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sábado, 8 de outubro de 2011

PALAVRA DE MAÇOM


A expressão “Palavra de Maçom” (Mason Word) designa, numa pequena vintena de textos escoceses e ingleses do século XVII e em cerca de uma dúzia de textos do século XVIII, um rito maçônico de recepção que consistia em receber em loja um novo maçom com um aperto de mão durante o qual lhe comunicavam oralmente o nome das duas colunas, Jachim e Boaz, do Templo de Salomão.

O desaparecimento progressivo das antigas lojas operativas determinou que o Rito da Palavra de Maçom tenha conseguido difundir-se rapidamente para substituir o Rito dos Antigos Deveres (Old Charges).

O conteúdo operativo deste último rito já não se adaptava aos maçons especulativos.

Importa lembrar que o Rito dos Antigos Deveres era um antigo rito operativo e de influência anglicana que consistia na recepção de um novo maçom em loja, onde lhe eram lidos os antigos deveres e sobre os quais o recipiendário jurava que os respeitaria.

Referir, desde já, que o Rito dos Antigos Deveres não comportava nem palavras nem sinais secretos.

De 1637 a 1652 os testemunhos históricos são unânimes em situar a existência do Rito da Palavra de Maçom na Escócia.

A título de exemplos: o poeta Henry Adanson, em 1638, referiu numa das suas obras (Thrénodie des Muses) que este rito surgiu em Kilwinning e depois em Perth entre 1628 e 1637, que eram duas cidades escocesas de elevada influência calvinista no século XVI; em 1653, Sir Thomas Urquhart de Cromarty afirmou na sua obra “Logopandecteision” que a Palavra de Maçom servia para fazer um maçom; em 1663, o reverendo William Guthrie, num dos seus sermões, qualificou-a de sinal; o reverendo Robert Kirk precisou no seu “Secret Commonwealth” que um dos elementos da Palavra de Maçom era um sinal secreto fornecido de mão a mão; e em 1696, o Edimburgo referiu-se-lhe como “a forma de transmitir a palavra de maçom”.

Este manuscrito de Edimburgo revela que este rito fez parte da loja de Canongate/ /Kilwinning, contendo dois elementos rituais combinados e indissociáveis:

* · O toque dos cinco pontos do “compagnonnage”.
* · Uma palavra de companheiro ou de mestre cuja existência é mencionada, mas não identificada.

# Um aspecto historicamente relevante é que a loja calvinista de Kilwinning recusou assinar as cartas maçônicas dos católicos Sinclair de 1601 e 1628.

Os toques dos cinco pontos era uma ritualização maçônica que se baseava nos cinco pontos do Calvinismo, doutrina definida no sínodo presbiteriano de Dordrecht que incluía cinco artigos de fé de que as iniciais sucessivas formavam em conjunto a palavra TULIP: Total depravity; Unconditional Election; Limited atonement; Irresistible Grace; Perseverance of the saints.

Este rito foi concebido na origem para, por um lado, ser um sinal de comunhão fraternal (aperto da mão direita, em garra) e, por outro, como uma dupla palavra-passe (Jachim e Boaz).

Os maçons presbiterianos desenvolveram-no sob a forma de um catecismo simbólico para criar uma arte de memória conforme os princípios do Calvinismo, com um claro significado de santidade e da sua comunhão apostólica. A sua criação aconteceu num período de perseguição pelo poder real anglicano, o que determinou o seu caráter secreto.

A partir da chegada ao poder do calvinista Guilherme III, de Orange, em 1688, o secretismo deste rito deixou de estar motivado por razões político-religiosas, mas unicamente por questões profissionais de pertença e de independência sociais.

A confirmar este aspecto, importa ter presente o fato de, em 1705, a loja presbiteriana de Kilwinning definir o rito não do ponto de vista confessional, mas como um privilégio profissional que era recusado aos cowans, ou seja, aos operários não qualificados.

De 1696 até as Constituições de 1723, surgiram vários catecismos relativos ao rito da Palavra de Maçon.

A título de exemplo, temos:

* · Chetwode Crawley (1700)
* · Sloane 3329 (1700)
* · Dumfries nº 4 (1710)
* · Trinity College (1711)
* · Kevan (1714/1720)
* · Exame do Maçon (1723)

# Ao longo dos vários textos é possível verificar sucessivas modificações em diversos aspectos deste rito. A primeira modificação foi introduzida pelo Sloane, onde se verificou uma tendência, que se acentuou posteriormente, de descalvinizar o rito através de um processo de anglicanização.

Enquanto os anteriores catecismos, calvinistas, afirmava que uma loja se compunha de 12 maçons, numa referência ao modelo de comunhão fraternal fornecido pelo colégio dos 12 apóstolos de Cristo, o Sloane refere que são suficientes cinco ou seis.

Simultaneamente, o Sloane divulga, pela primeira vez, que as letras de mestre são MB. O locutor proferia a letra M e o interlocutor a palavra B. Estas letras foram deformadas pela grande maioria dos catecismos onde apareceram como correspondendo às palavras judaico-cristãs de Maha / Byn.

Analisando o documento intitulado “Eclectismo Maçônico” acaba-se por reconhecer na expressão “Marrow Bone” à forma credível das letras M B.

Noutro documento, intitulado “Todas as instituições dos franco-maçons a descoberto”, de 1725, é mencionada a expressão “Marrow in the Bone” e no Graham, em 1726, aparece como “Marrow in this Bone”.

Quanto aos toques, os cinco pontos estabelecidos nos catecismos calvinistas eram: pé com pé; joelho com joelho; coração com coração; mão com mão; orelha com orelha. Alguns catecismos consideravam que os cinco pontos incluíam a pressão mútua da coluna vertebral, referida como “backbone”.

O Graham, referiu que os cinco pontos eram: pé com pé; joelho com joelho; peito com peito; bochecha com bochecha; mão nas costas. Este catecismo possui ainda outro aspecto de grande importância ao ser o primeiro a adotar a reutilização do toque dos cinco pontos para aplicá-los ao levantamento do cadáver de Noé.

Ora, de 1696 a 1725 o toque dos cinco pontos não servia para levantar cadáveres, mas simbolizava exclusivamente o papel determinante da doutrina do calvinismo na edificação da comunhão fraternal dos maçons presbiterianos entre eles.

Mais tarde, a Grande Loja de Londres descalvinizou por completo o sentido do toque dos cinco pontos, utilizando-o para a elevação do cadáver de Hiram, como figura alegórica da elevação de Cristo entre os mortos.

O documento “Exame do Maçon”, publicado em Londres em 1723, contemporâneo das Constituições, consiste numa abordagem ritual já anglicanizada que ironiza sobre os cinco toques calvinistas, acrescentando um 6º: língua com língua. Faz menção às cinco ordens de arquitetura reabilitadas na arquitetura religiosa anglicana pelo arquiteto Inigo Jones, e é o primeiro ritual a apresentar o arco-íris como modelo de arco da arquitetura.

As referências às ordens de arquitetura e ao arco-íris são elucidativas do seu caráter anglicano, dado que os presbiterianos como todos os reformistas religiosos, se caracterizavam pela recusa categórica de construir santuários materiais religiosos.

Outro catecismo inserido no rito da “Palavra de Maçom”, surgido em 1727 e denominado “Wilkinson”, foi o primeiro a mencionar a tríade ”Sabedoria, Força e Beleza”.

É este rito da “Palavra de Maçom” que, na sua essência, é transmitido, em Dezembro de 1714, pelo pastor escocês e presbiteriano James Anderson aos futuros criadores da Grande Loja de Londres. Composto no século XVII por 2 graus, aprendiz e companheiro, enquadrados por um mestre da loja, a função de mestre transforma-se na década de 1720 no 3º e último grau.

O rito da “Palavra de Maçom”, já modificado pelo “Exame do Maçom”, acabou por ser adotado pela Grande Loja de Londres, em 1723. Esta abordagem ritual procurou introduzir o ecumenismo confessional e o ecletismo cultural, mantendo os elementos presbiterianos da “Palavra de Maçom” e acabando, até, de algum modo, por desconfessionalizá-lo pela sua referência á religião natural.

De fato, a Grande Loja de Londres conseguiu fazer do rito da “Palavra de Maçom” um rito ecumênico e, sobretudo, filosófico que, sem perder as características essenciais do calvinismo, se tornou interconfessional e, como tal, universal.

Em 1730, surgiu em Londres à publicação “Maçonaria Dissecada”, da autoria de Samuel Prichard, que procedeu á divulgação do ritual da Grande Loja de Londres praticado nessa época. Nesta publicação, que constituiu uma abordagem comentada do rito da “Palavra de Maçom”, foi efetuada o seu enquadramento histórico com a observação de que antes deste rito existia outro rito praticado em conformidade com os antigos deveres operativos.

CONCLUSÕES:

O Rito da “Palavra de Maçom” constitui a base dos ritos maçônicos mais antigos e cujos elementos caracterizadores fundamentais ainda hoje perduram, tendo desempenhado a função de enquadramento da maçonaria especulativa então em grande expansão nos meios aristocráticos, burgueses e intelectuais.

Este rito é divulgado também na França a partir de 1725 e conheceu igualmente grande desenvolvimento neste país.

Todo o contexto histórico revela que a luta político-religiosa teve direta repercussões na evolução do ritual maçônico, determinando, em muitos aspectos, o seu conteúdo e alcance, quer simbólico quer alegórico.

De origem calvinista, acabou por ser anglicanizado e catolizado, dando lugar mais tarde a uma concepção ecumênica e conciliadora.

Já o Rito dos Antigos Deveres, textos da maçonaria inglesa, tinham sido primeiro de confissão católica antes de se tornarem anglicanos a partir de 1534.

O Rito da “Palavra de Maçom”, de acordo com vários dados históricos, é criado entre 1628 e 1637, num período em que as correntes religiosas minoritárias eram alvo de uma repressão generalizada pelo Poder político-religioso da monarquia inglesa.

Só a partir da aprovação do “Toleration Act”, em 1689, é que foi restituída aos presbiterianos a sua liberdade de culto.

O conhecimento dos aspectos históricos relativos a este rito mostra que o nascimento e consolidação da maçonaria especulativa não foram imunes ao meio social, político e religioso envolvente e que procurou e conseguiu acompanhar essas alterações como forma de assegurar a sua viabilidade e desenvolvimento no seio das sociedades em acelerada transformação.

Apesar dos princípios desde sempre proclamados quanto á proibição das discussões em loja sobre assuntos políticos e religiosos tornam-se evidentes a influência decisiva das concepções religiosas na elaboração dos aspectos mais elementares dos rituais maçônicos e o maior ou menor peso que certas correntes religiosas detiveram num dado momento histórico.
O estudo e a divulgação dos diversos aspectos do desenvolvimento da Maçonaria e dos seus ritos constitui um elemento fundamental na compreensão e manutenção da sua identidade histórica e filosófica.
Martí M:. M:.
* Négrier, Patrick – “La Tulip”





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