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domingo, 3 de junho de 2012

DUPLA DIMENSÃO DA ESCADA DE JACOB



A Escada de Jacob na sua dupla dimensão: intimista e simbólica

A ideia da ascensão gradual e penosa faz o mister do Escocismo como escola primeira da Arte Real. Está presente, também, nas grandes tradições do Ocidente como esforço individual para a procura de uma mais alta espiritualidade ou de um diálogo mais íntimo com Deus. Tem lugar também nos mistérios egípcios, gregos, escandinavos ou de Mitra e nos dos Cabalistas . 

Em todos estes mistérios e escolas filosóficas, a escada tem o sentido figurativo de uma realização espiritual que se alcança, degrau a degrau, vencendo as várias dificuldades e através da aprendizagem das várias virtudes.

Se a realização é espiritual e não meramente protocolar ou digitaria, ela exige uma entrega psicológica total, uma crença na capacidade de se alcançar o limiar desejado. Esse esforço é retribuído pela consciência de se atingir um grau de maior perfeição, luz refletida do objeto glorificado: Deus, o Grande Geômetra, Buda, Cristo, Alá.

A percepção da progressão espiritual como processo fazendo associa, por vezes, duas ideias errôneas: a de que chegados à etapa almejada, o estado de iluminação é total e sem mácula; e que alcançado esse estado não há retorno ou, para usar uma imagem trivial, não há queda pela escada abaixo. 

Possível representação do que aqui digo é a atitude de alguns Mestres que se pavoneiam nas assembleias maçônicas com uma profusão de medalhas e condecorações, à esquerda do seu tuxedo, sem que saibam exatamente o que elas significam.

A escada para cumprir efetivamente o seu simbolismo esotérico terá que ter um curso ascendente e um curso descendente e este sentido mais profundo e enigmático é dado, apenas, pela Escada de Kadosh. É errado, contudo concluir-se que a escada surge no ritual associado aos altos graus do Escocismo. 

Ela aparece, antes, de forma velada, já que o Rito Escocês Antigo e Aceite não conserva uma figuração clara da escada nos quadros de loja dos três primeiros Graus. No 1° Grau, ela insinua-se abaixo das colunas do pórtico exterior do Templo sendo uma série de degraus de acesso; no 2° Grau, esses degraus passam para além das colunas do Templo; no 3° Grau, a escada está de todo ausente.

Não é assim no Rito de Emulação onde a Escada de Jacob aparece logo no 1° Grau, revelando vários degraus (sete ou mais) que constituem as virtudes morais que estimamos . Os três primeiros degraus representam, em regra, a Fé, a Esperança e a Caridade e a escada dirige-se para o céu e atinge nele sete estrelas. A Escada de Jacob assenta, segundo uma tradição que data da Maçonaria Inglesa do século XVIII, sobre o Livro da Lei Sagrada e sobe até ao Céu simbolizando o sonho bíblico de Jacob, filho de Isaac.

A Escada de Jacob é referida no Antigo Testamento no Livro de Genesis, Cap. 28, vs. 10-22, um dos cinco livros que os historiadores maçônicos acreditam ter sido escrito durante o cativeiro do povo judeu na Babilônia. A história é a seguinte: Jacob filho mais novo de Isaac, usou um estratagema para receber a bênção do pai e ser designado como chefe da família em vez do primogênito Esaú como era tradição judaica. Este jurou matá-lo.

Jacob recebeu ordem do pai para se dirigir a Pada-Aramm a casa de Betuel, seu avô e ali escolher esposa. No caminho, Isaac decidiu passar a noite num dado lugar e serviu-se de um das pedras do lugar como travesseiro.

No sonho que teve viu uma escada apoiada na terra cuja extremidade tocava o Céu e ao longo da escada subiam e desciam mensageiros de Deus. Por cima da escada estava Deus que lhe disse: Sou o Senhor, Deus de Abraão e de Isaac. Esta terra em que te deitaste será tua se me adorares. No dia seguinte, Jacob usou a pedra que lhe servira de travesseiro e ergueu-a como monumento, chamando-lhe Betel e afirmando ser para ele, a partir daí, a casa de Deus.

O exemplo bíblico de Jacob revela o uso de um estratagema para alcançar uma vantagem ilegítima. Revela igualmente o sentido da Providência Divina sempre presente, indicando o caminho para Deus, o qual só se torna exequível através da prática da caridade, a mais sublime das virtudes. A escada torna-se etérea porque os degraus são níveis da consciência. Só com a iluminação da divindade o véu que cobre o topo da escada se dissipa e podemos lobrigar as sete estrelas ou os sete céus.

É trivial a ideia que ao atingir-se o Grau de Mestre o Maçom possui a iniciação integral e que os Altos Graus não lhe trarão nada de novo, pois nada são mais que desenvolvimentos dos graus anteriores. Este é o ponto de vista de Boucher ao afirmar que com a Mestria o Maçom passa por uma transformação total e profunda tendendo para o conhecimento do Absoluto, onde desaparecem as relatividades da existência material e do pensamento.

Trata-se de uma ideia despida de todo o fundamento. O Maçom pela mestria inicia uma nova etapa do seu aperfeiçoamento espiritual, da percepção do sagrado, caminho que como tudo o que é humano pode ter retrocessos. Até porque a necessidade de consolidar as Ordens Maçônicas tem facilitado a subida meteórica de obreiros com a evidente perda de qualidade final.

A mais correta figuração desta dicotomia é dada pela Escada de Kadosh, a escada que aparece no 30° Grau do Escocismo. Trata-se de uma escada de dois braços, de dois lances, com sete degraus cada e com uma significância simbólica própria.

Sobre o lado virado para a coluna do Norte encontra-se a indicação das sete artes liberais i.e. de baixo para cima: Matemática, Astronomia, Física, Química, Fisiologia, Psicologia, Sociologia, no lado virado para o Sul uma sequência de virtudes, i.e. de baixo para cima: Sinceridade, Paciência, Coragem, Prudência, Justiça, Tolerância, Devotamento. Sobre cada um dos lances estão marcadas duas inscrições hebraicas: Ahev Eloha (Amor a Deus) e Ahev Narabah ou Kerabh (Amor ao Próximo). Outros autores dão-lhe outras designações. A escada encontra-se aberta em 45º.

Sabemos também que a escada de Kadosh encontra-se, em parte, figurada no 26º Grau do REAA [Príncipe da Mercê ou Escocês Trinitário] ao permitir o conhecimento das virtudes teológicas chegando-se ao Terceiro Céu, subindo-se para uma plataforma através de uma escada de três degraus pintados respectivamente de branco, verde e vermelho. 

René Guénon sublinha muito bem esta dimensão tradicional e esotérica da escada quando diz “a escada dos Kadosh (em hebraico “santo”) coloca a esfera de Saturno imediatamente acima da de Júpiter, chegando-se ao pé dessa escada pela Justiça e ao seu topo pela Fé, sendo esse símbolo da escada trazido para o Ocidente pelos Mistérios de Mitra”. O 30° Grau que durante muito tempo foi o último grau do Escocismo possui - regista ainda - elementos iniciáticos que remontam antes da fundação da Ordem do Templo.

O processo de ascensão espiritual idealizado pelo duplo lance das escadas é gradativo, aproximando o homem terrestre do Céu, dando-lhe uma condição purificada. Mas o simbolismo não ficaria completo se não se acrescentasse à condição ascendente uma condição descendente: o iniciado Kadosh, depois de concluir o seu percurso iniciático, deve ser capaz de transmitir os ensinamentos que aprendeu. 

Tem que chegar ao 30° Grau para poder descer ao plano da Terra, para cumprir a sua missão de Cavaleiro Místico. Deve tornar-se um educador, um iniciador, expor as concepções tradicionais àqueles que são capazes de compreendê-las, ou seja: receber a mensagem e transmiti-la. Este é o verdadeiro sentido da via descendente e onde a sinceridade – a virtude que está no degrau cimeiro do primeiro lance da escada - o liberta da arrogância, do fanatismo, da condescendência consigo próprio. O objetivo ritualista é a procura da Luz, a Luz da Liberdade e o combate da opressão, seja qual for à forma que esta assuma.

Esta procura é só possível nos graus filosóficos, pois só aí o Cavaleiro Escocês se liberta das limitações e dos equívocos de uma Mestria insuficiente, do obscurantismo que ainda limita a sua liberdade de consciência e das convenções. A razão é intuitiva: no julgamento da nossa alma, depois da nossa morte física, o Grande Criador do Universo julga-nos pela sinceridade que emprestamos às nossas ações em vida, por aquilo que fizemos desinteressadamente pelos outros, sendo despicienda a proclamação laudatória das nossas virtudes próprias. Contudo, a liberdade aqui representada não deve ser identificada como licenciosidade, já que esta implica excesso e o bom maçom deve viver em equilíbrio utilizando sabiamente os instrumentos que se habituou a usar.


Arnaldo M. A. G.,  Cav.'. Kad.’.
Conselho Kadosh Marquês de Pombal, Supremo Conselho dos Grandes Inspetores do Grau 33, Lisboa - Portugal

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