Ponderei que a explicação não abrangia todas as possibilidades, inclusive a do Visitante ser colocado no olho-da-rua, por irregular ou por metido a engraçadinho... Ante o frio olhar do Mestre, calei-me...

O tempo passou. Visitei muitas Lojas. Nunca foi necessário trocar a Palavra Semestral com quem quer que fosse, embora a dúvida de como proceder continuasse latente no subconsciente. Até que um dia, ao longo das pesquisas e estudos, inesperadamente, nas últimas páginas da obra A Simbólica Maçônica - de Jules Boucher - lá estava a resposta concisa à invencionice que tentaram me impingir (e, sabe-se lá, a quantos outros...).

Então, juntei o dito por Jules Boucher com outras leituras e, hoje, tantos anos passados, creio estar suficientemente informado para explicar, sem magister dixit, aos Aprendizes de agora, a verdade sobre tal assunto, vazada num texto simples, como eu gostaria de ter recebido em 1977/78. Buscando reunir as informações essenciais à compreensão do tema, situá-lo no tempo e resumir seus eventos desencadeantes, vejamos...

A Maçonaria Francesa do século XVIII — de onde, em grande parte, o nosso Rito provém —, foi pródiga em Graus, Ritos e Corpos: quase 400 Graus, mais de 50 Ritos e, englobando tudo isso, diversas Ordens e Obediências. Evidentemente, todas digladiando-se por precedências. No sentido de amplitude, no de entrecruzar caminhos, descaminhos e trilhas ― uma savana — verbera Allec Mellor.

Assim, lá por 1770, existiam três grandes Obediências: duas Grandes Lojas, a da França e a Nacional de França, mais o Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente (Grande e Soberana Loja Escocesa de São João de Jerusalém), além de vários Grupos e Lojas esparsas.

No início de 1773, buscando dar fim ao divisionismo, limitar o número de Graus e, segundo dizem, para impor suserania à Maçonaria Francesa, a maior parte da Grande Loja da França (e outras dissidências) reestruturou-se como ―Ordem Real da Maçonaria em França, gerando e dando à luz em 24.05.1773 ao Grande Oriente de França, Obediência que, em 28 de outubro daquele ano, empossa seu primeiro Grão-mestre, Felipe de Orleans, Duque de Charters (1).

Afora a estranha personalidade de tal Grão-Mestre (2), o que importa assinalar é o fato de que na data de sua posse nasceu a Palavra Semestral (3), criada para impedir a presença de Maçons não filiados às reuniões do GOF. Foi uma medida bem diferente daquela tomada em 1730 pela Grande Loja de Londres que, ao trocar a sequência das colunas de BJ para JB, buscava impedir o acesso de profanos nas Lojas, em decorrência das inconfidências de Prichard, quando publicou nossos segredos num jornal londrino.

Contrariamente, o GOF atingia os Maçons, tentando obrigá-los à filiação na nova Obediência, limitando o livre direito de visitação até então vigente.

Concluído o cenário e vistas às motivações que ensejaram o nascimento da Palavra Semestral, vejamos como ela foi planejada para ter eficácia, no sentido concebido por seus mentores, os quais, com inteligência, uniram dois usos tradicionais: um militar, o da Senha; e o outro obreiro, o da Cadeia de União (4). Tais parâmetros foram conjugados e, até hoje, mantidos em vigor nas Obediências Escocesas da Europa, assim:

a) A PS não é UM só vocábulo, são DOIS, ambos com a mesma inicial; por exemplo:  Luz/Lua, Sol/Saber ou Fé/Força... É Senha e Contrassenha ou melhor, tal como se diz na França: são as palavras semestrais;

b) Na Cadeia de União, uma palavra vai pela direita, a outra pela esquerda; e, pelo retorno aos ouvidos do Venerável, este diz do acerto da recepção: ―Justas e Perfeitas.

Caso ocorra algum erro, o procedimento é repetido até poder ser dado como correto.

À luz do até aqui exposto, retornando à indagação inicial de como trocar a Palavra Semestral com o Cobridor, bastaria que o visitante desse a Senha (uma palavra) e recebesse a Contrassenha (a outra palavra) para que, inegavelmente, ficasse estabelecida a regularidade de ambos. Ou seja, a do visitante e a da Loja. Tudo simples, sem invencionices, de forma inteligente!

Aqui poderíamos dar por concluído este trabalho, mas nossos leitores talvez ficassem com duas indagações:

1ª) A implantação das Palavras Semestrais surtiu o efeito desejado?

2ª) Por que nós temos somente uma Palavra Semestral?

Respondendo-as, ressalvando a existência de divergências entre os historiadores,

podemos dizer que:

Na França, como vimos, a implantação das Palavras fazia parte de um contexto obediencial e programático que, no sentido hegemônico, não alcançou seu fim, pois a animosidade dos IIr.·., Lojas e Obediências tidas por irregulares avolumou-se contra ao GOF que, embora enobrecido com um príncipe de sangue na titularidade do Grão-Mestrado, não conseguiu unificar a Maçonaria Francesa, mas ficou com sua maior fatia.

No nosso caso, a existência de uma só Palavra Semestral, em vez de duas, podemos creditar somente ao desconhecimento do tema, tanto por tradutores quanto por autoridades litúrgicas, os quais — por certo — desconheciam a História da Franco Maçonaria de Findel, que à pág. 65, descrevendo uma iniciação de antanho, quase ao final diz: ―Era libertado da venda de seus olhos, mostravam-lhe as três grandes luzes, colocavam-lhe um avental novo e davam-lhe o santo e a senha, conduzindo-o ao lugar que lhe correspondia no recinto da Assembleia. Santo-e-senha, segundo os dicionaristas, são palavras de mútuo reconhecimento.

Aliás, fazendo-se um parêntese, os nossos Vven.·. recebem a Palavra Semestral inserida num triângulo (?) e cifrada num código primário, para não dizer infantil, quando bem poderia ser criptografada no antigo alfabeto maçônico. Pelo menos assim, recordaríamos como decifrar certos sinais inseridos no Painel de Mestre, além de nos lembrar a ausência da Prancheta em Loja.

Concluindo, embora desagradando aqueles que buscam origens místicas e mágicas em tudo quando maçônicamente nos cerca, vimos que a Palavra Semestral nasceu de uma contingência nada esotérica. Aliás, daquele contexto, convém ressaltar, se originou a forma democrática de eleição dos VVen.·. (5) - (apanágio que o GOF até hoje ostenta e orgulhosamente relembra). No mais, acreditamos ter ficado evidente a forma equivocada de transmitir e trocar a Palavra Semestral, totalmente em desacordo com a tradição mais que bicentenária.

Por fim, com a última Palavra Semestral distribuída pela CMSB, a do primeiro semestre de 2001, apressadamente julgamos ter retornado ao tradicional molde de Senha -Contrassenha. Ledo engano, mas razão suficiente para reformatarmos este trabalho e continuarmos esperando que, um dia, a Palavra retorne à forma originária. Caso isso não aconteça — o que é bem provável — contentamo-nos em fazer a nossa parte: a de difundir mais uma informação sobre nossos Usos e Costumes, para proveito dos cultores das Tradições do R.E.A.A. .

NOTAS:

1- Sendo seus oficiais: o Duque de Montmorency — Luxemburgo (Administrador-Geral); o Conde de Buzencois (Grande-Conservador (!?); o Príncipe de Rohan (Representante do GM); o Barão de Chevalerie (Grande Orador); o Príncipe de Pignatelly (Grande Experto).

2 – Militante revolucionário que, sob o cognome de Felipe-Igualdade, votou na Convenção pela morte de seu primo e Ir.·., o rei Luiz XVI. Além disso, em quase vinte anos de mandato, poucas vezes presidiu os trabalhos do GOF; ao fim, renunciou e abjurou a Maçonaria. Foi expulso da Ordem e sua espada foi quebrada ―em Loja. Acabou seus dias guilhotinado como contrarrevolucionário.

3- Segundo o Dic. De Frau Ablines (elencado na bibliografia), a Palavra nasceu em 23.07.1777, sob a alegação de que ―convencidos por uma larga experiência da insuficiência dos meios empregados para afastar os falsos Maçons, acreditamos que o melhor que se pode fazer é rogar ao Grão-Mestre que dê a cada seis meses uma palavra, que se comunicará aos Maçons regulares, por meio da qual se farão reconhecer nas Lojas que visitarem.

4- Não era, e continua não sendo, um costume universal da Maçonaria, pois presumidamente nasceu na Compagnonnage, corporação obreira do continente europeu que não penetrou na Maçonaria de Ofício Insular (Ilhas Britânicas); consequentemente, a Maçonaria de origem Anglo-Saxã não pratica a Cadeia de União, dizendo-a fora dos cânones maçônicos.

5- Os Mestres de Loja, como eram chamados naquela época, tinham conseguido tornar- se donos de Lojas particulares, inamovíveis até 24.05.1773. Nesta data, criado o GOF, foi usado pela primeira vez a expressão “Venerável Mestre de Loja” e declarado que, daí em diante, não se reconheceria o Mestre elevado àquela dignidade, senão pela livre escolha dos membros da Loja.

Autor: Ir.·. Adayr Paulo Modena. Ex-Deputado do Grão-Mestre da Grande Loja Maçônica do Estado do Rio Grande do Sul. Hoje, no Oriente Eterno!

Bibliografia:

A Franco-Maçonaria Simbólica e Iniciática — Jean Palou.

A Simbólica Maçônica – Jules Boucher.

Dicionário da FM e dos F. Maçons — Ajec Mellor.

Dic. Enciclop. de la Masonería — Don Lorenzo Frau Abrines e Don Rosendo Arús Arferiu.

Gr. Dic. Enciclop. de Maçonaria e Simbologia — Nicola Aslan.

Jornal ―Le Monde, ar]go publicado em 15.09.2000 — Alain Bauer, Grão-Mestre do

GOF.

O R.E.A.A. — José Castellani.

Programa Radiofônico — Domingo, 05.11.2000 — Entrevista do Grão-Mestre do GOF,

Alain Bauer.

Revista ―A Renascença, nº 22 — abril de 1998

 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

ASSEGURANDO O FUTURO DA ARTE REAL

Proponho à reflexão dos leitores um tema que, embora contemporâneo, toca o coração da nossa missão permanente: a continuidade da Arte Real. Observa-se, em diversos Orientes, uma realidade que merece exame sereno e objetivo: a diminuição do ingresso de novos membros e, em especial, a menor presença de gerações mais jovens em nossos quadros.

Importa afirmar, desde logo, que não se trata de crise de princípios. A Maçonaria não perdeu sua razão de ser. Seus fundamentos permanecem atuais, necessários e sólidos. O que se mostra, com frequência, como desafio é a forma pela qual nos tornamos conhecidos, acolhemos o interessado e integramos o recém iniciado ao trabalho regular da Loja. Em outras palavras: não é a filosofia que falha; é, muitas vezes, a comunicação, o acolhimento e a adaptação prudente às formas do tempo.

Trago, portanto, não uma crítica, mas uma proposta: um roteiro de reflexão e medidas práticas para que, sem tocar na sacralidade do Ritual e na dignidade da Tradição, possamos fortalecer o futuro da Arte Real.

1. COMPREENDER O HOMEM QUE BUSCAMOS ACOLHER

Meus Irmãos, para acolher bem, é preciso compreender. As novas gerações vivem em ambiente cultural distinto, marcado por rapidez de informação, presença digital e busca por sentido. Muitos jovens não se aproximam de instituições apenas por tradição: aproximam-se quando percebem propósito, coerência e impacto.

Eles valorizam autenticidade e desejam vínculos reais. Buscam mentoria, crescimento, pertença e oportunidade de servir à comunidade. Ora, tudo isso está contido na proposta maçônica — mas nem sempre é apresentado com clareza suficiente para quem olha de fora.

2. COMUNICAR COM CLAREZA, SEM PERDER A IDENTIDADE

A Maçonaria não deve ajustar seus valores a modismos. Contudo, é necessário reconhecer que a linguagem e os meios pelos quais falamos ao mundo podem — e devem — ser aprimorados.

Quando nossos conteúdos são confusos, distantes ou excessivamente fechados, criamos barreiras desnecessárias. Cumpre destacar, de modo simples e firme, aquilo que somos:

  • Escola de aperfeiçoamento moral, onde se trabalha o caráter;
  • Fraternidade real, onde se aprende a conviver em igualdade e respeito;
  • Trabalho de beneficência e serviço, onde a caridade se faz ação;
  • Caminho de instrução, que eleva o espírito e disciplina a conduta.

Se não comunicamos isso com nitidez, é nosso dever ajustar a forma — preservando o conteúdo.

3. PRESENÇA DIGITAL COMO INSTRUMENTO DE VISIBILIDADE

No contexto atual, a primeira aproximação do interessado quase sempre ocorre por meios digitais. A ausência de presença organizada na internet não preserva a Loja — a invisibiliza.

Uma presença digital digna e discreta não profana o Templo. Ao contrário: permite que homens de bem encontrem informações confiáveis e estabeleçam contato.

Assim, recomenda-se:

  • um site funcional e atual, com informações básicas, perguntas frequentes e canal de contato;
  • perfis em redes sociais com conteúdo sóbrio, voltado à cultura, à beneficência e à educação;
  • registro de ações públicas e de atividades permitidas, sem exposição indevida de ritualística.

Não se trata de publicidade vazia, mas de clareza e acessibilidade.

4. ACOLHIMENTO: TRANSFORMAR INTERESSE EM CAMINHO

Um dos pontos mais sensíveis é a jornada do interessado até a iniciação. Em muitos lugares, esse processo é lento, confuso ou impessoal, o que esfria o ânimo e dispersa o candidato.

Medidas simples, porém, eficazes, incluem:

  • designar um Irmão responsável por acolher e orientar interessados;
  • responder contatos com presteza e cordialidade;
  • apresentar, com objetividade, o passo a passo do processo;
  • criar oportunidades de convivência pública e conversas orientadas.

A primeira impressão pesa. E a Maçonaria deve ser lembrada, desde o primeiro contato, como espaço de urbanidade, firmeza e fraternidade.

5. TRADIÇÃO NO RITUAL, EVOLUÇÃO PRUDENTE NA CULTURA DA LOJA

O Ritual é patrimônio sagrado e não deve ser relativizado. Entretanto, a cultura interna — o ambiente, a forma de convivência e a dinâmica das atividades — pode ser ajustada com prudência para favorecer engajamento e formação.

Alguns pontos merecem atenção:

  • cuidado com o espaço físico: limpeza, ordem e acolhimento;
  • equilíbrio entre sessões formais e momentos fraternos;
  • fortalecimento da instrução: palestras, debates e formação simbólica;
  • redução do excesso de burocracia repetitiva, para priorizar o que edifica.

O jovem não busca apenas uma reunião; busca um lugar onde haja sentido, orientação e trabalho.

6. SERVIÇO E BENEFICÊNCIA: TORNAR VISÍVEL A PRESENÇA DA ORDEM

A juventude contemporânea é, em grande medida, movida por causas. A Maçonaria sempre ensinou o amparo fraternal e o dever de ajudar quem precisa. Contudo, se o bem não é percebido, perde-se uma poderosa ponte de aproximação.

Recomenda-se que a Loja:

  • organize ações concretas e regulares na comunidade;
  • estabeleça parcerias com instituições locais;
  • mantenha registro e comunicação sóbria dessas ações.

Divulgar a obra não é vaidade quando se faz com equilíbrio: é testemunho e convite ao serviço.

7. FORTALECER A PONTE COM AS ORDENS JUVENIS

No cenário brasileiro, é estratégico fortalecer o vínculo com as Ordens Juvenis — como De Molay, Filhas de Jó e Arco-Íris — e com iniciativas que formam jovens em liderança, disciplina e fraternidade.

Apoiar, orientar, comparecer e reconhecer esses jovens é investir no futuro com inteligência e coerência. Quem aprende cedo o valor da fraternidade, compreende melhor a dignidade do Templo quando chegar seu tempo.

8. RETER É TÃO ESSENCIAL QUANTO INICIAR: DAR VOZ E RESPONSABILIDADE

Não basta iniciar novos Irmãos: é necessário mantê-los vinculados à Ordem. Isso exige que o jovem Maçom encontre:

  • espaço real de participação;
  • responsabilidades compatíveis com seu estágio e acompanhamento;
  • ambiente em que suas ideias sejam ouvidas com maturidade;
  • oportunidade de servir e crescer, sem ser reduzido a espectador.

A Loja que dá propósito retém. A Loja que apenas observa, perde.

9. EDUCAÇÃO MAÇÔNICA VIVA E ADAPTADA AO TEMPO

A educação maçônica é o que distingue a Arte Real de outras associações. Porém, para ser eficaz, deve ser viva e orientada.

Sugere-se:

  • grupos de estudo regulares e objetivos;
  • rodas de instrução simbólica;
  • debates sobre ética, virtudes e cidadania;
  • complementos modernos, quando úteis, como podcasts, encontros online e materiais audiovisuais.

O que forma, permanece. O que não forma, enfraquece.

CONCLUSÃO

Meus Irmãos, a urgência existe, mas não é tarde. O futuro da Arte Real não depende de artifícios, nem de concessões à superficialidade. Depende de coerência, acolhimento, presença, formação e trabalho visível.

Que saibamos preservar o que é essencial — o Ritual, a Tradição e os Princípios — e, ao mesmo tempo, aprimorar os meios pelos quais nos tornamos acessíveis aos homens de bem do nosso tempo.

Se a Maçonaria é, por natureza, obra de construção, então cabe a nós agir não como conservadores de um museu, mas como construtores do amanhã. A Arte Real não espera o tempo passar: ela espera que nós retomemos o trabalho, com método, prudência e fraternidade.

Assim seja.

Nota

Este é uma adaptação do texto “Securing the Future of the Craft“, de autoria do Dr. Barry Denton.

Fonte: The Square Magazine

 

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

AS COLUNAS E AS ORDENS DE ARQUITETURA


 

Em nossa Ordem, e nos mais variados ritos, são consideradas cinco ordens de arquitetura, sendo três de origem grega e duas de origem romana, sendo no REAA, as que prevalecem são as de origem grega, que são originais, sendo que as demais são derivadas destas.

As Ordens de arquitetura, são uma combinação peculiar de três elementos arquitetônicos: base, coluna e entablamento.

Na nossa Ordem, esses estilos arquitetônicos clássicos, são utilizados em vários dos Graus maçônicos, e valem por seu simbolismo.

São cinco as ordens conhecidas:

  • De origem grega: Ordens Jônica. Dórica e a Coríntia, sendo esta última uma variação da Ordem Jônica
  • De Origem romana: Ordens Toscana e Compósita.

Apesar de não serem de origem grega, eles, os gregos a remodelaram e a tornaram a que são hoje.

Assim, faremos um pequeno resumo das ordens de arquitetura e seu simbolismo, lembrando que pelo ritual, as colunas ficam próxima ao altar das três luzes e as colunetas miniatura delas, ficam no altar dessas mesmas luzes.

– Ordem Jônica:  A Ordem Jônica também é conhecida como a Ordem de Atenas, sendo de origem Assíria, sendo seu lugar no Oriente próximo ao Venerável Mestre. Daí ela representar a Sabedoria. Ela é posterior a Ordem Dórica.  Nota-se que a coluneta no trono fica sempre de pé, indicando que a Sabedoria deve estar sempre alerta, seja no trabalho ou no descanso.

Ela vem dos Jônios que era um povo vindo da Ásia, e que fundaram várias cidades na Grécia antiga, inclusive a cidade de Atenas, de onde se originou os grandes pensadores gregos, como Sócrates, Platão e Aristóteles.

A lenda nos conta que Íon, um líder grego dos Jônios, foi enviado à Ásia, onde construiu templos em Éfeso, dedicados a deuses gregos. Íon então, observou que as folhas de cortiça, colocadas sobre os pilares para evitar infiltração de água e amortecer o peso das traves, com o tempo, cedendo à pressão, contorciam-se em forma de ornamento em espiral, que imitavam os fios de cabelo de mulher, sendo essa a principal característica da Ordem Jônica. Um dos exemplos da arquitetura Jônica encontra-se na Acrópole de Atenas. Representa ainda em nossa ordem o Rei Salomão.

– Ordem Dórica: Ela é a mais rústica das três gregas, e a mais antiga, priorizando a robustez, em confronto com a beleza, sendo que na Grécia antiga, ela ornamentava os deuses masculinos, sendo que sua origem é do Egito. Daí estar relacionada a FORÇA (Hercules), estando na Coluna do Norte que é governada pelo Primeiro Vigilante.

Suas colunas não possuem base e seus capiteis são simples, lisos e sem qualquer ornamento. A coluneta é erguida durante os trabalhos, quando é necessária força para a execução deles (do meio-dia à meia-noite). Seu nome vem de Dorusfilho de Heleno, rei da Acaia e do Peloponeso.

Os Templos mais importantes da Grécia antiga tinham colunas da desta ordem. Dos Dóricos, originaram-se os Espartanos, grandes guerreiros e combatentes. Como símbolo da força, nos anima e sustenta perante as nossas dificuldades, lembrando que nunca estamos sozinhos. Representa Hiram Rei de Tiro.

– Ordem Coríntia: É a mais bela de todas, daí representar a Beleza (Afrodite ou Vênus), estando próxima ao Segundo Vigilante. Ela é uma evolução da Ordem Dórica. Ela é esbelta e graciosa. Sua denominação refere-se a cidade de Corinto; Quando do início dos trabalhos em loja, a coluneta é abaixada. O templo de Zeus é melhor exemplo desta arquitetura.

A lenda nos conta que uma ama levou uma cesta, contendo brinquedos à sepultura da criança que cuidava, cobrindo-a com uma velha telha, por causa das chuvas. Ao iniciar-se a primavera, um pé de acanto germinou e cresceu, transformando-se em formosa árvore. Folhas de acanto, cesta e telha teriam produzido um belíssimo efeito ao crescer a planta.

Essa cena foi capturada pelo escultor Calímaco, que talhou um pilar de rara beleza, com o capitel copiado daquela cena. Representa Hiram Abiff.

Às essas três Ordens de Arquitetura, acrescentam-se às vezes a ordem Compósita, e a ordem Toscana, que não devem ser levadas em conta no simbolismo maçônico. 

Conclusão

Nosso edifício espiritual repousa sobre estas Ordens e colunas simbólicas, sendo que a Sabedoria organiza o caos, criando a ordem. A Força executa o projeto, seguindo instruções da Sabedoria, e a Beleza ornamenta nossa vida. Assim, sendo sábio temos a Força, para lutar e combater as adversidades da vida e temos a Beleza permanente na construção de nosso edifício humano.

Autor: Dermivaldo Collinetti

Dermivaldo é Mestre Maçom da ARLS Rui Barbosa, Nº 46 – GLMMG – Oriente de São Lourenço.

Referências

As Ordens Arquitetônicas na Maçonaria – Kennyo Ismail – Blog No esquadro.

WWW.MACONARIA.NET – As três colunas, Eduardo Silva Mineiro, ARLS Acácia Castelense, nº 4 – Castelo do Piauí – Piauí – Brasil.

Decálogos do grau de aprendiz – Reinaldo Assis Pellizzaro – 1 Ed. 1986.

A Simbólica Maçônica – Jules Boucher – 1979.

 

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