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quinta-feira, 14 de julho de 2011

SOIS MAÇOM?




                     Só me lembrava daquela dor no peito. Como viera eu parar aqui? O ambiente me era familiar. Já estivera aqui; mas quando?
                           Caminhava sem rumo. Pessoas desconhecidas passavam por mim, contudo, não tinha coragem de abordá-las.
                           Mas, espere, que grupo seria aquele reunido e de terno preto?
                           Lógico! Não estariam indo ou vindo de enterro; hoje em dia não é tão comum pessoas irem a velório com roupa preta. É claro! São irmãos!
                           Aproximei-me do grupo. Ao me verem chegar interromperam a conversa. Discretamente executei o Sinal de Aprendiz, - fui respondido.
                           A alegria tomou conta de mim. Estava entre amigos.
                           Identifiquei-me. Perguntei ansioso o que estava acontecendo comigo. Responderam-me com muito cuidado e fraternalmente. Havia desencarnado.
                           Fiquei assustado; e a minha família, e os meus amigos, como estavam?
-          Estão bem, não se preocupe; no devido tempo você os verá, responderam.
                           Ainda assustado indaguei do motivo de suas vestes.
-          Estamos nos encaminhando ao nosso Templo Maçônico – foi à resposta.
-          Templo Maçônico? Vocês têm um?
-          Sim, claro, por que não?
                           Senti-me mais à vontade afinal, sou um Grande Inspetor Geral e com certeza receberei as honras devidas a meu grau.
                           Pedi para acompanhá-los. Fui atendido.
                           Ao fim de pequena caminhada divisei o Templo. Confesso que fiquei abismado. Sua imponência era enorme. As colunas do Pórtico, majestosas. Nunca vira nada igual. Imaginei como deveria ser seu interior e como me sentiria tomando parte nos trabalhos.
                           Caminhamos em silêncio. Ao chegar ao salão de entrada verifiquei grupos de irmãos conversando animadamente, porém, em tom respeitoso.
                           O que parecia o líder do grupo que me acompanhava chamou um irmão que estava adiante.
-          Irmão Experto! Acompanhai o Irmão recém-chegado e com ele aguarde.
                           Não entendi bem. Afinal tendo mostrado meus documentos, esperava, no mínimo, uma recepção mais calorosa. Talvez estejam preparando uma supersa à minha entrada; para um Grau 33 não poderia se esperar nada diferente.
                           Verifiquei que os Irmãos formavam o cortejo para a entrada no Templo. À distância não pude ouvir o que diziam, contudo, uma luminosidade esplendorosa envolveu a todos. Adentraram silenciosamente no Templo. Comigo ficou o Irmão Experto.
                           De tanta emoção não conseguia dizer nada. O tempo passou... Não pude medir quanto.
                           A porta do Templo se entreabriu e o Irmão Mestre de Cerimônias encaminhando-se a mim comunicou que seria recebido. Ajeitei o paletó, estufei o peito, verifiquei se minhas comendas não estavam desleixadas e caminhei com ele.
                           Tremia um pouco, mas quem não o faria em tal circunstância? Respirei fundo e adentrei ritualisticamente ao Templo.
                           Estranho... Esperava encontrar uma luxuosidade esplendorosa, muito ouro e riquezas. Verifiquei, rapidamente, no entanto, uma simplicidade muito grande. Uma luz brilhante, vinda não sei bem de onde, iluminava o ambiente.
                           Cumprimentei o Venerável Mestre e os Vigilantes na forma usual. Ninguém se levantou à minha entrada. Mantinham-se calados e respeitosos.
                           Não sabia o que fazer... Aguardava ordens... E elas vieram na voz firme do Venerável.
-          SM?
                           Reconhecendo a necessidade do trolhamento em tais circunstâncias, aceitei respondê-lo.
                           Estufei o peito, empertiguei o corpo e respondi:
-          M.I.C.T.M.R.
                           Aguardei, seguro, a pergunta seguinte. Em seu lugar o Venerável Mestre dirigindo-se aos presentes, perguntou:
-          Os Irmãos aqui presentes o reconhecem como Maçom?
                           Assustei-me. O que era isso? Por que tal pergunta?
                           O silêncio foi total.
-          Meu caro Irmão visitante: os Irmãos aqui presentes não o reconhecem como Maçom.
-          Como não? Disse eu. Não vêem as minhas insígnias? Não verificaram os meus documentos?
-          Sim, caro Irmão, retrucou solenemente o Venerável. Contudo não basta ter ingressado na Ordem, ter diplomas ou insígnias para ser um Maçom. É preciso, antes de tudo, ter construído o “seu Templo” e verificamos que tal não ocorreu com o Irmão. Observamos, ainda, que apesar de ter tido todas as oportunidades de estudo e de ter galgado ao maior dos Graus, não absorveu seus ensinamentos. Sua passagem pela Arte Real foi efêmera.
                           Não pude agüentar mais. Retruquei:
-          Como efêmera? Vocês que tudo sabem não observaram minhas atitudes fraternas?
                           Fui interrompido.
-          Irmão veja então sua defesa...
                           Automaticamente desenhou-se na parede algo parecido com uma tela imensa de televisão e na imagem reconheci-me junto a um grupo de Irmãos tecendo comentários desairosos contra a administração de minha Loja. Era verdade. Envergonhei-me. Tentei justificar, mas não encontrava argumentos. Lembrei-me então, de minhas ações beneficentes. Indaguei-os sobre o tal. 
                           E mudando a imagem como se trocassem de canal, vi-me colocando a mão vazia no Tronco de Beneficência. Era fato e, costumeiramente, o fazia por achar que o óbolo não seria bem usado.
                           Por não ter o que argumentar calei-me e lágrimas de remorso brotaram-me nos olhos. Iniciei a retirar-me cabisbaixo e estanquei ao ouvir a voz autoritária e ao mesmo tempo fraterna do venerável.
-          Meu Irmão, nós reconhecemos suas falhas quanto no orbe terrestre e na Maçonaria, contudo, reconhecemos, também, que o Irmão foi iniciado em nossos Augustos Mistérios. Prometemos em suas iniciações protege-lo e o faremos. O Irmão terá a oportunidade de consertar seus erros, afinal, todos nós aqui presentes já os cometemos um dia. Descanse neste plano o tempo necessário e, ao voltar à matéria para novas experiências, nós o encaminharemos novamente para a Ordem Maçônica. Sua nova caminhada com certeza será mais promissora e útil.
                           Saí decepcionado, mas estranhamente aliviado.
                           Aquelas palavras parecem ter me tirado um grande peso. Com certeza ali eu desbastara um pedaço de minha Pedra Bruta.
                           Acordei sobressaltado e suando... Meu coração disparado... Levantei-me assustado, mas com certa alegria no peito. Havia sonhado.
                           Dirigi-me ao guarda-roupa. Meu terno ali estava.
                           Instintivamente retirei do paletó as medalhas e insígnias a as guardei em uma caixa.
                           Ainda emocionado e com os olhos molhados de lágrimas dirigi-me à minha mesa e com as mãos trêmulas e cheio de grande alegria, retirei o Ritual do Aprendiz Maçom.

Transcrito do Jornal GOERJ Informa de 12/10/1992
Obra escrita pelo IrRodrigo Otávio Mattos. 
Membro da ARLS José Bonifácio n° 0486 – Barra do Piraí/RJ
                         
                
          

Um comentário:

  1. Sou simpátco à doutrina maçônica por ser uma doutrina de convivio pacífico, onde o expurgo acontece natural e espontâneo.

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