terça-feira, 4 de novembro de 2025

A REGULARIDADE MAÇÔNICA EM DEBATE: ENTRE A PRESERVAÇÃO DA TRADIÇÃO E O SEU USO COMO INSTRUMENTO DE PODER

Uma análise crítica sobre a origem, os desvirtuamentos e a necessidade de ressignificação da Maçonaria contemporânea.

Este artigo é um alerta. Uma análise crítica e sem concessões sobre como a Maçonaria, sob o pretexto de preservar a tradição, tem permitido que a noção de regularidade seja distorcida em instrumento de exclusão e domínio institucional. Ao invés de servir à Luz, muitos usam a regularidade para destruir Templos e dividir Irmãos.

É tempo de ressignificar a Ordem e devolver à regularidade seu verdadeiro sentido: ser ponte iniciática, e não muro de poder.

RESUMO

Este artigo propõe uma reflexão crítica sobre o conceito de regularidade maçônica, analisando sua origem histórica, sua evolução ao longo do tempo e sua aplicação no contexto atual. Argumenta-se que, embora a regularidade tenha emergido como um mecanismo de preservação de princípios fundacionais da Maçonaria, seu uso contemporâneo, por determinadas potências configura, muitas vezes, uma forma de dominação simbólica, política e territorial.

O texto defende a necessidade de se revisitar criticamente esse conceito, resgatando seu

verdadeiro significado à luz da Tradição Iniciática e dos princípios universais da Ordem. Falamos de uma ressignificação da maçonaria.

1. INTRODUÇÃO

Na condição de ex-Grão-Mestre, apesar de minhas limitações próprias do ser humano, mas firme em minha vivência na administração e no estudo constante dos valores e da história da Ordem, sinto-me no dever de refletir publicamente sobre um dos conceitos mais deturpados e, infelizmente, instrumentalizados do universo maçônico moderno: a chamada regularidade.

Muitos a associam essa tão falada “regularidade” apenas a reconhecimento político entre potências, mas a verdade é que regularidade é muito mais profunda: ela traduz a fidelidade da instituição à essência iniciática e aos princípios universais da Maçonaria Tradicional.

O termo, que deveria remeter à fidelidade a princípios históricos e morais universais da Maçonaria, vem sendo, há décadas, convertido em ferramenta de controle, exclusão e, em muitos casos, de dominação institucional.

Trata-se de um conceito moderno, artificialmente erigido por determinadas potências com o objetivo de estabelecer hegemonias regionais e internacionais sob o manto da "tradição".

A regularidade, hoje, tem sido usada como cabresto, como instrumento de imposição pelo medo. O medo de não ser reconhecido. O medo de não poder circular. O medo de ser considerado "irregular" por aqueles que se arrogaram o poder de definir, de forma unilateral, o que é ou não regular. Isso é sintoma de uma profunda inversão de valores.

Não se trata mais de preservar Landmarks, princípios ou ritos. Trata-se, muitas vezes, de evitar o crescimento de outras potências ou mesmo trabalhar para aniquilar outras; de manter uma reserva de mercado institucional; de assegurar territórios sob o argumento de uma suposta "legitimidade" conferida por acordos entre poucos. O conceito de territorialidade, tão combatido quando serve aos interesses de uns, é rigidamente defendido quando favorece outros.

A regularidade, como tem sido imposta por algumas potências, perdeu o caráter filosófico e se tornou um mecanismo político-administrativo. Isso não apenas empobrece a Maçonaria enquanto instituição iniciática universal, mas também desvirtua seus princípios mais caros: liberdade, igualdade e fraternidade.

É preciso, portanto, uma reinterpretação desse conceito à luz da verdadeira Tradição, que não se mede por diplomas, chancela de reconhecimento ou fronteiras geográficas, mas pela fidelidade aos princípios iniciáticos, pela prática da virtude e pela busca sincera da Luz.

A Maçonaria não pode e não deve ser refém de estruturas de poder que se escondem por trás da palavra “regularidade”. Essa é uma discussão que precisa ser enfrentada com coragem, lucidez e compromisso com o futuro da Ordem.

Estamos falando de uma ressignificação do entendimento de gestão afetos as potências maçônicas.

2. A ORIGEM HISTÓRICA DA REGULARIDADE MAÇÔNICA

Importante registrar que antes não existia e não se falava em “potência maçônica”, havendo simplesmente o labutar constante sob os princípios e valores da Sublime Ordem, operacionalizada e mascarada nas guildas e

corporações de ofício. O conhecimento era passado de geração a geração única e exclusivamente pela comunicação verbal. O reconhecimento exigido era da condição de Obreiro, e se pautava única e exclusivamente na FRATERNIDADE e se dava por toques, sinais e palavras. Nenhuma importância se dava para a qual agremiação o Obreiro pertencia, pois ele era reconhecido como Maçom onde quer que estivesse – era o tempo da maçonaria operativa.

Com o advento da criação da Grande Loja Premier em 24/06/1717, que deu origem a Grande Loja Unida da Inglaterra, esta foi a primeira Grande Loja do mundo. Daí a maçonaria consagrou-se como “especulativa”, passando a admitir não só pedreiros e construtores, mas também membros de diferentes profissões, abandonando a comunicação verbal de seus princípios e valores de forma falada e velada, que a acompanhou desde o seu princípio milenar, passando a adotar o modelo da comunicação escrita.

Desta feita, temos que o conceito de regularidade, tal como compreendido hoje, não é originário da Maçonaria Operativa ou mesmo dos primórdios da Maçonaria Especulativa. No ano de 1723, com a publicação das Constituições de Anderson, dá-se o primeiro esforço codificado de uniformização de princípios e práticas.

No entanto, é importante notar que, à época, não havia ainda um conceito rígido ou hegemônico de regularidade. A pluralidade de práticas rituais, interpretações simbólicas e organizações locais coexistia em relativa harmonia.

O conflito entre a chamada Grande Loja dos Modernos e a Grande Loja dos Antigos (formada em 1751), revela como, desde seus primórdios, a ideia de “regularidade” esteve vinculada mais à disputa por autoridade e legitimidade do que a um consenso sobre valores imutáveis. Ambas alegavam serem as legítimas guardiãs da Tradição Maçônica, culminando na unificação em 1813 com a criação da Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI), que assumiria, nos séculos seguintes, o papel de definidora global da regularidade.

3. A REGULARIDADE COMO INSTRUMENTO DE CONTROLE

A partir do século XIX, com a expansão colonial britânica, a GLUI passou a exercer não apenas uma liderança simbólica, mas também um controle efetivo sobre o reconhecimento de potências maçônicas ao redor do mundo. A regularidade passou, então, a ser um instrumento geopolítico, utilizado para validar ou invalidar juridicamente a existência de outras potências maçônicas.

Essa concepção conduziu a Maçonaria a uma espécie de “Estado internacional”, onde apenas algumas instituições detinham o poder de reconhecer outras como válidas. Surge, assim, um sistema de dependência institucional, em que potências maçônicas locais, em vez de se organizarem de forma autônoma e soberana, tornavam-se reféns do reconhecimento estrangeiro.

No século XX, com o fortalecimento da Maçonaria nos países latino-americanos, africanos e asiáticos, o conceito de regularidade foi instrumentalizado por algumas potências como forma de preservar zonas de influência e conter o crescimento de novas obediências independentes.

Em diversos casos, essa prática foi amparada por acordos de territorialidade não escritos, mas tácitos, que funcionam como verdadeiras cláusulas de reserva de mercado institucional.

4. A REGULARIDADE COMO CABRESTO

Na prática atual, a regularidade tem sido utilizada por determinadas potências como instrumento de imposição pelo medo. O medo de ser considerado irregular, de não poder visitar outras Lojas, de perder vínculos internacionais ou até mesmo de ser socialmente marginalizado dentro do universo maçônico.

Essa lógica, profundamente contraditória com os ideais universais da Ordem, distante do princípio basilar da fraternidade, transforma a regularidade em um mecanismo de controle simbólico e administrativo, afastando-se de seu eventual propósito originário de preservação de princípios.

Em vez de promover a união entre os homens livres e de bons costumes, a regularidade tem servido, não raras vezes, como barreira artificial à fraternidade maçônica, especialmente quando aplicada com critérios políticos, territoriais ou personalistas.

5. A REGULARIDADE NÃO SE COMPRA NEM SE NEGOCIA

A regularidade não é um bem transmissível, tampouco um diploma que possa ser concedido por conveniência política ou por alianças circunstanciais entre dirigentes de potências. Trata-se de um estado legítimo de conformidade de uma Obediência com a Tradição Maçônica, cuja legitimidade não decorre de reconhecimentos formais, mas sim da adesão autêntica e contínua aos princípios universais da Ordem.

É equivocado pressupor que a regularidade possa ser conferida como um favor ou retirada como forma de retaliação. A regularidade não se vende, não se compra e não se negocia — ela se demonstra na prática ritual, na fidelidade à essência iniciática e na manutenção dos Landmarks, quando estes são adotados como referencial doutrinário.

Perde-se a regularidade não por decisões administrativas ou por divergências de ordem política, mas quando se corrompem os princípios fundamentais da Maçonaria, quando se desvirtua o espírito iniciático, quando se abdica do simbolismo como linguagem de transformação interior ou quando se afronta a ética moral que sustenta a vocação universal da Ordem.

Assim compreendida, a regularidade deixa de ser um instrumento de controle externo e se reafirma como um critério interno de autenticidade iniciática, cabendo a cada Potência, de forma soberana e responsável, preservar sua integridade doutrinária e ritualística, sem submeter-se a pressões hegemônicas que comprometem a sua liberdade.

6. OS OITO POSTULADOS UNIVERSAIS DA REGULARIDADE

No contexto da Maçonaria universal, regularidade refere-se à conformidade de uma Potência ou Loja com os princípios fundacionais, rituais tradicionais e normas universalmente aceitas pela comunidade maçônica regular.

Este alinhamento é fundamental não apenas para a legitimidade interna das instituições, mas também para sua inserção no sistema de reconhecimento mútuo entre Potências regulares e para o estabelecimento de relações Inter obedienciais harmônicas e duradouras.

Tradicionalmente, uma Potência é considerada regular quando observa, entre outros, os oito postulados universais, amplamente aceitos ao redor do mundo maçônico regular como critérios essenciais de legitimidade:

I - Crença em um Ser Supremo – A aceitação da existência do Grande Arquiteto do Universo como centro moral, espiritual e transcendental da Ordem é elemento indispensável à iniciação e ao trabalho maçônico regular.

II - Juramento sobre o Livro da Lei Sagrada – Um volume da Lei Sagrada, símbolo da Verdade revelada, deve estar aberto sobre o altar em todos os trabalhos rituais, sendo o fundamento moral e espiritual de todo juramento.

III - Proibição de discussões político-partidárias e religiosas – A Maçonaria regular mantém-se como escola filosófica e moral, evitando o sectarismo, a ideologização e a divisão, promovendo a fraternidade acima das diferenças profanas.

IV - Preservação da Tradição Iniciática Masculina nas Lojas Simbólicas – Em conformidade com a herança histórica da Maçonaria especulativa, o ingresso nas Lojas simbólicas regulares permanece restrito ao gênero masculino.

V - Fidelidade aos Landmarks e aos rituais tradicionais – São preservadas as práticas rituais estabelecidas e os princípios consagrados, evitando inovações arbitrárias que descaracterizem o conteúdo simbólico da Iniciação.

VI - Subordinação das Lojas a uma Potência legítima – As Lojas devem estar subordinadas a uma autoridade central, soberana e regular, com governo estável, estrutura institucional definida e continuidade histórica reconhecida.

VII - Respeito ao princípio da territorialidade – Dentro de território simbólico, cada Potência regular exerce sua soberania, em face das Lojas a ela subordinadas, respeitando o princípio da jurisdição e evitando a multiplicidade conflitante de obediências.

VIII - Reconhecimento mútuo e possibilidade de Inter visitação – A regularidade também se expressa por meio do reconhecimento recíproco entre Potências que comunguem dos mesmos princípios e mantenham relações fraternas, permitindo a Inter visitação entre seus membros.

Esses postulados não são meros critérios administrativos, mas representam a régua moral, doutrinária e ritualística pela qual se pode aferir, com clareza, a legitimidade iniciática de uma Potência Maçônica. Eles garantem a preservação da Tradição, a coesão da cadeia universal e a fidelidade ao verdadeiro espírito da Ordem.

7. COMO SE AFERIR A REGULARIDADE DE UMA POTÊNCIA MAÇÔNICA?

A regularidade de uma Potência Maçônica não se presume; ela se comprova com base em critérios objetivos que refletem a legitimidade histórica, jurisdicional, doutrinária e documental da instituição. Tais critérios são tradicionalmente reconhecidos no âmbito da Maçonaria universal e servem como parâmetros de avaliação por outras Potências regulares.

São quatro os principais elementos que, de forma complementar e interdependente, atestam a regularidade de uma Obediência:

I - Critério Histórico: Diz respeito à origem legítima da Potência, estabelecida por meio de uma consagração ou constituição regular, proveniente de uma Potência já reconhecidamente regular. A cadeia ininterrupta de transmissão da autoridade iniciática constitui um dos pilares fundamentais da regularidade.

II - Critério Jurisdicional: Relaciona-se à soberania efetiva exercida pela Potência sobre Lojas simbólicas dentro de um território específico, em conformidade com os princípios da territorialidade maçônica. A ausência de sobreposição irregular de jurisdição e o respeito mútuo entre Potências são aspectos essenciais desse critério.

III - Critério Doutrinário e Ritualístico: Refere-se à observância rigorosa dos Landmarks, das normas iniciáticas tradicionais e dos rituais consagrados pela Tradição Maçônica. A fidelidade aos princípios filosóficos, morais e simbólicos da Ordem é condição sine qua non para o reconhecimento da regularidade.

IV - Critério Documental e Testemunhal: A regularidade também se comprova mediante a apresentação de documentos oficiais, tais como cartas constitutivas, patentes de fundação, atas de instalação e, eventualmente, por tratados de reconhecimento mútuo firmados com outras Potências regulares.

Tais documentos constituem o respaldo formal e jurídico da legitimidade da Potência perante a comunidade maçônica.

Quando esses quatro critérios estão presentes de forma clara, coesa e comprovada, estabelece-se a prova inequívoca da regularidade maçônica de uma Potência. Trata-se, portanto, de um estado de legitimidade que se constrói com base em tradição, legalidade, conduta e reconhecimento, e não por simples autodeclaração ou conveniência circunstancial.

8. AUTORIDADES COMPETENTES PARA ATESTAR A REGULARIDADE MAÇÔNICA

A verificação da regularidade de uma Potência Maçônica não se limita à sua autodeclaração, mas depende da validação por instâncias legitimadas no contexto da Maçonaria regular. Essa aferição se dá por meio de diferentes autoridades, cada qual com competências específicas dentro da estrutura maçônica internacional.

Três grupos de agentes são tradicionalmente reconhecidos como autoridades legítimas na atuação direta ou indireta na aferição da regularidade:

A - Potências Maçônicas Regulares em Atividade: As Potências Maçônicas reconhecidas e em plena atividade regular exercem um papel central no sistema internacional de validação da regularidade. São elas as responsáveis por emitir cartas constitutivas, patentes de fundação e autorizações para funcionamento das Lojas, bem como por celebrar tratados de reconhecimento mútuo com outras Potências.

Além disso, muitas dessas Potências mantêm procedimentos internos de supervisão e auditoria, realizando inspeções, visitas oficiais e avaliações administrativas e ritualísticas para assegurar que suas Lojas estejam operando conforme os padrões estabelecidos pela Tradição e pelos postulados universais da Maçonaria regular.

A credibilidade dessas Potências decorre de sua legitimidade histórica, estabilidade institucional e adesão ininterrupta aos princípios universais da Ordem.

B - Organizações Inter maçônicas Internacionais: Diversas entidades de congregação Inter maçônica, como confederações, alianças ou associações internacionais, também atuam como espaços de reconhecimento e validação da regularidade. Tais organizações não detêm soberania sobre as Potências que congregam, mas estabelecem critérios objetivos para filiação e permanência, exigindo a conformidade com os princípios tradicionais da regularidade.

Exemplos comuns incluem conferências de Grandes Lojas, confederações continentais, federações regionais e organismos de cooperação internacional, que funcionam como fóruns de validação recíproca, promovendo a Inter visitação, o diálogo institucional e a coesão entre Potências regulares.

C - Historiadores e Especialistas em Maçonaria: Embora não detenham autoridade administrativa, pesquisadores, historiadores e estudiosos especializados em Maçonaria desempenham um papel relevante na análise crítica e histórica da regularidade. Suas investigações podem revelar aspectos importantes da origem, evolução, linhagem e inter-relações institucionais de uma Potência.

Através do estudo de documentos históricos, registros de fundação, tratados de reconhecimento e práticas rituais, esses especialistas são capazes de fornecer pareceres técnicos e fundamentados, que frequentemente subsidiam decisões de reconhecimento por parte de outras Potências.

Sua atuação, embora externa ao campo de decisão institucional, confere transparência e rigor acadêmico às discussões sobre legitimidade maçônica, contribuindo para o esclarecimento de controvérsias e para a preservação da memória e da coerência histórica da Ordem.

9. CONCLUSÃO

O conceito de regularidade maçônica precisa ser urgentemente resgatado em sua essência e despolitizado em sua aplicação. O uso abusivo e instrumentalizado desse termo por determinadas Potências tem servido, não raramente, a interesses de controle institucional e hegemonia territorial, muitas vezes disfarçados sob o véu de uma suposta preservação da Tradição.

Enquanto a regularidade for empregada como instrumento de exclusão, segmentação e reserva de mercado institucional, estará gravemente distorcida em relação ao verdadeiro espírito da Maçonaria — uma escola filosófica que preza pela universalidade, pela fraternidade e pela liberdade de consciência.

Cabe, portanto, às lideranças responsáveis — Grão-Mestres, Veneráveis Mestres, estudiosos e iniciados comprometidos com a causa maçônica — promover um debate sério, profundo e desapaixonado sobre o verdadeiro significado da regularidade, devolvendo-lhe seu caráter iniciático, ético e simbólico.

A regularidade maçônica, quando bem compreendida, é um elemento essencial para a legitimidade, estabilidade e funcionamento das Potências e Lojas. A sua identificação exige análise criteriosa e multidimensional, que envolva a observância de critérios históricos, jurisdicionais, doutrinários e documentais, com o respaldo de autoridades competentes como Potências reconhecidas, organizações Inter maçônicas e especialistas historiadores.

Somente essa abordagem crítica e fundamentada pode assegurar que a Maçonaria continue a operar em conformidade com seus princípios fundacionais, promovendo um ambiente de fraternidade, ética e respeito mútuo entre seus membros e instituições.

Em tempos de disputas administrativas, confusão doutrinária e pressões por reconhecimento externo, é fundamental que cada Irmão compreenda que a regularidade maçônica é, antes de tudo, uma questão de essência — não de poder. Ela reside na pureza do propósito, na legitimidade da origem e na integridade moral das Lojas e de seus dirigentes.

Uma Potência que permanece fiel à sua origem, mesmo sob pressões externas ou campanhas de deslegitimação, não se torna irregular. Ao contrário, reafirma sua soberania e seu compromisso com a Tradição.

Nesse sentido, torna-se cada vez mais necessária a ressignificação da Maçonaria, não como ruptura com sua história, mas como ato consciente de reencontro com sua missão original. Ressignificar é compreender que os mecanismos de poder, quando se sobrepõem aos princípios iniciáticos, corroem a base moral da Instituição. É também atualizar o papel da Ordem diante das transformações sociais, preservando sua relevância, seu prestígio e sua capacidade de formar homens livres, éticos e comprometidos com o bem comum.

“A Maçonaria não se mede pela quantidade de tratados que possui, mas pela Luz que mantém acesa em seus Templos.”

Cléscio Galvão – Past Grão Mestre do GOB-MG

Novembro/2025

Referências Históricas e Bibliográficas

1. Anderson, James. The Constitutions of the Free-Masons, 1723.

2. Knoop, Douglas; Jones, G.P. The Genesis of Freemasonry. Manchester

University Press, 1949.

3. Coil, Henry Wilson. Coil’s Masonic Encyclopedia. Macoy Publishing, 1996.

4. Berman, Ric. The Foundations of Modern Freemasonry: The Grand Architects.

Sussex Academic Press, 2007.

5. Ligou, Daniel. Dicionário da Maçonaria. Lisboa: Publicações

 

domingo, 2 de novembro de 2025

A ESPIRITUALIDADE NA MAÇONARIA

Para que a Maçonaria refaça o mundo, basta, para isso, que através de OBREIROS CONSCIENTES, seja a difusora da Luz e do Amor, da Verdade e da Justiça, do Conhecimento e da Fraternidade.

INTRODUÇÃO

É propósito deste trabalho expressar uma necessidade que se vivencia na Maçonaria dos dias de hoje, quanto as atitudes e comportamentos de Irmãos, tanto nas Lojas como fora delas. Realmente, existe uma carência de conhecimento muito grande, tanto no que se refere à história da Ordem, das cerimônias, das leis, costumes etc., e da ética comportamental.

O conhecimento de Irmãos muitas vezes não ultrapassa as fronteiras das práticas ritualísticas e as informações dadas nas reuniões, insuficientes, talvez, para despertar na sua consciência, o interesse de se instruir nos assuntos da Sublime Instituição.

Não se concebe um MAÇOM CONSCIENTE sem saber o real significado do que venha a ser um INICIADO. Esta interpretação dá o verdadeiro sentido da INICIAÇÃO. Cada etapa deste processo traz profundas acepções filosóficas, despertando, no iniciado, uma nova realidade da vida material, mística e oculta.

São estudos direcionados neste norte que proporciona a educação Maçónica, mudando as atitudes dos Irmãos e, concomitantemente, despertando uma conduta mais humana, fraterna, tolerante, respeitosa, compreensiva e tantos outros adjetivos que dignificam o carácter do Maçom.

A presente peça tem como fundamento despertar nos Irmãos o sentido espiritual, místico, oculto e esotérico, contidos na filosofia da Sublime Ordem. O propósito é tentar elevar o nível de percepção ao estudo dos temas Maçônicos e, com isso, tornar o Maçom mais consciente do seu dever para com os Irmãos, para com a sua Loja e para com a Ordem Maçônica, buscando as diretrizes que lhe proporcionarão descobrir as maravilhosas pérolas contidas nos ensinamentos da MAÇONARIA.

Foi tomado como fundamento para o presente trabalho, os ensinamentos e a filosofia dos graus simbólicos, por ser a trilha inicial para os que desejam o aprofundamento e conscientização dos Fundamentos da Maçonaria. Sem este começo não chegaremos a um fim. Ninguém constrói uma edificação pelo teto.

O ESPIRITUALISMO NA MAÇONARIA

A ORDEM MAÇÔNICA, conforme consta no Ritual de Aprendiz, se define como sendo “uma associação de homens sábios e virtuosos que se consideram IRMÃOS entre si e cujo fim é viver em perfeita igualdade, intimamente unidos por laços de recíproca estima, confiança e amizade, estimulando-se, uns aos outros, na prática das virtudes.” Ou também, como sendo: “Um sistema de Moral, velado por alegorias e ilustrado por símbolos”; acreditando na existência do GRANDE ARQUITETO DO UNIVERSO e numa vida futura.

Para um melhor sentido desta definição é importante esclarecer o ESPIRITUALISMO como sendo um conjunto de sistemas filosóficos, sociológicos, estéticos etc., que reconhece no mundo alguma coisa além da matéria. Em regra geral, o espiritualismo é um sistema filosófico oposto ao materialismo e que admite o princípio da alma ou do espírito como base e ponto de partida das suas afirmações doutrinárias. Diante disso se conclui que a Maçonaria é uma doutrina cheia de religiosidade sem, no entanto, ser uma religião.

Estas definições dão a certeza de que a MAÇONARIA sempre foi e continuará a ser a “UNIÃO CONSCIENTE de homens inteligentes, virtuosos, desinteressados, generosos e devotados, Irmãos livres e iguais, ligados por deveres de fraternidade para se prestarem mútua assistência e concorrerem, pelo exemplo e pela prática das virtudes, para esclarecer os homens e para prepará-los para a emancipação progressiva e pacífica da Humanidade”; assim diz o Ritual de Aprendiz.

Os Símbolos e Alegorias que adornam os Templos Maçônicos trazem, dentro do seu âmago, ensinamentos que burilam o caráter do Maçom, desde que ele passe a vivenciar tal preceito educativo. É oportuno, portanto, se buscar essa lição de filosofia social e espiritual, manifestadas pelas alegorias e instruídas pelos símbolos, norteando os iniciados para a prática dos mais sagrados deveres do homem cidadão e do cidadão iniciado.

É no operoso DESBASTAR DA PEDRA BRUTA que se descobre o poderoso ser que existe dentro de cada um. O ser humano é capaz de grandes realizações, porém, é necessário que busque despertar dentro de si o poder existente. Somente com estudo e perseverança poderá construir esse novo HOMEM que vive escondido dentro das asperezas do seu íntimo. Com certeza será um novo OBREIRO a trabalhar conscientemente para a melhoria do gênero humano, pregando a paz e a concórdia dentro do seio da Maçonaria, “levantando Templos a virtude e cavando masmorras aos vícios.”

Portanto, o CIDADÃO INICIADO deve ser sempre um exemplo de comportamento humano, praticando com esmero, a justiça, a caridade, a honestidade, a fraternidade, o respeito, a tolerância, a compreensão, o amor etc. Somente com essas virtudes poderá angariar a confiança e a credibilidade dos seus irmãos maçons e dos irmãos em espírito, cumprindo o propósito da sua iniciação.

É neste sentido que todo Maçom deve se guiar, tendo como fundamento da sua trajetória, as fontes do ESPIRITUALISMO MAÇÔNICO.

É oportuna a observação do ilustre escritor Nicola Aslan, quando afirma que: “Pelo método Iniciático, o Maçom se distingue culturalmente dos outros homens. Não conhece nem pode conhecer a satisfação espiritual e intelectual, pois ele sabe que a Verdade de hoje pode não ser a Verdade de amanhã. Pesquisador eterno, o Maçom faz jus à denominação de FILHO DA LUZ.” A observação de Paul Naudon é também, pertinente quando diz: “o Maçom procura a sua própria “essência”, que é de ordem ontológica (conhecimento de si e Deus), na exaltação das virtualidades divinas que nele existem como em todos os homens”. É exatamente isso que deve o Maçom procurar a sua “essência” para ser um Iluminado e, ser também, tocado pela graça do GADU.

A Espiritualidade da MAÇONARIA é para ser vivenciada e não interpretada somente como instituição social. Vendo-a por este ângulo, nota-se que ela representou num passado distante uma sequência de fatos históricos capazes de ir modificando a natureza social e política dos povos, se adequando às épocas de cada momento da história da humanidade até os dias atuais; buscando o bem-estar da humanidade e a igualdade entre os homens.

A maçonaria é uma escola de filosofia para formar líderes, homens de bem engajados no ideal desta fraternidade. Por tradição deve ter o carácter transcendental iniciático. Portanto, a necessidade de se preparar para este novo tempo.

O limiar desta nova era exige mais esforço na formação de homens que encarnem o verdadeiro sentido iniciático. Homens comprometidos em levantar templos onde a virtude possa ter os seus altares; cavar masmorras profundas onde os vícios possam ser atirados pelo resto dos tempos, construindo finalmente o tão sonhado “Admirável mundo novo” onde todos possam viver em paz e felizes.

É uma tarefa difícil, porém, não impossível. Quem, senão a Maçonaria, está apta a realizar tal façanha, com o seu exército de verdadeiros Maçons, formada de homens íntegros e de bons princípios, desprovidos das vaidades fúteis do mundo profano?

Urge um chamamento geral da consciência maçônica, independentemente de potência ou rito, irmanados num único ideal que é a felicidade de todos.

Finalmente, para que a Maçonaria refaça o mundo, basta, para isso, que ela volte a ser o que era: a difusora da Luz e do Amor, da Verdade e da Justiça, do Conhecimento e da Fraternidade.

Existe um ponto em comum entre a Iniciação Maçônica e a iniciação antiga. A preocupação de fazer nascer de novo o iniciado, dando-lhe uma vida nova. Fazer-se iniciar é aprender a morrer simbolicamente, a fim de ascender, por graus, não somente a um estado de perfeição, mas a plenitude absoluta.

É importante lembrar o caráter espiritualista da Maçonaria, que destaca no momento que antecede ao ritual de Iniciação, o Testamento Moral e Filosófico, para ser respondido pelo candidato, no momento em que se encontra na Câmara de Reflexão, para uma reflexão profunda da responsabilidade do ato, destacando o compromisso que irá assumir, se despojando de todas as asperezas que formam a sua personalidade, principalmente quanto aos símbolos expostos na Câmara de Reflexão em que faz um chamamento para refletir sobre a sua vida, os vícios, o egoísmo, o exame de consciência sobre o valor do perdão e da solidariedade fraterna que deve dispensar ao seu semelhante, sobre uma vida futura e da sua responsabilidade como ser humano e edificador social.

Dentro deste contesto, a Maçonaria sabiamente apresenta ao candidato que se dispõe a pertencer e servir a Ordem, este testamento para ser meditado profunda e seriamente, dando a conhecer os seus deveres de cidadão honrado e digno, tendo o seguinte conteúdo: “Em presença de Deus, após ter refletido séria e profundamente sobre os símbolos que se me deparam à vista, e sendo meu ardente e sincero desejo morrer para os vícios e preconceitos sociais ou de educação do mundo profano, LEGO à minha vida passada os erros e defeitos morais que me oprimem a consciência, renunciando às minhas vaidades Câmara de Reflexão com o meu egoísmo e a minha intolerância, e perdoando àqueles que, com ou sem justa razão, em qualquer momento, tenham voltado contra mim os seus espíritos irascíveis, para, desse modo, poder transformar-me em verdadeiro construtor social”.

Segundo Paul Naudon,

“o Ensino Iniciático da Maçonaria é realmente diferente dos outros modos de ensino. Não tem por objetivo fazer conhecer, ou difundir uma verdade ou verdades contingentes ligadas a objetivos finitos, apreensíveis por laços de causalidade. A sua meta visa Verdade Infinita sem pretender a sua posse, embora oferecendo elementos e meios para que a ela possa ter acesso. É mais um convite à pesquisa que a revelação sistemática do resultado das pesquisas. E este esforço ao qual a Maçonaria convida, pelo infinito da sua meta, é ele mesmo infinito. Abarca inteiramente toda a vida do indivíduo.”

Se, porém, analisar as fases destes ensinamentos, encontram-se nestes, verdadeiros sentidos esotéricos, buscando o crescimento espiritual de todos que passaram pelo processo da INICIAÇÃO. Observa-se o que se descobre quando se penetra nesse mundo obscuro de mistérios quando se é INICIADO. De princípio, uma visão do SIMBOLISMO DA CÂMARA DE REFLEXÃO: Quando o Candidato é recolhido na Câmara de Reflexão, simbolizando a TERRA, a qual, por sua vez, representa a materialidade. Nesta fase inicial da Iniciação, espera-se que o isolamento em que vai se encontrar, a atmosfera que nela existe e os objetos que nela se encontram, concorram para levá-lo a novas descobertas a proporcionar-lhe ensinamentos que o faça recuar sobre si mesmo. O choque de espírito contra a superfície refletora da Câmara há de levá-lo a examinar as suas ideias, a compará-las e, deste processo, há de resultar certamente um pensamento novo.

Pelo seu isolamento e as suas paredes negras, a Câmara de Reflexão representa um período de escuridão e de maturação silenciosa da alma, por meio da meditação e da concentração em si mesmo, período que prepara o verdadeiro progresso, efetivo e consciente, que se manifestará posteriormente, à luz do dia.

A passagem pela Câmara de Reflexão, mostra ao Profano que tinha chegado o momento de morrer para o vício, para as paixões, para os preconceitos e para os maus costumes. Para ele compreender que diante da morte desaparecem o orgulho e a ambição, e que de nada valem o poder e as riquezas do mundo.

A permanência do Recipiendário nesta Câmara representa o período de gestação do Maçom, pois, ao morrer para o mundo profano, ele prepara a sua mente e o seu espírito para o nascimento de um novo homem e de uma nova vida.

É oportuno destacar o pensamento de Oswald Wirth sobre a Câmara de Reflexão:

“Para aprender a pensar, é necessário que nos exercitemos a nos isolarmos e nos abstrairmos. Isto é conseguido se reentrarmos em nós mesmos, olhando para dentro, sem deixar-nos distrair com o que se passa fora”.

A Câmara de Reflexão, segundo Nicola Aslan,

“assume, também, o aspecto de uma gruta ou de uma caverna sombria, por simbolizar o centro da terra, o seio da natureza material de onde vimos e para onde voltaremos, com o nosso físico dissolvido e transformado em pó, o que é lembrado ao Recipiendário pelos despojos humanos nela contido(s).”

Os símbolos que na Câmara de Reflexão estão contidos, significam:

  • A LUZ DA VELA OU LAMPARINA – o clarão da vela tremeluzente simboliza a primeira luz da Maçonaria que o profano recebe, de início fraca para que este, através dos pensamentos que o ambiente lhe sugere, possa acostumar-se a sua visão espiritual à luz deslumbrante das verdades que lhe serão reveladas. A luz desta vela é o reflexo e a representação da Divindade no plano terrestre.
  • AS INSCRIÇÕES DA CÂMARA DE REFLEXÃO – O significado destas inscrições leva o Recipiendário a refletir sobre o caráter da pessoa humana quanto à curiosidade; sobre os seus próprios defeitos, sobre a sua personalidade dissimulada, se é apegado a distinções mundanas, sobre a sua coragem, sobre a sua perseverança em busca do domínio do espirito sobre a matéria, cultivando as virtudes e dominando os vícios, não dispensar interesse puramente material da Maçonaria e, finalmente, pensar na morte para empregar bem a sua vida.
  • V.I.T.R.I.O.L. – É uma fórmula alquímica e hermética, que quer dizer: Visita Interiora Terrae, Retificandoque, Invenies Occulttum Lapidem, que traduzindo, significa: “Visita o interior da terra e, retificando, encontrarás a Pedra Oculta”.

É oportuno destacar o sentido do que isto significa, segundo ainda Nicola Aslan que, “ao descer nas profundezas do seu Eu, o profano visita o interior da Terra, a fim de encontrar e retificar, por meio das purificações por que passa a Pedra dos Sábios para transformá-la em Pedra Filosofal, ou seja, no Ouro Iniciático, que os Maçons denominam de Pedra Cúbica”.

É ainda, importante destacar Nicola Aslan quando cita Magister, no seu Manual de Aprendiz, falando dessa sentença moral breve e conceituosa do hermético, dando o significado seguinte:

“Desce nas profundezas da terra, debaixo da superfície da aparência exterior que esconde a realidade interior das coisas e a revela; retificando o teu ponto de vista e a tua visão mental com o esquadro da razão e do discernimento espiritual, encontrarás aquela pedra cúbica ou filosofal que constitui o Segredo dos Sábios e a verdadeira Sabedoria”.

De fato, este princípio do desbastar as asperezas humanas contidas dentro de cada um, constitui o principal trabalho do APRENDIZ MAÇOM e requer, por isso, profunda reflexão.

Jules Boucher, no seu livro A SIMBÓLICA MAÇÔNICA, destaca sobre os três princípios Herméticos, o Enxofre, o Sal e o Mercúrio, definindo-os como: o Enxofre, símbolo do Espírito e o Sal, símbolo da Sabedoria e da Ciência, cada um numa taça. O Mercúrio, sob a forma do Galo, atributo de Hermes que na Maçonaria anuncia a Luz que o Recipiendário vai receber. Ele é o signo exotérico dessa Luz, indicando que deve o Recipiendário, estar em constante vigilância e perseverança.

A Bandeirola com as palavras Vigilância e Perseverança, indicam que o Maçom deve estar, a partir desse instante (dentro da Câmara de Reflexão), atento e investigar os diversos sentidos que os símbolos podem oferecer, mas cujo entendimento ele só conseguirá por inteiro com calma, equilíbrio e perseverança.

Existem, ainda, na Câmara de Reflexão os símbolos fúnebres, de elevado sentido moral e espiritual que representam Esotericamente a morte do profano que está se processando naquele “túmulo”, para que possa renascer a vida espiritual, momento em que se despoja do velho e nasce a de um novo homem. Ao examinar o sentido de cada símbolo fúnebre, se encontra o seguinte significado:

  • O Crânio representa o cérebro quando em plena atividade, onde a sede da inteligência, faculdade que tem por base e por condição primitiva da existência, a sabedoria.
  • A Ampulheta destinada a medir o tempo, é entendida em Maçonaria como um símbolo que mostra a rapidez como o tempo corre, para que o profano recorde a brevidade da existência humana. O seu significado exotérico é tão profundo, que faz perder de vista a sua interpretação mística.
  • O Pão e Bilha D’água são na interpretação de A. Gedalge, emblemas da simplicidade que deverá reger a vida do futuro iniciado. Eles lembram que o alimento do corpo é indispensável, mas que não deve ser o único objetivo da vida. Finalmente, é o elemento indispensável a vida e o Pão, feito de trigo, simboliza a força moral e o alimento espiritual.

A ESPIRITUALIDADE DO SIMBOLISMO

A Ordem Maçônica, a exemplo de qualquer outra instituição de cunho filosófico, esotérico e religioso, tem o seu Simbolismo.

O Simbolismo Maçônico, alma e vida da Instituição, derivou dos símbolos primitivos, dos da arte de construir e dos que foram encontrados em muitas associações esotéricas: cabala, hermetismo, dentre outras, adaptados a uma doutrina espiritual e moral.

Sendo o Simbolismo a representação visível duma ideia oculta, em que todo símbolo admite três interpretações distintas: a liberal, a figurada e a esotérica. Diante disso, a Maçonaria que apresenta verdades imutáveis sob a forma de símbolos, entende que cada Maçom, na sua individualidade, deve dedicar-se livremente a buscar a interpretação dos símbolos, nos quais encontrará a razão de ser da sua Iniciação.

Vejamos o que diz Jean C. M. Travers:

O símbolo é imagem, é pensamento… Ele faz-nos captar, entre o mundo e nós, algumas dessas afinidades secretas e dessas leis obscuras que podem muito bem ir além do alcance da ciência, mas que nem por isso são menos certas. Todo símbolo é, nesse sentido, uma espécie de revelação”.

Já Jules Boucher é categórico quando diz:

“Na Maçonaria, o símbolo é constante e latente em todas as partes. É preciso, portanto, penetrar pacientemente o seu significado”.

É importante destacar Henry Thiriet lamentando a negligência de alguns quando não valorizavam o estudo do simbolismo.

“Não consigo entender, a não ser como uma enfermidade do espírito, que se possa negar, seja o valor, seja a necessidade do simbolismo na nossa Ordem. Os que se obstinam nessa atitude não percebem que estão negando, ao mesmo tempo, o caráter filosófico da Franco-Maçonaria e que, desse modo, privam-na da sua virtude essencial”.

A formação do SIMBOLISMO MAÇÔNICO foi constituída graças a estudos empreendidos pelos estudiosos. Neles são compreendidos símbolos das mais variadas origens e procedências que podem ser divididos, segundo Nicola Aslan, em cinco classes principais:

  • Símbolos Místicos e religiosos tradicionais: o TAU (símbolo do poder); o CÍRCULO COM UM PONTO CENTRAL (SOL); o SELO DE SALOMÃO ou ESCUDO DE DAVI (criação, Deus, perfeição); o TRIÂNGULO, o DELTA LUMINOSO, os TRÊS PONTOS (sempre evocando a ideia de Deus).
  • Símbolos tirados da arte da construção. Símbolos da profissão dos Maçons Operativos: o COMPASSO (medida na pesquisa); o ESQUADRO (retidão na ação); o MALHO (vontade na aplicação); o CINZEL (discernimento na investigação); a PERPENDICULAR (profundeza na observação); o NÍVEL (emprego corretos dos conhecimentos); a RÉGUA (precisão na execução); a ALAVANCA (poder da vontade); a TROLHA (benevolência para com todos); o AVENTAL (símbolo do trabalho constante).
  • Símbolos Herméticos e Alquímicos: o SOL e a LUA, as COLUNAS B E J, os três princípios da grande obra: ENXOFRE, MERCÚRIO E SAL, os quatro elementos Herméticos: AR, ÁGUA, TERRA E FOCO, o VITRIOL, iniciais da expressão latina: Visita Interiora Terrae, Retificandoque Invenies Occultum Lapidem (“Visita o interior da terra e, retificando, encontrarás a Pedra Oculta”).
  • Símbolos possuindo um significado particular: a ROMÃ (simbolizando os Maçons unidos entre si por um ideal comum), a CADEIA DE UNIÃO (a união fraternal que liga por uma cadeia indissolúvel todos os Maçons do globo, sem distinção de seitas e condições, a ESTRELA FLAMEJANTE (a iluminação), a LETRA “G” (conhecimento), o RAMO DE ACÁCIA (imortalidade e inocência) e o PELICANO (amor e abnegação).
  • Outros Símbolos tradicionais: PITAGÓRICOS (números), CABALÍSTICOS (Sefirot) – numeração mística da cabala em número de dez), GEOMÉTRICOS, RELIGIOSOS e todos aqueles que se prestarem a um significado maçônico.

Ainda Nicola Aslan, “De acordo com pontos de vistas particulares, estes símbolos são vistos pelos Maçons seja como elementos de iniciação com significados esotéricos, seja como fórmulas morais comportando significados educativos.” A verdade é que não se concebe a ideia representada por estes símbolos, pois, estes devem ser acolhidos por todos os membros da Sublime Ordem que, sem eles, não podem ser considerados VERDADEIROS MAÇONS.

Paul Naudon, escritor Maçônico, dedicado ao estudo místico e oculto, assim se expressa: “O objetivo da iniciação formal é de conduzir o indivíduo ao Conhecimento por uma ILUMINAÇÃO interna. É a razão pela qual a Maçonaria usa SÍMBOLOS para provocar esta ILUMINAÇÃO por aproximação analógica”.

O Símbolo, por si só, define o seu sentido Espiritual. A Cruz, a Fé, a âncora, a Esperança e a mão segurando à taça, a caridade.

A ESPIRITUALIDADE DA RITUALÍSTICA

Vejamos a força espiritual por ocasião da abertura dos trabalhos ritualísticos numa loja justa, perfeita e regular. Segundo Leadbeater, na liturgia de abertura das atividades maçônicas no templo, devem os Irmãos meditarem com profunda concentração mental em perfeito equilíbrio, para manterem a harmonia do ato. Diz Leadbeater:

“Necessitamos de cobrir a LOJA, não só para resguardar os Mistérios, e sim, porque, só estando coberto, é que poderemos manter pura e tranquila a sua influência. A forma mental que vamos construir tem de estar muito bem equilibrada e medida com extremo cuidado, pois consta de matéria etérea do plano físico e das mais subtis dos planos emocional e mental”.

Ainda Leadbeater:

“Diante do domínio das emoções, o homem desenvolve o princípio do amor intuicional que entra em atividade. Com o auxílio da mente, o homem quebra os cinco grilhões, que o impedem de se adiantar na evolução. São eles: a ilusão de que a sua personalidade é o seu verdadeiro ser, a dúvida sobre a realidade das coisas espirituais, a superstição, e os insensatos gostos e desgostos. Assim capacita a vontade espiritual para que se manifeste na sua conduta”.

Daí a necessidade de manter, durante toda a reunião, esse clima harmónico de atitudes mentais, objetivando o resultado altamente espiritualizado dos Irmãos manter o clima fraternal que deve reinar entre os Maçons.

Por ocasião do encerramento, as saudações apresentadas não são de puro formalismo. Cada saudação contribui para intensificar a energia que se está produzindo enquanto a Loja trabalha, e envolve a peculiar atmosfera mental da Loja. Realmente, um clima de perfeita harmonia Espiritual.

Como entidade mental, a Loja está constituída pela soma das referidas porções dos seus membros, que se combinam para formar um conjunto do qual brota o raio de luz protetor.

Ainda sobre o encerramento dos trabalhos, Leadbeater, diz:

“Que nos reunimos com perfeita amizade e igualdade, sem prejuízos nem preferências a respeito de ninguém e fazendo justiça a todos. Atuamos sempre com absoluta veracidade e retidão, demonstrando incessantemente o mais agudo senso de honra. E ainda que a Loja esteja agora sendo fechada e estejamos para separar-nos no plano físico, contudo nos separamos sobre o esquadro, sem jamais esquecer o perfeito ajuste que o esquadro assegura, de sorte que o interesse dos nossos Irmãos seja o nosso próprio interesse durante a sua ausência, porque todos somos pedras unidas na construção do divino templo erigido a glória do GADU”.

Sem sombra de dúvida, quando a ritualista da reunião se desenvolve em perfeita harmonia e concentração mental, o magnetismo flui de tal maneira que o clima de bem-estar é sentido por todos os membros que dela participam.

Existe, ainda, a proteção formada por correntes magnéticas, com o objetivo de proteger o desenvolvimento dos trabalhos dentro da mais perfeita harmonia e que todos estejam em sintonia com os propósitos e objetivos da Sublime Instituição.

Neste clima de congraçamento, todos se irmanam dentro dos mais elevados ensinamentos que fundamentam a Irmandade dos Homens Justos e Perfeitos. Não se deve esquecer nunca do ESQUADRO como símbolo da matéria e o COMPASSO que simboliza o Espírito, portanto, o Maçom deve trabalhar constantemente para que o Espírito subjugue a Matéria; é o que ensina o simbolismo da posição do Esquadro e do Compasso sobre o Livro da Lei.

Outro momento sublime é quando da abertura do Livro da Lei. Merece uma atenção especial diante da eloquente leitura do Salmo, onde se verifica o instante da espiritualização da abertura dos trabalhos. A abertura do Livro da Lei não é um ato singelo, mas uma repetição simbólica da construção do ser humano, o que equivale dizer, da construção do Templo humano.

Quando o Irmão responsável abre o Livro da Lei, está abrindo o Universo e, ao ler em voz alta o Salmo, oferece o seu sopro, iniciando com a sua vibração, os mistérios ocultos da Maçonaria, espiritualizando os símbolos que o cercam, numa ação de criatividade. Todos devem acompanhar o cerimonial com atenção, porque participam dos resultados, desaparecendo o homem profano, para que, numa perfeita união, as palavras do Salmista possam penetrar no íntimo de cada um, transformando as dificuldades da vida em momentos de indivisível paz.

Na abertura deste Livro Sagrado se está solicitando a Sua autorização e a Sua glória para se dar início ao cerimonial, que só é possível com a presença da Luz, símbolo da revelação, reflexo às divindades, que iluminam o coração, a inteligência e a sabedoria de cada um para discernimento da verdade e para que cresçam a bondade, a fé e a caridade. O ser humano anseia pelo conhecimento. A satisfação, do desejo de conhecer se inicia quando se sente uma substância invisível, um fluído divino, um potencial de energia, a presença de Deus.

Assim cumpre a todos os Maçons buscarem o seu crescimento espiritual, desbastando a Pedra Bruta embasados nesse manancial de ensinamentos contidos nos Rituais, o alicerce para impulsionar a essência inicial do seu crescimento, onde deverão, com trabalho, estudo e senso moral construir a sua vida, sendo útil na edificação moral e social da humanidade. Este é o real propósito de todos que fazem parte da Sublime Instituição.

Aí estão os verdadeiros significados da Espiritualização do desenvolvimento da liturgia dos Rituais praticados na Maçonaria.

Ainda sobre a preparação na construção da sua edificação moral e espiritual, o Maçom irá encontrar nas ferramentas que compõem a construção da grande obra da espiritualidade e moralidade da humanidade, o senso moral, indispensável argamassa na edificação do grande Templo humano. Nunca esquecer que a Maçonaria molda o homem para ser Justo e Perfeito, portanto, o amor, a solidariedade, a fraternidade, a justiça e a caridade devem ser as virtudes que embelezam a sua natureza humana se contrapondo aos vícios que denigrem e alvitram o seu ser.

Numa reflexão a parte, deve lembrar o Maçom que o CERIMONIAL DA INICIAÇÃO é um ato sagrado, início da construção do templo interior de cada iniciado, daí a responsabilidade de cada Loja em dispensar a devida atenção ao desempenho da ritualística, procurando dar o verdadeiro sentido Espiritual ao sublime processo iniciático. O tratamento dispensado ao Recipiendário deverá ser revestido do mais elevado respeito, para que seja dispensado todo carinho, afeto e respeito.

Este Neófito irá fazer parte da grande FAMÍLIA MAÇÔNICA UNIVERSAL. Lembrar-se de que a INICIAÇÃO é um dos mais solenes momentos da vida de um maçom. Portanto, as brincadeiras de mau gosto e a gozação não deverão, por hipótese alguma, fazer parte desse trote irreverente, mesclado de sadismo. Tal comportamento não faz parte da Maçonaria, pelo contrário, vem apenas denegrir a seriedade e sublimidade da INICIAÇÃO, que é revestida do mais excelso princípio espiritual.

Para analisar o verdadeiro sentido místico que norteia a MAÇONARIA, necessário se faz entender o verdadeiro significado da parte Mística existente dentro da Sublime Instituição, particularmente no que diz respeito aos símbolos e alegorias. Portanto, quando se fala sobre MISTICISMO, como mistério, tem o significado de algo que se percebe, profundamente, no íntimo, mas que não pode ser revelado, ou de que não se pode falar.

O MISTICISMO representa uma tendência para a busca de um Absoluto, com o qual pretende o místico unir-se, moralmente, através de meios simbólicos, e nasce do esforço, que faz o homem para entender o verdadeiro sentido da realidade absoluta ou divina, que está em íntima ligação com as coisas. Enfim, é na realidade, um conjunto de atos e disposições, cuja finalidade é a união com a divindade, considerada como espírito criador e regulador de tudo que existe e que procura compreender os atributos divinos, buscando a unificação e concretização de UM ABSOLUTO, ou do ENTE ÚNICO, supremo e omnipotente.

O Espírito Místico não segue a exatidão científica, dominada pela evidência, pela clareza e pela demonstração real. Pelo contrário, ele é ininteligível, obscuro, enigmático, misterioso, totalmente especulativo e atua na esfera de circunstância indefinível. É inefável e intuitivo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nas considerações que seguem, é oportuno lembrar que o bom Maçom tem o dever de aprender, e aprender bem, para poder ensinar melhor ainda. É evidente que o estudo enobrece e conscientiza.

Não esquecer que é importante saber; entretanto, mais importante do que saber é fazer, é ser!

Os Mistérios que envolvem a Maçonaria são cheios de riquezas ocultas, os quais é preciso descobri-los para que se possam conceber todos esses ensinamentos, para que o Maçom se torne um sábio. A Maçonaria é uma escola de Moral, ilustrada por Símbolos e velada por Alegorias. Há, portanto, uma presença totalitária de símbolos, que apresentam um conteúdo cognitivo, na medida em que permite aprender, através dos seus significados: a realidade.

O símbolo desempenha esta função na nossa vida maçônica e fora dela. Em outras palavras, a missão do Maçom desde então é o da Construção espiritual interna de cada membro. Entretanto, resultando deste esforço a CONSTRUÇÃO SOCIAL, estendida a toda humanidade. Isto posto e compreendido, vamos voltar aos “Instrumentos e Utensílios dos Aprendizes Maçons. Estas ferramentas tornaram-se símbolos, não servindo somente à prática dos trabalhos na área da construção civil. No início deste trabalho, se fez referências à ilustração dos símbolos que ocultam na alegoria maçônica, os seus significados que se tornaram secretos e somente pela instrução, revelados.

Outros símbolos, conforme transcritos abaixo, exprimem o sentido moral e espiritual do seu conteúdo oculto, despertando no Maçom a necessidade do seu crescimento interior, preparando-se para o trabalho de lapidação do seu EU interior. É assim que estes instrumentos símbolos se definem: a régua é dividida em 24 polegadas, ela nos ensina a apreciar às 24 horas em que está dividido o dia, induzindo-nos a empregá-la com critério, na meditação, no trabalho, no descanso físico e no espiritual. É ainda o símbolo da Lei, da Ordem e da Inteligência, a determinar a direção e a regular a aplicação dos estudos.

O Maço é instrumento importante e nenhuma obra manual poderá ser acabada sem ele. Ensina-nos, também, que a habilidade sem o emprego da Razão é de pouco valor, e que o trabalho é uma obrigação do homem. Inutilmente o coração conceberá e o cérebro projetará, se a mão não estiver pronta a executar o trabalho. O Maço é ainda, o emblema da lógica, sem a qual não pode haver raciocínio correto e pela qual se pode conhecer qualquer ciência.

Com o Cinzel o Obreiro dá forma e regularidade à massa informe da Pedra Bruta e pode marcar impressões sobre os mais duros materiais. Por ele aprendemos que a educação e a perseverança são precisas para se chegar à perfeição; que o material grosseiro só recebe fino polimento depois de repetidos esforços, e que é, unicamente, por seu incansável emprego que se adquire o hábito da virtude, a iluminação da inteligência e a purificação da alma.

Nas ALEGORIAS procura-se nas estrelinhas, por trás da aparência das palavras e das coisas, o sentido espiritual sempre oculto, tal como ocorria nas palavras de Cristo, cuja função essencial consistia em traduzir as verdades do espírito em narrações concretas e quotidianas.

São inspirações contidas nos símbolos e alegorias que conscientizam o Maçom sobre os direitos e deveres e, acima de tudo, o exercício efetivo da fraternidade e da harmonia da Oficina e dos Irmãos. Sabe-se que a desarmonia de uma Loja se embasa em três pontos fundamentais: a vaidade, o rancor e o radicalismo.

Portanto, é oportuno se manter vigilante para que esses desabrimentos não venham desequilibrar a união entre a Oficina e os Irmãos. O exercício de virtudes opostas a esses pontos torna o Maçom mais dedicado aos estudos, à frequência e participação assídua nos trabalhos da Loja e no inter-relacionamento fraterno entre os Irmãos numa comunhão perfeita de interesses mútuos.

No SIMBOLISMO, também, a presença marcante da Maçonaria se faz sentir nos instrumentos e ferramentas usados pelos Pedreiros Operativos na Idade Média, como também, remontando as antigas corporações dos construtores e dos antigos povos da Babilónia, do Egipto, do povo hebreu etc., repleta de símbolos que se identificam com os atuais da Maçonaria Especulativa. Mostram a força destes Símbolos na relação direta do pensamento e do sentimento espiritual e moral neles contidos. O que mais impressionam, além dessa sensibilidade, é a sua linguagem universal. Onde quer que esteja um Maçom, em qualquer parte do mundo, encontrando o Esquadro e Compasso entrelaçados, por exemplo, sabe que a Maçonaria está ali presente.

São tantas as observações sobre a ESPIRITUALIZAÇÃO NA MAÇONARIA, a liturgia dos diversos cerimoniais existentes, as lições dos rituais referentes a cada grau, a vasta literatura sobre a SUBLIME ORDEM, os factos históricos sobre as transformações sociais e políticas ocorridas no mundo inteiro, se faz entender que, embora a Maçonaria não tenha feito a história do mundo, não se pode, porém, contar a história do mundo sem a participação da Maçonaria. O homem faz a história, é o homem que escreve a história.

É, portanto, a força destas Alegorias e destes Símbolos que sempre transformou a Sublime Instituição numa energia moral e espiritual capaz de modificar o homem e o mundo em que vive. A história da humanidade prova a sua transformação graças à sua intervenção. É através dos ensinamentos recebidos que o Maçom se torna consciente dos seus deveres e da sua responsabilidade perante a Ordem, a humanidade, buscando sempre o progresso e o bem-estar dos povos. Finalmente, para vivenciar o estado Espiritual na Maçonaria, é preciso estudar, aprender e compreender a fim de fazer um julgamento de conduta na vida e da vida.

Ernani Gonçalves Vale

Ernani Gonçalves Vale é antigo Venerável Mestre da Loja Maçónica Dogival Costa nº 4, ao Or.’. de Esperança – PB e antigo Presidente da Loja de Perfeição Augusto Odilon da Costa, ao Vale de Cuité – PB. Foi Iniciado na Loja Maçônica Pedro Viana da Costa nº 21, ao Or.’. de Cuité – PB. Formado em Ciências Contábeis pela Fundação Universidade Regional do Nordeste (FURNE), com Especialização em Administração Tributária pela UFPB.

Fonte

  • O Buscador – edição eletrônica da Revista de Ciência Maçônica da Loja Maçônica de Estudos e Pesquisas Renascença nº 1

Bibliografia

  • ACADEMIA MAÇÔNICA DE LETRAS – Formação Social da Maçonaria – (Anais do I Congresso Internacional de História e Geografia) Volume II – Rio de Janeiro – 19 a 21 de março de 1981 – Impresso na Gráfica Editora Aurora.
  • ASLAN Nicola – Comentários ao Ritual de Aprendiz – Vade-Mecum Iniciático. Editora maçônica – Rio 1977. 2Edição.
  • ASLAN Nicola – Estudos Maçônicos sobre Simbolismo – 3a Edição – Editora Aurora – Rio – 1981.
  • ASLAN, Nicola – Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia – Volumes I, II – Editora ARTENOVA – 1974; Volume III – 1975 e Volume IV – 1976.
  • BOUCHER Jules – A Simbólica Maçônica (Segundo as regras da Simbólica esotérica e tradicional) – Título Original: LA SYMBOLIQUE MAÇONNIQUE – Tradução de FREDICO OXANAM PESSOA DE BARROS.
  • CASTELLANI José – Liturgia e Ritualística do Grau de Aprendiz Maçom (Em todos os Ritos) – Editora A GAZETA MAÇÔNICA – 1987.
  • GLEPB – GRANDE LOJA MAÇÔNICA DO ESTADO DA PARAÍBA – Ritual de Aprendiz Maçom do REAA – Edição (1928) 2012.
    • Ritual de Companheiro Maçom do REAA – Edição (1928) 2012.
    • Ritual de Mestre Maçom do REAA – Edição (1928) 2012.
  • LEADBEATER W. 33º – A Vida Oculta na Maçonaria – Editora Pensamento – Tradução da 2 Edição de 1928 por J. Gervásio de Figueiredo.

 

 

 

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

EM LOJA, MEUS IRMÃOS!

O cortejo ingressou no Templo. Cada qual fazendo a caminhada que lhe era devida. O Mestre de Cerimônias, zeloso pelo seu ofício, postado Entre as Colunas, marca a divisão dos espaços.

Quem trabalha e se hospeda no setentrião demanda essa Coluna. Luz, oficiais e hospedes do meio-dia tomam aquele rumo. E, finalmente, autoridades, oficiais e o Presidente vão aos respectivos postos de trabalho ao Oriente. Cumprida, com admirável desempenho, esta parte inicial das atividades que lhe são atinentes, o Mestre de Cerimônias também ocupa o seu lugar.

Todos de pé, entreolham-se, e alguns, fitando para o Pavimento de Mosaico, fingindo que não, ainda arriscam, discretamente, com o Irmão ao lado, uma conversinha. Aí, o Presidente larga sobre a sua mesa de trabalho os papéis que os tinha à mão, reexamina e repõe o chapéu sobre a cabeça, estende um olhar atento como que varrendo todo o Ocidente, toma do Malhete e com ele bate sobre a mesa, dizendo:

Em Loja, meus Irmãos!
Sentemo-nos!

Outro dia, um recém-Iniciado encontra-me no salão de Banquetes, abre o livrinho do REAA, aponta a frase dita pelo Presidente das reuniões e me pergunta se é só aquilo mesmo que está escrito e foi dito, ou se a autoridade queria com a frase transmitir alguma sugestão. O Aprendiz alimenta a sua dúvida no que já foi instruído de que a “Maçonaria é um sistema de moral velado por alegorias e ilustrado por Símbolos”. Ensinamentos que se colhem pela interpretação …

Bravo, meu pertinente Aprendiz! Continue assim: perguntando. O seu futuro, na Ordem, será brilhante. O Presidente falou somente aquelas palavras, mas queria dizer muito mais. Muitas outras palavras. Decerto um pedido de reflexão, antes de convidar a todos para o efetivo início dos trabalhos, invocando a presença e o auxílio do Grande Arquiteto do Universo.

Por que e para que fomos à Loja? E só fazer essa breve reflexão sobre isto e pronto. Atendemos aos anseios do Presidente contidos naquela frase. Os Maçons se reúnem em Loja para se estimularem uns aos outros na prática da virtude. Na aprendizagem ao servir a Deus, pois serve ao Criador quem vive no bem e pratica a virtude.

E bom recordar as respostas a um interrogatório posto no nosso Ritual. Numa das perguntas, deseja-se saber o que o Maçom vai fazer na reunião da Loja. “O que se faz na sua Loja?” Pense nisto ao ensejo daquela pausa: eu preciso me lapidar. A minha vontade, as minhas paixões, talvez sejam elas que me põem em estado de Pedra Bruta, quando devia estar num estado evoluído. Então, a reunião é a oportunidade para rever tudo isto. Para criar as condições de submissão da vontade e das paixões.

O refletir sobre estas ideias, vai ver que está implícito na frase do Presidente. A reunião é o laboratório. Os Irmãos, os Mestres. Não temer sobre o êxito da pretensão. Recordemos a tibieza inicial de Moisés, quando Jeová o convocou para retirar o povo de Deus do cativeiro do Faraó! Moisés se achava fraco para aquela grande missão. Até gago se dizia e por isto com séria dificuldade de comunicação. Mas Jeová garantiu-lhe: “EU serei contigo”. O Presidente, na reunião, também vai pedir o amparo do Gr Arq do Universo para a felicidade de todos. Para “ser” com os presentes.

Vamos alertar a consciência para o fato de que aquele é o momento facultado para a aprendizagem da prática da virtude, o qual exige a nossa melhor disposição para isto. E nesta harmonia de ideias, ajudarmos o Presidente a dar curso aos trabalhos que nos cabe na construção social. Daí por que estamos ali, “em Loja, meus Irmãos!”.

António do Carmo Ferreira, Or Recife – PE

 

 

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

OS MAÇONS OPERÁRIOS DOS TEMPOS MODERNOS

Nos antigos canteiros de obras, os maçons operários erguiam catedrais que atravessaram séculos. Com cinzel e malho, lapidavam a pedra bruta e moldavam não apenas templos de pedra, mas também os alicerces morais da civilização. Hoje, os maçons contemporâneos continuam essa obra — não mais entre colunas de mármore, mas no vasto canteiro espiritual e social do mundo moderno.

O privilégio do “ir e vir”, antes concedido aos maçons livres para circular entre reinos e obras, hoje se traduz na liberdade de pensar, de buscar o conhecimento e de agir com consciência. O maçom moderno transita entre o passado e o presente, entre o mundo material e o espiritual, levando consigo as ferramentas simbólicas da sabedoria, da fraternidade e da justiça.

Assim como os antigos construtores, o maçom de hoje é chamado a ser um edificador de pontes, não de muros — alguém que conecta ideias, pessoas e propósitos. Seu trabalho silencioso é construir, dentro e fora de si, uma sociedade mais justa, mais livre e mais iluminada.

Em um tempo em que muitos se perdem em ruídos e divisões, o verdadeiro maçom mantém viva a arte de lapidar a si mesmo, honrando o mesmo ideal dos operários medievais: ser útil, ser livre e servir à Luz.

Verdiomar

 

 

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

COMO FAZER SUA LOJA MAÇÔNICA CRESCER E SE FORTALECER:

- Participe de tantas reuniões e funções quanto possível.

- Apareça cedo, fique até tarde.

- Suporte as atividades e participe.

- Leia. Estude. Aprenda. Ensaie. Discuta. Ensine. Cresça. Melhore.

- Esteja preparado! Tire os olhos do ritual. Conheça o ritual e os deveres das três cadeiras de coração: aprenda o ritual do cargo que está acima de você; conheça o cargo que você ocupa e a cargo subordinado a você. Ensine esta mesma prática a todos os oficiais.

- Fortaleça a cadeia. Comprometa-se em melhorar a vida de todos os Oficiais e Irmãos que você conhece.

- Viva a Maçonaria fora e dentro da Loja - 24 horas, 7 dias por semana, 365 dias por ano.

- Aceite um cargo. Assuma uma responsabilidade. Seja voluntário. Faça o seu melhor!

- Arregace as mangas. Ajude! Continue humilde. Devolva o que recebe.

- Abandone todo ego e orgulho tolo.

- Convide e envolva candidatos e irmãos. Incentive-os a se apropriarem da Loja e de sua jornada.

- Evite o "boato". Evite fofocas.

- Construa com as forças dos outros. Incentive a paixão e novas ideias.

- Todas as mãos no convés! Muitas mãos fazem o trabalho mais leve.

- Nunca fale negativamente de um Oficial ou membro de Comitê ou Comissão.

- Forme Oficiais ou membros de Comitês para a Ordem.

- Pague suas mensalidades antecipadamente. Doe frequentemente.

- Trate aos outros como família; com a mais alta consideração, estima e respeito.

- Planeje, pratique, prepare, persevere.

- Honre o passado, preserve as tradições e a cultura da Loja.

- Lidere pelo exemplo. Seja a mudança que você deseja ver na Loja.

- Não pergunte o que a Maçonaria pode fazer por você; mas o que você pode fazer pela Maçonaria.

- Siga o Código: as Grandes Luzes, as Obrigações, Encargos, Old Charges, Antigos Landmarks, Código de Julgamento, Constituição e Regulamentos da Grande Loja, Estatutos, Monitores, Cerimônias, Orientações e os vários Rituais da Maçonaria devem ser o seu guia constante; seu modus operandi; e seus padrões de procedimentos operacionais. Se você não concordar, estude a Legislação e tome as devidas providências e processo apropriado para alterá-las.

- Seja positivo. Nunca veja uma situação como impossível. Aceite o desafio, supere todos os obstáculos e produza resultados positivos que beneficiam a todos.

- Incorpore ordem e decoro. Siga o protocolo e etiqueta adequados. Evite conversas privadas durante as reuniões e cerimônias de conferências de graus.

- Nunca abrigue ressentimentos ou brigas contra qualquer irmão. Vá até ele. Resolva o problema. Faça as pazes. Cure todas as feridas. Fortaleça o vínculo.

Fonte: Ir Rubens C. Monteiro

 

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

LUX IN TENEBRIS

Quando os Deuses primeiros, cujo império é eterno,
No cálice do Tempo verteram o vinho sagrado da Vida,
Brilhou toda a taça cristalina com fogo superno;
Então disseram: “O mortal será divino?
Tomará o homem as sendas que os Deuses trilharam?
Quem desta taça beber — ele mesmo será Deus!”

Assim temperaram o dom da sua dádiva,
Misturando o germe do mal ao bem;
Misturaram a morte ao fogo da vida,
E a angústia ao júbilo da maternidade;
E, com o bálsamo da paz, um estranho desassossego,
E um desejo informe em cada peito.

Assim puseram discórdia no mais doce canto,
E espinhos agudos na mais bela rosa;
E dúvida ao redor da cruz onde a fé se firmava,
E medo a rondar os domínios do repouso;
E turvaram os olhos do homem, para que não visse,
Como os Deuses, as vastidões do porvir.

Coloriram o fracasso com as cores do arco da esperança,
E tingiram a hora do triunfo de arrependimento;
Fizeram a força submissa ao fraco e ao terno,
E a sabedoria, tola ao encanto da beleza;
Até que o vinho da vida se tornou amargo-doce —
Entre o perfeito e o incompleto.

Então disseram os Deuses — os Deuses eternos —
“Derramemos dons sobre a alma do homem,
Para que ele vislumbre nosso esforço,
E ainda assim não decifre o Plano Universal.
Pois, embora as verdades da Vida estejam perto,
O homem verá e não verá — sendo cego.”

E assim, ao descerem as bênçãos divinas,
A maldição universal as seguiu como sombra;
O mal místico com a glória se fundiu,
Maculando os éons desde que o mundo é jovem.
Pois sobre todos os que os Altos Deuses abençoaram
Caiu a febre insaciável do desassossego.

Então ergueu-se um fermento, uma exaltação,
E todas as almas dos homens estremecer
am;
Surgiu um profeta em cada nação
Para pregar novas doutrinas sobre a fonte do pecado;
E homens ergueram-se como Deuses, e novos credos
Proclamaram a Unidade eterna de Deus com o homem.

E sempre, por todas as terras, em ondas sonoras,
Rugou de era em era o rio do Canto,
Que tornou doces os vales com coros rítmicos,
E fez tremer os montes de pedra com música forte,
E inflamou as almas dos homens como vinho ardente —
Mas era humano!... não divino!

Pois, vede: em tudo o que parece inspiração,
Entra a maldição que turva as coisas criadas;
Além das barreiras de nossa limitação
Nunca ainda uma alma abriu suas asas!
Nem houve, nem jamais haverá,
Um canto perfeito — uma harmonia perfeita!

Ó música do vento, e do oceano!
Ó poder que move o fulgor dos astros!
Ó corações que vibram em emoção!
Ó mistério da Vida! Ó lágrimas humanas!
Que luz nos guiará pelo deserto,
Para fora do Egito da nossa amargura?

Ó poetas, ao redor de cujas almas, desde o princípio,
Ecos estranhos tremem e visões selvagens acorrem,
Vós todos ouvistes a doçura do Canto,
Mas ninguém conhece o sentido da Canção
Que eleva nossas frágeis almas ao céu —
E depois as lança sangrando à terra!

Irmãos, minha alma vibrou com vossa alegria.
Também eu sofri com a dor humana.
Também senti o terror e a loucura
Que todo aquele que busca a verdade e a luz deve conhecer.
Meu coração vacila na amarga luta —
Nos labirintos do Mistério da Vida.

Que esperança — que consolo — em nossa desolação?
Que raio fende a treva da noite?
Aos corações cansados, que bálsamo consola
Saber que a Terra é finita e o Céu infinito?
Ainda que a mão da Fé aponte o caminho,
A voz da Razão sempre traz demora.

Não! — Ainda que o segredo da Vida esteja além de nossos sonhos,
E todos os credos do mundo sejam vãos,
Um fulgor rasga oblíquo as sombras,
Cujas flechas douradas trespassam as trevas.
Se em nossos erros houver um germe de verdade,
Os caminhos que levam à Verdade são infinitos!

Por toda a natureza e criação
A Mão Suprema escreveu seu sinal.
Em dor e esforço, através dos éons,
A alma fraca do homem o decifrará;
Pois, sendo o espírito superior ao pó,
O homem não conhecerá o Eterno num só dia.

E ainda que ignoremos as moradas imortais,
E que seus passos não sejam ouvidos pelos homens,
E que com mistério ocultem seus rostos
E nos ordenem buscar o Plano Universal,
E que a todos venha, com o sopro da Vida,
O sofrer, a dúvida, o cansaço e a morte —

Eu canto a Esperança Eterna e o Esforço Nobre,
A Verdade brilhando por mil corredores do pensamento;
Canto as almas imortais dos homens, para sempre
Conduzidas, por estranhos caminhos, a um mesmo triunfo.
O Deus no homem — a fome da alma —
Uno com a Sabedoria que inspira o Todo!

George Essex Evans. (1863–1909)

 


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