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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A VIRTUDE E A MAÇONARIA




“O que entendeis por virtude?” ( pergunta de Apolo aos discípulos de Elêusis, Séc VI a.C.) 1- A virtude para os Gregos Virtude na Grécia Clássica era a Areté, um termo que significa a excelência, o máximo, o melhor, a força e o vigor, o esplendor ou o sublime.

Ser virtuoso equivalia a ser o modelo ideal de cidadão no contexto da pólis.

A vida boa, a vida digna e justa que os gregos deveriam almejar e cultuar era a opção dos melhores, ou seja, dos daqueles coroados pelas virtudes. Sócrates afirmava que virtude era a prática da excelência. Já Aristóteles dizia que a virtude são práticas ou hábitos que nos levam para o bem. A dúvida que surge, nesta colocação, é como definir com clareza o que seria uma vida boa.

Qual seria o perfil de homem que os gregos antigos consideravam como exemplo a ser seguido? Os gregos acreditavam que o mundo era perfeito. Tudo que existe teria uma finalidade, um sentido e uma missão a cumprir. Isso ocorreria para todos os entes e para os infinitos fenômenos da natureza.

Como a chuva, os bodes e as acácias, cada elemento teria sua razão de existir e comporia o universo regido por uma lógica, que eles chamavam de logos, que seria uma espécie de “princípio criador”.

Este ente original teria orquestrado um projeto arquitetônico belo e harmônico, onde tudo obrigatoriamente deveria funcionar de forma justa. O traçado do mundo, feito por este arquiteto supremo, era uma obra de arte – e como toda obra de arte não haveria um traço, uma letra, um tijolo ou pedra colocada aleatoriamente na planta. Tudo tinha que estar onde exatamente devia estar. Uma peça que não se encaixasse no desenho da prancheta seria uma hybris, equivalente a um simulacro ou uma aberração.

Assim, não há opção de vida alternativa – ou de alterar o seu destino – aos fenômenos naturais, como um rio que flui para o mar ou como um terremoto que abre a terra, ou para os animais, como um bode que nasce-pasta-reproduz e morre.

Dentre todas as criações existentes, haveria apenas uma que teria o potencial de viver fora de seu objetivo primordial traçado a priori pelo arquiteto criador: o homem. 

O ser humano teria condições de navegar contra a sua natureza. Isto ocorre quando a pessoa desconhece seus verdadeiros talentos, ou quando apesar de descobri-los não os exerce na plenitude. Portanto, o primeiro degrau da escada para a jornada em busca da vida virtuosa refere-se ao emblemático processo denominado de autoconhecimento – gnouti sauthon em grego.

 Todos tem que se auto-analisar. Como afirmava Sócrates, “uma vida não avaliada não merece ser vivida”. Os talentos foram dados para que cada ser humano possa desempenhar sua função no grande projeto arquitetônico do universo. Não foram aptidões agregadas por acaso, dizia o mestre de Platão.

Para o ethos grego, portanto, a vida boa é aquela vivida de acordo com o exercício pleno das aptidões naturais que o logos concedeu a cada cidadão. Esta seria a forma virtuosa de viver: descubra para que você veio ao mundo, e realize com força e vigor o seu destino, seja ele qual for. Se um homem não descobre para que serve, ou se apesar de saber não tem força moral para exercer estes dons com excelência, estaria no caminho do vício.

O vício, para os gregos, é a vida exercida fora do planejado. Como exemplos desta condição não ideal, imagine Mozart como um comerciante, Van Gogh como um pastor ou Pelé como um funcionário público. Seriam casos exemplares de hybris, ou de virtudes degeneradas.

O que chama a atenção nesta perspectiva grega da virtude é que não importa o tipo de talentos que o indivíduo possui. Não interessa se ele os usa para as chamadas boas ações ou para ações nem tão boas assim, quando analisadas pelos critérios de certo e errado dos inúmeros códigos de ética mais atuais.

Os virtuosos, devidamente funcionais na máquina universal, Para os gregos somente os talentosos e que exercem suas aptidões na plenitude poderiam dirigir com excelência os destinos da polis. Assim, o ideal da vida grega ou a prática do bem se refletiria na boa condução dos negócios das cidades, condição esta exclusiva aos virtuosos.

A virtude para os Cristãos A virtude para os cristãos tem outro significado. Agora a preocupação com a possibilidade de se conquistar uma vida boa e digna se refere a ter acesso à cidade de Deus. Os bons cristãos devem exercer alguns hábitos e práticas formuladas por Deus que ficaram conhecidas como virtudes teleológicas: fé, esperança e amor (caridade).

Por este prisma os talentos individuais nada representam em termos de se alcançar o ideal de vida. O que importa é a crença em Deus, a esperança de perspectivas melhores no futuro e o bem cuidar do próximo.

A virtude na Modernidade Em meados do século 18 uma nova figura surgia no esplendor das luzes pós Renascença: o homem moderno. A razão esclarecida passava a ser o timoneiro dos pensamentos, dos atos e das omissões dos doutos iluminados. Tudo que existia até então teria que passar pelo crivo da capacidade questionadora das mentes livres e conscientes. Este novo homem racional se reinventou enquanto “ente-no-mundo”.

Uma vez que passara a questionar todo e qualquer pensamento, este pensador exercia uma autonomia. Criou-se, assim, o sujeito, o indivíduo, o “”eu-senhor-de-si ou o ego condutor dos próprios destinos. Com imenso poder de devastação sobre as concepções anteriores do que seria uma postura virtuosa, a razão e o sujeito moderno ditavam quem tinha ou quem não tinha o direito de gozar uma vida reta.

A virtude grega e cristã perdia fôlego – o modelo agora era a vida calcada em uma espécie de virtude racional, exercida através do mote “Cogito Ergo Sum” cartesiano.

O novo ethos representava uma libertação de todas as formas de tutela ou de concepção metafísica: o homem como sujeito seria o suficiente para gerar todo sentido e todos os significados para a vida plena.

O homem, como figura subjetiva, não dependia mais de nenhuma instância superior a si para explicar ou justificar o universo, enquanto projeto arquitetônico ou enquanto obra divina. Tudo se resumiria ao indivíduo, completamente livre e por isso mesmo igual a todos que existem – os ideais de liberdade e de igualdade surgem com o homem moderno.

A virtude na Contemporaneidade Já na pós-modernidade a definição de virtude se altera. Com a derrocada dos valores modernos, devido à crise moral da ciência e da razão enquanto vertentes moduladoras da boa vida, algo novo aparece no horizonte dos caminhos do homem.

Com a explosão dos meios de comunicação de massa, somado ao incremento na industrialização e na produção de bens de consumo (a revolução industrial começou no século 18, mas seu apogeu ocorreu logo depois da II grande guerra), e tendo ainda a recente intensificação brutal da globalização de informações e de pessoas pelas conexões da internet, ser virtuoso na contemporaneidade equivale a ser um bom consumidor dos produtos – tangíveis e intangíveis – que o mercado oferece ininterruptamente.

Melhor explicando: o caminho da boa vida é o caminho do consumo. Esta é uma consequência lógica do sistema capitalista. E atrelado a este consumismo vem todo um estilo de vida de alta rotatividade, de relações fluidas – ou líquidas, como diz Bauman – de hedonismos fugazes e de aparentar uma felicidade abstrata e plastificada. Independentemente da forma como interpretamos o que seriam as virtudes ideais que todo cidadão “de bem” deve respeitar e praticar  trata-se de um conjunto de valores que determinam um condicionamento de comportamentos ou um adestramento das aptidões individuais que ocorre com raridade entre os homens.

Mais que isso, são metas ou objetivos transcendentais que a maioria das pessoas não vai conseguir atingir, por questões de limitações pessoais ou morais.

Em outras palavras: todos querem ser e se dizem muitas vezes virtuosos, mas na realidade isto não ocorre.

O ser humano, com raras exceções, exercem em sua vida privada e pública apenas uma interpretação caricata e bufona dos papéis virtuosos elencados ao longo das eras. Esta máscara “de bonzinho” que é tão fartamente utilizada é apelidada de “vício”.

O vício é a caricatura, o fake, o simulacro da virtude.  A sociedade nos diz “seja virtuoso”, mas se não for possível que seja pelo menos aparentemente virtuoso.

(*) Irmão Carlos Alberto Carvalho Pires, M.M.

ARLS. Acácia de Jaú 308 – Or.’. de Jaú SP

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